■■■MH \l*-iO? Jfiiíjtt Ciaria: íjâroiow © © ♦$♦ The John Cárter Brown Library 4* © 7 © «$♦ Brown University ♦#* © ■ • «$♦ Purchased from tne *$• ^ LouisaD. Sharpe Metcalf Fund ^ .;!■■ V* ■ - ■••'■' A fr r r S . A *VK «ac moíaês : vrf, a, />. 4» ) CARTA DE HUM AMIGO ASSISTENTE NA CORTE DE LISBOA A outro aíliftente NO ESTADO DO BRASIk. MEu amigo , e fenhor : Recebi a de vm, e delia cjuafi percebo que eflá neutral , e quererá talvez declarar-fe Auílriaca, ou Francez , pois ainda fe conflitue duvidozo nos intereííes dos Príncipes da prefente guerra : faz bem feguir a neutralida- de , em quanto naõ o obrigarem a declarar-fe ; pois a variedade dos fucceíTos principalmente da guer- ra naõ oftende , a quem de lugar feguro os olha fem paixaõ : feja vm. Veneziano , e nunca fe declare Ge- novez , que naõ eftaó as couzas para menos , fegun- do as noticias, que fe publicaõ ; mas fe vm. a tem de declarar-fe , fatisfaço ao feu preceito , quanto me he poífivel, e declare-fe vm. por quem lhe parecer. No que refpeita á primeira parte , de que vm me faz pergunta , deixando á parte a certeza, que naõ fe pdde dar do futuro , refpondo pelas con- jecturas , do que fe noticia, que me parece indu- bitável , que o GraÓ Duque de Tofcana fera eleito imperador na próxima futura eleição > e me fun- do nas razoens feguintes. A Pode* r r ~À n ° S í° ?f fcldo Francez áizer ; que o Gi ao Duque naõ.he Alemão , nem tem Eílados ein Alemanha, e por ellàs razoens naõ pode fe? elekõ Emperador ; porque lhe obíta a Bulia de Ouro e alem difto aaó he dos Eleitores do Império n^ o voto de Bohemia eflá na cafa de ASem Te? fSrèM mÍttÍrfe ^ PrOXlma Díeta £ Pvefpondendo a efta oppofiçaô do partido Francez , digo que me pareceTque* o Graõ Duque fcade fer eleito Emperador dos Romanos na S ra proiama eleição ; porque fe a Bulia obfta aos que nao fao Alemaens , nem Eleitores, naô he comprenendido na fua difpofiçaõ o Grão Duque Francilc^Eftevaô poishe Alemão por nacimen-,® note v m ' Príncipes do Império . :(fT 9 A Lorena fe chamou em outro tempo Auftra- íia e teve feus^Reys : particulares , antes que a Águia Imperial formaffe duas cabeças na divifaô do Império Romano em Occidental, e Oriental No tempo , em que Carlos Magno Rey de França ' e I. Emperador do Occidente reinava, conílitu- hiohum corpo Imperial de todos feus Eftados de Aiemanha, frança, e Itália ; enefta forma dei- xou unida fua grande Monarquia em huma Coroa imperial fecnada , pofta na cabeça de feu filho i-Auz Fio ainda em fua vida. g Os três filhos de Luiz: Lothario , Luiz, e Carlos, abrindo efta inteira Coroa a dividirão em três ficando Lothario primogénito com o ti- tulo de Emperador , Luizfegundo genito com o oe-Key de Germânia , ou Alemanha alta, e Car- los terceiro genito com o de Rey-de França. Nona divi- divifao daquclla ' formidável Monarquia coube o Reyno de Auítrafia na repartição Imperial de Lo- thario , de quem por modo de obfequio tomou o nome de Lotharingia ,• corrompido depois em Lo- rena. Aqui temos a Lorena no íeu nacimento Im* perial , e naó Franceza ; bufquemola na fua ado* lefcencia. Por morte do Emperador Lothario lhe fuo* cedeo no Império feu filho Luiz II , fendo ainda vivos feus Irmãos , ena vida deites morreu efte Luiz II fem deixar filhos , que lhe fuccedeífem na Monarquia. Pertenderaó os dous Reys de Ger* mania , e França a Coroa, e titulo de Emperador, e Luiz , como mais velho , confiado no bom direi- to , que lhe aíliítia , entrou logo a tomar polfe da Lorena como Emperador ; porem como Carlos fofle mais poderozo , e andaílè com mais dilir gencia -., appareceu primeiro em Roma , onde foy Coroado Emperador pelo Pontífice Romana Joaõ VIII. Coroado Carlos (a quem chamarão Calvo) Emperador, e voltando a França, mandou logo feu filho Luiz com poderozo Exercito tomar poA fe de Lorena, e revendicala do poder de Luiz Rey de Germânia , o que o Príncipe Francez executou : fegue-fe daqui que a Lorena feguia no domiaio, e poíle fempre á Coroa Imperial. Continuarão os Emperadores Luiz Balbo , e Carlos Crafib na poíle de Lorena ; e quando eíle Carlos Craílb foy deporto por Arnulpho \ filho de feu primo Carlom ano , Rey que fora de Baviera, ficou Arnulpho Emperador poíTuindo Lorena , e naõ o Rey de França chamado Carlos Simplez. Por morte do Emperador Arnulpho fe divi- A ii diraõ % diraÓ feus Eílados entre feus filhos , fazendo efta diviíaó o mefmo Emperador antes de morrer • Arnolpho ficou com a Baviera , com titulo de* •Uuque , Luiz com o de Emperador , e Senobal- do com o de Duque de Lorena. Pairados alguns tempos , o mefmo Emperador Luiz IV do nome privou do Ducado de Lorena a feu irmão Seno? baldo, jC om o pretexto detyrania; e como por modo de confifcaçaô , ou de reverfaõ , unio e incorporou o mefmo Ducado de Lorena na Coroa Imperai ; certo he que fe hum Emperador Ar- nolpho deu o Ducado de Lorena a feu filho Se- nobaldo , e outro Emperador Luiz o privou dei- te pelo crime de má adminiftraçaô , hé-aquelle Ducado Imperial, enaoFrancez. _ Suceedendo no Império Othon , Duque de Saxmia , fez governador do Ducado de Lorena a a Gifelberto Conde de Mons , cafando-o com lua irmaa Gerbergha ; mas por morte deite Othon íe levantou Gifelberto com o Ducado de Lore- na , que gozou em fua vida , e por fua morte o deo o Emperador Othon II a Carlos, irmão de Lothano Rey de França , tendo-o dado primei- ro a Conrado Duque de Franconia, e pouco de- pois a Bruno Arcebifpo de Colónia , irmaô do meinio Emperador, e Bruno fe intitulou Em- perador. Carlos de França pofliihio Lorena em fua vida ; e por morte de Luiz Rey de França filho do dito Lothano , ficando França fem nicee/for legitimo , mais que o dito Carlos Duque de Lo- rena ; foy efte repudiado dos Francezes , entran- do a reinar Hugo Capeto , eílranho, e talvez lem parentefco da família Carlovingia ; fendo que ciúe com huma defccndencia da primeira linha Mcrovina por PharamuridQ Rey dos Franco^ e polto que efte Carlos de Lorena fe mtituhile Rey de França, e como tal entrou conqmkando o Revno , e venceo em batalha ao Rey Hugo Ca- peto junto a Paris > foy com tudo íitiaoc > em Laon , e ahi prezo , e levado a Orleans , onde acabou com a vida a pertençaó. E naó contaó os Francezes no Cathalogo dos feus Reys efte taó legitimo íucceíFor , e herdei- ro da Coroa, fem mais cauía , que dizerem, que elle fe fizera vafíallo do Emperador de Alema- nha , aceitando delle a inveílidura do Ducado de Lorena , e que poriflb naó era verdadeiro Fran- cez e tinha perdido os privilégios de nacional : pois fe naquelle tempo deixou de fer Francez num Principe filho de hum Rey de França, e irmaó de outro , porque hade fer Francez hoje hum Principe, que. nada tem da. cafa cie França, refpeito á varonia ? E fe o Ducado de Lorena era Eftado dependente do Emperador ,j, porque hade fer agora dependente de França ? t alio lo- mente no tempo , em quenafceo o Grão Duque > e no emquemorreo oSereniffimo Duque de Lo- rena íèu pay; porque hoje vemos que he a Lo- rena totalmente da Chriftianiflima , e preexceifa eafa de Borbon , que em troco delia aaquino , e earentio para o Auguítiífimo Francifco Eftevao ò GraÔ Ducado de Tofcana , por fubrogacao da- quelle Morgado, que deixara. Depois da morte do fobredito Carlos de França Duque de Lorena lhe fuecedeo neíle Du- cado leu filho Othon ; e vagando a foberama por morte defte , deo o Emperador Henrique a ínveiti- A iii dura dura a Godfredo das Ardenas ', tronco , donde procederão os Duques de Luxemburg : a God- fredo fuccedeo feu irmaõ Gothelon ., efuceffiva- mente Godfredo o Barbado , e Godfredo o La- nudo , todos Duques fucceífivos de Lorena com reconhecimento do domínio diredo , e mayor fo- berama nos Emperadores de Alemanha , e nunca nos Reys de França. j Morto Godfredo o Lanudo deo o Empera- dor Alemaõ Romano a inveftidura de Lorena a Godfredo de Bulhon , filho de Euftachio Con- de de Bolonha, e de Ida fua mulher, irmaa do derunto Duque ; e paliando efte Godfredo de Bu- lhon ^com os Frincipes da Sacra liga á terra San- ta, foy nella aclamado Rey dejerufalem; pelo