CO ■ C CC ; C5fi . ■ edSí (Cf Cf li -V 8 r^ YbCXjfEj : C j k~ V, vL^ccc ■"«&&* «.«CM!- -- r( €«^«C" ^ '^■8 V t (l& \í m &$ % 3Mm (íarfrr ^rahm 'I trSkSEa B II — 11 llll DIÁRIO D A VIAGEM QUE EM VISITA, E CORREIÇÃO DAS POVOAÇÕES DA CA PITANIA DE S. JOZE DO RIO NEGRO FEZ O OUVI- DOR, E INTENDENTE GERAL DA MESMA FRANCISCO XAVIER RIBEIRO DE SAMPAIO. no anno de 1774 e 177^ ; Exornado com algumas noticias geográficas , e hydrògra- ficas da dita capitania , com outras concernentes á histo- ria civil, politica, e natural delia, aos uzos, e costu- mes, e diversidade de nações de Índios seus habitado- res , e á sua população , agricultura , e commercio. yindica-se occasionalmente o direito dos seus verdadeiros limites pela parte do Peru , nova Granada , e Guyana. E trata-se a questão da. existeneia das Amazonas Americanas, e do famoso lago dourado Nullaque non cetas voluit conferre futuris Notitiam; sed vincit adhue natura latendi. Luean. Pharsal. I. X. v. 270. LISBOA: NA TYPOGRAFIA DA ACADEMIA 18 2 5. Com licença de S. MAGESTABE. ii MÊ Vorticilus rapidis , et multa flavus arena , In maré pr&rumpit : variae circumque supraque Asuetae ripís volucres , et fiuminis alveo, Aethera mulcebant cantu } lucoque volabant. Virgil. lleneid. 1» 7. v. 31. ••, ARTIGO EXTRAHIDO DAS ACTAS DA ACADEMIA REAL DAS SCIE.NCIAS Das Sessões de 6 de Outubro e 3 de No- vembro DE 1824. D , 'Etermina a Academia Real das Scienctas , que a Diário da viagem pelo Amazonas e Rio Negro .fei- ta por Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio, e apre- sentada pelo seu sócio o Excellentissimo Senhor Tl?o- maz António de Villa-nova Portugal, se imprima debaixo do Privilegio da mesma Academia. Secreta- ria da Acadeynia 8 de Novembro de 1824. José Maria Dantas Pereira Secretario da Academia. DIÁRIO DA VIAGEM DA CAPITANIA D O RIO NEGRO. I. Agosto 3. 1^(0 anno passado de 1773 nos fins de Outubro entrei a servir este lugar , e aleni das reco- mendações , que trazia do Illustrissimo , e Excellentissimo General do Estado João Pereira Caldas, para visitar; as- sim me persuadião as urgentes razoes da minha obrigação. Em 1768 tinha sido a ultima correição , que se havia fei- to , e instava a necessidade das povoações , que novamen- te se visitassem. Deixei passar as cheias dos rios para sahir no principio da vazante , de sorte que a demora nas povoações do Rio Negro me fizesse alcançar a vazante inteira no rio Solimões; e entrando por elle nos princípios de Outubro , sahi por esta cauza neste dia. Huma segura , e decente canoa de oito remeiros por banda , foi preparada para o meu transporte , e mais huma pequena para o ser- viço da viagem, caça, e pesca. Dois soldados, o es- crivão, o piloto, a minha familia , sendo por tudo vinte e seis pessoas, era o que compunha a equipagem. A^ se- te e meia da manhã embarquei , honrando-me nesta oc- casião com a sua assistência o Illustrissimo Governador desta capitania , o R. Doutor Vigário geral , os officiaes militares da guarnição , e todas as mais pessoas quali- ficadas da capital, acompanhando-me hum grande nume- ro delias em diversas embarcações duas legoas de viagem. Fui neste dia jantar a Poiares, distante seis legoas de Barcellos. Visitei esta povoação , a de Carvoeiro , a villa de luoura j o lugar de Airão , ea povoação da fortaleza, 2, Diário da Viagem das quaes farei competente descripção , quando de vol- ta entrar no Rio Negro , por assim o pedirem as leis de hum melhor methodo. E daqui parti direito a procurar a villa de Silves ultima povoação da capitania do Rio JNe- gronosjseus confins orientaes. 'II. Setembro 13. Até o dia de hoje gastei na viagem , e demora nas povoações acima referidas. Na noite deste entramos a navegar por hum dos canaes , que dácommu- nicação ao lago , em que está situada a villa de òilves. III. 14. Pelas seis horas da manhã , tendo navegar do toda a madrugada, nos vimos embaraçados na passa- irem ; porque achamos o dito canal coberto de numa er- va, chamada canabrava , que, postoque nade na agua , lança profunda*, e espessas raizes , ecresce para cima de seis palmos de altura. Esta erva he o mais estimado ali- mento do peixeboi , pela qual razão neste lugar sao mui- to numerozos. Vendo-nos pois embaraçados , os votos ria maior parte erão , que voltássemos para traz a ir procurar outro canal ; porem vendo-se , que para chegar a elle era necessário hum dia de Viagem , e que perdíamos o que tínhamos andado, fiz procurar todos os meios de vencer aquella difficuldade. Os Índios férteis em expedientes nes- ta matéria , inventarão o de abrir hum caminho , por on- de pudesse passar a canoa , separando-se com íorcados a canabrava; mas foi inútil todo o trabalho, que por al- gumas horas nisto se empregou ; e se conheceo impossível vencelo. Recorreo-se ao meio de tirar a canoa a corda , que foi efficaz. Prendia-se huma corda a alguma arvore , das que fica vão na margem , e logo puxando ; se por ella da canoa , se arrastava esta até áquella , e dahi se hia con- tinuando na mesma forma. Não se acabarão aqui as difi- culdades ; porque depois foi necessário penetrar o mato alagadiço, e aqui, postoque houvesse agua suficiente pa- ra navegar a canoa , embaraçava-se a passagem pelas ar- vores, e troncos cahidos. Em fim depois de hum immen- so trabalho de toda a esquipação , e com grande risco de vidas, pelo rneiodia se chegou ao lago, e pelas duas da tarde entramos na villa de Silves. v* ' , ^ IV Fica esta villa situada em huma ilha do lago Sâracá,' doj qual antes de erecta em villa tomava o no» 1Q TWm da Cahtania 150 Rio Negro. 3 me O lago he hum dos mais formozos deste Estado. Está no interior da terra nove legoas á margem do septcmtrio- nal do Amazonas, no qual desagua por seis difíerentes bo- cas na extenção de treze legoas, que tanto medea do pri- meiro canal até o ultimo. No ultimo canal da parte supe- rior , chamado Arauató, desagua o rio Urubu , antiga- mente populoso , como testenumhão os vestígios irequen- tissimos, que nelle se achão das povoações. As suas len- tes nascem na Goiana holandeza, e não ha muitos annos, que por aqui se receberão fazendas pelos índios da parte íuperior , que communicárão aos da inferior. Os Religio- sos Mercenários tinhão nelle huma missão, que ao depois seextinguio pela rebelião dos Índios, e morte do seu mis- sionário. Para dar idéa cabal da extensa povoação do rio Urubu basta trazer á memoria a expedição, que contra as suas rebelladas nações mandou o Governador e Capitão eeneral do Estado Rui Vaz de Siqueira no anno de 1664 commandada pelo famoso Pedro da Costa Favella, na qual queimarão trezentas aldeias, matarão setecentos índios , e prizionárão quatrocentos, (a) ■ V. No lago Saracá desemboca o no Amba , em que também havia huma aldeia, que se unio á villa de Sil- ves. Pelo lago estão semeadas muitas ilhas de terra nr- me, e elevadas, por cuja cauza fazem elegante perspe- ctiva. Em huma delias á raiz de huma collina está situa- da a villa , olhando para o oriente. Estende-se -por toda a sua elevação, e quasi rodeada de agua. Superior lhe ii- ca outra collina mais elevada, que por estar estotada de altos , e espessos bosques lhe forma agradável coroa, bao estas ilhas fertiíissimas para todo o género de plantações. A n s que mais se dedicão os seus habitantes he o tabaco , que passa por excellente. O algodão he finíssimo. As mar- gens dos seus canaes serião próprias para o cacáo , e ca- fé , plantações atéqui desprezadas , mas que agora se principião a cultivar; postoque não terão grande augmen- to , atéque se não extingua o gentio Mura , que costuma assaltar as rossas das vizinhanças. Tem somente hum des- conto a terra , que he a Jbrmiga , que costuma destruir («) gerred. liv. 16. §. 1 1 34. A 2 ir* i 4 Diário da Viagem as lavouras feitas nas capoeiras, isto he , nas terras, em que ji se cortou inato , e tem novamente crescido. VI. O lago he abundantíssimo de peixe. São em mul- tidão as marrecas por cauza dos arrozaes bravos , a que vem pastar. Em hum dia trouxe o caçador oitenta e tan- tas j e no seguinte cento e dezaseis. VII. A villa foi erecta pelo primeiro Governador desta capitania o Illustrissimo, e Excellentissimo Joaquim de Mello e Povoas. Tem muitos moradores brancos. As nações de índios, que pertencem a habitação, são Anea- qui , Baré , Caraias , Baeúna , Pacuri , Comani. As mu- lheres desta ultima nação são formozas , e agradáveis. He costume de todas as índias presentearem o Ministro nestas occazioes com frutas das suas roças, com mandiocas , bei- jús, que he o pão feito delia &c. , mas o fim destes pre- zentes he adquirir por elles algumas couzas , vindo a ser assim humas compras violentas ; poisque he necessário dar-lhes fitas , pentes , anzoes , pano de algodão , aguar- dente , a que todas são inclinadissimas , e o mais he que he necessário dar a cada huma de persi alguma couza>, já para isso costumão vir cinco, e seis , aindaque seja hum só o prezente: e também se a família he numeroza , divide-se em dous , ou Ires ranchos , e cada huma vem por sua vez. Forão muitos os prezentes, que aqui tive, que satisfiz com fitas, e a maior parte com aguardente, que era o que mais me agradecião. Demorei-me nesta vil- la de 14 ate 20. VIII. 20, De manhã sahi desta villa , e embocan- do hum dos seus canaes , não aquelle por onde entrei , pe- las duas horas da tarde estava no Amazonas , cuja mar- gem do norte costeei toda a tarde. Foi ella divertida ; porque as praias , que principia vão a descobrir , estavão cheias de marrecões, patos, gaivotas, tijijus, ave formo- za , cuja grandeza passa de cinco palmos do bico aos pés, magoaris , cararás , e outras que tudo me cauzou agra- dável diversão. IX. 21. Ao meiodia chegamos a villa.de Serpa , que está situada na mesma margem meridional do Amazonas. Fica em huma espaçoza planície , a terra muito elevada ao rio , a praça he vistoza , e forma hum parallelogra- da Capitania, do Rio Negro. y mo: seria cm tudo completa, se assim como lie abundan- te de pesca , a praga da formiga não destruísse as plan- tações, e roças. São aqui as tartarugas de extrema gran- deza , e muito abundantes. O primeiro nome desta villa , era Itacoatiara , isto he , pedra pintada ; por cauza das pedras , que se achão na sua ribeira desenhadas com va- rias figuras. Forniou-se esta povoação da de Abacaxis , que para este lugar se mudou , tendo antes estado situa- da na margem oriental do Madeira. As nações de índios, que actualmente a habitão , são pela maior parte Sara , Ba- ri, Anicoré , Aponariá , Tururi , Urupá , Júma , Juquí, Curuaxiá , Pariqní. Os Pariquis são descidos novamente das margens do rio Vatumá : são de faella prezença. Ru- ma das suas modas, ou idcas de perfeição corporal, he hum circulo largo de três dedos em ambas as pernas for- mado da cútis feita mais alva , que a cor ordinária do corpo , pelo meio de huma ligadura , de que uza hum , e outro sexo. X. Foi esta povoação erecta em villa pelo primei- ro Governador desta capitania o Tllustrissimo e Excellen- tissimo Joaquim de Mello e Povoas. XI. Tendo cumprido com o que tocava ao meu offí- cio até o dia 23 parti no seguinte de madrugada. XII. 24. Huma extensa ilha , que corre ao longo da terra de Serpa , faz neste lugar rápida a -correnteza do rio. Entramos logo a atravessala para chegar á ter- ra austral , e a ir costeando até a boca do Madeira , que 'procurávamos, e nelle a villa de Borba. Toda a manhã nos levou huma enseada cheia de correntezas , e ás três da tarde principiamos a divisar as aguas esverdeadas do Madeira, cuja fez logo entramos a navegar. XIII. 25. INavegamos todo esíe dia com bastante felicidade , aindaque sempre a remo. A" 1 noite fomos por- tar defronte do lugar, em que esteve huma povoação, que se mudou para a villa de Serpa. Mais acima fica o canal , chamado Uraiá , que vai sahir ao rio Topinamba- ranas : no qual canal desaguão os rios Abacaxis, Canu- má, e Maué , aonde habitão ferocíssimas nações de índios selvagens. Cs Maués são famosos pela fabrica da cele- bre bebida Guaraná, frigidissima , que já se uza na J£u« DíARIO DA VlAG EM ropa, e em que se tem conhecido algumas virtudes, e alguns damnos no seu nimio uzo. A planta do Guaraná hé hum arbusto, que se iiiclue na classe dos sipós, isto he , das plantas, que necessitão de encosto para se sustentarem , como a vide. A fruta, quando está, madura, he negra na casca exterior, mas alva na massa interior, e entra no género das amêndoas. O modo de se preparar a mas- sa , de que se compõe a bebida , he o seguinte ; torra-se a fruta, e depois se piza no pilão reduzindo-se a forma de pães, que se costumão secar ao fumo. Estes pães se ra- lão , vulgarmente com a lingoa do peixe Piraurucú , até a dose dehuma colher de meza , a que se ajunta assucar em quantidade , que adoce , e tudo em meia canada de agua, fica preparada a bebida. Para asdiarrheas ligeiras, dores de cabeça , e doenças de ourinas he remédio appro- vado. Relaxa porem o estômago o seu grande uzo a al- gumas pessoas, e cauza insomnios ,e dizem que impotên- cia. Mas he extremo o uzo que desta bebida se faz em todo o estado do Pará, tomando-a muitas pessoas a toda a hora , e sem assucar , como os índios , sendo bastante amargo. XIV. Os Maués são valerosos, com elles tínhamos commercio , o qual se acha prohibido , depoisque a falta de boa fé, que se experimentou nestes índios, e por cau- za das mortes , que fizerão em alguns cabos do mesmo commercio, mostrou, quão pouco útil nos era a sua amiza- de. Esta prohibição foi feita no anuo de 1769 pelo Illus- trissimo e Excellentissimo Governador e Capitão general des- te Estado Fernando da Costa de Ataide Teive, em huma carta instructiva, que circularmente enviou a todos os directores das duas capitanias do Pará , e Rio Negro : carta que comprehende alem da sobredita prohibição , ou- tros muitos pontos interessantes em beneficio dos índios das duas capitanias, e do augmento das suas respectivas povoações, eque será sempre considerada como hum mo- numento lustrozo do solido pensar, sublime prudeacia , e claro discernimento daquelle Ínclito General. XV. Ao Topinambaranas (a) se pode chamar bo- O) Topinarnbarana , hoje se chama Villa nova da Rainha vid. o§. 7-6. da Capitania do Rio Negro. 7 ca inferior do Madeira. Este nome quer dizer Topinambá illcgitimo , ou não verdadeiro. À nação Topinambá foi amais famoza, e mais extensa do Brasil. A sua lingoa cha- mada vulgarmente a geral , he a que ainda hoje se falia entre os brancos, e índios , como universal interprete. JNa- quelle rio havia ainda no anno de 1639 huma povoação de Topinambás , tempo da viagem do nosso capitão Pedro Teixeira ao descobrimento do caminho de Quito , como consta da sua viagem. Esta povoação estava situada no lago Vaicorapá , na parte oriental do rio, dez legoas aci- ma da boca; de cujas relíquias se principiou a formar villa Boim no rio Topajóz. XVI. Offerecendo-se-me tão opportuna occazião de fallar dos Topinambás , não será alhea digressão deste diá- rio referir alguma parte da historia de tão decantada na- ção. XVII. Póde-se 'affirmar , que os Topinambás erao a nação dominante do Brazil. Elles com tudo se extendião em grande numero pelas vastíssimas regiões da terra , que comprehendem hoje os limites das capitanias da Bahia, Pernambuco, Maranhão, ePará. He certo, que huma na- ção , que chegou a tal ponto de grandeza , não podia dei- xar de ter qualidades guerreiras, com conhecimento em todo o género de leis , e policia , que tudo contribuiria a formar rigorosa opposição no descobrimento do Brazil. Tal foi a que experimentou Pedro Coelho de Souza , prin- cipalmente na redução da famozissima serra da Ibiapaba , aonde dominavão os valentes principaes Mel Redondo , & Juruparí , isto he , diabo , e o grande Jacaúna. He famo- sa aquella serra ; porque a sua eminência leva quatro horas de subida , a sua extensão passa de oitenta legoas , e mais de vinte terá de largo. Á campanha, que arodea, he admirável pela formozura da planície fertilizada pe- las aguas de hum cristalino rio. Este era o principal domi- cilio dos Topinambás. XVIII. Para argumento da descripção dos Topinam- bás , basta referir a resposta, que hum velho principal do Maranhão deo a Mr. Desvaux , quando os Francezes entra- rão naquella ilha; porque dizendo-lhe o Francez , que vi- nha a sua nação offerecer-lhe protecção contra a tiraunia A IMH 8 Diário da Viagem portugueza , trazendo-lhe á memoria o procedimento dos Portuguezes ; lhe respondeo : Que os antigos sucessos da sua longa idade lke mostravão com clareza, que todos os principios da prezente expedição erão tão parecidos aos das passadas ( que capitulava de cruéis ) que prudente- mente a devião temer os Topinambás , como termo ul- timo da sua liberdade. XIX. As muitas ruínas , que experimentarão em fim , os fez obedientes na sugeição voluntária , que oíFerecerão no anno de 1616 ao capitão Jeronymo de Albuquerque, celebre conquistador do Maranhão. E postoque no seguin- te se revoltassem novamente os das aldeias do Cumá , não custou asujeitalos. Porem hum não esperado acontecimen- to moveu nova revolução. Na auzencia do seu comandan- te chegou áquelle lugar hum índio também Topinambá, com cartas do capitão mor do Pará para o do Maranhão. Chamava-se este índio Amaro, tinha sido creado com os Jezuitas do Brazil , e era apaixonado dos francezes. Lem- brou-lhe pois abrir as cartas, e fingindo que as sabia ler, disse diante dos principaes — Que o assumpto delias se re- duzia , a que todos osTopinambás ficassem escravos ; exe- cução que só tardaria, em quanto se não entregassem ao capitão mór. O que supposto , vissem elles o que determi- navão , se não querião concorrer para a desgraça ultima da sua nação , quando para fugir-lhe tinhão desamparado nas terras do Brazil os domicilios , de que erão senhores, com a sucessão de tantas idades, injustamente persegui- dos da mesma tirannia portugueza. XX. Tão sedicioza , e diabólica proposta achou lo- go prompta approvação nos ânimos brutaes daquelles ín- dios , e executarão sem mais perda de tempo o seu apai- xonado impulso, tirando aquella noite as vidas innocen- tes, aos que sem receio algum dormião na fé socegada de huma confiança, que os entregou. Os amotinados en- trarão no projecto de passar a Topuitapera , villa da mi- nha capitania , para de lá accometerem á cidade do Mara- nhão ; o que execuíarião, senão fossem repellidos por Ma- thias de Albuquerque , que era o seu Comandante, e que da mesma cidade se recolhia. Daqui se seguio huma por- fiada guerra , que conduzio até á mais completa vitoria ■■■■■■ *i da Capitania do Rio Negro. o mesmo Mathias de Albuquerque. Foi geral a subleva- ção ; porque os Topinambás da capitania do Maranhão, communicando o seu projecto aos do Fará, sesublevárão igualmente em bnm mesuio dia todas as aldeias da vizi- nhança da cidade : porem forão também desbaratadas , ex- perimentando a primeira ruina