qU ^ °,. E,11 P era dor deo a inveftidura de Lorena a Giulhelme feu irmaô , filho do dito Conde de JBolonha, ede fua mulher Mafalda, filha deFe- 2>" co Duque de Moflellana. E falecendo efte «juxlhelme fem filhos , deo o Emperador Henri- que IV a inveftidura de Lorena a Henrique Con- de de Limburgo ; e por caufas , que a iílb o mo- verão , privando a efte Henrique daquelle Du- cado , o deo a Godfredo Conde de Lovaina. Oe tudo íe colhe que o Emperador de Alema- nha foy fempre, o que difpoz da foberania de Lo- rena ; e por confequencia era Eftado de Alema- nha , e feus Príncipes membros do Império , e nao de França. E para nos.tirarmos de toda a duvida , baila que fe veja o mapa de Alemanha impreílb , e eftam- pado em Paris , compofto por Moníiur le Rouqe Engenheiro , e Geógrafo de fua Mageftade Chrif- tianiffima , no qual fe achará incluída a Lorena no -- — »- — — 7 no Circulo do altoRheno, que he hum dos que fe compõem o corpo Germânico : e bailava eílc documento contra producent em para fazer huma plenillima prova a favor do partido Auílriaco con- tra os do partido Francez. Se repararmos no nome antigo , que teve Lorena (que he o de Auílrafía) veremos clara- mente fer a mefma Lorena membro de Alema- nha , e naó de França ; porque fe a Auílria lhe chamaõ Auílria i por fer Província poíla ao Meyo Dia , ou Auítro da região de Alemanha , pela qual razaó fe chamaó também os Condados de Tyrol ,- e Bergentz , e a Provinda de Brifgovia r Auílria an- terior ; da mefma forma Lorena, por fer Provin- da Auílral de Alemanha , fe chamou Auílrafía , o que affim naó feria \ fe foífe Província de França; pois como a refpeito deíla fica Lorena ao Norte r fe chamaria Nõrthaíia , e naõ Auílrafía. Depois da batalha do rio Ayna no território de Soyílòns § em que o Rey de França Lotha- rio II venceo ao Emperador Othon o Grande ^ ajuílaraõ eíles Principes as pazes na Cidade de Rhens \ onde á viíla de ambas as Cortes reco- nheceo por hum folemne tratado o mefino Rey de França Lothario II pertencer o Ducado de Lo- rena á Imperial Coroa \ e naò a Franceza ; e por eíla caufa fempre deite tempo adiante difpuzeraõ os Emperadcres do mefmo Ducado i como mem- bro de Alemanha , fem oppoficaô alguma dos Monarcas Francezes. E fe me oppuzerem que os Duques de Lore- na davaõ homenagem aos Reys de França ; pois o Pay do prefente Graó Duque deo a dita ho- menagem , e pedio em pefíba a inveílidura a A iy Luiz *r Luiz XIV Rey de França ; e ainda o mefmo Grão Duque ■■ fendo Duque de Lorena , foy a Paris dar homenagem , e receber a inveftidura do prefente Rey Chriftianiffimo , acçoens , que por publicas , íe naõ podem negar 7 refpondo : que as taes home- nagens , reconhecimentos , e inveftiduras j naõ fo- raõ pelo Duça^lie Lorena; mas fim fomente quanto dizia refpeito ao Ducado de Bar , do qual eraõ Soberanos os Duques de Lorena também. Seja muito embora chamado Principe Fran- cez o Duque de Lorena, em quanto como Duque de Bar dá homenagem , e recebe inveftidura do Rey de França ; pois aquelle Ducado de Bar eftá íitua- do nos limites Francezes, á quem do rio Mofa ; mas em quanto Duque de Lorena he Principe Alemaõ , por eftar fituada a Lorena alem do rio Mofa, e ainda do Mofela , que faô as metas -, rayas i ou balizas das duas regioens de Alemanha, e França. A caufa porque o Emper ador Carlos V , quan- do fez a divifaó dos feus grandes Domínios , que em vida abdicou , repartindo-os entre o Em- perador Fernando feu irmaó , e Filippe o Pru- dente , Rey de Efpanha feu filho , deo a efte os Paizes baixos , ou dezefete Províncias Belgicas , foy , para que pudeíTe fer eleito Emperador , elle e feus fucceííbres , poíluindo Eftadòs dentro dos Círculos de Alemanha : e nada lhes obítáva ferem nafcidos fora da mefma Alemanha (como o fora o .dito Filippe Prudente) para poder fer eleito Emperador,exéoqiietivefTe Eftados em Alema- nha ; que he caio mais duro , e for cozo : pelo qual f c vê, que dado cafo que o Graó Duque naó foíle nafcido em Alemanha . nem a Lorena foíle membro -do Império como pelo ultimo tratado deixou deixou de fer , fempre pôde íer eleito Empera- dor , fem que lhe obíle a Bulia de Ouro. Pois o Gra5 Duque, como mando da Augul- tillima Rainha de Hungria Archiduqueza de Auf- tria he Archiduque de Auftria pela regra com mua : Maritus Regina , qui cum Regina nup- ferit , efto Rex ; e a Ley 9. das Partidas , Par- tit 2 tit. 1. que diz: La ter cera rofon es por caÇamiento , y efto es , quando alguno cafa con duma , que es beredera dei Reyno , que maguer el non venga de linage de Reyes puede-fe liar mar Rey , defpues que fuere cafado con ella. i\ o Senhor Rey D. JoaÓ IV , Reílaurador deites Reynos na carta patente de íuccefiaõ das terras de Ulme , e Chamuíca , dada á Serenifiima Se- nhora Rainha D. Luiza deGufmanfua mulher, em Almeyrim aos 9. de Fevereiro de 1643, diz eltas memorandas palavras : E que eftd no Rey- no, e como Rainha, fica fendo natural, e no mais alto gr do de natureza , e ajjentamento da cafa , e Coroa Real. _, Do que fe fica conhecendo , que o Grão Du- que , ainda que naó folie Alemão por naíeimento , nem tiveííe Eftados em Alemanha, fempre he Alemã õ , e no mais alto gráo da natureza , por Marido da Auguftiffima Senhora Archiduqueza Rainha de Hungria , e de Bohemia , e que pode fer eleito Emperador. Porém para tirar qualquer efcrupulo , que ainda poffa haver nos tenazes ânimos do partido Francez , affirmo mais , que o Graô Duque he Alemaõ , e com Eftados em Alemanha pélas razoens feguintes. Defcende a AuguíliíTnna cafa de Auíína , íe fesmirmos os Hiftoriadores Heípanhoes, do mef- mo IO mo tronco , donde procede a Chriffiariiffima de Borbon, por Pharamiindo Rey dos Francos (dei- xando a parte os; anteriores afcendentes , que lhe dao alguns Hiíloricos na adulação tributa- da a feus Príncipes) feguindo a authoridade de Bertio , e outros Elcritores, lhe atribuiremos pnncipio nos antiquiffimos Condes de Trieftein que tinhao feus Eftados entre as Cidades deSo! lor, e Basle, ou Bafiléa, capitães de dois dos treze Cantoens de Helvécia. Os Italianos Autho- ÍZ e rn ' rT S p faZem fendente de hum varão Conluiar Romano v outros querem que defcenda dos nobiliffimos Condes de Zerin- ghen ;. (a variedade dos efcritos , e o incógnito tío tronco ^fazem argumento para fe conhecer lua antiquiffima profapia) nós porém , feeuindo es ramos defcendentes , e procreados do dito Pharamuudo , Rey dos Francos:, deixamos hum , para delle fe renovar a família Real na Coroa CnnitianiíTima por, cabeça do grande Hugo Ca- peio, de quem he a varonia preclariffima de Borbon, e dos nolfos Sereniffimos Soberanos, por Henrique de Borgonha filho de^Roberto e aieto do niefmo Hugo Capeto, do qual Henri- que foy quarto filho o Conde D. Henrique , tron- co dos mefmos noflbs Monarcas : e feguindo ou- tro ramo de Pharamundo com varonia fuccefli- va o achamos conhecido com a Soberani? de AMacia , primeiramente com o titulo de Condes e depois com o de Landfgraves ( epíteto efpecial de alguns Príncipes na primeira jerarchia da no- breza Alemamca.) Gerardo % Conde de Alfacia, de quem toy filho Ricardo, que morreo em vida de feu Pay. II pay. Dcfte Ricardo foy filho Alberto , Conde de Longo Caftro , e Duque de MofTellana em Lore r na , a quem o Emperador Henrique III deo a inveílidura do Ducado de Lorena , privando del- le a Godfredo Barbado Duque da mefma; po- rem vindo efte unido com o Conde de Flandres, deo Batalha contra Alberto no território de Vver- dun , e nella morreo o Conde j e Duque Alberto, reftaurando Godfredo a Lorena , que poffuhio pacifico , como de antes. Tinha efte Alberto outro irmão , chamado Gerardo , Conde de Caílinach , que lhe fuccedeo no Condado de Longo Caftro fomente ; porquê do Ducado de Moffellana fez o mefmo Empera- dor Henrique mercê a Federico , Conde de Lu- xemburgo , que era ramo do mefmo tronco 9 cujos fucceffores vimos ao depois coroados com o diadema Imperial. De Gerardo Conde de Caftinach , e Longo Caftro^ defcendeo TheQdorico Landfgrave de Alfacia, que procreou òytro Theodorico para Soberano de Flandres \ e dçfte Landfgrave Theo- dorico defcenderaõ com v^ronia fucceíílva , e fem interpolação os Duques d e Lorena ; porque morrendo o ultimo Duque Carlos fem filho va- rão , deixou três filhas , com huma das quaes cha- mada Ifabel cafou Renato Duqiie de Bar, da cafa de Anjou , filho de Luiz Duque de Anjou ; e por efte cafamento tomou Renato os Eftados de Lorena com o titulo de Duque de Lorena ,' e Bar , unindofe pelo mefmo cafamento eftes dous Ducados. Porém António Conde de Vaudemont $ em quem fe confervava a antiga varonia, lhe difputou a poíTe , por fer filho de Federico, ir- mão maó do ultimo Duque de Lorena Carlos : ceílbu a contenda depois de varias guerras , cafando Federico , filho primogénito do Conde Antó- nio de Vaudemont , com Violante , filha primo- génita do Duque de Lorena Renato. Entrando eftç Duque de Lorena Renato na pertençaó da Coroa de Nápoles contra Af- foníb V o Sábio , ou Grande , Rey de Aragão , ce- deo o Ducado de Lorena em feu filho Joaõ , a quem fuccedeo feu filho Nicoláo, que morreo fem fucceflaô , e finalizou nelle a varonia de An- jcu no Ducado de Lorena. Reílituío-fe porém á antiga varonia do ra- mo da cafa de Alfacia , e Longo Caftro 7 que era confervada na de Vaudemont ; pois , como já diíTe 1 por Federico Conde de Vaudemont 9 irmaó de Carlos Duque de Lorena , fe confervava y de- cendo delle a feu filho António , e deite a feu filho Federico } cafado com Violante de Anjou , primogénita do dito Renato ., Duque de Lorena , e pertenfo Rey de Nápoles. Deftes Federico , e Violante , foy filho Renato Duque de Lorena , e defte António , Duque de Lorena, eBar, que teve Francifco Duque de Lorena , e Bar , de quem foy filho Carlos Duque de Lorena , e .Bar , que procreou Henrique Duque de Lorena .., e Bar , '(de mais teve Carlos o celebrado Cardeal de Lorena , Bifpo Principe de Metz , e Straf- burg) teve Nicolaya, que cafou com Carlos, fi- lho primogénito de Francifco , Conde de Vau- demont , o qual era filho terceiro de Carlos Du- que de Lorena , irmaõ do Duque Henrique 5 e do Cardeal Carlos. ■ Nelle Carlos IV Duque dç Lorena , filho do dito 15 dito Francifco, Conde de Vaudemont , fe tornou a ibldar a quebra da Varonia , que faltara no Ducado de Lorena por morte de feu tio Hen- rique ; mas também efte Carlos morreo fem fi- lhos , e fe tornou a reftaurar a quebra em feu ir- mão , Nicoláo Francifco , que era terceiro filho do Conde de Vaudemont Francifco , e deixou o eftado Ecclefiaílico , que feguia , decorado já com £ Purpura Cardinalícia : cafou com Claudia Francifca de Lorena, filha fegunda de Henrique Duque de Lorena ; o Duque Carlos feu irmaó lhe fez demiíTaõ de feus Eílados no anno de 1634. teve Leopoldo Carlos, Duque de Lore- na , e Bar , que foy o famozo General Príncipe de Lorena , chamado vulgarmente o Duque Car- los , cafou com Maria Leonor de Auítria, filha de Fernando III Emperador de Alemanha , e de fua mulher Leonor Gonzaga : era a Archiduque- za viuva já de Miguel Koribut, ou Vviíhouvi- eski ; Rey de Polónia , morreu o Duque em 1 8. de Abril de 169c. Foy filho deites Leopoldo Jozé , Duque de Lorena j e Bar , que cafou com Ifabel Carlota de Orleans , filha de Filippe de França , Duque de Orleans ( irmaó único de Luiz XIV Rey de França) e de fua fegunda mulher , Ifabel Car- lota 'de Baviera , filha do Eleitor Palatino do Rhen : deites Duques he filho Francifco Eíte- vaó de Lorena , Duque de Lorena , e Bar , Eíta- dos , que dimittio a favor do Sereniífimo Stanif- lao Liekzinski , Rey Titular de Polónia , fubro- gando-felhe pelos mefmos Eítados o Graó Du- cado de Tofcana > e os Ducados 4e Parma , ç Placencia. Nefta mmm 14 Neftà forma , "pòtfego Graó Duque o Pr inci- pe , em gue fe conferva a varonia antiga da cafa de Auftria, pois a de Luxemburgo fe acabou no Emperador Sigifnmndo , a de Efpanha em Car- los II feu Rey , e a de Auftria no Emperador Carlos VI 4 devia fucceder nos Eftados de Auf- tria, fe lhe naó obftara a Pragmática Sanfaõ , que admitte fêmeas á fucceíTaó ; epor elTa razão o Emperador Carlos VI procurou a varonia da fua cafa na peíiba do Grão Duque Francífco Ef- teyaõ , cafando-o com a Rainha de Hungria fua filha. Já temos o Graó Duque Alemão , e Prínci- pe com Eftados em Alemanha , e o legitimo fuc- ceíTor varaó da cafa de Auftria ,. para poder fer eleito Emperador. Também o temos comos vo- tos de Colónia , Moguncia, Baviera , Saxonia^ e Hanoyer a feu favor , que he o que batta para fer eleito ; ainda que lhe faltem os de Treveris , ç Palatino, com o medo da invafaó do Exercito do Príncipe de Conti, e o de Brandemburg pela aliança defte Sereniffimo Eleitor Rey de Fruílía com a França ; e fe naõ admitta o voto de Bohe- mia com o pretexto de eftar em fêmea , ou de que fomente foy inftituido para defampatar em cafo , que haja empate. Os Candidatos, que poderáô pertender efta dignidade Imperial na prefente eleição , feraó , os Sereniffimos Rey de Polónia Eleitor de Saxonia Federico Augufto , o Rey de Prullia Eleitor de Brandemburg Carlos Federico , o Duque Eleitor de Baviera Maximiiiano Jozé , o Conde Eleitor Palatino Carlos Filippe, o Rey da Graó Breta- nha Eleitor de Hanover Jorge II, ou o Prínci- pe pe de Gales Federico Luiz feu filho ; e fe hou- verem de entrar na pertençaõ Príncipes , que naó fejaó Eleitores , feriaó os Sereniffimos Carlos ;' Pe- dro Ulrico j Graó Duque de Mofcovia , como Duque de Holílein-Gotorp ; o Rey de Suécia Fe- derico , como Landfgrave de Haffia-CaíTel ; o Príncipe fucceíTor da mefma Coroa de Suécia Adolpho Federico , como Duque de Holííein-Eu- tyn j o Rey de Dinamarca Chriftiano VI , como Duque de Holfacia , e Conde de Oldemburg ; o Principe Federico feu filho , e Guilhelme de Ha£- fia Catei, irmão do Sereniffimo Rey de Suécia, Mas de todos eítes fomente o Graõ Duque Fran- cifeo Eftevaõ pode fef attendido na eleição ; pois lo a riqueza , efplendõr , grandeza , authorida- de jj e poder da cafa de Auftria poderá fuílentar parte daquella grandeza \ com que o Império Ro^ mano dominou o mundo , já que hoje o vemos taó aniquilado , e abatido , que precifa procurar por favor caía, onde affiíta, e quem o ajude n confervar algum refpeito , ao menos titular. Os três Monarcas das ChriftianiíTima , Ca-* tholica , e Sereniffima cafas, ou Coroas da cafa de Borbon , naó impedem cordealmente a elei- ção na peílba do Graó Duque \ fomente o fazem com huma apparente oppofiçaô , em quanto fazem o feu negocio , e alargao feus Domínios com no- vas Conquiftas , e para conílituirem em Itália huma nova Soberania para o Sereniffimo Infan- te D. Filippe. (Principe na verdade digno do mayor Império do mundo ) Bem fabe o Chriftia- niffimo Luiz XV de França , que fomente o Grão Duque he , quem pode fer eleito Emperador na prefente conjuntura \ pois o Sereniffimo Elei- tor tor de Baviera naó quer a Dignidade ; pelo que cuftou de cariíllma ao Emperador feo Pay , nem oSereniílimo Rey de Polónia quer deixar a Co- roa de Polónia rica pela do Império pobre } po- rém como a mayor politica de fua Corte he con- fervar a guerra para evacuar os vicios , que cau- fa a paz em huma Monarquia , compoíla de gen- te bellicofa , e abundante de delicias , qual he a de França, naó pode ter melhor occaíiaõ v que aque lhe daô prefente as defunioens do corpo Germânico ; logrando ao mefmo tempo França o beneficio de enfraquecer a foberba Germânica , em quanto fuflenta a guerra viva nos feus Paízes : efte he todo o interefle da Coroa Franeeza. Como também fazer limites da fua Monar- quia , pela parte do Norte as correntes do Rheno , aífim como fez pela do Oriente com a Alfacia , e Franco Condado, conquiílados , e cedidas Provin- das , que poíTuem as duas cafas de Auftria em Alemanha, e Efpanha. Os Eftados Geraes das Provindas unidas , ou HolJanda ? naõ tem mais inter eíTe na prefente guer- ra, que defenderfe das armas de França , econ- feryar asjpraças da Barreira em Flandres ( pouca fatisfaçaõ deraõ deíla conferva) para impedir o bloqneyo dos feus Eftados 5 e manter o comercio íJe Alemanha: as fuás