a aldeia do Cujú, sua praça de armas, a de Mortigura , hoje Vil la de Conde , e as de Jguapé, e Guamá, executando-se de huma, e ou- tra parte acções de muito valor , e esforço, XXI. Fermentavão ainda os espíritos dos Topinam- bás no anno seguinte de 1618 , em que se receberão apres- sados avisos, de que os do Maranhão navegavão pelo Rio Gurcepí a unir-se aos do Pará. Mas parece que elles se sublevarão para dar mais este triunfo ao valeroso Mathias de Albuquerque, que depois de quatro mezes de continuas fadigas , e afugentados para o interior doscertões todos os Topinambás , veio receber o merecido premio de suas ac- ções nas publicas aclamações das mesmas. XXII. ]No Guajará, sitio mui próximo ao Pará , ti- nhão os Topinambás ainda huma fortificação , feita de páo a pique , como he costume dos índios , e aqui se fa- zião fortes. Para a expugnar foi nomeado o capitão Pe- dro Teixeira ( que tão celebre havia ser depois ) o que satisfez trazendo os acreditados despojos da victoria , que sempre o costumava seguir. período porem ultimo da destruição , e dispersão dos Topinambás foi o anno seguin- te , em que unidas as forças de Pernambuco, Maranhão, e Pará denotarão de todo as aldeias doGuanapú, Carapi , e ultimo resto do Iguape. XXIII. As infelizes relíquias desta valorosa nação se entranharão nos bosques até lugares remotíssimos. Forão porem passados annos reduzidos alguns Topinambás aal- deiarem-se nas nossas missões conduzidos do rio Tocantins, e Jguaçu , paraonde se tinha refugiado a maior parte da nação: e no anno de 1661 tínhamos ainda bastante nume- ro em povoações próprias, e nosserviamos na guerra con- tra as mais nações de Índios , que sempre respeitarão o no- me Topinambá. Hoje existem alguns índios desta nação nas nossas povoações de Villa de Conde, Caaeté , e Azeve* do , mas quasi sem nome , e fama. to Díario. da Viagem " XXIV. Os que vivião no rio Topinambarana , que deo motivo a esta digressão , descerão para elle das ca- beceiras do Madeira (a). Consta, que depois da destrui- ção, de que temos fallado , chegarão os que escaparão ás povoações do Peru , e que lá viverão no domínio Hes- panhol. A causa da sua fugida , conta-se ,. que fora , por- que matando num Topinambá huma vaca, foi açoutado pelos Hespanhoes , e que não podendo a nação sofrer esta injuria tomou a resolução deseauzentar , lançando-se pelo •rio abaixo até a situação , de que falíamos. Os desta povoa- ção conservão ainda a memoria dos seus antepassados : fallavão lingoa geral : dizião que a cauza da sua disper- são pela maior parte da America meridional fora a difi- culdade de subsistirem juntos , por serem muito numero- sos : exemplo bem semelhante ás irrupções dos povos do norte da Europa , e que dá a conhecer que os Topinam- bás naquelle^ tempo ignora vão a agricultura , cauza ver- dadeira de similhantes transmigrações. Basta de digressão , c continuemos a nossa viagem , cuja ociosidade afará des- culpada. XXV. 26. A remo, e vella andamos este dia até ás oito da noute , em que cessamos de navegar , e nos en- costamos á ponta de huma ilha, não só para melhor nos livrar da praga dos mosquitos ( postoque pouco nos livra- mos ) mas caçar marrecões , e marrecas na extremidade da praia , a que cosíumão vir dormir. XXVI. 27. Por nove horas da manhã entramos na villa de Borba. No alto de huma ribanceira, e na mar- gem Oriental do nosso Madeira estk situada esta villa. A sua forma consiste em huma grande praça de quatro la- dos, que cheios de cazas, fazem quatro ruas, as únicas que tem. Dista da foz do tío vintequatro legoas. Antes de erecta em villa se denominava aldeia do Trocano. Ti- nha occupado antecedentemente não menos que três situa- ções superiores á em que se acha , que todas se forão suces- sivamente desamparando, por cauza das hostilidades dos índios Muras,, que cruelmente infestão este rio. XXVII. As nações de índios, de que presentemen- *•* — ^ <«) Relation de la rivisre des Amazones , par Gomberville chap. 6$, da Capitania, do Rio Negro; tir te se compõe esta villa , são Ariquêna , Barê , Tora, Orupá. lie perseguida dos índios Júmas, que costumao vir roubar, e matar os que achão descuidados nas ros- sas ; pois esta nação pouco guerreira somente assim acomet- te ■ porem he tão ligeira na fugida , que escapa as mais promptas diligencias. A villa de Borba he o lugar do in- terposito do commercio da capitania do Para com o Ma> to grosso, fazendo-se a navegação por este rio : comer- cio, que pode ter huma grande extenção , á medida, -que se adiantarem os descobrimentos das minas da dita capita- nia , cujo ouro he de finíssimo quilate, e que pode fazer populoza , e rica esta villa. Seria convenientíssimo , que se lhe introduzissem cazaes de brancos ; porque se acha muito falta de gente , que possa fazer florecer nella a agri- cultura , que em attenção á bondade das terras receberia extraordinário augmento. m . XXVIII. Reside nesta villa hum destacamento mili- tar commandado por hum official , não só para facilitar, e proteger a communicação com Mato grosso , mas para repellir as invasões dos Muras. ] XXIX. 29. No dia de hoje , e seguinte me dilatei nesta villa, e parti no immediato. Com a navegação des- tes dous dias chegamos á barra do Madeira , que entra no Amazonas na altura de três grãos , e vinte e tantos minutos sul : Foi quasi igual a navegação da descida a da subida; porque estava o rio tão estagnado y» que pare- cia hum lago morto ; sendo que na enchente , cuja força maior he no mez de Abril , este he hum dos rios mais im- petuosos deste continente; de sorte que a viagem , que agora fizemos em dois dias , costuma ser para cima ao me- nos de sete. ' XXX. O rio Madeira já era conhecido no tempo da viagem de Pedro Teixeira. O seu nome era Cayari ; mas quando os Portuguezes o descobrirão, vendo_ que ar- rojava consigo multidão de grossos troncos , principalmen- te cedros arrancados das montanhas do alto Peru ,■ aonde nasce , lhe derão o nome de Madeira. Postoque no anno de 1716 já a elle se fizesse huma expedição contra os índios da nação Tora, commandada pelo capitão mor do Pará , João de Barros da Guerra, que fatalmente, mor- ' B 2 —r— "ti. Diário-- da Viagem ^eo por cahir em cima da canoa , em que se transportava : ■iiiim pezado páo, arrancado casualmente da margem do ^ rio , riscos a que estão expostas estas viagens. Com tu- do o seu verdadeiro descobrimento foi no anno de 1725 pelo sargento mór Francisco de Mello Palheta. A largura da sua boca, conforme o calculo deMr. de Lacondamine , «ao duas mil , e novecentas varas castelhanas. XXXI. Por este rio se sobe á capitania de Mato grosso , depois de vencer as perigosas cachoeiras , ou ca- tadupas, que diíicuítão a sua navegação; das quaes a pri- nieira^se encontra passados vintecinco dias de viagem da boca do rio. Nas suas fontes tem o nome de Goaporé na altura de quatro grãos de elevação austral. As observações líiais certas mostrão , que o Goaporé não lie o verdadeiro tronco do Madeira , mas que este se forma dos dois rios Bení, eínim, que se unem. Na de dois e meio, e alguns minutos, entra nelle o Mamoré, que desce de S. Cruz de ia Sierra no alto Peru. XXXII. As terras do Madeira são muito férteis. cacáo lhe he naturalíssimo. Ás arvores delle se estão ven- do á margem em grande número , e muito frondozas. He porem assaltado do Mura, gentio de corço, eque somen- te vive de caça, pesca, e frutas do mato. Accomete sem- pre a seu salvo , fazendo emboscadas, principalmente nas pontas da terra, em que costuma haver correntezas; por- que, emquanto as canoas trabalhão a passalas, de cima despedem multidão de frechas. Os seus arcos excedem a altura de hum homem. As pontas das frechas são guar- necidas de largas tacoaras, isto he, pedaços de huma cana rija chamada taboca , largos de quatro dedos, e compridos palmo e meio , com huma agudíssima ponta , que pene- tra muito, e faz mortaes golpes. Não usão porem de fre- chas ervadas. Suppõe-se què ignorão o segredo de fa- bricar o veneno, e não assaltão de noite. Estes são os inimigos, que temos de recear nesta viagem: principal- mente no rio dos SolimÕes, que presentemente in/estão em grande numero. XXXIII. ^ Outubra 1. Tínhamos passado a noite ante- cedente , depois de dobrada a ponta, que termina a ter- ia do poente do Madeira, encostados á margem austral do da Capitania do Rio Negro. 13 Amazonas. A innumeravel multidão de mosquitos chama- dos neste paiz carapaná , de que abunda, nos cauzou incrí- vel mortificação: Outro flagelo desta viagem , e que he necessário toda a constância para o sofrer. Ao amanhe- cer continuamos a navegar pela mesma margem , rom- pendo impetuosas , e continuas correntezas. Nesta manha passamos a boca do rio Uautás , povoadissimo do JVKira ; e communicado com o Madeira por hum canal superior a villa de Borba. XXXIV. 2. Costeando a mesma margem tomos dor- mir á boca do Váquirí espaçozissimo canal , quesahindodo Amazonas pouco acima do lugar, em que nelle desagua o Rio Negro, torna a surgir ao mesmo dois dias de viagem superior ao Madeira. Deixamos aqui poisa corrente do Ama- zonas , seguindo o dito canal , não só por ser atalho , mas para nos livrar das correntezas chamadas de Poraquécoá- ra, isto he, buraco das tremelgas (torpedo) por serem frequentes no dito sitio. Ninguém ignora a terrível quali- dade deste peixe , que chegando a tocar o corpo , causai nelle hum estupor, privando-o de toda a acção, e que tem porisso cauzado a mofte a muitas pessoas. O Reveren- do Doutor Vigário geral desta capitania Joze Monteiro de INoronha no seu roteiro manuscripto da viagem das Ama- zonas nos segura, que neste estado ha tremelgas, que pezão mais de quarenta libras. Refuta a opinião de JVIr. Laurencini , que colloca as tremelgas na classe dos vivipa- ros, affirmando, que são oviparos, postoque depois de nascidos os filhos os cria entre as guelras, como íaz a peixe piráurucú. \.r m :•' r,ij XXXV. Porem Mr, Laurencini fallara das tremel- gas da Europa inteiramente diíTerentes das deste estado, e talvez que aquellas sejão viviparas. A tremelga^deste, continente he em forma de enguia, mas de extraordinária, grandeza. O entorpecimento he o mesmo, mas duvido da explicação deste fenómeno, tal qual a dá o author daObra^ — Cours. d^Hist. nat no tom. 5. pag. 104, e!05. daedic., em 12. de Pariz 1770. = Attribuindo-o á iigura do peixe; porque sendo os effeitos iguaes na da Europa ,e America, as figuras são inteiramente diversas. Os da Europa chatos, e os da America oblongos* *4 Bi AMO DA Viaôem XXXVI. 3. Ao amanhecer fomos seguindo a via» gem pelo sobredito canal , e não sem receio do Mura por termos visto vistigios recentes da sua assistência eiu alguns lugares. Por seis horas, e meia da tarde o tínha- mos vencido , e chegamos ao Amazonas. Ficamos neste lugar para na, manhã seguinte atravessarmos o rio, e se* gmr viagem pela sua margem do norte. O rio Amazo- nas da íoz do Rio Negro, paracima , se chama pelos Por- tuguezes Sokmoes , denominação que tira da nação Sorí- mao, que o habitava, cujos restos ainda se achão no lu- gar de AlveIlo& Não he novo, que hum rio, que passa por diversas províncias , tome também differentes nomes . e na America he muito vulgar appellidarem-se os rios dos nomes das nações dominantes , que os habitão , ou habita- rão. XXXVII. 4. Entramos pois neste dia a navegar o famoso Sohmoes , nome que daqui em diante daremos al- gumas vezes ao nosso Amazonas. Seguimos a sua margem septemtnonal , passando em toda esta manhã impetuozas correntes , que a remo custavão a vencer. Foi pouco agra- dável o dia de hoje; porque alem das continuas corrente- zas, toda a margem , que era necessário seguir em pouca distancia da terra, estava embaraçada de grossíssimos tron- cos , e ramos de arvores , ou arrojadas do rio , ou cahi- das da terra da mesma margem. Esta estava continuamen- te desabando em largas porções. Passávamos por baixo de arvores altíssimas, que já ameaça vão momentânea cahida; porque 6 terreno pouco solido , as raizes já á superfície, e a agua sucessivamente minando, assim o indicavão , e a cada passo se vião terras precipitadas de fresco. Este Jje hum dos grandes perigos desta viagem , e que tem si- do a cauza de muitos naufrágios com perda de innume- raveis vidas. XXXVIII. Perseguio-nos no dia de hoje a praga do pium , insecto de corpo minutíssimo , mas cuja morde- dura faz huma chaga, tamanha da cabeça de hum alfi- nete , precedendo cruelissima dor. As minhas mãos, e caraso em hum dia , estavão já cheias de chagas. A dif- iereUça deste mosquito aocarapaná consiste , em que o pium be mais pequeno , e somente morde de dia, e qualquer da Capitania do Rio Negro. £f roupa o defende. O carapaná porem morde de dia, e de noite , e passa três dobras de qualquer roupa excepto a seda bem tapada. Os Judios de algumas nações costu- mão cobrir-se de massas, e betumes, que prepárão para este fim , e que ao mesmo tempo lhes serve de ornato. Ha também a mutuca, mosca grande, que somente persegue de dia , e faz com a sua mordedura huma chaga. A mu- ruçóca he outra espécie de carapaná. O mariuim , he hum insecto quasi invisível por pequeno , que aflige com as picadas, easua hora mais ordinária he ao pôr do Sol. Es- tes são os hospedes , que todos os dias e noites nos vinhão comprirnentar, sendo o carapaná o mais importuno,^ por inquietar na hora do sono, e o piúm o mais terrível, porque as suas venenozas picadas tem cauzado a morte a muitas pessoas , principalmente aos índios , que andão nús no mato. XXXIX. 5. Na manhã deste dia passamos junto á boca do canal chamado Guariba , que communica o So- limões com o Rio JNegro , sahindo hum dia de viagem aci- ma da foz deste , e poronde se segue a navegação na en- chente. A's três da tarde apertamos no lugar, em que es- teve á poucos annos o pesqueiro estabelecido para subsis- tência da guarnição da capital desta capitania , por ser abundantíssimo de tartarugas , o qual se mudou por cau- za das continuas incursões dos Muras , e como poraqui costumão cometer as suas hostilidades estes atrocíssimos piratas, demos ordem á nossa defeza. Fica adiante em pou- ca distancia o rio Manacapurú , e antes delle huma rapi- díssima correnteza, em cuja passagem he que os temía- mos. Estava huma alta summaumeira , arvore, em que clles costumão fazer as suas atalaias , e naquella mesma muitas vezes o tem feito , como nos avizou o piloto expe- rimentado nesta viagem. Mandamos a terra hum soldado , c índios armados, e depoisque derão sinal, que não ha- via nada , entramos a passar a correnteza a remo com in- crível esforço dos índios. Demos logo em huma pedra, e tocou a canoa com tanta força , que nos vimos quasi so- sobrados, e a não ser a embarcação nova, e forte era im- possível o não abrir. Tomou-se novo esforço , e continua- mos a remo, mus tudo foi inútil. Puxou-se a canoa á.cor» » ió* Diarto da Viagem àa, ; mas toda a diligencia de huma hora se maiogron. Em fim depois de muito trabalho dos índios neste parti- cular destríssimos se chegou a vencer. Logo acima ficava nova correnteza , que se passou com menor difficuldade postoque sempre á corda , fomos descançar á boca do rio Manacapurú. He este rio de agua preta: entra na margem septemtrional do Solirnoes , não arroja muitas aguas ; po- rem he abundante em salsa parrilha, óleo de cupaiva , e cacáo. Seria coinodissimo lugar para se formar huma povoação, e que muito utilizaria esta capitania, senão dificultassem este estabelecimento as hostilidades do gen- tio Mura: povoação de que se necessita para encher o in- tervalo despovoado , que medêa da foz do Rio Neo-ro até o Coarí. XL. Fizemos neste dia boa pesca de pirápitinga , ex- cellente peixe, grande, chato, e de escama; de tamba- quí , que he quasi similhante áquelle , e só differe em ter este a escama mais grossa, e de cor amarellada 5 de piráíba, peixe de extrema grandeza, edepelle. Hum des- tes saltou na canoa , quando vinha navegando , e com tan- ta forca, que chegou a quebrar algumas obras, tendo a- temorizado a todos pelo repentino , e inopinado salto. XLL 6. Na noite antecedente descançamos, passa- da a boca de Manacapurú. Na madrugada deste seguimos viagem. Ao raiar do sol aportamos em huma dilatada praia, ao que nos convidou a multidão de gaivotas , que a ro- deavão , para o fim de lhes tirar os ovos, que em innu- meravel numero de ninhos estavão semeados pela dita praia: juntamente os ovos de taracajás. Os ovos das gai- votas são inteiramente similhantes no sabor aos da gali- nha. A casca he fina , e toda cheia de pintas pardas , e ne- gras. XLII. Os do taracajá são brancos, e a sua casca he mais membrana, doque casca. O taracajá he huma es- pécie de tartaruga mais pequena , com a concha superior mais convexa. Logoque as praias entrão a descobrir, sa- nem os taracajás a desovar nellas , largando até vinte e quatro ovos. / XLIII. Alem destas qualidades de ovos , tem sido nesta viagem muito vulgares os do mutúm , que exce r I â. J — l BA Capitania do Rio Negro. 17 dem em grandeza os do perum , e os do camaleão , animal se- melhante ao lagarto , que os índios comem , e os ovos delle. XLIV. Ioda a margem do rio, que hoje corremos, estava cheia de vistosos canaveaes , de que os índios fazem as suas frechas. XLV. Foi abundante a caça de mutuns , marrecas, e gaivotas ; mas todos estes divertimentos ficarão dissabo- reados com o accidente de se introduzir a canoa entre cois páos , que por estarem debaixo da agua , não era possivel evita-los. Vinha muito seguida, e por essa razão mais pe- rigoso o toque. Custou indizível trabalho a desembaraça-la, sendo necessário tirar-se da popa com cordas ; pois ficou tão sujeita entre os dois páos, como se de propósito alli a encalhassem. He este hum dos grandes riscos, a que estão expostas as embarcações , e que tem feito naufragar irre- mediavelmente a muitas, e principalmente quando o páo , em que tocão , está de ponta para a embarcação. XLVI. A 1 noite fomos portar á boca do lago Tara- cajás , para juntamente nos livrarmos de huma trovoada, que ameaçava; porém pouco tempo nos dilatámos , porque foi tanta a praga de mosquitos earapanás , que mudámos de lugar, continuando a navegação por huma noite tene- brosa. Chegámos ao lugar , que nos pareceo seria mais li- vre da praga , mas ficámos enganados , porque havia mais. Ninguém pôde dormir , e pelas duas horas da ma- drugada principiámos a navegar. XLV II. Desesperada situação até o meio clia ! por- que o carapaná , que ficou da noite antecedente , conti- nuou a fazer-nos guerra , juntamente com innumeravel pium. Ao meio dia chegámos ao Guajaratlba, onde ante- cedentemente estava a povoação de Arvellos ; situação muito fértil em cacáo. Adiante fica huma enseada cheia de voltas , e resacas , que dão origem a varias corrrente- zas , por causa dos combates das forças centrífugas , e centrípetas das aguas. A huma destas correntezas chamão- lhe na lingua dos índios J urúparí-pindá , que quer dizer anzol do diabo, emallusão á sua impetuosidade, como que ao passa-la puxasse o diabo pelas embarcações para traz , e as não deixe surgir. Com incrivel valentia dos índios a pas- samos a remo. C i8 Diário da Viagem XLVIII. Acabada a enseada , passando junto de hu- ma ilha rodeada de vistozos paizes , nos accometeo huma horrível trovoada, perigoza naquella situação por cauza dos baixios. Vimo-nos porem obrigados a correr com ella t içada a vella a meio mastro , e outras vezes menos , e com ella chegamos defronte do rio Purú , aonde entrou a apla- car , e daqui atravessamos para a margem meridional a pro- curar huma ilha, quasi fronteira aboca do mesmo Purú, que por aquella parte desagua no Solimoes , na altura aus- tral de três gráos , e cincoenta minutos. Tem o Purú as suas remotíssimas fontes na cordilheira do Peru não muito dis- tante da cidade de Cusco , antiga capital dos infelices Incas senhores daquelle vasto império. Entre os rios tributários do Amazonas, elle dando-lhe extraordinária porção de aguas , he também o que produz nas suas margens , e ex- tensas matas quantidade de cacáo , salsa parrilha , e óleo de cupaiva , géneros, que annualmente se lhe extrahem pelas embarcações das capitanias do Pará , e Rio JNegro , e em que consiste o seu principal commercio das drogas do certão : postoque o cacáo costuma produzir por annos alternados. Os indios das nações , que o habitão , são fra- cos , e nelles tem feito os Muras cruéis destroços. XLIX. Entre as mais superstições da nação Purús, he famoza a do rigorozo jejum expiatório , a que se entre- gão por huma lei de religião. Emquanto elle dura , ain- daque sobre venha alguma moléstia , não tratão de si , nem comem mais doque lhe he permitido no jejum ; de sorte que muitos morrem desfalecidos : sendo necessário aos que vivem na nossa povoação de Arvellos acautellar- Ihes o tempo deste jejum , para os livrar da morte fazen- do-os comer á força. O seu antigo nome era Cochiuuará, que ainda conserva huma das suas bocas. São quatro , as poronde desagua. Era antigamente povoadissimo , e as suas margens se achavão cheias de maiz , e mandiocas. JNelle, conforme referem algumas relações , habitavão gigantes de dezeseis palmos de altura. L. 8. Fomos nesta manhã seguindo a margem do sul , para evitarmos o transito das correntezas chamadas Aruanácoára, isto he , buraco do peixe arauaná , ali mui- to frequente. O peixe arauaná he comprido , mas estrei* da Capitania do Rio Negro. 19 to, chato, escamozo, de bom gosto; porem cheio de es- pinhas. A's sete da manhã avistando-se huma praia, enel- la multidão de tujujús , ave de que já falíamos, desce- mos para lhes atirar, e juntamente fazer huma pescaria. Com quatro lanços de rede pescamos innumerayeis espé- cies de peixe : principalmente jandihás , surubins , pirá- inambus, piráaráras , vacús , uacaris , pirapucús , piraan- dirás , e outros. O piráiuambú he de delicado gosto. A escama do uacarí he huma concha unida , postoque de figura ordinária de peixe. A sua boca he hum buraco, que anda sempre na terra, e sem divisão de queixos. O piráandirá, ou morcego , tem no queixo inferior dous den- tes agudíssimos, e compridos, e com o focinho semelhan- te ao do morcego. LI. De tarde tornámos a procurar a margem do nor- te , navegando com algum vento , encontrando porem bas- tautes baixios , ao atravessar para as ilhas , sendo necessá- rio passar a canoa á vara por largos espaços. Viemos esta noute dormir defronte deCochiuuará, que como fica dito he huma das bocas do Purús distante oito legoas da prin- cipal , e que nos ficava na margem opposta. LIl. 9. Querendo navegar na madrugada, hum for- tíssimo vento, que soprava pela proa, nos obrigou a re- colher. De manhã continuámos, postoque ainda com bas- tante vento , algumas correntezas , e não poucas terras cahidas. LIII. A's oito da noute passamos aboca do lago Cu- daiás , e fomos dormir á ponta da terra , que termina a enseada , em que elle desagua , que he pelo norte. O Cu- daiás he hum lago extenso. Recebe aguas de outros vá- rios lagos. Esta boca tem sido tida ( postoque erradamen- te ) pela inferior do Jupurá. IS este celebre lago tem ho- je assíduo domicilio o gentio Mura, e daqui extendem as suas incursões ao Rio Negro pelo Uniní , e Quiyuní , que ambos desaguão nelle , e tem o seu principio próximo aos lagos do Cudaiás. He abundante de salsa parrilha. Nas dilatadas praias das suas vizinhanças se fazem annualmen- te muitos mil potes de manteiga de tartaruga , que nellas desovão , que he hum dos lucrosos ramos do commercio desta capitania. C 2 2© Diário da Viagem LIV. 10. Serião três horas da madrugada, quando partimos. Ao amanhecer avistámos na margem austral a boca (ioCoyúuaná, huma que dá sabida ás aguas do Pu- rús distante da principal deste quatorze legoas , e meia. Foi muitas vezes passada acanoa ás varas ; porque os mul- tiplicados baixios, e restingas não da vão lugar á força do remo , e as rápidas correntezas do seio do rio , obriga- vão a seguir necessariamente a margem. Navegava-se pe- la do norte , que ás onze deixámos com pouca distancia da segunda barra do Cudayás , e entrámos a procurar a do sul , introduzindo-nos por entre duas ilhas , até onde ter- minava a da esquerda , e alli descançámos. Continuou-se a viagem pelas duas da tarde, seguindo hum canal for- mado pelas ilhas , que girava por vários rumos. Erão es- ias ilhas de vista alegre ; porque despidas de densos arvo- redos , que rodeão a margem do rio , se achavão unica- mente em partes copadas de floridos canaveaes , e em ou- tras revestidas de agradáveis bosques de ambaubeira , e os claros alcatifados de formozo verde da curta canabra- va. He a ambaubeira arvore de merecimento. A casca do seu tronco , e ramos he esbranquiçada. Separa muito os ramos , e nelles he pouco espessa a folha , a qual tem se- melhança com a da figueira. O fruto das mansas he hum cacho de uvas, cujos bagos , do tamanho, e côr de hum figo preto de mediana grandeza , são de doce , e gcstozo sabor. Cada cacho tem até cincoenta bagos. A película, que rodea o bago , he áspera , e se lhe extrahe para co- mer a fruta. LV. A's cinco da tarde sahimos daquelle canal, e principiámos a costear a margem do sul. Fica neste lugar hum extenso caçoai plantado pela natureza, que agora es- tava em flor , e prometia abundante colheita. A elle vem annualmente as canoas do commercio fazer as suas cargas. Entra daqui a correr a dilatada enseada chamada do Ca- mará , que fomos rodeando até nove e meia da noute , e aportámos em huma ilha junto da boca do rio Arú, que pelo sul nella desagua. O Arú he outra barra do Purús. Grassão por esta paragem frequentemente os Muras. LVI. 11. Toda a noute de hontem , e a maior par- *4è da manhã de hoje gastamos na enseada do Camará. Com ■ da Capitania do Rio Negro. 11 á ardência do sol veio huma infinita multidão de piúm , que nos atormentou com as suas venenozas picadas. . Pas- ta este vilissimo insecto na flor do uasacú , arvore ve- nenosa , que subitamente mata homens, e animaes. Del- ia uzão os Índios para pescar. Como por aqui erão muitas aquellas arvores porisso também se encontrou tanto piúm. LVÍI. Depois de algum descanço desde as onze até ao meio dia, continuámos a viagem para nos aproveitar de hum bom vento , que de popa nos servia , navegando quasi sempre por entre ilhas. Estas são aquellas famozas ilhas tão povoadas pela nação Jurímauás no tempo da via- gem de Pedro Teixeira, ehoje inteiramente deshabitadas. A. nação dos Jurímauás era a mais numerosa , e belicosa do rio Amazonas : Eila oceupava sessenta legoas de terra na margem do sul, alem das ilhas adjacentes. Quando pas- sou o nosso incomparável Pedro Teixeira o esperarão sem. medo algum , ao mesmo passo , que as mais nações de ín- dios fugião para o interior da terra : derão-lhe viveres , com que chegou ao Pará , e lhe fizerão boa hospedagem. Em 3 709 tínhamos ainda^huma povoação dos Jurímauás no sitio chamado Táyaçutiba fronteira ao rio Jurúuá , aqual foi assaltada pelos jesuítas hespanhoes , levando todos 03 índios, com que fundarão a sua povoação, que conserva o nome daquella nação. .No lugar de Arvellcs ainda hoje se achão alguns poucos Índios delia. LVIII. A^s cinco da tarde atravessámos aboca do Mamiá , que pelo sul se mete no Amazonas. He de agua preta , habitado de Muras , e fértil em cacáo. Navegámos até ás dez da noute , ao que nos convidava a beila clari- dade da lua. Dfscauçámcs na situação chamada Paricáti- ba , que quer dizer lugar aonde he abundante a arvore paricá , cuja fruta torrada , e reduzida a pó subtil he uni- versalmente o mais estimado tabaco dos índios, e do qual uzão nas suas festas chamadas Parasse, cauza do paricá, e para as quaes tem destinado nas povoações huma gran- de caza , sem repartição alguma, e denominada também, do paricá. A ceremonia desta festa he na forma seguinte. Primeiramente se açoutão huns aos outros com hum azor- rague feito de couro de peixe boi , anta , ou veado , e em falta disto de pita bem toícida , e do comprimento de hu- 22, DlARiO DA VlAGEM. ma braça. Na ponta lheatão huma pedra , ou outra qual- quer matéria solida , que fira. Com este instrumento se acoutao dous a dous , estando hum em pé com os braços abertos , emquanto o outro o fustiga á sua vontade , e logo a seu turno o açoutado faz a mesma operação ao açoutante. Gastão-se oito dias nesta cruelissima cerimonia, e no emquanto as velhas preparão o paricá , eas mais mu- lheres fazem o vinho de frutas, ebeijú , chamado payaua- rú. Finalizada a função dos açoutes , se entra a tomar o paricá , sendo companheiros neste prazer os que o forâo nos açoutes. modo de tomar o paricá he desta forma. Cada hum dos companheiros tem seu canudo na mão cheio do pó , e aplicando huma das extremidades aparte direi- ta do nariz do companheiro , pela outra sopra com incrí- vel força , e logo enche novamente o canudo , e repete a operação na parte esquerda. outro companheiro faz lo- go o mesmo. Dura este exercício todo o dia , e principia- se logo a beber o vinho , que dura toda a noute. He tão violenta a força do paricá , e do vinho , que faz cahir quasi mortos todos os que os to mão , sucedendo muitas ve- zes morrerem alguns soffocados do paricá : porem os que acórdão, passada a bebedice, tornão de novo a conti- nuar a festa pelos oito dias que ella dura. Esta festa he annual. He a recruta de novos soldados , ou aprezentação de rapazes para o estado varonil. LIX. 12. Antes do romper da alva seguimos a via- gem pela mesma, costa meridional, para entrarmos no rio Coarí , que por aquella margem paga apenção das suas aguas ao nosso Amazonas. Ao chegar do dia fomos logo avistando as altas e escarpadas barreiras , compostas de barro vermelho , que rodeão aquella costa : lugares pró- prios para os assaltos dos Muras , e aonde tem tirado mui- tas vidas: porisso se duplicou a nossa vigilância. LX. Erão já quatorze de continua, e fatigante via- gem , depoisque sahimos da villa de Borba no rio Ma- deira , em huma distancia não menos, que de cem legoas , sem ver mais que agoa , terra , e irracionaes , sem encon- trar ao menos hum passageiro. Tudo nos fazia appetecida a chegada ás povoações , não havendo huma só naquelle dilatadíssimo inter vallo , a que pudéssemos aportar , falta wrwam* , da Capitania do Rio Negro. 23 bastantemente nociva ao bem da navegação , do commer- cio, e augmento desta capitania, eque só pode achar re- médio na inteira destruição do gentio Mura, que impede os estabelecimentos naquellas terras , aliás fertilissimas. LXI. A*noute entrámos pela boca do Coarí , a qual , depois de se ver a largura interior do rio, não parece mais que hum canal por onde desagua hum lago. Com effeito em brevissima distancia principia o rio logo a formar de li um a e outra margem extensíssimas enseadas , que chegão a dar-lhe duas legoas de largura ; e como este rio em pou- cos dias de viagem começa a coangustar-se , faz com que pessoas julgão ser laum lago no lugar da sua larga bahia. O Coarí he navegável hum rnez de viagem. Corre do sul ao norte , e entra no Amazonas na altura austral de quar tro gráos. Para formar aquella dilatada bahia , concorrem os rios Urucúparauá , eUrauá, que pelo occidente se unem ao Coarí. O peixe deste rio he muito saboroso. As suas aguas são pretas na apparencia , vistosas as praias , que o bordão. Foi antigamente povoado de varias nações , que o desam- pararão, depoisque os Muras estenderão até ali as suas correrias. LXII. Navegámos pelo Coarí até ao meio dia , e che* gamos ao lugar de Arvellos situado na sua margem orien- tal a quatro legoas em distancia da barra. Depoisque juu* to a hum riacho, que estende huma larga praia, se se- guem prolongadas h limas barreiras pouco altas , que são as extremidades da planície , em que está assentado aquel- le lugar, correndo em huma só rua por toda a extenção da mesma praia. Esta he a quarta situação , que tem tido este lugar, tendo sido mudado de varias paragens do Ama- zonas por causa da praga dos mosquitos, e dos Muras. He porem muito sugeito a trovoadas, que com grande fúria ali batem. Se esta situação ficasse roais próxima da barra, se poderião aproveitar os seus habitantes das terras do Ama- zonas , principalmente das ilhas para a plantação do cacáo 5 porque as visinhas ao lugar são inundadas de formigas, e não lhes sendo possível separarem-se para longe com o receio do Mura, causa mencs abundância na povoação, inutilizando todo o género de plantações. LXIII. As nações de índios , de que se compõe este _- ~^- 2,4 Diário da Viagem lugar sao : Sorimão , Júma , Passe , Uayupí , írijú , Purú , Catauuixí , que com alguns moradores brancos fazem hum avultado numero. LXIV. Os Catauuixíz herdão humas manchas bran- cas sobre a cútis de diversas figuras , e em diíferentes par- tes do corpo , como pés, mãos, pescoço, cara &c. Não concorre para isto artificio algum , nem tão pouco aquel- las manchas acompanhão os partos , quando nascem ; mas depois he que principião a sahir em crianças , adultos , e alguns , que já passão de vinte annos de idade , e em outros se não conhecem. He porem digno de notar , que estas man- chas se commanicão como contagio a outras pessoas. Exami- nem os filósofos , e professores da historia natural a cauza des- te prodigiozo fenómeno , que eu não posso comprehende-lo. hXV. Grassa vão neste lugar funestamente as bexi- gas , aindaque já estavão terminando. Alem dos indios , que morrerão , tinhão desertado muitos, principalmente da nação Purú , com medo delias. Medo bem fundado ; porque as bexigas em indios he mal mortal , e de que ra- ros escapão. Attribue-se a cauza á dificuldade de erupção das bexigas, considerando-se , que a cútis dos indios he menos poroza ; porque andando continuamente nús , e ao ar, e quasi sempre dentro da agua , vem a ser huns ani- maies amfibios , e necessariamente hão de ter os poros do corpo mais cerrados. Seria couza felicissima , que se in- troduzisse nas povoações dos indios o fácil, e proveitozo methodo de inocular, ou enxertar as bexigas. Que milha- res de vidas se não pouparião ! LXVI. Tive aqui grande numero de prezentes de varias frutas , que as indias com interessada liberalidade me trouxerão. Ananazes dulcíssimos, ede varias espécies , fruta a que a natureza deo a coroa paraque se conheces- se , que era o rei. delias , e porisso o celebre Capucho (a) que com as mais exquisitas , e esdrúxulas allegorias es- creveo das frutas do Brazil lhe chama =: O Sr. Dom Ana- náz áz Maracujás de agradável gosto. A arvore de Maracu- já he a que em Portugal se chama vulgarmente dos mar- (a) Fr, António do Rosário liv. iotitul. Frutas do 3rax.il. impresso cm 1702. da Capitania do Rio Negro. ^ tyrios. Engázes , que tem semelhança ao cazulo da fava , mas que são do comprimento de dous palmos e meio, è largura de dous dedos. Dentro deste cazulo se incluem por todo o seu comprimento muitos caroços da grandeza da ameixa , cubertos superficialmente de huma sustancia co- tanoza , e frigidissima , que he o que se come. Os indios fazem grande estimação desta fruta , que não deixa de ser saboroza , e há de diversas espécies. LXVII. 13. 14. Parte do dia de hoje com os dous seguintes me demorei neste lugar. Breve dissertação sobre o nome do rio Amazonas , e sobre a existência das mulheres Amazonas. LXV1II. Tinha eu lido no diário de Mr. de laCon- damine , que illustrou esta povoação com a sua prezença , as diligencias , que este erudito académico fez aqui para averiguar a verdadeira origem das celebres Amazonas, que derão cauza ao nome deste famozo rio. O que me sus- citou também a lembrança de fazer as minhas averigua- ções. O dito Condamine relata (a), que fallara neste lugar com hum indio , que teria setenta annos de idade , e que occupava certo posto naquelle povo: e este o assegurara, que seu avô , achando-se na povoação de Cuchiúuará ( hu- ma das bocas dos Furús , de que já acima falíamos) vira humas mulheres Amazonas, que tinhão vindo do rio Ca- jamé , com as quaes tratara, e communicára. LXIX. Perguntando pelo dito indio achei , que era o sargento mór da ordenança Joze da Cesta Facorilha , já falecido : porem outro indio do dito lugar chamado Jo- ze Manoel alferes da ordenança, homem já de setenta an- nos para cima , e de bom propósito , natural da diía anti- ga povoação do Cuchiúuará ( que já hoje não existe, por se ter mudado para este lugar de Árvellos ) me assegurou ter ouvido dizer muitas vezes ao nomeado sargento mor , o que este disse a Mr. de la Condamine. Se^urando-me alem disso , que era neste rio constante entre os indies a (a) Extracto do diário da viagem do Amazonas: pag. 56. Edic* Hespanh. de Amsterd. 1745. D — __ 7.6 Diarío da Viagem tradição da existência das mulheres Amazonas, do qual se retirarão , entranhando-se nas terras do norte delle , da boca do Rio Negro para baixo. ~ LXX. Quem não he inteiramente estrangeiro na his- toria da America portugueza , e hespanhúla , não ignora que o rio Amazonas tem tido diversos nomes. O que os Ín- dios lhe davao era Paranáuasú , isto he , grande rio. Os Pinções, que forão os primeiros que virão a sua extensís- sima barra, lhe chamarão Mar doce. O nome de Maranhon , appellido hespanhol , não podia deixar delheser dado por algum descobridor daquella nação pela parte do Períi. Sobre o de Orelhana, e Amazonas diremos agora. LXXI. O Marquez Francisco Pissarro , celebre con- quistador do Peru , mandou aseu irmão Gonsalo Pissarro a descobrir o paiz da canella ; ou-, como outros querem , o la- go dourado, do qual ainda fallaremos. Deu-lhe por offi- cial nesta expedição ao capitão Francisco de Orelhana. Depois de alguns mezes de viagem , desertou este na oc- cazião , em que o seu commandante o tinha mandado adian- tar , e chegando á corrente do novo rio se entregou a ella , e a seguio até o mar. Então he que lhe deu o nome de Orelhana , appellido seu. E sendo acoinmetido na sua via- gem junto aboca do rio Nhauíondás , que desagua no Ama- zonas na altura de dous gráosao sul, por huns indios va- lerozos , entre os quaes peleijavao também mulheres, cha- mou a estas mulheres Amazonas , e ao rio deu o mesmo nome, que perdendo todos os mais antecedentes hoje ain- da conserva. Esta a verdadeira origem do nome do rio. LXXII. Muito se tem discorrido sobre a existência das Amazonas americanas, da sua republica, exclusiva de homens fora do tempo determinado para o congresso , e a sua semelhança com a das asiáticas. Ninguém igno- ra o que escreverão sobre esta matéria Laet , Ralcigh , Cunha , Feijoo , Sarmiento , Coronelli , e Condamine. LXXIIK Os factos , que formão a baze dos seus dis- cursos , são os seguintes. A impozição do nome ao rio , que não he verosímil fosse arbitraria , e caprichosa ; o teste- munho do mesmo Francisco de Orelhana , e da não pou- co numeroza tropa de castelhanos , e indios , que o acom- panharão j a tradição constante entre os indios , e transrnik» da Capitania do Rio Negro. 