cortezias , eattençoens, affim como faó perniciofas aos Altos Aliados ., po- derão algum tempo prejudicar aos mefmos Hollan- 4ezes; fentilohao, quando virem que as praças , que até agora lhes ferviaõ de Barreira , fervem á Fran- ça de trincheiras para perpetuo bíoqueyo de fua Republica ; e queira Deos naõ palfe ainda na pre- fente guerra a formal faio j o tempo o moftrani A Coroa 17 A Coroa da Graó Bretanha fempre traz nos feus manifeftos o equilíbrio da Europa, eftes fao os empenhos , que nos faz públicos : os verdadei- ros faó o grande ciúme , que tem do augmento da cafa de Borbon já reinante em França , Elpanna :\ e Itália , procura agora a Graó Bretanha, que nao fe conflitua nova Soberania na Lombardia; e tam- bém quer que feja feu fomente todo o comercio da Europa, e naó lhe fica bem perdelo em Itá- lia, affim como o- tem perdido em França, e El- panha: e o que mais fera que perdera o de Ale- manha, fe os Francezes fe fizerem fenhores de Oí- tende, e Neuport; e ifto obriga ao Parlamento Inglez a fuftentar a guerra a todo o cufto, edeí- peza , por evitar o damno , que á vifta lhe ameaça. Os intereffes da cafa de Auílria fao reítau- rar a grandeza perdida na morte de Carlos VI , ver coroado Emperador o Graó Duque , ouoAr- chiduque feu filho, quietos, e focegados feus fi- tados \ e talvez que fe a troco da perda do Faiz baixo o alcançaífe , de boamente o daria por pre- ço de tudo , e ainda admittiria nova Soberania em Itália ; pois naó lhe falta , por onde poífa alar- gar feus grandes Domínios com mais gloria lua , intereífe da Religião Catholica , conveniência , e augmento de fua Auguftiflima cafa : com menos defpeza poderiaõ as Águias Imperiaes tornar ou- tra vez a efpaihar contra o Oriente aquelles^ ra- yos , que era outros tempos tanto abrazaraó as mevas Luas Othomanas. . ' O Sereniffimo Rey de Pruffia tem o ínterei- fe de conquiftar , e fuftentar a Silelia , a que diz tem direito fundado ; fendo que naó fe lhe co- nhece outro mais , que a abundância dos grandes 1 ? g the* theíburos , que o Sereniffimo feu pay lhe deixou o numero de fuás boas tropas , e o querer fazer a vontade a França :faz negocio grande, fe ficar poffumdo aquella eftendida , fértil , e bem povo* ada Província , confinante com os feus Domí- nios Eleitoraes. Alem de.que, fenaó feguifle o partido de j França , expunha os feus Eftados dos Ducados de^Juliers, e Cleves , e os Condados de Marck, e Neuchaftel, á invafaÕ das tropas Fran- cezas, fem os poder foccorrer pela grande dif- tancia, que ha da fua Corte aelles. O^ Sereniffimo Rey de Polónia tem o inte- relie de impedir , que o dePruflia feu poderozo viiinfiq fe alargue ;. e mais quando cónquiftada por efte a Silefia , naó tem por onde faça pafla* gem dos feus Eftados Eleitoraes para Polónia : c ■a°i Y de Prullia conquifta a Silefia por huma ideada pertençao , poderá extender a idéa a con- qmítar Lufacia, que, lhe faz muita conta , e pa6 Iara a defejar os Eftados Eleitoraes de Saxonia , para unir ao Ducado de Hall , internado no mef. mo Eleitorado. Tudo eftaó vendo os Senadores da Republi-» ca de Polónia de fuás cafas com animo focegado , elperando que o feu Rey lhes vá receitar huma dieta geral , alem das particulares dos Palatina-* j Pp r ^ni nem com huma, nem com outras poderão taõ cedo convalecer, ereftaurar as for- ças perdidas nas paíTadas eleicoens : ainda eftaó abertas as feridas , que lhe fez Carlos XII Rey de òuecia ; porque fe aggravaraô muito com os re- médios das tropas Ruffianas , e Saxonias ; over- le leu Rey com huma guerra nos Eftados heredi- tários , fera o melhor emplaftro para irem cri- ando couro fuás abertas feridas. Pode- 19 Poderia dár algirm remédio a citas pèrtur- baçoens a Empe í ratriz da Ruffia , fe atraveífando a Lythuania com hum grande exercito invadiífe o Reyno de Pruffia, porém nenhuma conveniên- cia lhe refulta de fua conquifta ; e fem intereíTe próprio naõ quererá fazer huma defpeza confi- deravel a favor de outrem : que naó tem todos os Principes o magnânimo génio dos Portugue- zes , que nas guerras da fucceílaó de Efpanha tomáraó fobre fi fuítentar a guerra , e peílba do Auguftiílimo Carlos III em Efpanha, e VI em J Alemanha; e ifto fem conveniência particular , mas antes com inconfideraveis defpezas. Naõ cui- da por agora aquella Emperatriz mais y que no ca- famento do Graó Duque feu fobrinho ,' e em en- tronizar na Curlandia hum Príncipe da fuacafa; O Sereniffimo Rey de Sardenha tem feito maravilhas , he grande Aliado da cafa de Auftria ; mas também o obriga a conveíiiencia , e interef- fe próprio, porque fempre afpirou a fazer-fe fe- nhor do Ducado de Mílaó , para poder coroar- fe Rey de Lombardia : pouco lhe cuftará perder , como tem perdida a Saboya , ainda que he o folar da fua cafa, fe a troco delia alcançar Milaõ. Já no tempo de Henrique IV de França cedeo a Província de Breíía , aceitando o Marquezado de Saluzo , por naõ ouvir no feu palácio de Turin to- car todos os dias á Diana nas muralhas Francezas, Muito cuítaria á Republica de Génova decla- rarfe , porque faô Senadores mais amigos de câm- bios , que de guerras , e com eílas nenhum nego- cio fazem ; mas como á vifta de cinco exércitos , que a rodeyaô , naõ podia confervar a neutralida- de , fe declarou por Efpanha \ talvez que por ra- B ii za6 2õ zaõ de naô querer perder os milhoens \ que aquel- la Coroa lhe deve ainda do tempo de Filippe Prudente , antepondo efta conveniência a quan- tos Baroens Theodoros fe lhe reprefentarem y para nova fubleyaçaô de Corfega : conje&uro que fe os Inglezes fufcitarem elta pertençaô , que po- dem os Genovezes deitar a benção áquella Ilha; pois as máximas do Marechal de Mailebois tem foaftante, em que empregar-fe na terra firme de Liguria , e Lombardia ; nem as armas Francezas eítaô em termos de paíTar a Corfega : fendo que alguma admiração me caufanaó andar já nafefta o Baraõ Theodoro para Corfega , e o filho do Pertendente para Inglaterra, ou Efcoèia; o cer- to he que aqui ha circunftancia de máxima eleva- da, a que o rafteiro entendimento dehumvafíàl- lo nao pode fobir. Poderá Veneza declarar fe pela caía deAuf- tria ■, e aííim o deve fazer para pagar áSerenifli- ma Senhora Rainha de Hungria o favor, que o Emperador feu pay lhe fez , quando no anno de 1716. rompeo a eadêa , com que o Turco hk prendendo fua liberdade; mas fe feguir o feu génio , ficará na neutralidade , na qual tem o mayor intereíTe, que naõ eílá em tempo de ufar de fuás deftrezas , peícando em aguas turbas ; porque como os que as turbaõ faó muito pode- rofos , poderáõ fazerlhe reftituir a pefca prefen- te, e a pafíada , ainda que já efleja curada, e feca com os eftíos de tantos annos. Nenhum in- tereíTe tem os Venezianos que a cafa de Auílria poíliia Milão , e Mantua , e menos que a de Bor- bon ; mas peor fera , fe a de Saboya poííuir ef- tes Eflados. Bem lhe fervia hum Soberano par* ticular , 21 ticular; mas fendo de Borbon , por Benhum mo- do lhe ferve por demafiado poderofo. O Sereniilimo Rey das duas Sicilias tem o intereire de ver feu irmaõ eítabelecido na Lom- bardia , ou Tofcana , para augmento da fua Real Familia , e adjutorio do poder em Itália. O Pontífice Romano, como Pay umveríai ; nenhum intereíTe tem na prefente conjunturas fe bem que quanto diz refpeito á Religião , deve favorecer a califa da cafa de Borbon; pois mais depreda hade - efta caía a Igreja, fe o Turco quizer, oú m rnvadir Itália, do que o faráô os Inglezes , e mais povos SetemptriOr naes. n . í > , O Duque de Aíodena quer a reílituiçao dos feus Eílados: o de Guafíala bem quereria fe lhe defíe Mantua , que fem juílo titulo lhe occupa a cafa de Auílria. Os quatro Eleitores do Rheno tomarão já ver paíTada eíla trovoada ? para ver fe lhe ficaô alguns frutos, que colhaó nos feus Eílados: o de Baviera eílá refazendo osdamnos* que lhe caufou a tormenta paíTada : os Príncipes das duas cafas de Baden , e os de Vvitemberg, eítaõ fufpirando oprimidos de hum , e outro par- tido. Os das cafas de Nallauu , Duas pontes , Ha~ nau, Mombeliard , Papenheim, Oetingen , e HaíTia , fe meterão em fuás cafas , e das janelas eítaô vendo , fe lá chegará o fogo , com que vem fumegar as dos viíinhos , a que naó podern dar remédio. . O Turco naô lhe falta , em que cuide com a guerra do Scha-Nadir, ou Thamas-Kouli-kan , e com a fublevaçaó , e rebelião do Baxá Oglu de Babilónia; com tudo fe offerece (talvez fa- zendo 22 zendo da neceffidade virtude) para medianeira da paz geral na Europa, ofièrta, que já a Re" publica de Veneza lhe agradeceoVverèmof o que iurte. De tudo oeíeritofecolhe, que o Graó Du^ que Franciícp EftevaÓ he o candidato mais apto para fer eleito Emperador, e poder Mentir a grandeza Imperial na fua Auguftiffima cafa de Auferia: enaô fera a primeira vez que efta Au- guftiffima cafa acode ao Império cahido e á fua grandeza aniquilada , ainda depois de experimen- tar a ingratidão de fe lhe fahir de cafaf Por morte do primeiro Emperador Auftria. co Rodolpho fahio o Império da mefma cafa para a de Nafau, na peífoa do Conde Adol- pno , o qual nao tendo rendas ., e poder para o iultentar , chegou indignamente a foldo do Rey de Inglaterra : acodio logo Alberto de Auftria recolhendo outra vez o mefmo Império na fua cala O mefmo deve fueceder agora ; porque famdo-fe o Império da Auguftiffima cafa, fòy parar na de Baviera, que naõ o pode fuftentar' nem ainda com as riquezas, e poder do Sere- niffimo Eleitor de Colónia, Bifpo de Lieie , Munfter Paderborn, Ofnabruk, e Hildsheim e Grão Meftre rheutonico ; pelo que precifou o Emperador defunto Carlos VII a receber foldo a-£ y de ^ ran ? a : razaó he q ue tome a Au- guitilúma cafa de Auftria a tirar da rua efte Im- pério defamparado. E fe os do partido Francez nao querem que feja Emperador o GraÔ Duque , buíquem quem o feja a feu modo , porque na caia de Baviera naô lhe querem efta fuprema Dignidade. r Perdoe r 2 ? Perdoe v.m. o extenfo da narrativa , e fe fe en- fadar de ler , defcance hum pouco , e torne a pe- gar-lhe , quando tiver tempo , que illo naô he para matraca. Deos nos traga eíta fufpirada Eleição , e logo com ella a paz geral , de que tanto pre* cifamos para fegurança do comercio : o mefmo Senhor guarde a v.m. muitos annos. Lisboa 15V de Agolto de 1745. De v.m. menor fervo , e CapelIaS Doutor Alexandre Caetano Goffttf* t^ÊÊÊÊÊL C A R T A DE HUM AMIGO, ASSISTENTE NA CORTE D E LISBOA, A outro affiílente no Eílado DO BRASIL, Em que lhe dá conta da eleição do Emperador , e hum difcurfo fobre a paz geral, que delia fe efpera. OFFÈRECIDA AoExcelíb, e muito Illuílre Senhor CHRISTIANO STOKLER, FILHO DO MUITO ILLUSTRE SENHOR CHRISTIANO STOKLER, Cmful da Nação Hamburgueza , e Cidades Hanfeaticas na Corte de Lisboa. CUSTODIO JASAÕ BARATA LISBOA: Na nova Oííicina Sylviana M. D.CC. XLV. ' Com permijfaõ dos Superiores. AO EXCELSO, E MUITO ILLUSTRE SENHOR CHRISTIANO STOKLER DigniJJitno filho DO ILLUSTRE SENHOR CHRISTIANO STOKLER Coníul da Naçaó Hamburgueza , e Cidades Hanfeati- cas de Alemanha na Corte de Lisboa. NA preciarifima cafa de v.m. achey protecção fegura par a fazer puMi* ca a carta , que vaticinou a fufpirada elei- ção de Emperador na Auguflijftmapejjoa * ii do do GrdÔ Duque de To/cana ; ecomo me viejfe á mao efia figunda do mefino Au- tor •, que nos promette o bom fuccefo na paz geral, propuz continuar a oblação de- vida , e com ella empenhar a v.m. na pro- tecção , igual á que recebo do muito II- lufire Senhor Chriftiano Stokler,pay de v.m. correra figura no publico efia carta debai- xo da protecção detaô. excelfi nome , cujo mayor elogio fira a me fina protecção con- cedida; confejfando-me eu fimpre indigno criado âefia cafa. JDeos guarde a v.m. os annos de fiu defejo. Lisboa 14 de Outubro de 1745, De V.m. Seu menor criado Cnjlodio J afio Barata. CAR- CARTA DE HUM AMIGO* ASSISTENTE NA CORTE DE LISBOA A outro aíliílerite NO ESTADO DO BRASIL, Em que lhe da conta da eleição de Emperador y e hum difcurfo fobre a paz geral , quedei- la fe efpera. MEu amigo , e fenhor : como em Agofto efcrevi a v.m. largamente , fatisfazendo- lhe ás fuás perguntas fobre os intereiTes dos Príncipes da Europa na prefente guer- ra , e eleição de Emperador , vaticinada na peflba do Auguftiffimo Francifco Eílevaó Graô Duque de Tofcana; agora que vê o mundo cumprido a nf- ca o meu vaticínio com a eleição , feita no dia 13. do prefente mez na mefma Auguftiffima peífoa do Grão Duque de Tofcana , publicado Emperador dos Ro- manos no mefmo dia 13. do mefmomez com o no- me de Francifco Eílevaó , ou Francifco I ; precifo por eíla frota de Pernambuco dar a v.m. efta noticia , e com ella novo vaticínio da paz geral , que efperamos fe conclua á fatisfaçaõ das partes brevemente , cuja conclufaõ he indubitável, quanto humanamente po- demos conjedurar , deixando para o Emperador dos Emperadores , Monarca dos Monarcas , e Rey dos A Reys > '2 7 Reys , a direcção dos animes belligérantes para a mef- ma conclufaõ, e o futuro evento delia; pois fomen- te elle fabe f o que hade fer , a elle fao prefentes os tratados, que daqui em diante fe haô de confultar nos gabinetes dos Príncipes : elle fará a diftribui- çaõ dos Eftados , porque fó elle he , o que os dá ; á íua Altiffima Sabedoria fe devem, a qual por modo de brinco, ou jogo da guerra : Ludens in orbe ter- rarum , reparte conforme lhe parece , fem nos dei- xar lugar para querer inveftigar, o porque aílim o faz, por ferem inexcrutavek fua Sabedoria, eSci- ençia prodigiofiffimas , e inveftigaveis fuás direcções : permitta o mefmo Senhor que tudo feja para hon- ra , e gloria de feu Santiffimo Nome : Non nobis Domine , non nobis , fed Nomini tuo da gloriam. (Quanto porém o meo apoucado difeurfo difeor- fér pode, ainda que incapaz das elevadas máximas dos gabinetes , digo a v.m. que a paz geral da Eu- ropa fe concluirá logo • pofto que me parece , que a AuguftiíGma cafa de Auftria ficará damnificada em íeus antigos Eftados, que naõ poderáó, ainda que cedidos alguns , diminuirlhe a fua grandeza ; antes talvez a façaô mais forte , ^ infuperavel : porque a grandeza, fortaleza, e poder de huma Monarquia naõ conílfte em poííiiir muitos Reynos , e Domí- nios y mas fomente na uniaõ delles : Virias unha. fortins agit , e na commodidade de fe poderem foc- correr , dando-fe mutuamente a maô huns aos ou- tros fem o inter vallo de Eftados alheos ; á maneira do corpo humano , animado de hum fó efpirito , que> vivifica todos os membros corpóreos , em quanto unidos ; e deixa de os animar feparádos. Suftentou a Republica Romana fua grandeza , incomparável a, quantas Monarquias temos conlieci-' '■ . - h do «Mi 5 do pela relação , gite delias nos fazem as Hiftonas ; porque nas fuás Conquiftas obfcrvou a continuação de Domínios fucccffivos , fazendo-fe íenhora de to- das as coitas do mar Mediterrâneo : naó paliou a conquifta de Africa í em quanto naõ dominou toda Itália : naó emprendeu fugeitar as Galhas , ou tran- ça , em quanto fenaó fez dominante nas Efpanhas ., e Lufitania: naó paííbu o Rheno para render a belli- cofa Germânia , ou Alemanha j em quanto nao vio fugeita a França : para accometter os indómitos Par- thos , primeiro fenhoreou as relíquias dos Afnnos , e Medos ; e para intentar a paffagem do DanubiQ contra os Getas , e Sarmatas , deixou conquiílados os Panonios , ou Húngaros; e querendo invadir os Pietos em Efcocia , triunfou primeiro dos Anglos. O mociço da Monarquia de França nos noites tempos faz , que ella dê as leys na Europa ? coníh- tuindo-a invencível, e fenipre àggreflbra , e nunca accomettida nas guerras. Tem as Monarquias ítu ■augmento , eftado j e declinação : augmentõ lhes da o valor de fuás armas j eftado lhes conferva a boa gi- recçaó de feus gabinetes; e declinação lhes refulta de naó poderem confervar o conquifradp % que por efta razaõ difle difcretamente aquelíe fabio -Rey Ai- fonfo o Magno de Aragaò , e Nápoles , que o Gran- de Alexandre Macedónio tinha mais que fazer em confervar o conquiftado mundo , do que fizera no trabalho de o conquiftar. Efta fentença j que alguns attribuem a Henrique IV Rey de França, imitada pontualmente por