27 tida até o dia de hoje, acrescendo a prova destes factos ,' e circuinstancias, feita na Real audiência de Quito, e na cidade de Fasto , depondo nesta ultima huma índia em particular, que assegurou ter estado no paiz , onde esta- vão estabelecidas aquellas valerozas mulheres. Acresce mais a tradição, de que ellas se retirarão para o interior das terras, que hoje se charoão a Guiana, ou Goiana, sobindo pelo rio Trombetas, que entra no Amazonas jun- to a Pauxiz, cujas fontes são naquelle paiz. He também certo , que o interior do Goiana não está ainda descober* to, nem por portuguezes , nem por castelhanos , france- zes, ou holandezes, que são as nações, cujas colónias o rodeão , e assim não estando aquelle terreno descuberto , não se pôde afíirmar positivamente , que lá se nao conser- ve ainda hoje a republica amazonica , que o medo dos Europeos faria desamparar a terra nativa. LXXJV. Se são poucas estas conjecturas, formem- se novas sobre o que observou Cunha («) escriptor da re- lação da viagem do nosso incomparável capitão Pedro Tei- xeira. Eisaqui o que elle diz r~ Estes mesmos Topmam- bás nos confirmarão também o rumor , que corria por to- do o nosso grande rio das famosas Amazonas, das quaes tira o seu verdadeiro nome , e pelo qual he conhecido , de- poisque foi descuberto até o prezente , não somente pe- los que o tem navegado , mas pelos cosmógrafos, que del- le tem tratado. Seria couza bem estranha , que este gran- de rio tomasse o nome de Amazonas sem algum funda- mento racionavel ; mas as provas , que temos , para segu- rar , que ha huma provincia de Amazonas nas margens deste rio , são tão grandes , e fortes , que não se pode disso duvidar sem renunciar a toda a fé humana. — LXXV. Depoisque neste lugar refere as averigua- ções feitas em Quito , e Pasto sobre esta matéria , contí- nua — Mas eu não posso callar o que ouvi coro meus ouvidos, e que quiz verificar, logoque me embarquei neste rio Amazonas. Disserão-me pois em todas as povoa- ções , poronde passei , que havia mulheres no seu paiz. como eu lhas pintava , e cada hum em particular meda- I («) Cap. 70 , e 71. na tradução de Gombrevil. \ W 1 28 DiA rio da Viagem va delias signaes tão constantes , e uniformes , que se. a coti- za não he assim, he precizo , que a maior jnentira passe em todo o mundo novo pela mais indubitável de todas as verdades históricas. • L ^ XV1 " Trinía e seis le goas abaixo desta ultima aldeia dos Topinambás (esta lie a aldeia dosTopinambás de que já falíamos no §15.) descendo pelo nosso rio Ama- zonas encontra-se da parte do norte outro , que vem da província das Amazonas, e que he conhecido pela gente do paiz com o nome de Cunuriz ( Nhamundás prezente- jnente , e he aonde Orelhana vio as mulheres guerreiras). Este rio toma o nome dos Índios , que habitào mais pró- ximos á sua boca. Superiores a estes estão os Apótos, que iallão a língua geral do Brazil , mais acima estão os Ta- gàns, e depois osGuacaris que he o povo feliz, que go- za o favor das valerozas mulheres Amazonas. Tem as suas povoações sobre montes de prodigiosa altura. Estes mon- tes existem no lugar indicado, e se chamão vulgarmente a cordilheira da Gojana , que corre ao longo do Amazo- zas: entre os quaes ha hum chamado Tacamiába, que se eleva extraordinariamente sobre os outros, e que he estéril por ser muito batido dos ventos. Estas mulheres se tem sempre conservado sem soccorro de homens, e quan- do seus vizinhos lhe vem fazer visita no tempo assignala- do , eílas os recebem com armas na mão , que são arcos , e frechas, para não serem surprendidas ; mas logoque os conhecem, vão todas de tropel as suas canoas, aonde ca- da huma pega na primeira líamáca , que encontra, e vão prende-la em sua caza , para neíla receber o dono. No fim rie alguns dias , voltão para as suas cazas estes novos hos- pedes , e não faltão de fazer igual viagem na mesma es- tação. As filhas, que nascem deste congresso, são criadas pelas mais , instruídas no trabalho , e no manejo das ar- mas: quanto aos filhos não se sabe bem o que fazem àel- les; porem eu ouvi dizer a hum índio, que se tinha acha- do com seu pai nesta assembléa , sendo ainda rapaz , que no anno seguinte dão aos pais os filhos machos, que pari- rão. Com tudo commumente se crê, que ellas maíão todos os machos, o que eu não sei decidir. Seja o que for, el- las tçm thesouros no seu paiz , capazes de enriquecer todo da Capitania do Rio Negro. ny o mundo. A barra deste rio, ein cujas margens habitão as Amazonas, está em dous gráos e meio de altura meri- dional. — LXXVIÍ. Aqui tem os -apologistas da existência das Amazonas americanas argumentos, e razões convincentes para firmarem a sua opinião. LXXV1JI. Se eu devo agora também dizer o que me parece , confesso , que não cabe no meu entendimento igual opinião. E se examinar- ir. os esta matéria pela regra da verdadeira lógica, e solida critica, devemos assentar, que a existência das Amazonas da America he huma da- quellas preocupações populares, que achando fundamen- to no maravilhoso , que o povo ama, se propagão com extraordinária facilidade. LXX1X. Que couza mais dificultoza de se conceber por qualquer entendimento são , que huma republica de mulheres, que habitem na zona tórrida, governando-se por si , sem admittirem v^rão , senão em certos dias do an- uo ? Que cauzas moraes podemos imaginar, que sejão tão efficazes para vencer a quasi irresistível forçado clima? O animo he summamente agitado nos climas cálidos por tudo , o que he relativo á união dos dous sexos : tudo con- duz a este objecto, diz hum jurisconsulto filosofo, (a) O certo he , que o alvoroço, com que ellas recebião os hos- pedes , e que Cunha jios relata , não mostra , que lhes não era indiferente aquel la união? LXXX. JNão se acha hum ar de fabula naquella sin- gular divisão dos filhos machos, e fêmeas , dizendo-se por huns , queosmatão, por outros, que osentregão aos pais? LXXXI. Qual he o verdadeiro lugar , que habitão as Amazonas? Orelhana vio-as no rio INhamundás. Oindio, que fallou a Mr. de laCondamine deo noticia, que as vio em Cuchiúuará, e que iinhão vindo do Caiamé , oue dis- ta do Nhamundás para cima de cento e tantas legoas , e aonde Orelhana as não vira passeando por aquelles des- trictos. LXXX1I. Mas que havemos de responder aosargu- — ■ [ - ■ ii i i ■■ ■ ' . ... O) Montesq. Esprit. des loix liv. 34. chap. 4. ir»'-? 30 Diário da Viagem mentos da opinião contraria , principalmente aos factos af= firmativos , e positivos em prova da existência das Ama- zonas ? Porem que provas, e factos são suficientes para es- tabelecer o que se pretende provar, quando he hum in- verosímil ? Nenhumas provas são bastantes , semque pri- meiro se reduza o inverosímil a verosímil , que he quasi como huma questão prejudicial , que pede ànticipada , e previa resolução. LXXXIII. Não quero duvidar do facto, e dito de Orelhana. Mas quem pode ouvi-lo, sabendo a sua historia , que não discorra logo : que Orelhana, que desertou do exerci- to do seu general com a mais fea perfídia, necessitava de achar alguma capa, com que pudesse cobrir oseudelicto, fazendo-o ao menos esquecer com fingidas , e maravilho- sas narrações de sorte , que o mundo o tivesse como hum homem prodigioso. O que assim lhe succedeo na corte do Imperador Carlos V, para o que concorria o génio do sé- culo , em que fazião ruido as descobertas da America, e os ânimos dezejosos recebião com admiração toda a quali- dade de novidades , que vinhão continuamente daquella parte do mundo, E qual outra mais própria para atrahir a attenção universal , que a historia das Amazonas? LXXXIV". Os que tivessem algum conhecimento dos costumes dos selvagens da America , não ignoravão , que habitao nella algumas nações , em que as mulheres pele- jão juntamente com os homens, o que prezentemente suce- de com innumeraveis. Os Muturicús, que de quatro an- nos a esta parte hostilisão as nossas povoações do rio To- pajóz , trazem comsigo as mulheres, as quaes na occazião do conflicto lhes subministrão as frechas, como se obser- vou no combate , que com aquella belicozissima nação te- ve o anno passado o commandante da fortaleza daquelle rio, no qual sustentarão valerosamente o fogo , que se lhe fez por hum largo espaço de tempo. A nação Otomáca hu- ma das mais celebres do Orinoco leva as suas mulheres k guerra. O officio destas he aproveitar as frechas , que os inimigos disparão , e ervão , as quaes entregão' aos seus para novamente as lançarem aos inimigos. Eisaqui dous exemplos de Amazonas, e eisaqui quanto bastou, paraque Orelhana , succedendo-lhe o mesmo , tivesse fundamento da Capitania do Rio Negro. 3 1 para estabelecer a sua fabula, complicada cila com o que se dizia das Amazonas asiáticas, não foi necessário n ais para applicar ás da America, quanto se contava daquellas nas historias , que junto tudo ás circumstancias preponde- radas , e aos costumes dos índios , picpensos naturalmente a ficções e mentiras, iizerão criar raízes a esta opinião: favorecendo-a muito o gosto da nação Hespanhola , por quem tem sido transmittida , e apoiada para o maravilhozo. Basta de Amazonas , e prosigamos a nossa viagem. LXXXV. 15. Pelas quatro da manhã sahimos de Arvellos, e ás oito e meia entramos a navegar pelo Ama- zonas-, seguindo a margem do sul. IN a do norte nos ficava a boca do canal Juiçáras , que até aqui tem sido reputado co- mo boca do rio Jupurá , contando-se pela segunda ; sen- do que na verdade pelas averiguações , e exames, que eu fiz nesta viagem, não he mais que hum canal, que desce do outro, poronde se comunicão os lagos Amaná , donde elle sahe , e Cudayás , que o recebe pela dita margem do sul, poronde navegávamos ; também passamos a segunda, e estreitíssima boca do Coarí. De tarde fomos rodeando a costa de Tauána , terras altas , e abundantes em cacáo. No lado opposto nos ficava o canal Copeyá , que também com equivocação se julgava a terceira barra do Jupurá. A^nou- te fomos dormir á boca do canal Arauanaj formada por hum a ilha. LXXXVI. 16. Toda esta manha continuamos a na- vegação pela mesma margem austral , entrando algumas vezes pelos canaes , que as ilhas formavão , e fomos tão per- seguidos de Piúm , que he impcssivel narra-lo. De tarde tivemos igual ou maior perseguição. Cs Índios se chega- rão a impacientar , ao mesmo passo, que são bastantemen- te sofredores destes ineommedos. A maior parte das terras da margem, poronde passamos, erão altas , e compostas de barreiras vermelhas , e amarellas. Estas terras tiuhão si- do antigamente habitadas de índios. Passamos junto ás de Uarátapéra , isto he , lugar da aldeia de Uará , que a na- tureza tem transformado em hum caçoai. INão se pôde bem pintar, quanto seja agradável a vista destas barreiras, por cauza das suas cores relevadas pelo frondozo , e espes- so dos bosques , que á maneira de regulares balaustradas. m m mum ».™ 32 Diário da Viagem lhe ornao os cumes. Como por aqui são muitas as ensea- das 1 e ressacas, também se multipticão as correntezas , que a favor da baixa do rio passamos a remo. Aoanoute- cer , depois de dado algum deseanço aos Índios, continua- mos a navegação pela costa chamada da Tabatinga , que por nove horas tinhamos passado, e fomos dormir junto da boca de hum riacho. LXXXVÍL 17. Tendo navegado toda a manhã, seguindo a mesma margem passamos por onze horas as altas, e vistozas barreiras da costa do Mutúmcoára , que quer dizer , buraco ou lugar da ave mutúm. Erão aqui furiosíssimas as correntezas; porque a terra do norte bo- ja ao rio huma ponta em tanta distancia, que estreitando-o dá impeto extraordinário ás aguas comunicando-ihes a di- recção para a. outra margem. Tivemos a fortuna de favo- rável vento, e com veila , e remo em brevíssimo tempo tinhamos passado aquellas correntezas , e paramos a jan- tar na boca de hum canal formado pelas ilhas. Neste ca- nal desagua o rio Catuá , que ás duas da tarde avistamos. Corre este rio entre outeiros, os quaes são abundantes em salsa parrilha. Habita-o o gentio Mura. Fazia aqui o Ama- zonas grande largura. As terras da margem erãõ baixas, mas cheias de cacoaes. Para a noute fomos encontrando barreiras pouco altas. Por nove horas entrámos na boca do riacho Taruá , para nos livrar de huma trovoada, que do oriente nos sobreveio. Ahi passamos a noute entre trovões , e agua , que durou até ao amanhecer com grande incom- modo nosso. LXXXVHI. Já de manhã entramos a navegar. AV sete e meia passamos a boca do riacho Camuçuá , depois a Giticaparaná , ou rio das batatas, onde medea huma ilha, que prolongando-se forma hum canal. Na margem do nor- te nos ficava outro chamado Uananá , tido pela quarta bo- ca do Jupurá , mas também erradamente. Corre logo pe- la do sul porondè navegávamos , o riacho Itáuarâna , ao qual se segue o rio Caiam é , aonde chegamos* ao meio dia, e ahi descançamos, O Caiamé, postoque a sua bo- ca não seja muito espacoza , não traz comtudo pequeno cabedal de aguas. Em pouca distancia da barra, e ain- da á vista delia começa a alargar-se á maneira de lago. da Capitania do Rio Negro*. 3$ Era tal o cardume de peixe, que fazia incrível estrondo com as pancadas de innumeraveis botos, piráurucús, e outros peixes de extrema grandeza, que davâo caça aos pequenos. Este rio he habitado de gentio Mura , e no mes- mo lugar em que nós aportamos , tinha á pouco tempo mor- to duas pessoas, e defronte proximamente htinia. Tem es- te rio algum cacáo , e salça parrilha. LXXX1X. De tarde fomos navegando por entre di- versas ilhas, na verdade ameníssimas por cauza da agradá- vel verdura de differentes arvores, entre as quaes reina- vão as ambaubeiras. Junto da agoa estavào dispostas em elegante ordem as avairánas belíssimo arbusto. Passáva- mos próximos as bocas dos riachos Pu punha , Genipáva , Seneinbvparaná , ou rio dos Camaleões, e fomos dormir não muito distantes da barra de Tefé. LXXXX. 19. Principiamos a navegar antes de ama- nhecer, e ás seis da manhã entramos pela boca de Tefé. Corre este rio na sua barra com magestade ; porque huma ilba la parte depoente, mas ainda no Amazonas, a engi an- el ece, estreitando-se depois algum tanto, segue-se o largo , que vem sahindo da grande bahia , que este rio forma com largura de legoa e meia. Postoque a estação pedisse, que este rio estivesse já vazio , com tudo ainda estava mui- to cheio, e lhe faltava o principal ornamento de suas mar- gens, que são- as alvíssimas praias, que costumão rodea- lo : mas em lugar delias por toda a sua enteada até á ex- tensa bahia, o cerca vão meias alagadas as araçaranas, vistozo arbusto, cujas flores brancas, e cheias de innu- meraveis estâmes amarelos exhalavão fragantissimo chei- ro. O Tefé desce do sul para o norte. He navegável até dous mezes de viagem , aiiidaque- passados poucos dias não sofre embarcação grande. Produz salsa parrilha , e por el- le navega o gentio Mura, desterradas as nações, que antes o habitavão. LXXXX I. Pelas oito da mesma manhã chegámos a villa de Ega , que oceupa a margem oriental daquelle rio no lugar da maior largura da sua bahia, entre hum pequeno riacho, que desagua no Tefé, e que fecha o la- do oriental da villa, e huma ponta da parte do poente. Forma a terra hum semicírculo, que banha o rio. Esta E "-F "■■ "34 DíARIO DA Vi AGEM terra occupa a villa com pouca elevação a agua. O terre- no he pela maior parte desigual; alem de-huma pequena rua, que corre a frente do rio , tem mais duas para o in- terior de bastante extensão , e povo numeroso. JXesta vil- la habitão moradores brancos. As nações de Índios, de que se compõe , são : Janumá , Tamuana, Sorimão , Jauaná , Tupivá , Aehouarí , Júma , Manáo , Coretú , Xáma , Pape , Jurí , Uayupí, Cocrúna: nações que para esta villa tem sido descidas de diversos rios. LXXXXlí. Tinha antigamente esta villa o nome do rio, e era a principal missão dos Carmelitas. No anno de 1759 foi erecta em villa pelo primeiro governador desta capitania Joaquim de Mello e Povoas. LXXXXIII. São as suas terras fertilissimas para as mandiocas , e todo o mais género de plantações : porem o "gentio Mura não deixa estender as culturas , fazendo con- tinuas incursões sobre as rossas , e chegando ás mais pró- ximas da villa. LXXXXIV. Entre os diversos uzos , que observei nos indios desta villa , foi hum delles o do ipadú , do qual darei as noções, que pude alcançar. O ipadú he hu- ma planta de mediana grandeza , cujas folhas do tamanho das do louro da Europa são as que servem para a compo- sição chamada do mesmo nome. Torradas estas folhas se reduzem a pó em hum pilão , misturándo*se-lhe a cinza da folha da âmbaubeira. Deste pó subtilissimo á maneira de tabaco , e de côr esverdeada , enchem a boca com tan- ta quantidade , que íicão as bochechas como inchadas , e pouco a poUco vão engolindo o dito pó , mas renovando na boca, tantoque vai diminuindo, paraque as bochechas se conservem sempre cheia,s. LXXXXV. Ás virtudes do ipadú , dizem que são, aliviar o pezo do sono , semque cauze damno o não dor- mir , e por isso os indios usão principalmente de noute des- te exquÍ6Íto remédio , de que fazem tanto cazo , e gosto ; para assim se conservarem em huma doce innacção , em que os Ameiicanos , que vivem entre os Trópicos , põem o summo bem. LXXXXVI. 