efte , lhe adquino o efpecial nome de Grande , que taó juftamente lhe tributaó as Na- coens. L Naõ teve a mefma fortuna a elevada prudência de Filippe II de Efpanha , feu contemporâneo , cujo : A ii " (ceptro m fceptro referem os Efcrlptores dominante fobre efta Regiaõ, fobre Portugal, Inglaterra, Irlanda, to- das as 17. Provindas dos Paizes baixos, o melhor de Itália em Nápoles, Sicilia, Sardenha , e Milaó , Condado de Borgonha em França, toda a America Meridional , com os noffos Brafís , e a melhor , e nayor parte da Setemptrional , Coitas de Africa pelo va Ao Oceano em circuito; e na mefma forma as de Afia até á China, com o feudo numerofodos Reys de Moluco, e dos das índias cifro > e ultra Gangeticas, e ainda na Barbaria os fortes preíidios das Querquenes , Africa , Goleta , Oran , Mazalqui- vir , Chaza^a , Melilha , Penõn , Tetuaó , Ceuta , Alcaçar , 'I angere , Arzilla , Mamora , Larache , Mazagaõ , Azamor , Anafe , e Safin , com o Reyno todo das Ilhas Canárias, a da Madeira, e as dos Açores. A grandeza deftes Eftados caufava fua decadên- cia nas grandes diftancias delles : fete Provindas , que fe uniraõ no Paiz baixo , naõ fó conferváraô a liber- dade arrogada ; mas ainda continuando a guerra of- fenfiva contra o mefmo feu Soberano , fe fizeraó fe- nhores de muita parte de feus Dominios : o mefmo Monarca conheceo á hora de fua morte, que errara no fyftema de perpetuar a Monarquia , deplorando, que de tantos trabalhos, e defpezas naõ tirara ou* tro lucro , mais que o Reyno de Portugal para dei- xar a feus defcendentes , e que efte naó era feguro , pois fe podia perder ao primeiro movimento : allim o experimentou feu neto o Magnânimo Filippe IV no primeiro de Dezembro de 1640. Deixando porem efta matéria por vaftiffima , e já relatada nas Hiftorias , vamos ao noíTo vaticínio da paz geral da Europa, compoítas as diíFerenças da I, I^HMHMI da prcfenté guerra." Seja-me licito ca no meo gabine- te, P donde dei o livre voto com effeito ao Grão Du- que de Tofcana para fer eleito Emperador , fazer fiuns preliminares da paz futura , fem que pofla of- fender-fe a grandeza dos Príncipes ; porque aos rayos do Sol Monarca das luzes naô faz detrimento a in- divifivel fombra de hum mofquito : o difeurfo dos homens naó eftá fugeito ao poder ^eftre podem eftes filofofar , e raciocinar , como lhe P are J^^ m que commetaõ crime contra o Eftado , e Governo, pois naó fe offendem as fuperiores determinaçoens com as particulares idéas dos fubditos , quando eftas naõ podem fervir-lhe de obftáculo , nem fe encana- nhaó a deterioralas. Porém antes de pôr em praxe os preliminrres , he precifo fantafiar a paz: eíta vaticino av.m.com brevidade. Nefta Corte houve huma difereta penna , que remontando-fe no defejo da^mefma paz, che- gou a engolfar fe no aério de fua idea , e das mefmas fupplicas ! com que a Igreja Catholica no fim das Lau- des, e Vefperas implora do Altiffimo efte fingular beneficio da paz, tirou huma fegurança delia .; diz pois a mefma fupplica : Ddpacem, Domine , in die- lus noftris , guia non eft aluis , qm pugnetpro no- bis , m tu Deus nofier. Tirou efte difereto de to- das as letras vogaes o vaticínio , dando a cada huma o feu valor arithmetico nefta forma : ao A i , ao li 2, ao I 3 , ao0 4 , aoUj. e feoarando cada pala- vra fobre fi de alto abaixo , poz a margem a diante os caraderes arithmeticos na forma , que cada pala- vra contem as letras ; foraou tudo , e achou o com- puto de 174c. dando a entender que nefte anno ie Lia a paz geral : que explanarey por extenfo para melhor inteiíigencia. _ n A 111 ua #9«« 12 »£»<* 52 *« j. i 7 -, j»ro 4 /) íar £> Ó72 .awÃrx _43 »o/fer 42 152 I5i ioy ,_ io 5" *745- E poíto que os Critícos lhe reprovarão a idêa , porque naó eítaõ as coufas em termos, quenopre- lente anno fe poíTa ajuftar a paz, fempre devemos computar a mefina idéa por vaticinio da paz naô fó em quanto diz refpeito ao feu defejo , mas também ao complemento ; pois a eleição felizmente lograda sia peifoa do Augufuffimo GraÔ Duque Frahcifco Ef- tevao he a bafe da mefma paz efperada. Para fe dever a gloria do vencimento a hum Capitão , baila que elle difponha acertadamente o exercito para a batalha j porque o fucceiTo delia naó depende do po- der humano ; outro fuperior , e Divino poder dá a cleciíao : com a eleição prefente eítá feito o alicerfe para a fegura fortaleza da paz ; e principiada efta com tao bons aufpicios , a devemos julgar feita : Dtmdtumfam , qui benè aepit , babet', eoafto le- gitimamente principiado fe tem por feito : aífim pois feita a eleição nené prefente anno , como fe fez, fica verificado no mefmo anno o vaticínio da paz ge- ral , vifto que da eleição pendia a mefma paz. ^roteíte a Coroa de França , proteílem as de Eípa- ■L Efpanha , e Nápoles , e proteítem os Sereniffimos Eleitores de Brandemburg , e Palatino, o q quizerem i porque tudo ha de ficar em proteftos , e da mefma Coroa de França haò de fair as propofiçoens da paz ; porque muito mais adiantadas tem eftado fuás Con- quiftas, muito menos exhauftos feus thefouros , mais florentes feus exércitos , e com menos oppoliçao luas armas, e fem comparação mais tímidos os kitados dos Príncipes , e Cidades livres de Alemanha ; e com tudo ifto offereceo a paz: que digo oftereceo , mui- tas vezes apedio, ajuílando-fe com razoáveis trata- dos Sisaó-fe agora os meus fantafiados preliminares. Fará o Chriftianiffimo Rey de França retirar do Rheno fuperior , e inferior os feus exércitos , e tro- pas , reftituindo as praças oceupadas aos Seremni- mos Principes refpe&ivos , cujas eraó ao tempo do rompimento : o mefmo fará nos Cirçulos de Vveípna- lia , e Suevia , largando nefte , quanto oecupou daAul- tria anterior , e Brifgovia , com as quatro Cidades de Vvaldshuit , Lauffenburg, Seckingen , e Khein- felden fobre o mefmo Rheno , que chamao Cidades Floreftes , pela vifmhança da Florefta negra ; e eitas por nao dár ciúmes ao corpo Helvético , que aman- te, e tenaz de fua liberdade, quer fempre coníer- var aquellas quatro praças , como barreira de toda Reftituirá também ao Império a Cidade de Key- fervert , huma de fuás chaves , fituada na Vveíphalia abaixo de Dufieldorp , Corte do Sereniffimo Elei- tor Palatino fobre o Rheno. A eíte Sereniffimo Elei- tor , e aos Sereniffimos de Moguncia , Trevens , e Colónia , lhes largará , quanto lhes oceupa de huma , e outra banda do mefmo Rheno ; e o mefmo obíerya- rá com os Eftados do Sereniffimo Eleitor de Colo- A iv nia > f nia, que lhe dizem" refpêito, como Bifpo Príncipe* de Liege , e como Graó Meftre Theutonico. No Paíz baixo confervará , quanto tem conquif- tado do Condado de Flandres, e principalmente Ganth , Dendermund , Bruges, eOílende, com Neuport, que com facilidade conquiftaráó fuás ar- mas ainda nefte anno; ereílituirá as Conquiftas fei-* tas no Brabante, eNamur. As pertençoens dos Senhores Reys Catholicos na Itália para a exaltação do Ser eniffimo Infante .D. Filippe aos Ducados de Milaõ , Parma, e Placen- cia, poderáõ talvez fervir de obftáculo , para que a paz naõ feja geral; porem contentar-fehá o Serenif- iimo Infante com os Ducados de Parma , e Placen- cia, que o Auguíliffimo Emperador lhe cederá, por ferem património da Sereniffima cafa Farnefi, da tjual he única herdeira, e fucceíTora a Senhora Rai- nha Catholica, por morte do Sereniffimo António Farneíi , Duque de Parma feu Irmaó. E fe naõ fe contentarem os ânimos dos Senho- res Reys de Efpanha, e Nápoles com a Soberania de Parma, e Placencia, cederá a Auguftiílima Se- nhora Rainha de Hungria Emperatriz o Ducado de Milaõ ao mefmo Sereniffimo Infante D. Filippe, éontentando-fe com o Ducado de Mantua para con- fervar a opinião, e refpêito em Itália: e ao Sere- Jiiffimo Rey de Sardenha fe lhe reftituiráõ os Efta- dosdeSaboya, e Mauriena , por equivalente de Tor- tona , Novara , e Alexandria , que poderá ceder , guarentindo-lhe França, e Efpanha o Ducado de -Monferrato , onde fe lhe reftituiráõ os Ducados, Condados , e praças conquiftadas , e também no Piamonte. O Sereniffimo Duque