21. Até o dia de hoje me dilatei enx £ga. Pertendemos partir de tarde para o lugar de Noguá- da Capitania do Rio Negro. tf ra , que fronteiro áquella villa está situado na margem oriental da bahia de Tefé na distancia de travessia de cuas legoas: como porem ameaça vão algumas trovoadas peri- gosíssimas naquella bahia, esperamos que serenasse o tem- po , e com effeito ás seis horas da mesma tarde entramos a atravessar, o que concluímos em hora e meia a remo, e parte do tempo a vela. . LXXXXVII. A situação do lugar de Nogueira ne mais elevada, e o terreno melhor que o de Ega. A maior parte da povoação fica em huma planície. Tem duas ruas formadas, alem das cazas espalhadas para o lado do sul, em que corre o riacho Meneroá. Habitão neste lugar al- guns moradores brancos. As cazas destes, e igualmente as dos indios são caiadas com tabatinga espécie de gre- da alvíssima , a que juntão a goma liquida da sorveira, para lhe darem maior tenacidade, e cohesão. O templo deste lugar he muito decente , e asseado. Achãc-se nelle varias "pinturas executadas pelas Índias. LXXXX VIII. As nações de indios , que habitão nes- ta povoação , são Jurí , Catauixí , Juma, Passe, Uayupí, Yauaná , Ambuá , Mariarána , Ciru : fazendo por tudo avul- tado numero. LXXXXIX. O nome antigo desta povoação era Pa- rauarí , denominação que tirou do lugar , em que estava antes de se mudar para o que oecupa. As bexigas tinhão dessolado esta povoação, das quaes ainda havia relíquias. C. As indias desta povoação são menos bizonhas , que costumao ser as de outras. Quando se passa pelas suas portas, sahem logo a comprimentar com tão agradável, como natural sinceridade ; despida das aíFectações euro- peas. Em todo hum dia, que neste lugar me dilatei ,_ ape- nas pude ter algumas horas para empregar nos objectos do meu officio. Erão continuas as vizitas das indias com prezentes. À varanda das cazas , em que rezidi , parecia hu- ma feira. Estava cheia de paneiros de farinha de mandio- ca , de galinhas , frangos , e outras aves domesticas , de frutas principalmente ananazes , "bananas , ambaúbas. Bem se entende, que tudo isto se paga. Dizião primeiramente que nada querião; porem logo querião tudo, quanto se podia imaginar , e ao mesmo tempo se eatisfazião com o E 2 — ■— < * %& Diário da. Viagem que se lhes dava , respondendo pela sua lingoa =r Erê ; que quer dizer, está bom. CL 23. Tive neste lugar somente de dilação o dia vinte dous. Era Domingo. O vigário que juntamente ser- via a igreja deste lugar, e a de Ega', disse missa cedo, para iam bem a hir dizer á dita villa. Emquanto se disse missa cantarão as índias o — Tantuni- ergo zrz com har- monia não vulgar , e de admirar em tal qualidade de gen- te : mas he certo , que não só no canto , mas em qualquer outra arte, recebem os índios com muita facilidade asins- trueções, que se lhe dão. CII. Depois da missa embarcamos , e com bom tem- po atravessamos^ a bahia até á villa de Ega , aonde sem desembarcar nos dilatamos hum breve espaço, elogo con- tinuamos a viagem , de sorte , que por onze horas da ma- nhã tínhamos sahido do Tefé, e entrado no Amazonas, cuja margem austral fomos navegando. Por quatro horas da tarde tínhamos passado a boca do estreito canal , que ao norte de Nogueira sahe para o Amazonas, poronde seria mais breve a nossa viagem , se a vazante ,^ postoque ainda não grande , não impedisse o passo ás embarcações de maior porte. CHI. A^ cinco chegamos á barra, do pequeno rio Urauá, que pelo sul desemboca no Amazonas. Junto ael- Ja mas na margem oriental , e rodeado em parte pela agua, que do mesmo se introduz á terra, está situado o lugar de Alvaraes. O dito riacho de agua preta, e de mediana gran- deza, a agua que se introduz aterra no referido lado orien- tal, a elevação do terreno, a vista do Amazonas, a de li uma ilha fronteira , que occupa o meio deste rio , con- correm a fazer elegantíssima a situação deste lugar. He fértil Issi mo da parte do rio, e terra. Cresce aqui admira- velmente a mandioca, ha plantações de cacáo , e café, e se entra a cuidar no anil , conforme as novas instruceoes , que deixei ordenadas, Chamava-se antecedentemente eête lugar a Cayçára , que quer dizer Curral; porque ali se faziáo dos índios escravos , que se conduzião principalmen- te do rio Jupurá ; naquelles infelices tempos , em que se traficava em homens nestes sertões. CIV. Tem 'esta lugar moradores brancos , e as nações \\ »»-. da Capitania. do Rio Neiro. 37 dos índios , que o habitão em bastante numero , saoUárú , a que elles chamno Coca , por cauza de repetirem esta pala- vra muitas vezes , que nasua lingoaquer dizer não, Am- buá, Uajmá , Yucuná , Alaruá , Passe, Cauiarí , Mira- nha , e Marauás descidos estes últimos do rio Guruá , e que são antropófagos , ou comedores de carne humana. C V. He esta povoação susceptível de grande augmen- to; porque á bondade do sitio, e á fertilidade da terra , jun- ta estar próxima ao Jupurá donde se facilitão os desci- mentos dasinnumeraveis nações, que povoão aquelle rio: mas- he pena que seja sugeita á praga do carapaná e piuin , aindaque no anuo prezente esteja livre delia attribuindo a cauza a grande enchente, que houve no Amazonas. > CVT. 24. Todo o dia me dilatei nesta povoação , em que fui visitado , e presenteado pelas indias com fa- rinhas de mandioca em multidão, galinhas, papagaios, araras, mutúus , macacos &c. CVII. 25. Bem na madrugada partimos, e ainda an- tes de amanhecer passamos a ponta de Parauarí , que deu motivo aos erros, e equivocação de Mr. de laCondamine. Assumpto , que faz desculpável , e necessária huma breve digressão. (a) Refuta-se a opinião de Mn. de la Condamine sobre os li- mites das colónias portu°wzas no rio Amazonas , e se esta- belece o iucontrastavel direito dos mesmos contra as perten- coes de Hespanha. CVIIÍ. Será bom para maior clareza deduzir a his- toria do seu principio. Depoisque os Filippes occuparão Portuga] , foi hum dos cuidados da corte de Madrid des- cobrir inteiramente o rio Amazonas , com o fim de cora- mnnicar o Períi com as nossas colónias do Brasil , e Pará, e poderem transportar os géneros daquelle continente pe- los" nossos portos , e pelo meio do Amazonas lhes ficava mais fácil , e commodo , a respeito das grandes dificulda- des, que encontrão na condução para os seus. Fizerão-se (V) Tom. 2. das viagens de Rogers. Ediç. francês, de Amsterdão 2716. Dissertaç. sobre o rio das Amazonas. k*l 38 Diário da Viagem varias expediçoss , tanto pelo Pará , como pela parte do Peru, mas tolas infructuosas , atéqus em fim o capitão mor Pedro Teixeira da guarnição do Pará mandado "pelo governador Jacome Raymundo de Noronha, navegou o rio Amazonas, e entrou na cidade de Quito. Naquelle tem- po foi reputada esta decuberta de não menor valor, que as que se charnao famozas. Em Quito foi recebido Pedro Teixeira com grandes applausos. Olhava-se para elle como para hum homem extraordinário, superior aos perigos, e" difficuldades , que achou naquella expedição, que se po- dem ver na relação , que delia ha escripta. Em fim Pe- dro Teixeira adquirio immortal fama, e se poz ao lado dos heroes da nossa historia, brilhando o seu nome nos annaes portuguezas com tão distincta gloria como a dos Gamas , e Cabraes. Na volta pois daquella viagem , no rio Nápo , defronte das bocainas do rio do Ouro, ou Agua- riço plantou hum marco, conforme as suas instrucções , para servir de limiie entre as colónias portuguezas , e hes- panholas, e logo tomou posse pela coroa de Portugal da- quelle lugar, e dos mais , que seincluião dentro dos mes- mos limites , e demarcação. Fez-se de tudo hum auto so- lemne , que se registou nos livros dacamera do Pará , cu- ja copia se acha nos annaes históricos de Berredo. (a) CíX. Quer Mr. delaCondamine (6), que o referido marco não fosse plantado no rio Nápo, mas sim defronte da barra do rio Jupurá , no lugar que deo causa a esta digressão. Funda a sua opinião em argumentos metafí- sicos, inúteis para a averiguação dos factos históricos. Diz que no dito auto de posse se põe a data ~ Dos Guya- rís defronte das bocainas do Ouro — Entra a confundir o Yquiarí com o rio do Ouro: a fal lar na passagem dos Ma- náos para o Amazonas : 110 ouro queelles trazião de Yquia- rí : assenta, que a aldeia do Ouro he em Paraguarí. Eem fim da palavra Paraguarí discorre , que vale o mesmo que o rio dos Guyarís no idioma Brasiliense , e por esta etymologia decide , que aqui he a aldeia do Ouro , e que (a) Liv, ia §. 702. (6) Extract. do diário da viagem pelo rio das Amazon. pag. 51. da Ediç. Hesp. de Amsterd. 1745. da Capitania do Rio Negro. 39 ficando defronte da foz do Jupurá , este he o rio do Ou- ro , fronteiro ao qual se plantou o marco , de que tratamos. CX, Diz- mais , que os portuguezes esquecidos do re- ferido auto adiantavão a sua pertenção acima da provín- cia dos Um auás. CXI. A estabelecida reputação de Mr. de laConda- mine poderá illudir aos que sem maiores noticias lerem os seus escriptos. Mas Mr. de laCondamine podia ^ passar sem tocar esta questão no seu diário , em cuja decisão al- cançou a nota de menos verdadeiro , e muito preocupado: He pena , que hum homem tão celebre quizesse assim des- lustrar-se. CXII. A resposta ás suas reflexões mostrará a debi- lidade delias. Primeiramente he falso , que no auto de pos- se se ponha a data — Dos Guarís defronte das bocainas do rio do Ouro. rr Eu appello para a copia autentica do mes- mo auto impressa nos annaes históricos do governador , e capitão general do estado do Pará Bernardo Pereira de Berredo , aonde se pôde ver, ese conhecerá, que não ha lá taes palavras. — Dos Guarís — Antes principia o auto na forma seguinte ~ Anno do nascimento de Nosso Senhor JESU Christo de mil seiscentos , e trinta e nove , aos de- zaseis do mez de Agosto defronte das bocainas do rio do Ouro , estando ahi Pedro Teixeira &c. — E se finalizava o auto com o nome das testemunhas, sem repetição de data; Como pôde logo vir ao pensamento de Mr. de la Condami- ne a palavra Guarís. Eu para não imputar tanta falsida- de a este famozo académico, direi, que elle se equivo- cou , trocando a palavra Aguaríco, nome do rio , que no auto se chama do Ouro , na de Guarís ; postoque tal equi- vocarão se lhe não deva perdoar, poisque o aponta no sen mappa. CXIÍÍ. O A guariço desagua na margem sepíemtrio- nal doJNápo, na altura de quasidousgráos dosul. OAgua- rico pois he o rio do Ouro^ de que no auto se falia. As- sim o testemunha a relação da viagem do mesmo Pedro Teixeira escripta por Cunha , aonde sê diz no cap. 4-5 — \E11- „contra-se o rio Aguaríco , que também se cirama rio do Ouro. — E no cap. 49 — Este rio ( Agu&nco } está em faina, não só pelo seu ar pouco sadio, mas pela qu anti- í r, 4° Diário da Viagem dade de ouro , que se tira das suas áreas , que á mais de cera annos lhe fez dar o nome de rio de Ouro. — Ao- O ra áevo observar, que na mesma relação se faz menção do rio Jupará, que alii senão equivoca com o Aguaríco , ou rio do Ouro. CXIV. Neste lugar he que o capitão mor Pedro Tei- xeira deixou hum a parte da sua armada , e na volta de Quito escolheo o mesmo para a plantação do marco, e formar a povoação. CXV.. Vamos aclarando o confuzo caos de Mr. de la Condamiile. O Yquiarí , de que falia , e aponta no seu mappa , he o rio Ucayarí, chamado commuramente Uau- pés ; nome de huma nação, que o habita. Sim he certo, que deste rio ha communicaçao mediata com o Jupurá, e que os índios do mesmo Ucayarí das nações Panenuá , e Tariána tem sido vistos com folhetas de ouro ; mas ainda se ignora prezentemente donde he extrahido aquelle ouro. Porem a este Ucajarí não se podem aplicar as confronta- ções do rio do Ouro , ou Aguaríco , de que falia o auto de posse, e a relação da viagem. Bastando para desvane- cer qualquer conjectura advertir, que a barra do .Ucayarí he no Rio Negro, ao qual tributa as suas aguas f poronde não navegou Pedro Teixeira, e aindaque se comunique com o Jupurá, nem este teve nunca o nome de rio de Ou- ro , nem huma tão remota comunicação podia fazer lem- brar/, e datar o referido auto de posse do lugar — Defron- te das bocainas do rio do Ouro. — Se se entendesse por tal o Ucayarí. CXVÍ. Continuemos a desembrulhar as confusões de Conda mine. Assentado , que a aldeia , que Pedro Teixeira denominou dó Ouro , ficava fronteira á barra do Jupurá , conclue. Que este rio he o do Ouro, para dar por certo , que defronte da sua boca se plantara o marco. Miserável discurso! E porque razão Mr. de laCondamine senão ins- truio melhor para estabelecer as suas conjecturas? Se el- le lesse mais attentamente a relação do Cunha, talvez que evitasse tão indesculpáveis erros. Que connexão tem a al- deia do Ouro, com o rio do Ouro, e com o lugar em que se plantou o marco? Eu lhe concedo de boa graça, que fosse em Parauarí aquella decantada aldeia ; pois se ahi *3S da Capitamía do Rio Negro. 41 não foi , não lie muito distante, portersido impostoaquel- le nome á primeira aldeia da nação dos Curusicariz, que se estendia pelo lado do sul do Amazonas, principiando do Parauarí para cima. Mas impôr-se o dito nome áquel- la aldeia , por ficar defronte da boca do rio do Ouro ; não. E isto he o que fez equivocar a Condamine. CXVII. Na viagem para cima chegando a nossa ar- mada á referida primeira aldeia, encontrarão-se vários Ín- dios delia com pendentes de orelha, e nariz de ouro, os quaes comprarão os nossos, e era tão fino, que pezou a vinte três quilates em Quito. Por este motivo imposerão á mesma o nome de aldeia do Ouro , como se pôde ver da re- lação de Cunha no cap. 56. Fica logo indubitável a cau- sa da imposição daquelle nome, e que ella não foi diri- vada do rio, mas sim daquelle coherente motivo. CXVIÍL Para assim se persuadir bastava , que Con- damine reflectisse , que este nome foi posto quando se su- bia o rio , e que o marco foi plantado na torna viagem , e nesta occazião he que se falia no rio do Ouro , que he o Aguarieo, como fica a meu parecer demonstrado: e no auto de plantação , e posse se não trata da aldeia do Ouro, como erradamente o supõe Condamine, nem Cu- nha o confunde , antes confrontada a sua relação com o auto se conhece evidentemente a diíFerença de hum a ou* tro lugar. CXIX. Não nos esqueçamos da celebre etymologia da palavra Paraguarí. Quem ler a Mr. de la Condamine , e o vir decidir com tom indubio , e seguro , da natureza e génio da lingoa geral dos índios, julgará, que elle ti- nha grande conhecimento da mesma. Nada menos. Conda- mine confessa , que a ignorava , e assim o mostra a sua decisão. CXX. Afíirma em fim , que ' Paraguarí quer dizer rio dos Guariz: em razão da palavra — Pará — significai rio. Hum homem que sustenta hum absurdo , precisamen- te se hade servir de provas absurdas. Condamine engana- do da palavra zr Guariz — , que não sei aonde foi achar, yio na de rr Paraguarí — feliz conformidade com as suas idéas , e foi quanto lhe bastou para a sua asseveração. Porem que imperdoáveis erros não cometíeo Condamine? F àám ■ — ■ — I 1 ■ > A ■■" 41 Diaiuo da Viagem Primeiro erro. Nao se escreve (conforme a genuína ortho- grafia e pronuncia da lingoa geral dos índios do Brasil ) Parao-u-arí , mas sim Paranarí sem a letra — g — , o que bas- taria para desfazer pelo fundamento todo o custoso edifício de Condamine. Segundo erro: a palavra, que significa no, he = Paraná — enão =: Pará. =r Terceiro erro : conforme ò génio próprio da lingoa sobredita, eseu inalterável uzo , para dizer rio dosGuariz, formarião assim a fraze es Gua- ííparaná ■=. ; pois juntando-se dous substantivos, hum dos quaes haja de ser regido como o genitivo âa. lingoa lati- na , se antepõe sempre o genitivo ao nominativo, e por isso se havia de dizer é* Guariparaná , enão Paraguari. = No que tem esta lingoa igual génio ao da ingleza , na qual se diz = Snuff Box — para significar caixa de ta- baço, antepondo-se a palavra tabaco a de caixa ; como dizendo, de tabaco caixa. Quarto erro: da nação Guanz hão ha noticia alguma, nem naquelle lugar , nem em to- do o Amazonas. / CXXI. Mas paraque me canço em procurar razoes para refutar a Mr. de la Condamine, se tenho hum argu- mento invencível , e intergiversavel , que so basta para definir a questão. , j , CXXíI Governando o estado do Para Alexandre de Souza Freire mandou a Belchior Mendes de Moraes com huma escolta a examinar o mesmo marco; e com etteito entrando aquelle cabo pelo rio Wápo no lugar confronta- do' no auto de posse, o achou , postoque arruinado com o tempo por ser de páo. Ahi mesmo erigio outro , como em renovação do primeiro na prezença do Jesuíta João Baptista Julião , superior das missões hespanholas , que an- dava em visita. , CXXIIl Este facto desvanece todos os argumentos, e coniecturas de Mr. de la Condamine. Elle bastaria para lhe servir de resposta : Porem eu não quiz propo-lo logo, para mostrar, que ainda independentemente da sua .exis- tência, era de nenhum fundamento quanto discorre Con- damine a favor da sua opinião CXXIV. Falta-nos responder, ao que diz sobre a per- ténçâo dos portuguezes acima da província dos Cmauas: sobre asupposta fugida desta nação das nossas povoações, da Capitania do Rio Negro. 43 e finalmente sobre o principio da nossa posse , que quer fosse no anno de í 710. , CXXV A pertenção bem se tem mostrado como ne iusta/Á respeito da fugida, e principio da posse, basta em resposta referir a verdadeira historia. CXXV1 Tinha-se accendido a guerra, chamada da grande alliança , sobre a suecessão de Hespanha , em que Portugal segiíio os direitos de Carlos 3.*, e aproveitando- se os Jesuítas hespanhoes da conjunctura descerão em 1709 peio Amazonas abaixo com as forças , que lhe foi possí- vel" imitar, e chegando nessa occasião á nossa povoação, chamada nesse tempo Parauarí , que ficava junto ao ca- nal de que fiz menção no dia 23; pnsionarao o missionário delia, e os brancos, que ali se achavão Assaltarão a po- voação de Táiaçútyba, composta dos índios da nação Ju- rírnáua , os quaes transportarão para com elles formar ou- tra povoação , a que derão o mesmo nome da nação , e que hoje existe. Das nossas povoações de Cambebas , que erão as ultimas missões dos religiozos do Carmo levarão bastantes Índios, de sorte que delles formarão a povoação de S. Joaquim. , ÇXXVII. Governava o estado do rara o br. de ran- ças Christovãô da Costa Freire , que logo expedio huma escolta, commandada por Joze Antunes da Fonseca, que depois que prendeo oJesuita João Baptista Julião e outras pessoas subio até a povoação de Santa Mana, e recobrou o nosso missionário , e os portuguezes. (a) CXXV1IL Donde se infere claramente , que tudo quanto Mr. de laCondamine diz a este respeito, são me- ras preoceupações , suggeridas pelos Jesuítas hespanhoes com os quaes confessa teve grande amizade em Quito , e na viagem recebera muitos favores, (ò) He notório, que os Jesuítas forão sempre a caiiza , e o motivo destas dis- sensões dos limites, e como conhecião , que osescnptos^de Mr.de laCondamine havião alcançar grande authoriaade , („) Vid. Eerred. Annaes 1. 