de Modena fera reftituido nos nos Eftados de Módena, Régio , e Novelara . e fc dW a pertençao de alguns herdeiros da Excelfa cafaPico, lheredcrá o Ducado de Mirandula e Sondado 'de Concórdia, por fatisfazer ao empenho da Coroa de Efpanha ; ou ficará com eíles Eftados o metoo Sereminmo Duque de Módena n, .forma que os pofluhia antes do rompimento da preiente §Uel ' Da parte das pertençoens da; Sereniffima cafa Stuarda á ? Coroa dí Graó Bretanha Jeachao efta tanto no principio, que nao deixao bg^fM difcurfo a feu favor. Deixemos tudo a Deos , que conporá as coufas conforme feus ^Altiffimos e mae- ceffivis Tuizos quizerem. Porem fe o harmos com ' oihos humanos La efta empreza, fe pode conju- rar aue na6 paftará de pertençao efta do beremili moOulos Stuard-, porque eftaó no feu auge as for- Ss da Naçaó Britânica, fendo que os ânimos dos vaffallos da GraÓ Bretanha parecem inclinados a caía Stuarda ; ainda que apparentemente fe moftrem mbo exterior Hanoverianos, porque vem feus melhores thefouros tranfportados a Alemanha : e poftoque ie faça a paz , fera para mayor auge da pertençao Stu- arS forque os írlandezes , eEfcpcezes , que militao nos exércitos de França , palTaráó em feu ferviço e fuftentaráô feu partido com mais de lonooc .comba- te tes , e feuíSereniffimo Rey amado de feus vaf- fallos , que he, quanto bafta para o fazer invencível, dâreniflimo Rey da Pruffiafe contentara com a parte de Silefia , que pela Auguftiffima SenhoraRai- nha de Hungria lhe foy cedida no tratado de Breí- lavia: e nao lhe fervirá de impedimento para entrar na pacificação a nova guerra , que agora declarou ao Eleitorado de Saxoniaj pois como nao o obriga per- I lo tençaó alguma de Eftadò, tudo fe compõem com a mediação dos Príncipes vifinhos. E nefta forma fe concluirá a paz geral. Ou quan- do muito fe naõ concordem os ânimos nas perten- çoens , ficará fubfiíUndo a guerra em Lombardia e Grão Bretanha pela parte de Efcocia com menos tuna, que a do prefente tempo. Tudo nos moítrará a Primavera do anuo proximè futuro ; que hepreci- fo defcançarem ás armas nos quartéis de Inverno, para terem lugar as pennas nas conferencias , e negocea- çoens. 70 ? As caufas, que me movem para idear na fanta- fia eftes aérios preliminares , faõ as pertencoens de hum , e outros Príncipes, A Coroa de França fem- pre pertendeo a reunião do Condado de Flandres que da mefma Coroa fahio, dando-o Carlos Calvo Rey de França a Balduíno , chamado Braço de ferro 1 o major Capitão daquella idade, como em dote de fua mulher Juditha, filha do mefmo Rey; denomi- nando- aqueile Èftado com o titulo de Condado na pelToa do mefmo Balduíno , que era Graô Floreítei- ro delle. O mefmo Condado de Flandres paíTou á cafa de Borgonha , cafando Filippe Duque de Bor- gonha , 'Quarto filho de Joaõ Rey de Franca , no anno de 135-6. com Margaritha GondeíTa proprietá- ria de Flandres , filha única , e herdeira de Luiz III ultimo Conde de Flandres , Soberano das outras Pro^ vincias do País baixo. Filho de Filippe Duque de Borgonha, e de Mar- garitha Condeífa de Flandres , foy JoaÓ Duque de Borgonha Conde de Flandres ; e deite o foy Filippe o Bom, que cafou com a Infante de Portugal D. liabel, filha de D. JoaÓ I de gloriofa memoria Rey de Portugal: deites foy filho Carlos o Batalhador, que Mi II que morreo na batalha deNancy, ganhada pelo Du- que de Lorena , e Suíços : e deixou por filha única , e herdeira a Duqueza , e Condena Maria , que caiou com Maximiliano Archiduque de Auftna , Rey dos Romanos, e depois Emperador , da qual teve Iilip- pe o Formofo , que cafando com D. Joanna , filha Se- gunda dos Reys Catholicos D. Fernando , eD. Ha- bel, veyo a fer Rey de Caftella-, e teve filhos o Emperador Carlos V , e feu IrmaÓ Fernando , tam- bém Emperador depois de Carlos , os quais fizerao as duas linhas Auftriacas , huma em Efpanha , outra em Alemanha. Poliu hio a linha Auftnaca de Efpanha o Con* dado de Flandres, e mais Provindas do País baixo, até que os Eftados geraes das fete Províncias unidas negáraó a obediência a Filippe II Rey de Efpanha, que tinha fuccedido a feu pay Carlos V. Por morte do mefmo Filippe II poíTuíraõ Flandres os Catholi- cos Reys Filippe III feu filho , e Filippe IV , e Carlos II feus neto , e fegundo neto. Morreo Car- los II Rey de Efpanha, e ultimo Conde de flan- dres no i de Novembro de 1700 , de quem ficou O mais legitimo , e propinquo fucceflòr , e herdeiro Luiz Delphiin de França , filho único de LuiizXIV o Grande Rey de França : do Delphim Luiz foy fi- lho primogénito Luiz Duque de Borgonha , e de- pois Delphim , de quem he filho o Chriítianiíhmo Luiz XV Rey de França , legitimo fuccefibr do Con- dado de Flandres, emais Províncias do País baixo, pelo titulo de herança ; ainda que naõ tivera fua Co- roa o da reverfaó. . A razaó , que tenho para dizer que Luiz Del- phim degFrança, filho de Luiz XIV, era o mais legi- timo , e propinquo fuccefibr do Condado de Flan- dres , 12 dres ,"e mais Provindas do Paíz baixo f he por feV filho único , e herdeiro da Rainha de França Maria Therefa de Auíiria , única irmaa de Carlos II Rey de Efpanha \ e como tal lhe vinha em fucceífaó a Sobe- rania daquelles Eítados ? que já jpor muitas vezes ti- nha entrado por fêmeas ; e na fua erecção foy em íemea inveílido o Condado de Flandres , ■ como já diífe , e no tempo adiante algumas mais vezes , fen- do huma delias y quando D. Fernando Infante de Por- tugal cafou com a CondeíTa proprietária de Flandres; e alem de Margarita , mulher de Filippe Duque de Borgonha ? e de Maria mulher de Maximiliano Rey de Romanos ? Ifabel Clara Eugenia ? filha de Filippe II Rey de Efpanha, a quem efte recoitheceo por Cohdeffa de Flandres , cafandoa com o Arehiduque Alberto de Auftria 5 os quais em fuás vidas foraó Soberanos de Flandres. ~il E naó- pode argumentar-fe para contrario fentir coma nomeação do teftamento de Carlos II para & fucceffaõ da Coroa dé Efpanha na peíToa de Fi- lippe V Duque de Anjou , filho fegundo do dito Luiz Delphim de França; pois Carlos II naquella nomeação attendeo a incompatibilidade , que havia no me fmo Delphim fucceder na Coroa de Efpanha , por fer o immediato fucceílor da de França; e fe ter convindo , que nunca poífaó as duas Coroas de Efpanha, e França , unirfe em hum fó Soberano : ê o mefmo militava no Sereniílimo Duque de Bor- gonha , primeiro filho do mefmo Delphim ; razões , •porque naquelle teftamento de Carlos II foy cha- mado em primeiro lugar Filippe Duque deAnjou, hoje o Catholico Rey de Efpanha com o epíteto de Animozo ; e em fegundo lugar Carlos Duque de Ber- ry feu irmaõ terceiro filho do dito Delphim ' % e em , tercei- u im w i !■ •,- i i í1 - W Wi ^j gMMMaM terceiro lugar foy chamado o Auguftiffimo Carlos Ar- cliiduque de Auftria , filho fegundo do Auguftiílimo Emperador Leopoldo I, eda Auguíhffima Empera- triz a Senhora Magdalena de Neuburg , irmãa da Se- reniffima Senhora Maria Ifabel Sophia Rainha de Portugal , mày do noifo Clementiffimo Soberano , a quem Deos reflitua a antiga faude , de que tanto eftes feus Reynos neceffitaó , e porque feus fieis vaflallos ílifpiraó. Sendo chamado em terceiro lugar o dito Auguftiffimo Carlos , depois Emperador VI do nome, para a íucceílaó de Efpanha, por fer neto da Au- euftiffinia Senhora Maria Anna de Auftria Empera- triz dos Romanos, mulher do Auguftiffimo Empe- rador Fernando III. ., , > Pelas mefmas caufas (por nao bufcarmos outras anteriores) devia o nteímo Luiz Delphim de Fran- ça fucceder no Ducado de Milaó , e confequente- 111 ente feu neto o Chriftianiffimo Rey de França Luiz XV que com juíla razaõ poderá revendicar aquelle Eftado , e dalo como em dote a fua filha primogénita a Sereniffima Senhora Luiza Ifabel , cafada com o Sereniffimo Infante D. Filippe de Efpanha ; fe a cafo efte naó quizer fufcitar as pertençoens de feu Ca- tholico Pay. Nem fe pode confiderar fer aquelle Ef- tado exclufivo de fêmeas na fucceffaõ ; porque os Sforcias, Duques que fòraó delle , naó o pofiuhirao por outro titulo mais , que por cafar Francifco Sfor- cia filho