20. § 1454 até 1461 incl.usiv. (b~) Veja-se a viagem grande e o extracto de Rir. de laCondamine em vários lugares passim. vmêmà — ii i ii im a a 44 Diário da Viagem aproveitarao-se da occasião de fazer espalhar pelo meio delle as suas opiniões e pertenções. CXXiX. Bem se manifesta comtudo desta verdadei- ra historia , como a nossa posse passava muitas legoas su- periormente a Parauarí ; pois tiuhamos não menos que qua- tro povoações de Caro bebas : como esta nação não fugio , mas foi levada violentamente pelos hespanhoes : e como finalmente a nossa expedição foi hum meio licito pelo di- reito da guerra para nos desforçarmos, e recuperarmos a nossa posse, perturbada injustamente pela invasão hespa- nhoía. CXXX. Para prova de parte, do que tenho dito nes- te artigo, copiarei aqui a eloquente , erudita, e solida res- posta, que o. governador e capitão general do estado do grão Pará João de Abreu de Castellobranco deo ao pro- vincial dos Jesuítas hespanhoes da provincia de Quito no anno de 1737. Tempo em que Mr. de laCondamine se acha- va na mesma cidade de Quito , e anterior ao em que pu- blicou os seus diários. Resposta, que Mr. de la Condami- ne não podia ignorar , não só em razão das suas connexões com os Jesuitas de Quito, aonde se hospedou; (a) mas tam- bém porque a mesma resposta fez naquella cidade o me- recido estrondo , sendo por ella caracterisado o seu hábil escriptor na Real audiência da mesma cidade , como homem de espada, e pluma. E porque finalmente em todo o tem- po que Mr. de laCondamine assistio no Pará , communicou muito frequentemente aquelle general , que ainda nesse tempo governava o mesmo estado. O que tudo he vehe- mentissimo indicio das apaixonadas preoceupações do cita- do autuor» Resposta. CXXXL Na cidade de Belém capital desta provín- cia do grão Pará me forão prezentes as cartas de V. Re- verendíssima , e do R. P. Carlos Brentano , escriptas em Janeiro deste anno , ás quaes faço resposta por attenção devida a V. Reverendíssima, e á matéria de que tratão. (V) Journal du voyage fait par ordre du Roi áTEquateur. ediq. de 4. Paris í7$l. pag. 16. da Capitania do Rio -Neg^ò; - 45T CXXXIT. Queixa-se V. Reverendíssima com bastan- te clamor de huma preparação militar , que diz se dispu- nha contra essas missões, e como esteu bem informado, que não houve a tal disposição , devo entender , que esta alarma, que inquietou a V. Reverendissima , nasceria da- quelle precizo desassosego , que nos espíritos bem regula- dos causa a consciência de huma injustiça , supposto haverem VV. Reverendíssimas excedido os seus limites com ofFensa dos deste estado. CXXXI1I. Neste discurso me confirma a insuficiên- cia dos fundamentos com que V. Reverendissima procura justificar hum tão notório excesso: pertendendo V. Reve- rendíssima em primeiro lugar, sustentar com a força dás Bulias Apostólicas, que prohibem com graves censuras a guerra nestas índias , ainda quando a houvesse por outras partes. No que me parece suppoe N. Reverendissima duas proposições bem extraordinárias. A primeira he , que seja licito oceupar o alheio , e prohibido o recupera-lo, como no caso prezente. A segunda, que as Bulias Apostólicas tenhão mais virtude no rio das Amazonas, do que no rio da Prata; onde vimos ha peuco tempo, estando em paz as duas coroas por todas as partes, se não duvidou fazer a guerra, e passarem as tropas castelhanas a atacar huma praça de Portugal , concorrendo para esta empreza hum corpo considerável de Índios commandados por padres da Companhia de Jesus , a quem não fizerão obstáculo as graves penas do mandato Apostólico. CXXX1V. Mal satisfeito deste fundamento , parece, que recorre V. Reverendissima a outro, que considera mais forte , exhortando a que se exercitem nos movimen- tos militares tantos indios, perdendo-lhe com os exereicies de que não são capazes, o tempo, que puderão aprovei- tar, instruindo-se na vida christã ,. e quando V. Reveren- díssima com os seus RR. PP. queirão conter-se nos seus justos limites, posso prometer a V. Reverendissima , e es ; tarão tanto mais seguros , quanto mais desarmadas as ter- ras de S. Magestade Catholiea ; pois conforme as ordens, que tenho da corte de Lisboa, não seria eu menos crimi- noso, se intentasse offender as suas fronteiras, do que con- sentir, que.se insultem as deste estado. Nestes termos con- v f* fTt-' 46 Diário da Viagem siguirá o estar tão livre de pertubação por essa parte, co- mo está peia parte dos írahcezes de Caiana , e dos liolan- dezes do Sorinâme , aonde não confina com PP. da Com- panhia de Jesus ; os quaes por não serem reputados por mais que humanos nas suas esclarecidas virtudes, foi ne- cessário, que tivessem o defeito de serem perigosos vizi- nhos. 'CXXXV. Não he da minha profissão disputar o di- reito, da bulia pontifícia , em que VV. RR. se fundão , para ampliar os dominios de Castella até as muralhas do grão Pará ; mas devendo-nre regular pela pratica , que he a consequência do direito , me cauza grande admiração , que VV. RR. não facão escrúpulo recorrer a hum funda- mento , de que nUnca se quiZerao valer os mesmos Reis catholicos , a quem a bulia foi concedida, em todos quan- tos tratados se tem concluído ha duzentos e tantos annos entre a coroa de Hespanha, e outros Soberanos, que tem ©ocupado dominios, e commercios dentro da parte con- cedida pela tal bulia, tanto nas. Índias oríentaes , como nestas. Nem me consta que a coroa de Hespanha perten- desse restituição alguma em virtude da bulia do papa Ale- xandre 6.°, sendo certo, que os seus ministros e embaixa- dores estarião cabalmente instruidos em os direitos , e in- teresses da mesma coroa. CXXXVÍ. Nem eu sei, como o mesmo pontífice , que não pode segurar á sua própria familia huma porção da Itália, podesse dar tão liberalmente ainetade do orbe da terra á coroa de Hespanha , condemnando huma tão gran- de parte do mundo a eternizar-se nas trevas da gentilida- de , edoatheismo, sem poder receber outra luz mais que a que lhe mandasse pelos orizontes de Cadiz , ou da Coru- nha. CXXXVIL Consta-me que algumas bulias pontifí- cias as aceitão, ou recuzão os Principes , segundo o que se acommoda aos seus interesses ; e para eu entender , que a de Alexandre 6.° senão admitia em Portugal , basta ver o que escreveo hum author castelhano contemporâneo > qual he Garibay na vida de EIRci D. João 2. 3 de Portu- gal , no cap. 25 , e na de EIRei D. João 3.° no cap. 31 > aonde conclue , que depois de se oíFerecer da parte dos da Capitania do Rio Negro. 47 crsMhanos trezentas e sessenta . legoas mais a Portugal, 1 il das cem , que declara a bulia, nao quizerao os mi- uistros ,< Menezes admittir esta ofíerta e se dissolverão íc , eqpclusfo as conferencias, que se faziao sobre esta nau na entre Elvas, e Badajoz. De sorte que considerem A V RK a virtude da tal bulia. He certo que as conven- ções'., comnereks, e conquistas, que tem alterado a sua observância, são tantas , que se não pode duvidar estar der- nfi-ada a pratica delia no uso das nações. E como os Reis ceCastclianáo julgarão ser necessário fazer memoria (fes- ta bulia nos seus tratados com outros Príncipes, parece, oue bem deviao V V. KR. fazer o mesmo nas suas cartas. CXXXVI1I. Para eu mostrar a W. RR. o lugar, on- de confinão os domínios de Portugal, e Castella no no das Amazonas , não hei de recorrer alinhas mentaes , que só existem na imaginação, nem me quero valei -ao que dizem osesoriptorespertuguezes: Os mesmos tratados, que VV RR. ak-gâo, e hum author castelhano apaixonado contra os pcituguezes, e padre da companhia de «Jesus me parece que serão bastantes para persuadir a VV. KK. CXXXIX. Mas nenhum destes documentos he neces- sário, paraque' conste a VV. RR. f que a coroa de Portu- gal esteve sessenta annos sugeita , mas nunca incorporada á coroa de Casteíla. Obedecia ao Rei de Hespanha ; mas pela corte de Lisboa se expedião as ordens para todas as províncias , e governos. Com a mesma notoriedade consta- rão a VV. RR. as innumeraveis perdas, que nesta sugei- ção padeeeo a coroa de Portugal , não só nas Índias orien- taes , aonde perdeo hum império, que hoje faz a opulên- cia da republica de Holanda , mas também nestas Índias, aonde os mesmos holandezes oceuparão as praças princi- paes do Erasil , e Maranhão , fabricando três fortalezas no rio das Amazonas, com que chegarão a senhorear-se da melhor parte deste grande rio. Pedia a razão , e também a politica , que o pouco , que restauravão , ou adquiria© os portuguezes , ficasse pertencendo á mesma coroa, sendp huma ténue compensação das suas calamidades. E assim © entenderão, e approvarao os, Beis cathelices , -tanto na recuperação, e descobrimento do Prazilj como no do rio das Amazonas , aonde depois de ha verem as armas por tu- , 1 I I i ' 48 Diário da Viagem guezas expugnado as fortalezas acima referidas , e expul- sado outras naçoos de herejes , que navega vão o mesmo' rio ; vierão differentes ordens dos governadores do Mara- nhão e Pará; paraque executassem este descobrimento, o que não occulta o P. Manoel Rodrigues procurador geral dos, Índios na sua historia do Maranhão liv. 6. cap. 11. Átéque ultimamente o governador Jacome Raymundo de Coronha, mandou em virtude das mesmas ordens (uão da Real audiência de Quito, que nunca as podia passar ater- ras da coroa de Portugal) ao capitão mór Pedro Teixei- ra , que com hum corpo de infantaria paga , e Índios , que occuparão setenta canoas, puzesse em execução este descobrimento. CXL. Não refiro a W. RR. o sucesso da navegação de Pedro Teixeira ; porque da mesma historia , e relação do padre Cunha constará a V. Reverendíssima o immenso trabalho , e constância , com que proseguia esta empreza , eas grandes despezas , perigos , sangue , e vidas de offi- ciaes , e soldados portuguezes , que custou o feliz com- plemento delia ; e só quizera , que ponderasse V. Reve- rendíssima o fundamento, que pode terá audiência geral de Quito para arrogar á sua jurisdição os descobrimentos feitos pelo estado do Maranhão , e grão Pará , á custa das vidas dos portuguezes, e em serviço da coroa de Por- tugal , e por ordem de EIRei de Castella , a quem então estava sugeito. CXLI. Bem creio da candidez de V. Reverendíssi- ma, que ha.de convir, em que este descobrimento devia ceder em augmento do governo, que o conseguio , eque a posse, que na volta de Quito tomou o capitão mór Pe- dro Teixeira , em nome de EIRei Philippe 4.°, pela coroa de Portugal , na prezença de dous PP. da Companhia cas- telhanos , e do maior numero de homens brancos, que se tem visto nessas partes, foi hum acto não somente justo , mas approvado naquelle tempo , tanto por castelhanos , como por portuguezes; epòrisso remetto a V. Reverendís- sima o traslado delle. CXLII. Bem vejo que dirá V. Reverendíssima , que o capitão mór Pedro Teixeira, era naquelle tempo vassal- lo de EIRei de Castella , e que havendo tomado posse em da Capitania dò Rio Negro. 49 nome fio mesmo rei, para este he qne adquirio aquelles dominios. Ao que respondo, que assim adquirio o dcrni- n iq para Sua Magestade catholica , mas unido , e encor- porado na coroa de Portugal , e como pelo artigo 2.° do tratado da paz concluída em 13 de Fevereiro de 1668, cedeo Elrei catholico a Elrei de Portugal tudo o que ti- nha , e de que estava de posse esta coroa antes da guer- ra , que principiou no anno de 1640 he certo que se com- prehendem nesta cessão os dominios , de que tomou posse pela coroa de Portugal o capitão mór Pedro Teixeira no anno de 1639, e especialmente sendo tão justa, e tão na- tural a acquisição, se conservou sempre a n esma posse emquanto a não perturbarão os PP. da Companhia. CXLÍÍI. Por esta razão he que o R. P. Carlos Bren» tano quando se vale do tratado de Uíreckt, alega hum documento contra si mesmo ; porque naquelle tratado, se nomeao especificamente todos os lugares , que resíitue h.u- ína coroa a outra , e quanto ao mais se conveio em que as raias, e limites de ambas as coroas, ficassem no mes- mo estado, em que se achavão antes da guerra, como tudo se vê do 5.° artigo do mesmo tratado. E não he is- to somente o que tem contra si o mesmo R. P. na paz de Utreckt, que alega ; porque com mais clareza achará no tratado da paz entre Elrei de Portugal , e Êlrei de França , que sem embargo de estarem deste monarcha. mais unidos, que nunca aos de Castella , reconhece que as duas margens do rio das Amazonas, tanto meridional como septentrional pertencem em toda a propriedade , domínio , e soberania .a S. Magestade portugueza , que estes são os próprios ter- mos , em que falia o artigo 10 do 4*to tratado. CXLIV. Mais razão teve o dito B. P. para censurar o alferes Joze de Mello , quando este sem mais desculpa, que a de soldado, em que a ignorância he por direito hum privilegio erradamente addito a de Vesfalia , em que na. verdade não houve ajuste entre Portugal , e Castella, Mas se o R. P. examinasse bem os artigos 5.°, e 6.° do trata- do da paz concluído entre Elrei de Castella, e a republi- ca de Holanda em Munster, não affirmaria que nos con- gressos de Vesfalia se debateo somente o exercício livre das seitas dos lutheranos , • e calvinistas; diria antes com G 50 Diário ca Viagem toda a certeza , que aos calvinistas , e lutheranos sacri- ficou Elrei de Castella na paz de Vesfalia todos, os domi- nios catholicos da coroa de Portugal nas índias orientaes , e occidentaes; e que o mesmo lugar em que o R. P. , e V. Reverendíssima escreverão as cartas, a que agora res- pondo, foi cedido solemnemente aos holandezes, sem em- bargo da bulia do Papa Alexandre 6.°, a qual quando estivesse em observância, bastavão os dous. artigos' detjue remeto a V. Reverendíssima a copia, para ficar para sem- pre derrogada. CXLV. Se as armas dos portuguezes nao expulsas- sem do rio das Amazonas as nações de hereges o occupa- vão , como o confessa hum delles João Laet, citado pelo Padre Manoel Rodrigues no liv. 6.° cap. 11 da sua histo- ria do Maranhão aonde diz : — Tam Angli , et Hybemi , quam nostri Belgi a PortUgalis é Pará venientibus inopi- liato oppressi &c. ~ Não estarião talvez VV. RR. em pa- ragem de mover aos holandezes as mesmas duvidas, que inovem aos portuguezes ; porque este era o intento daquel- le tratado , tão impio , e tão indigno de hum rei catholi- co , que sem temeridade se pode discorrer , que deo moti- vo a que a justiça Divina transferisse a coroa de Hespa- nba da família real em que estava para outro rei , que desempenhou o titulo de christianissimo com o eXtreminio cie muitas mil familias hereges , que não quiz por vassal- los seus. CXLVI. Em consequência de tudo conhecerão VV. KR. quanto estimo a sua opinião a respeito das nullidades de confissões, e sacramentos, por falia de jurisdição espi- ritual ; poisque os limites do estado do Pará estão clara , e distintamente estabelecidos por essa parte ; eseos do bis- pado de Quito estão duvidosos, na mesma historia do Pa- dre Manoel Rodrigues acharão^ V. RR. , diz elle no liv. G.° cap. 12, rz Los portuguezes dei Pará se contentan con subir por las Amazonas hasta las islãs de los Mauás&c. — Donde a expressão = se contentão zr parece que inculca modéstia, e que com justiça podião passar adiante. E se isto nao basta , creio que bastará para VV. RR. , o que diz o seu Padre vizitador geral no liv. l.°cap. 7. dames- tòà historie, do Maranhão, em que fazendo a discripção h da Capitania do Río Negro. f€ c\a jurisdição de Quito , afíirma que o seu bispado com- prehende , duzentas legoas , differença grande das mil e trezentas , que assigna a mesma historia desde Quito até o grão Pará. E assim devem VV.RR. fazer hum grande re- paro nesta importante parte das cartas, que escreverão , e reconhecendo que não ha para onde recorrer da sentença , que derão contra si mesmos , será grande infelicidade não a executarem. CXLVII. A offerta do capitão general meu anteces- sor , ao sr. presidente da Real audiência de Quito , _ aitri- buo eu a hum. lance, aindaque excessivo, de cortezia mi- litar , em que esperava ser correspondido pela generosida- de hespanhola , e ao qual mais prudentemente não quiz corresponder o dito sr. presidente. Mas eu com grande de- zejo de que me acceitein a palavra , me attrevo^a fazer a VV. RR. numa mais .ampla offerta , e he que não perteiiT dendo VV.RR. augmentar domínios temporaes , como ver- dadeiros seguidores de Christo , cujo reino não era deste mundo, e devendo o mesmo mundo estar patente para a pregação do Evangelho a todas as creaturas. delle , não so- mente consentirei , que VV. RR. esíendão as suas doutri- nas até as muralhas do Pará, mas lhes franquearei as por- tas asseg-urando-lhes nesta cidade toda a veneração, e res- peito devido a VV. RR. Deos guarde a V. Reverendíssi- ma muitos annos. Pará a 18 de Novembro de 1737. CXLVIIL Tenho finalizado a minha dissertação^ e he tempo de continuar a viagem. Na margem septentrio- nal , e defronte da referida ponta do Parauarí , nos ficava aios do grande, e famoso rio Jupurá. Como a minha ten- ção he entrar neste rio por hum dos canaes superiores á sua boca, que com o mesmo se communicão, reservo pa- ra esse tempo dar maiores noticia? das suas fontes , curso , rios , que lhe são tributários , e nações que o habitão. CXLÍX. Fomos por toda esta manhã seguindo a mes- ma margem austral : entremediavão algumas ilhas : a ter- ra se elevava em partes em altas barreiras, em que cos- tumão ser frequentes os assaltos dos Muras. Pelas duas da tarde entramos pelos canaes , que as ilhas formão , de que sahimos ás cinco. Passamos avista da espaçosa boca do lago Cupacá, que desagua na. margem do sul. Na orien- G 2 li i ÈÊÊÊÊ ■■!■»■ hVi il |% Diamo CA Viagem tal deste lago, e proximamente á barra esteve em outro tempo huma povoação , composta das nações Achouarí , e Júma. O espirito de rebelião, próprio na 'inconstância na- tural dos indios, moveo a estes últimos ao sacrílego atten- íado de matarem a seu missionário Fr. António de Andra- da religioso Carmelita. Governava' este estado o illustrissi- 2110 e excellentissimo Bernardo Pereira de Berredo , ÇtâO famozo pela elegante obra dos seus annaes históricos }. Mandou este general castigar osjumas, e se extingio aquel- la aldeia. As aguas do Cupacá são pretas. He este lago abundante dê cacáo , salsa parrilha , e óleo de cupaiva. Habita-o o gentio Mura comunica-se com o rio Juruá , de que adiante falaremos. Depois dos ditos canaes se seguia huma larga enseada ; aonde passamos a noute. ÇL. 2fi. Continuamos a navegação esta manhã , en- trando pelo canal que forma huma ilha , chamado Gipa- raná , ou rio do Machado. Na manhã de hoje , e também ha de hontem tivemos grande perseguição do pium. Hou- ve não poucas correntezas ; porque o rio tinha tido hum novo repique de enchente. A^s onze chegamos á boca do pequeno rio Yautó. De tarde continuarão as correntezas j e hum fortíssimo vento de proa fez cessar a navegação por mais de duas horas. Nos lugares mais elevados havia terras cahidas , o que junto ao receio do Mura, que cos- tuma frequentar estas paragens nos trouxe hum dia pou- co alegres. Passamos a primeira barra do pequeno rio Aca- rícoára , a qual também chamão Camadú. CLT. Pelas cinco deixamos a margem do rio , que se- guíamos junto á boca do canal Andira , e entramos a Cos- tear o lado do norte da ilha, que o forma, continuando a viagem sempre por entre ilhas de diversas grandezas. Já de noute navegamos para a margem do rio junto da terra firme , passando pela boca do riacho Baré , e fomos dormir próximos ao canal Maicoapaní. Quasi defronte nos ficava na margem do norte a boca de outro canal chama- do Uaranapu , que sahe ao Jupurá e tido equivocadamen- te , até o tempo da minha viagem, por boca do mesmo Ju- purá. CLTL 27. Proseguimos a navegação pela margem ■do sul. entrando pelo dito canal Maicoapaní. Forma-se es~ [«■ ca Capitania do Rio Negro. 5^ te canal por huma ilha, que se aproxima a terra, e gira para vários rumos. Tendo entrado a navega-lo pelas 3 cho- ras da madrugada, sahimos delle já depois das -7 da ma- nhã , por cauza do arrebatado ímpeto , comque por aqui correm as aguas. As terras das suas margens são íertilissi- jnas em cacáo , e o canal abundante de peixe boi. CL1I1. Entre as diversíssimas espécies de peixes do nosso Amazonas, nenhum ha mais singular, que o peixe boi , ou vaca marina. A semelhança da sua cabeça , e fu- cinho a iguaes partes de huma vitella lhe fez dar este no- me bastantemente impróprio. A sua carne , principalmente a do ventre , he gostosíssima. Delle se fazem chouriços com as suas próprias tripas. Em fim postoque tenha o nome de peixe tem mais gosto , e apparencia de carne. Asna gran- deza ordinária he de três para quatro varas, e três, ou mais quartas de largura. Pasta a erva da margem dos rios, para o que somente levanta a cabeça sem sahir a terra, nem podem por ter somente dous nadadores por modo de mãos junto á cabeça, que lhe servem para nadar. E por essa razão não he propriamente amfibio , como alguns crem. A fêmea tem peitos, em que dá de mamar aos filhinhos, que traz unidos a si. CLIV. Ha outra qualidade de peixe boi chamado vul- 'garmente de azeite; porque toda asua substancia he gor- dura, de que se extrahe tanta quantidade de azeite , que chega hum. só. peixe a render para cima de vinte almudes. CLV. Fomes jantar á boca do lago Saulá. Toda a margem por onde esta tarde navegamos estava cheia de troncos cahidos , e terras quebradas» A^s seis repousamos hum breve espaço de tempo junto do pequeno lago , que fica próximo á segunda barra do rio Acarícoára , que desa- gua' em huma extensíssima enseada ? passada a qual apor- tamos. CLVI. 28. Foi tanta, a chuva, relâmpados, e tro- vões iia madrugada de hoje , que nos impossibilitou a na- vegar. Ao romper do dia ainda continuava a chuva, fo- mos navegando seguindo a mesma margem austral. Per oi- to horas entramos em hum canal, formado pela prolonga- eão de huma ilha, e andando mais- meia legoa atravessa- mos a foz do Júruá, que com. impetuosa velocidade pa^ ! 1 •; I ■TiÊmm a CLXX VIII. Que úteis , e sólidos estabelecimentos -se não podião fazer nestes dons, rios Juruá , , e Jutahi , do$r quaes apenas conhecemos por informações .huma pequena parte. No Jutahi principalmente que proveitosa seria hu* ma povoação ! Pelo meio desta podiarrios conhecer , e des- cer as innumeraveis nações daquelle rio , facilitar a sua, enteada para estender o commercio. CLXXIX. Logoque passamos o Jutahi entramos a navegar por. entre, ilhas , das quaes sahimjos , pelas cinco e meia da tarde. Atravessamos aqui. o Amazonas, para se- guirmos a navegação pela sua margem i septentrional. He extrema neste lugar, a sua largura. Tomamos ' huma ilha, mas sobrevindo huma trovoada nos acolhemos a outra im- mediata, aonde, passámos a nonte $ cuja. obscuridade não permitia continuar-se a viagem , principalmente com o re- ceio de tocar em algum tronco, como de ''facto nos ; tinha sucedido, aindaque sem pejigo ç, não sem susto; porque acanoa.com o toque fez taes movimentos, que chegou a. meter agua. ■ - . . , . • CLXXX. .2;: Çontinuavão asf ilhas , e por entre el- las fomos viajando , entrando no canal fíyiraíjba , de que sahimos ao romper do feia. Seguio-se huma enseada de fi- gura angular, em que era arrebatadíssima a correnteza H 2 k?K '6o Diário da Viagem. da agua, reflectindo com a mesma força, comque incidia. Por esta cauzà deixamos a margem do norte , que costeá- vamos , e nos passamos para huma ilha extensíssima, que occupa o meio do rio % a qual fomos rodeando. Por nove horas , e meia avistamos a boca do Auatíparaná por onde se.communica o Amazonas -com o Jupurá. Fornos também avistando a costa, que continua chamada Mina. Sem dei- xar as ilhas proseguimos a viagem passando de humas a ou- tras. A V cinco avistamos a outra entrada do Auatíparaná, que termina a referida costa Mina. CLXXXI. Tendo em toda esta viagem visto por va- rias vezes onças -, na tarde de hoje se matou a primeira com dons tiros, que da canoa se lhe atirarão. Postoque ainda nova, tinha já hum avultado corpo. Este animal he hum dos mais ferozes, e formidáveis, que habitão as sel- vas do Amazonas. São em tanta quantidade, que he peri- goso qualquer descuido em entrar no mato sem cautela. Por esta cauza íicão muitos Índios , dos que vem á colhei- ta do cacáo victimas infelizes daquella voracíssima fera. ííão ha maior segurança nas povoações, em que chegão a entrar pelas cazas. CLXXX1I. Alem da sua ferocidade he este animal dotado de incrível ardileza para fazer as suas prezas ; não somente pelleja contra todos osanimaes, mas até pesca tar- tarugas, e combate valorosamente contra o jacaré, ou cro- codilo. Aindaqueos seus dentes sejão extremamente agu- dos , largos , e reforçados comtudo a sua maior força con- siste nas unhas das mãos , comque faz tiro seguro a obje- cto , que intenta , principalmente de cima de alguma ar- vore, em que costuma fazer as esperas : estando sempre movendo a cauda , que he o que algumas vezes as faz pr-esentir. CLXXXIÍI. O único inimigo da onça, mas inimigo infeliz, he o Tamanduáuaçú. Do combate destes dous ani- maes se segue a morte de ambos. As armas do Taman- duáuaçú , são as unhas do comprimento de meio palmo, e agudíssimas, depois que com ellas prende a onça as não desenterra , até que ambos morrem. CLXXX1V. 3. Por toda a madrugada continuamos pelas ilhas. Ao amanhecer atravessamos para o norte , que I da Capitania do Rio Negko. 6¥ seguimos. Estreitava-se por aqui bastaníemente o rio. As terras erão altas, e compostas de rochedos cobertos de fron- dozas matas. Chamão a este lugar o Canária, o qual em todo o dia costeamos com bastante opposição das corrente- zas. Foi immenso o pium , que nos perseguio por todo o dia. Para jantar foi necessário estarem os Índios com leques de pennas , lançando-o fora. A' noute descançamos na bo- ca do rio Tonatí, aonde nos martirizou o carapaná. CLXXXV. O Tonati postoque rio de pouca conside- ração, he comtudo habitado de algumas nações de Índios: as mais conhecidas são os Cayuvicénas; que estando anti- gamente aldeiados na margem do Amazonas opposía á que agora navegávamos, em hum sitio entre o riacho Matura, matarão o seu missionário , e desampararão a aldeia, de que receberão o merecido castigo mandado dar pelo go- vernador e capitão general Alexandre de Souza Freire. CLXXXVI. A outra nação he a Pariána. De ambas ellas (cujas lingoas tem pouca differença ) temos Índios descidos nas nossas povoações. São inclinadissimos a agri- cultura , e hábeis na pesca , e caça , e por meio da sua la- borioza industria vivem abundantes. Ao aportar reparamos em que havia fogo na ponta de huma praia, que estava junto a boea do rio , e logo vimos fugir três indios , cuja fugida- não podemos atalhar. Estes indios costumão sahir do centro do mato para as praias neste tempo a fazerem as suas pescarias , e provimento de ovos de tartaruga. CLXXXVI1. 4. Sem deixar a mesma margem sep- tentrional , seguimos a viagem. A's onze e meia chega- mos á povoação de S. Fernando. Está esta povoação situa- da na margem septentrional do Amazonas, mas próxima á barra do Içá. He tal a elevação do terreno, que cancã a subida ; porem no alto do outeiro he planíssimo. Pelo oriente a banha o riacho Itáquí, do poente lhe fica o rio Içá. A natureza das suas terras mostra fertilidade. Form ou- se esta útil , e necessária povoação noanno de 1768, com- pondo-se dos indios das duas referidas nações Cayuvicénas, e Pariána descidos do Tonatí. CLXXXVIII. Entrei. nas suas cazas, onde observei aabundancia, comque vivem : estando cheios de farinhas, frutas, peixes ; notando especialmente os moquens cheios F"*^l 62 Díarío da Viagem de jacarés , ou crocodilos, que para elles he bocado esti- mado. Devo aqui dar noticia dos moquens , de que uzão todos -os índios. Em huma grelha de páo, sustentada por quatro pés , põem o peixe ou caça , e submetem-lhe fogo ) de sorte que não^ chegue á grelha , ali se vai assando len- tamente. Se haode fazer reserva , guardão os assados em cestos, & de tempos em tempos os tornão a aquentar. Para o uzo diário se vai tirando da mesma grelha, o que he necessário, e fica ali o resto para os mais dias. Com isto suprem o sal , que não tem.. Este moquem he o de que tra- tão alguns autores pela v palavra Boucan (a). A 1 grelha he que se dá o nome de moquem , e delia se estende aos as- sados. Pôr de moquem , he por sobre a grelha, CLXXX1X. Não me dilatei nesta povoação mais tem- po doque foi preciso para a ver , e examinar , e fazer as devidas praticasse recommendaçoes aos novos índios seus habitadores. Ã?s duas horas da tarde continuamos a nave- gar. Seguio-se logo o rio içá , cuja espaçosíssima , e rá- pida foz atravessamos. CLXXXX. O famoso Içá a que os castelhanos na parte superior , que occupão chamão Putumaio , corren- do com direcção quasi de oeste a leste desagua no Amazo- nas na altura austral de três gráos , e nove minutos. Nas serranias de Pasto , no governo de Popayan , j tem os seus mauanciaes, poronde se vê , que he dilatado o seu curso. Depois que em todo elle recebe o tributo de trinta consi-* deraveis rios , o vem pagar mais rico , e liberal ao Ama- zonas. Como aquelles" príncipes, que tendo. também vassal- los poderosos , elles são igualmente feudatarios de outros grandes potentados. Pode-se chamar a este rio o dourado fçá; porque das minas que tem nas suas cabeceiras arroja o ouro para as suas margens. O que os castelhanos occu- pão na parte superior deste rio. são as missões dos sucum- bios , que cathechizão os Franciscanos. Da foz do rio até á primeira missão serão dous mezes de viagem para cima. Os portuguezes sempre navegarão o Içá na parte inferior , exírahindo dos seus bosques a salsa parrilha , e cacáo , ge- («) Veja-se a histoire des Aventuriers Flibustiers par Oexmelin. da Capitania do Rio* Negro. 63 neros em que abunda, chegando até o Pepitarí , que nel- le entra pelo norte, e o Itití, que desagua pelo sul. CLXXXXI. Fundarão pois os castelhanos huma pe- quena povoação junto á boca do Içá, e na sua_ margem septentrional por occazião dos tratados dos limites, entre Pdíttfgál, e Castella-, a qual abandonarão inteiramente jio anno de 1766 , ficando reduzidos á sua antiga occupação. Logoque o i Ilustríssimo e excellentissimo governador ç e capitão general do estado Fernando da Costa de Ataíde Teive, teve noticia daquelle abandono, com a mais pru- dente e sabia politica , própria da sua : sagacíssima pene- tração mandou fundar a povoação de S. Fernando , de que já tratamos. Era na verdade inútil aos castelhanos aquel- la colónia ; porque a grande dificuldade de transportar os géneros a Pasto , ou Popayan , com a viagem não menos de cinco mezes , e perigozissima por cauza cias cachoeiras do rio, a fazia sem proveito, e interesse. Experimentavão r se ali ares pouco sadios, o que concorria para a pouca subsistência daquella povoação. CLXXXXII. Habitão no Içá muitas nações de índios as principaes são Içá que deo nome ao rio , e he diriva- do de huns pequenos macacos de boca preta-, como a tra* zem os Índios daquella nação Passe, Payába , Xumánaj Tumbira &c. A Cacatapuya he antropófago : traz por dis- tintivo hum risco negro largo , e retrocido das orelhas até o nariz. CLXXXXIII. Pela margem por onde fomos nave- gando esta tarde erão a maior parte de terras baixas, e alagadiças. Passamos junto a huma vistosa alagoa commu- nicada com o rio. .Nos lugares próximos ao Içá era imi menso o pium , e me disserão , que sempre assim costuma suceder. As correntezas do Amazonas erão também extraor- dinárias, favorecidas principalmente do vento, que furio- so batia de proa. Por oito e meia da noute aportamos nâ boca do lago Caninityba, aonde foi infinito o carapahá. CLXXXXIV. Apenas era manhã quando entramos a navegar : muito porem nos embaraçarão as correntezas, e vento. Tinha ficado a canoa tão cheia de carapaná , que foi impossível extingui-lo , e por essa cauza toda a manhã nos atromentou, Tendo deixado a margem do norte que se* I I £4 Diário- da Viagem- guia-mos atravessamos a do sul , e pelas dez lioras chega- mos ao lagar de Castro de avelans situado na mesma mar- gem sobre dous outeiros , tendo fronteira huma ilha. O terreno deste lugar he pouco igual. Pelo nascente lhe fi- ca o riacho Yauivíra, que quasi a rodea. Esta he a sex- ta situação , que tem tido este lugar. Dizem que a praga , e as doenças , a que erão sugeitas algumas das anteceden- tes foi a cauza destas continuadas mudanças. Quanto pelo que respeita as enfermidades poderá ter melhorado ; mas não no que toca á praga; porque nella he tanta, que fa- zia baldadas todas as precauções para lhe escapar. Dizião que este anuo era favorável. Doque inferia eu qual seria esta habitação em annos de menos favor. Porem em fim por aqui se vive, e passa, tudo vence o habito, e costu- me ,. pódendo-se dizer , que os incommodos , que os habi- tantes destes paizes sofrem neste particular , se lhes recoin- pensão com a admirável fertilidade das terras, e abundân- cia de pesca, e caça, comque evitão a miséria , e indigên- cia , em que vivem os de outros, postoque mais benignos, também mais pobres, e faltos. CLXXXXF. Os indios que habitão esta povoação são das nações Cambebas do seu fundamento : Pariánas , Cayuvicenas , Jurís , e Xumánas descidos do Içá. CLXXXXVI. Em lugar de mandioca de que fazem pouco uzo , costumão servir-se da macaxêra , outra raiz que preparão como a mandioca , e que alem de lhe ser- vir de pão, também a comem cozida, e assada. O que a macaxêra tem a seu favor he o crescer em seis mezes ; por cuja razão a plantão pelas ilhas na vazante do rio , para à colherem antes da futura enchente. GLXXXXVII. 6. Nada me convidava a mais de- mora neste lugar, de sorte que ainda parte das obrigações do officio diferi satisfazelas na villa de Olivença. Por sete horas da manhã parti , seguindo a viagem pela mesma mar- gem austral do nosso Amazonas , cortando não poucas cor- rentezas, em que por cauza das pontas da terra se preci- pitara o rio. Esta manhã avistarão os indios á borda da agua huma cobra chamada jararaca , que logo matarão. Esta cobra , a que se pode chamar a vibora americana , he : venenosíssima. Conhece-se pela cabeça chata 3 e pelas da Capitania do Rio Negro. 6% pintas brancas das suas escamas. São continuas as mortes que sucedem da sua mordedura , por serem muito frequen- tes estas cobras. Se morde de manhã , antes que no pasto tenha exhaurido a maior parte do veneno he irremidiavel a morte. Cura-se porem se sem passarem muitas horas de- pois da mordedura , se engulir o sumo da cana do assu- car, que he hum dos melhores antidotos, que se conhece. Também he proveitozo dar-se a beber aguardente de ca-» na, e sarjar-se o lugar da mordedura. CLXXXXVIil. Por huma hora depois do meio dia fomos descançar á boca do rio Aucruí. A agua deste rio em apparencia preta he na realidade cristalina , e ópti- ma. Habitão-no varias nações de indios sendo conhecidos os Uraicús , Marauás , Colínos , e Maiurúnas. Em todo es- te dia tivemos tirana perseguição de praga , que durou toda a noute. CLXXXXIX. 7. Não deixamos a margem do sul. Em todo o dia fomos avistando innumeraveis ilhas, assim como no de hontem. Erão estas ilhas á menos de século e meio muito povoadas pela nação Umauá , de que fallare- mos em outro lugar : hoje se achão deshabitadas cultura. A maior parte das terras , que avistamos , erão al- tas , e barrentas; mas junto a agua corrião quasi sempre alagadiços cobertos de cana brava. Pelas cinco da tarde entramos a navegar por hum canal estreitíssimo , cio qual sahimos pelas sete. Próxima se nos seguio a boca do pe- queno rio Jandiatyba , povoado das mesmas nações , que habitão o Acuruí. CC. 8. A^s seis da manhã chegamos á villa de Olu vença, aonde não desembarquei por querer visitar primei- ramente as povoações superiores. Partimos logo seguindo sempre a margem austral. Encontramos correntezas tão vio«? lentas , que forãp baldados todos osesforços , que os indios fizerão , para as passar a remo , ficando só o recurso de pu- xar a canoa por terra a corda , que foi effectivo. Por no- ve horas e meia passamos junto da boca do rio Comatiá. He de agua preta , e de pouca consideração. Habita-o o gen- tio Colíno , nação famoza pela ligeireza da carreira qual nunca foi possivel reduzir-se a aldeiar-se. A barra des- te rio he vistosa por cauza da terra , que se eleva na mar* i. ■TST - » 66* ■ Diário ida Viagem gem oriental , sendo baixa na opposta. Pelas cinco da tar- de avistámos o pequeno rio Pacoti , e ás seis atravessamos! para a margem do norte do nosso Amazonas, aqual segui- mos aíê a hora , que aportamos para descançar. CCÍ. 9. Fomos navegando pela sobredita margem toda esta manhã , ella estava cheia de formosas e elegan- tes arvores, e em grande numero surnaumeiras , mongú- foas , tucúns , e asais &c. CCÍI. A sumaumeira he de extrema altura, e gros- sura , lança os ramos horizontalmente a extraordinária dis- tancia. A madeira desta arvore he de pouco uzo por não ser de duração, o que porem he mais admirável nella he o seu fruto , do qual se extrahe huma espécie de algodão , tão estimado na Europa, para guarnecer, e estofar col- chões , para o que se não tem descuberto matéria mais pró- pria , primeiramente por ser muito cálida, e porisso con« veniente no inverno , em segundo lugar por ser tão elás- tica, que /postoque abaixe comprimindo-se com qualquer pezo , tirado elle e posta ao sol , logo torna a sua consis- tência , e em terceiro lugar pela sua alvura, e aceio. CCÍ II. Para se colher esta fruta se corta a arvore pelo pé, e logo se vai juntando a mesma, e se conduz para o lugar onde se abre , e se lhe separa aquelle algo- dão , ou felpa, e se introduz em hum saco, pois, se ou- ver descuido, vôa em hum instante. A fruta he pela for- ma de hum mellao pequeno } e comprido. Dentro está o algodão cobrindo a semente da fruta. Para completar duas ©u três arrobas , he necessário cortar muitas arvores , e dá, grande trabalho. CCIV. A sua flor he mulíipétale. A corola delia he composta de cinco laminas, ou pétalos de cor amarella, € com huma finíssima felpa, que parece pellucia. CCV. A Monguba tem alguma semelhança com a Sumaumeira na sua fruta , com a differença que a felpa ou algodão daquella he de cor parda , e dizem os expe- rientes que he anais fresca. CCVI. Tem a monguba também outra notável qua- lidade , que he o uzo , que se faz da cascajnterior do seu tronco , tão fibroza , que delia se fabricão cordas , das quaes commummente se uza nas canoas. da Capitania do Rio Negko. 