do Valente Lourenço Sforcia , com hum a filha natural de Filippe Maria , III Duque de Milaó , irmaõ de Joaõ Maria Duque de Milaó , ambos filhos de Galeaço Vifconti Duque I de Milaó , e de fua mulher Ifabel de França, irmãa dejoaó Rey de frança. Nem Luiz XII Rey de França entrou na poífe deite Ducado (de que lhe deo a inveílidura o Em- pe r a- perador MaximiJiano IVconi outro ^ título mais' eme fer neto de Valentina Galeaço , .que tinha caiado com Luiz Duque de Orleans , filho de Carlos V Rey de França , a qual Valentina era irmãa dos dous Duques Joaõ Maria ? e Filippe Maria. Menos Francifco I Rey de França tinha outro titulo para procurar a Soberania daqíielle Ducado , mais que. o communicado por fua mulher a Rainha Claudia de Orleans , filha do dito Luiz XII : per- tenção , que ao Rey Francifco naô euftou menos, que a perda da memorável batalha de Pavia , e lua lar- ga priíaô em Efpanha. Deixando porem eíia matéria de pertençoens para difputar-fe nas campanhas, e Manifeftos por aquelles Príncipes , que fe julgarem com direito para ellas, tornemos ' á nófla ideada paz. - A grandeza , e vaftidaó de Eftados ., que as armas de França eílaô fenhoreando em Alemanha, Itália, Saboya , e Flandres , nem as recontadas pertençoens , podem fazer argumento para o receyo do ajufte da paz, muito á fatisfaçaõ da Auguftiffima cafa de Auf- tria; porque trazem as Hiílorias mayores conquiílas, e iguaes pertençoens, que nós trataâos depaz cedeo a mefma França. Saõ os Francezes intoleráveis nos principios do rompimento de fuás guerras j porque ajuda o numerofo de fuás tropas ao bellicofo gemo de feus efpiritos ; e o quafi difpotico governo de feu Monarca á promptidaõ de fuás expediçoens : na pre- fénte guerra o experimentámos , quando fuás tropas inundarão a Suevia, Palatinado , Baviera, Auftrias, Bohemia ,. Franconia , Vvefphalia , e Rheno \ do que tudo hoje naô tem mais que humas pequenas por- çoens. / Tinhaó poucos annos ha introduzido fuás- tro- pas • '■" ■ *""" r pas em Polónia para fuftentarem as períençoens dó Sei eniffimo Rey Stanislau Lieczinski ; mas as máxi- mas do grande General da Ru ília Munik , com hum Fefiina Unte do valerofo quanto prudente Romano \ fouberaó rebaterlhes o Ímpeto na tolerância, e de- pois vencelos com o valor, e promptidaõ. _• No tempo , que reinava em França Luiz XII \ fé iizeraõ fuás armas fenhoras de toda a Lombardia^ correndo como hum rayo de Marte dos Pyreneos até o már de Veneza , fervindolhe de teatro amplo ã fuás viílorias , e conquiftas huma j e outra ribeiras da grande rio Pó, defde feu nevado nacimento até fuá falgada tumba. Ganharão a famofa batalha de Ra- vena ; mas fua mefma fortuna lhes fervio de difgraça ; fua felicidade lhes foy fatal, e feus vencimentos os tornarão vencidos , perdendo no breve efpaço de hum mez, quanto tirihaó conquiftado , fem lhes ficar hum fó Caftello em Itália. Tomemos exemplo de ak guns tratados de paz. Depois de huma larga , e porfiada guerra entre o Emperador Carlos V , e Francifco I Rey de Fran- ça , fe ajuftou a paz, que fe confirmou no tratadtf de Crefpy , Cidade em igual diftancia de Senlins , e Compiegne, na Província, que propriamente cha-* maõ Ilha de França : por efte mefmo tratado cedeo Francifco toda Saboya , que tinha occupada , e dá mefma forma o Ducado de Luxemburg , e as Praças conquiftadas no Condado de Henault , e Ducado de Brabante, com apertençaõ bem fundada doReyno de Nápoles. Com a occafiaó de fazer o Emperador Fernan- do II prender o Arcebifpo Eleitor de Treveris , fe declarou a guerra entre as cafas de Auftria , e Bor- bon no anno de 1635. eno efpaço de trinta , e cinco annos « 16 annos, que durou aceza, fe fizeraô os Francezes fe- 'rihores de Saboya , Piamonte , Monferrato , Artois Alfacia , Lorena , Catalunha \ grande parte de Flan- dres, todo o Condado de Henault, e a mayor parte dos Ducados de Brabante , e Luxemburg ; conqui£ tas , que lhes cuftáraó infinitos thefouros , mais de cen- to, e cincoenta mil ridas de outros tantos Francezes rnortos em varias , e porfiadas batalhas , já profpe- ras v e já adverfas, e nas defenf as , e ataques das Melhores fortalezas de Europa; e o gue mais he, ti- nhaó logrado a diverfaô de feus inimigos , e a di- minuição da grandeza de Efpanha com os foccorros dados a efte Reyno de Portugal; porém pelo trata- do da paz dos Pyreneos , celebrado entre o Cardial Mezarini , e D. Luiz Mendes de Haro no knno de 1660, cedeo França , quanto pofluhia em Itália , e Saboya; largou Lorena, Flandres, Henault, Bra- bante , Luxemburg , e Catalunha , e ainda os foccor- ros , que ajuítára dar a Portugal : talvez para mayor credito deite Reyno , e gloria das armas Portugue- zas , que moílráraõ ao mundo , que eraó poderofas, e baftantes para obrigar a Monarquia de Efparçha (naquelle tempo formidável) a pedir a paz, quando eítava no cume da íua foberba. Pelo tratado da paz de Nimega , celebrado em Agofto de 1678, cedeo França todo o Paíz baixo Ca- tholico , que tinha conquiftado ; e da mefma forma a mayor parte das fete Províncias unidas dos Fila- dos Geraes , grande parte da Vvefphalia, e quantas Praças conquiftara de ambas as ribeiras do Rheno. Pelo tratado de Pvifvvik , Caftello entre Haya , e Delpht na HolJanda , onde fe celebrou em 2 de Setem- bro de 1697. cedeo França hum copiofo numero de importantes praças em Lombardia, Piamonte, Sa- boya, WÊÊÊÊM boya, Catalunha, Lorena, e Suécia , Rhénô , Vve£ phalia , e Paíz baixo } refervando fomente para fi Strasburg , e as conquiftas de Alfacia : e o que mais he reconheceo por Rey da Graó Bretanha ao Prín- cipe de Orange Guillelmo III , deixando a protec- ção de Jacob II , Rey depoílo , que tanto Luiz XIV tinha tomado á fua conta. O mefmo , ou ainda mais , fez a Coroa de Fran- ça nos tratados de Utrek , e Raílad : e também no das pazes proximè paffadas , que deixo de referir , porque nas gazetas fe nos fizeraõ bem públicos. So- mente fe deve advertir que as pazes foraõ feitas por França : quando eítava nas mayores forças do feu poder; pois no tratado de Rifuvik fe achava com fetenta mil cavallos , e trezentos, e cincoenta mil infantes de tropas regulares; excepto os prefidios de hum quafi fem numero de fortalezas , e praças , e as tropas , e gente da marinha. No que nos deixa huma efperança, de que na prefente con jun&ura , em que França naô tem tantas tropas , e eftá mais gaitada, e atenuada com as defpezas , e perdas de imiiienfas fomas no mar, interrompido feu commercio , e fem operação íuas manufacturas , feráó mais vantajozas ao partido Auítriaco as circunftancias , eclaufulas da paz. } Permitame v.m. que faça reflecçaô napefioado Auguítiífimo Francifco Eítevaó Emperador Romano- Alemanico , que na paz proxime paflada cedeo vo- luntariamente os feus Eílàdos hereditários , e nacio- naes de Lorena , e Bar , ficando pobre , e fem pof- feíTaõ , mais que com a efperança da eventual fuc~ ceflaó do Graõ Ducado de Tofcana. Depois cafan- do com a Auguítiífima Senhora Archiduqueza (hoje goítoziffima Emperatriz) teve o contratempo de a ver i8 ver defapofTada dos feus Eftados hereditários da Bo- hemia , Silefia , Moravia , Auííria anterior , Tirol , a mayor parte da Auftria fuperior , e grande porçaó do Paíz baixo , até que fuás heróicas virtudes , feu valor , e magnanimidade o elevarão a occupar o throno do mundo. Se imitou a Francifco o Sera- phim de Affis na abdicação própria de feus Eftados , e peíToa , com hum Reliquimus omnta ; fobio á mayor grandeza da terra, á imitação da que o Sera- phico logra no Ceo *, (falando humanamente) e no dia da celebridade do mefmo Santo o efpera o folemne a&o de fua Coroação , para fe completar de hum Francifco a outro Francifco o Sequuii fumus te. Também pondero que tendo a Auguftijfima cafa de Auftria unido a íi já por conquifta .., já por cafa- mentos vários Eftados da Europa, he ^fta a primei- ra vez que une o Graó Ducado de Tofcana : e po- demos repetir a melhor fim, que os antigos murmu- radores da fua grandeza. Bel/a gerant alij ; tu Fe/kc jSuJlria nube , Qu^.Mm mmmmé mm 1