67 CCVÍI. Ao tuòum se pode chamar o linho da Ame« lica meridional. Das fibras interiores das suas folhas fazem os indios obras, não só de gosto , e perfeição, mas também. de serventia universal para as suas commodidades domes- ticas. Redes para dormir, á que chamão maquíras, que eompoem entrelançando os fios com especial arte : matirís que são huns sacos de diversas formas, e grandezas , em que guardão , e transportão as suas couzas, e tudo de hum íio tão fino , e tão bem trocido , que faz admirar , e o mais he sem rodas, ou outros instrumentos, que não sejao ag próprias mãos , e o tempo. A arvore do tucum he huma espécie de palmeira brava, todo o tronco he cheio de es* pinhos agudissimos, e sem ramo algum, no alto estão as rolhas de vara e meia de comprimento , e todas recorta- das. CCVIII. O asai he outra espécie de palmeira. Da baga desta arvore se faz a celebre bebida do mesmo nome muito usual entre indios, e brancos, e passa por fresca. CC1X. A navegação de tarde foi quasi toda sempre por entre ilhas , em algumas das quaes se formavão vis- tozas praias; porem tinha já o rio por aqui vazado tanto, que era necessário, quando se rodeavão as praias, puxar a canoa á vara , para cujo uzo se servião os indios de ca- nas. Quando o permitia o fundo , saltavao" os indios á ter- ra , e prendendo huma corda ao masto da canoa, atiravãp por ella , com o que andava com pasmosa ligeireza, e com muito applauzo^dos indios , que aos seus trabalhos costu- mão sempre juntar a alegria, que lhos faz mais soporta- veis. CCX. Tendo atravessado para a margem do sul , con- tinuamos a navegação por entre ilhas , que- poraqui são innumeraveis , e , como já disse , erão todas antigamente po- voadas pela nação Umauás , ou Cambebas. Huma violenta trovoada , que nos sobreveio , e com a qual corremos , adiantou a viagem , fomos em todo este dia passando de huma margem á outra conforme o pedia a navegação , e ás dez horas da noute chegamos, á vista de 6*. Joze de J.a- varí , situada na margem austral do Amazonas. CCX1. Fica esta villa em terra pouco elevada ao rio , toma o nome do rio Javarí , aindaque dista delle I 2 ! mmmx 68 Diário da Viagem nove legoas. Na enchente do Amazonas se pode chamar huma península, por causa dos dous regatos que quasi a rodeão. Foi esta villa erecta no anno de 1759 pelo lllus- trissimo e Excellentissimo Joaquim de Mello e Povoas pri- meiro governador desta capitania. Compõe-se unicamen- te da nação Tecúna. • CCXIÍ. São os Tecúnas de hum natural preguiçosís- simo. Na sua filosofia professão o miserável dogma da me- tempsicose , ou doutrina Pjthagorica da transmigração das almas para outros corpos , ainda dos irracionaes. Adoptão o rito Judaico da circumcisão em hum , e outro sexo : sen- do pela maior parte as mais as ministras da operação , que celebrão com grandes festejos impondo os nomes aos cir- cumcidados. São tão apegados á idolatria, que aosmesmos já doutrinados nas nossas povoações não he possível po- der persuadir, que deixem o seu idolo; pois continuamen- te, se lhe está achando em suas cazas. He este idolo huma medonha figura feita de vários cabaços , e coberta por ci- ma da casca de huma arvore chamada na sua lingua ai- chama, que parece estopa, da qual fazem também alguns toscos tecidos para as suas cubertas. Ao idolo chamão Hó hó , nome que dão ao diabo. O distintivo desta nação con- siste em hum risco negro, e estreito das orelhas até o na- riz As mulheres não uzão de cobertura nenhuma: os ho- mens porem se cobrem pela cintura com a casca acima referida. CCXII1. Tem porem os Tecunas a singular arte de prepararem as aves , e passarinhos , que matão com esgra- vatana , de tal sorte , que ficão inteiros com todas as suas partes , enchendo-lhe a pelle de algodão , ou sumaúma , com o que contribuem para se mandarem para a Europa cm beneficio da historia natural. CCX1V. 11. Até o meio dia me dilatei nesta villa, a qual deixei para me ver livre não só da praga de ca- rapaná, e pium , mas também por reservar satisfazer as obrigações do officio no lugar da Tabatinga , aonde resi- de o commandante do destacamento, e fronteiras, incum- bido da directoria da villa. Toda a tarde fomos seguindo a margem austral. Pelas dez da noute atravessamos para a ponta inferior da ilha Aramaçá aonde descançamos„ 'MSSÊtS^JÊLL, £>A Capitania- do Rio Negro. 6$ CCXV. 12. De manhã principiamos a navegar cos- teando a sobredita ilha , que pelo meiodia tinhamos dei- xado. He esta ilha de extençao não menos de quatro pa- ra cinco legoas , e tão abundante em cacáo , que toda he hum caçoai. JNa margem austral do nosso Amazonas nos ficava a boca do rio Yavarí , chamado por corrupção Ja» varí. He este rio fértil em cacáo , e salsa parrilha. O ca- bedal das suas aguas he igual ao dos grandes que tribu- tão ao Amazonas , no qual desemboca correndo do sul a norte , na altura austral de quatro gráos. Habitão nelle diver- sas nações , sendo as mais conhecidas Marauá , Uaraicú , Pano, Chaiauitá , Chimaána, Yamèos &c. CCXVI. Porem a mais celebre de todas he a Mayu- runa, de aspecto tão medonho, como de bárbaros costu- mes. Trazem os cabellos crescidos , e no alto da cabeça huma coroa aberta. Os beiços , e nariz cheios de diversos furos , nos quaes introduzem espinhos de arvores , e nos cantos das bocas penas de arara, Nos buracos do nariz , beiço inferior , e orelhas , pendurão chapas de conchas. A barbaridade dos seus costumes consiste principalmente na deshumana pratica da antropofagia. JNão somente co- mem os seus inimigos, mas também os velhos, e enfermos da sua nação sem excepção de pais , e filhos. CCXVII. Tendo passado para a margem septen- trional , pelas três da tarde chegamos ao lugar de -K^a mm R da Capitania do Rio Negro» jç CCXLIII. Vendo eu, que no pequeno rio Tonati ha- bitava a nação Cayuviúna, e Pariána , das quaes erão os índios fundadores de 6', Fernando , me resolvi , quando pas* sei para cima, amandar-lhes fazer praticas, com a exposi- ção das razoes em semelhantes cazos mais convenientes, e adaptadas aos costumes , e génios dos Índios , paraque vies- sem habitar para a referida povoação , e que eu próprio vinha receber a resposta na volta da minha viagem. A es- ta negociação mandei três índios de Castro de Avelãs , sendo dous da própria nação Pariána. Ao meu dezejo cor- respondeo inteiramente o successo ; porque achei aqui três índios, e huma india , que o principal da nação mandou já a fallarme com promessa de descer os seus vassallos, e que os ditos índios vinhão para ficarem a dar principio ao seu estabelecimento de casas , e rossas , e que me pe- dia hum machado para abrir o caminho r que desse lugar a entrada de canoas maiores, que as pequenas de que usão. CCXLI V. Recebi estes deputados com satisfação igual ao interesse, que eu tomava neste negocio. Os índios erão de natureza alegre. A minha canoa foi para elles de gran- de admiração. As armas de fogo os fez pasmar. Vestidos, vidros , e cousas semelhantes lhes causavão reparos , e reflexões extraordinárias, que acabavão com rizadas. Do que lhesoffereci para comer, unicamente quizerão frutas , e assucar. Beberão aguardente mas em pouca quantidade. Assim os despedi contentes dando-lhes assucar , sal , espe- lhos , facas , anzoes , e fitas , de que elles ficarão muito agradecidos. E logo segui viagem deixando-os recommen- dados ao director de Castro de Avelãs , que conduzi em' minha companhia para esse fim. CCXLV. Feias dez horas da noute cheguei ao lugar' de Fonte òorc. Estava esta povoação allarmada , e temem-' za por cauza do gentio Mura , que tinha accometido. Con- tava esta- povoação por felicidade não ser combatida dos Muras, e tratava das suas culturas com socego. Agora prin- cipia a experimentar os receios, que padecião as mais da- qui para baixo , e que tanto perjuizo causão á agricultu- ra , e commercio desta capitania , que sem segurança não pode florecer. CCXLVJ. Conjecturo, que se se não dá prompto e ef- K 2 y6 Diário da Viagem ficaz remédio para inteiramente profligar , e destruir esta nação, que por sua natureza conserva cruel, e irreconci- liável inimizade com todas as mais nações, não exceptuan- do os indios : Que professa por instituto a pirataria , gras- sando por todos os lugares de publico transito, em que de- ve baver maior segurança : Que nas suas guerras , e assal- tos usa a mais barbara tirannia , não perdoando aos mesmos mortos, em quem commetem innarraveis crueldades, es- folando, e rompendo os cadáveres : Que apenas dá quar- tel a algum rapaz, que depois de ferido, e impossibilita- do a fugir, chega a captivar j e ainda assim para o redu- zir a escravidão : Motivos estes que não somente justiíicão contra esta nação a maisinfurecida guerra, mas que aper- suade huma indespensavel obrigação fundada no interes- se, bem da paz, è segurança da sociedade universal das nações Americanas , e colónias deste continente: se senão dá, digo, remédio a tantos, e tão universaes damnos , ou se reduzirão a nada as colónias , e estabelecimentos dos rios Amazonas, Negro, Madeira, e Jupurá, ou experimenta- rão o estado de languidez, e diminuição } que necessaria- mente lhes causa o temor dos Muras , e por hum calculo bem moderado se pode inferir, que o augmento, que tem, seria quadruplicado , e se seguros os moradores se appli- çassem á agricultura, ao eommercio , e a navegação essen- cialmente necessária neste paiz r para adiantar huma ,. e outro. CCXLVXI. 22. Sahimos deste lugar ás oito horas da manhã , e entramos a navegar o Amazonas para cima a i£ procurar o canal Manhána para entrar no Jupurá. Pelas dez atravessamos o Amazonas rodeando huma ilha baixa, cercada de praias, aonde erão innumeraveis as marrecas, das quaes se matou huma boa porção. A 's cinco da tarde chegamos- á boca do sobredito canal , que entramos a na- vegar. He este canal espaçosíssimo , e semelhante a hum grande rio, seu curso he socegado. A verdura dos frondo- sos arvoredos ,, que o cercão , reflectida na agua , lizongea agradavelmente a vista.. A navegação por elle he sem pe- ri : go , e trabalho ; porque não correndo cora rapidez cede facilmente á força do remo. Pelas oito e meia deixamos este canal , e entramos por outro mais estreito chamado Uai ú piá* Ml -.. -— • da Capitania , do Rio Negro. 77 CCXLVIU. 23. Na madrugada largamos seguindo* o referido estreito canal, e os seus multiplicados giros. As arvores estavão eubertas depatos bravos, e outras mui- tas aves, que causavão alegre diversão. Pelas nove e meia entramos pelo Auatíparaná , ou rio do milho, que he ou- tro laro-o canal, que sahe do Amazonas para o Jupurá. CCXLIX. Fomos por todo este dia continuando a viáffeni pelo referido canal , seguindo asua tranquila cor- rente. São tantos os giros que faz , que se não navegão trezentos passos sem mudar de rumo. He porem vistosíssi- mo ;.■ porque alarga em partes , em outras o rodeião praias ? que' agora estavão cheias de ovos de tartarugas. Erão tam- bém immensos os botos , que hião rodeando a canoa. A*s dez horas da noute em fim deixamos este célebre canal ? e surgimos ao Jupurá , onde aportamos a descançar. CCL. As povoações , que eu tinha de visitar neste rio 3 ficavão inferiores á sahida deste canal , por essa cauza prin- cipiamos a navegar para baixo, seguindo a plácida, e so- cegada corrente do Jupurá, erão innumeraveis as ilhas, que poraqui se extendião , e de diversas grandezas. Tínha- mos principiado a navegar pelas cinco e meia da manha , ás dez passamos a boca do grande lago Ayamá ., que pe- lo norte desagua no Jupurá, e logo chegamos á povoação de S. Mathias. CCLI. Foi esta povoação formada o anno passado com. os índios das nações Aniána, e Yucúna , que com dous principaes , tendo sido descidos para a povoação de Santo António inferior á mesma meia legoa, escolherão aquella situação para habitarem. A situação he agradável, não se acha ainda com cazas formadas. A do principal he de ce- lebre architetura formando huma pyramide de figura có- nica. Os moveis delia alem dos pertencentes a economia domestica , consistião em ornamentos das suas festas , que erão penachos das cabeças, flautas de osso humano , vários cascavéis de frutas, os instrumentos militares ,, lanças her- vadas agudíssimas , broqueis de couro, de anta &.c. Gque merecia maior attenção erão os tambores, ou.timbales chac- inados vulgarmente trocanos, e que lhe servem para os avisos de guerra, e paz fabricados estes instrumentos de hum grosso tronco , que cavão interiormente , ficando as» ir»/ u 7* Diário da Viagem sim oco , e depois tapados os dous lados , abrindo-lhe nò meio duas bocas, nesse lugar tocão com humas maças, cujas caoeças são conglutinadas de rezina elástica , ou de seringa, de que já falíamos, e lança de si voz tão sonora este instrumento , que se communica em lugares de distan- cia de duas , e três legoas , que faz admirar , e com toques diíferentes conforme os fins delles para darem avizo ás po- voações remotas , do que se passa. CCLIÍ. Os indios da nação Ycúna tem por distintivo o trazerem pendentes nas orelhas humas chapas de arame ou latão , que adquirem a toda a despeza , e diligencia.' He esta nação agricultora , e usa por consequência de do- micílios certos , e povoações. Não comem a mandioca mas sim o extracto delia chamado tapioca. Observa a monoga- mia , admitindo popem o repudio. Casíigão o adultério. Costumão fazer os seus cazamentos nas nações visinhas. Foi nação guerreira , porem hoje derrotada. CCL11Í. Da nação Aniána não havia atégora indios descidos nas nossas povoações. £lla habita o rio Apoaperí que desagua pelo norte no Jupurá. CCLIV\ Feita em breve a visita desta povoação par- ti logo para Santo António , que fica próxima ao peque- no riacho Jaraquíparaná. Está situada na mesma margem septentrional , e he composta das nações Mepurí , Xomána Mariárána , Macú , Baré , e Passe. Esta povoação esteve dou- tro tempo na margem austral oito dias de viagem da bo- ca deste rio para cima, cujo lugar occupa novamente ou- tra povoação formada pelo principal Macupurí , composta das nações'', Coerúua , e Jurí. CCLV . De todas estas nações a mais celebre he a Pas- se. Ella he numerosíssima, ama a agricultura, e traba- lho. O seu distintivo consiste em huma malha negra qua- drada , que toma 'parte do nariz , rosto , e barba, com mais dous riscos , que sahem do nariz por entre os olhos até á raiz do cabello. Das fontes da cabeça descem vários riscoâ cruzados por outros, que chegão á sobredita malha ne- gra. As orelhas são furadas com vários orifícios, e largos, em que costumão introduzir pedaços de frechas. O beiço inferior tem outro ; largo orifício f em que trazem huma chapa esférica de páo preto finíssimo , a qual tirão quan- ra 4T*« da Capitania do Rio Negro. 7*) do querem, com singular ligeireza. Eisaqui em que esta naçãopõeaidéadabeltza , parecendo-lhe , que somente são formosos , os que na verdade assim se desfeão , corrompen- do as feições , que a natureza lhes imprimio. Faz pena ver principalmente mulheres de nobre estatura, e feições de- licadas , como sãoquasi todas , maculadas pela abominável arte de suas próprias mãos. Estes riscos são feitos na infân- cia , e de annos em annos com espinhos agudos , cujas ras- gaduras enchem de tintas pretas, comque ficão deforma- dos para toda a vida. CCLVI. A filosofia desta nação ensina , que há hum ente creador do universo. Crêm , que as almas, dos que vi- vem bem, são premiadas, e que vão viver com o creador , e as dos que vivem mal , assignalão por castigo ficarem es- píritos malévolos. Opinião conforme ao svsthem a de alguns filósofos antigos. CCLVII. O systherna , que põe o sol fixo, e a terra em movimento á roda delle , que mais de quinhentos an.- nos antes de Christo ensinarão mysteriosamente os pytago- ricos , e depois Filoláo , Aristarco .., e principalmente Clean- te de Samos , renovado pelo Cardeal de Cusa , c .explica- do perfeitamente por Copérnico , he por elles adoptado. CCLVJII. Dizem, que do movimento da terra provem a correnteza dos rios, o que chamão artérias da terra, e aos riachos veias. Assentando que o sol está immovel , que- rem , que a terra se mova , paraque em todas as suas par- tes receba a fecundidade, que produz o calor do sol. CCLIX. Ao sol , e lua dão os mesmos ministérios , que a Escriptura lhes assigna-la. Assimcomo os Astróno- mos antigos dividião a esfera superior em vários ceos Tel- les a cortão em duas paríes superior, e inferior , separadas por huma abobada transparente, poronde emanão os raios da luz da parte superior , toda luminosa como habitada por Deos , cujos raios são as estrellas , que da parte infe- Tior se percebem. CCLX. Costumão enterrar os ossos dos seus defuntos em talhas grandes, das quaes os tresladão para outras mais pequenas com vários ritos , e festas. CCLX1. Nos seus cazamentos observão hum uso qua- -si semelhante ao dosSamnites, que costumão dar por pre- "Kl 1 ffo Diário da Viagem mio , aos que sedistinguião na guerra, a escolha das don« zeilas, que mais lhes agradassem na sua republica. Os Passes usão porem , para alcançar tão glorioso premio , combater entre si, como em justas , e torneos , que se fazem na pre- zença do principal, e das donzellas , ficando ao vencedor a feliz escolha. CCLXII. Os indios da nação Macú são vagos , não usão de agricultura , e se sustentão de caça , pesca , fru- ías , e doque roubão , e por isso nas novas povoações são aborrecidos ; porque nellas não perdem os seus costumes , sendo pouco o que se planta, para elles furtarem. CCLXIII. Os da nação Xumana , tem também huma malha negra ; porem somente lhes cobre os beiços , e dos cantos da boca lhe sahe hum risco , mas que não chega ás orelhas , nas quaes trazem os homens grandes anéis da fruta tucumá , e as mulheres pennas de aves. CCLX1V. A lingoa desta nação tem nomes de pro- priissima etymologia , e analogia. Chama ao sol ~Simá — que quer dizer, astro cálido. A lua — Uaniú~ isto he , astro frio. As estrellas ~ Uúeté — que significa , astro lu- zente. Ao raio — Yuúi — ou estrondo. Ao trovão — Qui- riuá^z que significa indicio de chuva. Aorelampago ~ Pe- lú rz isto he , couza pavorosa. A aurora zz Samatáca ~ que quer dizer principio do dia. CCLXV. São celebres nas suas superstições. Queimão os ossos dos defuntos , e lhes bebem as cinzas , na inteli- gência, de que as almas assistem nos ossos; para assim fa- zerem reviver os defuntos em si próprios. CCLXVÍ. A nação Xumana não he menos applica- da ao trabalho, e occupação doque a Passe: e por esta causa estas duas nações são as mais estimadas nas nossas povoações. A Xumana porem tem génio mais suave, e mais lizura que a Passe, que costuma commetter seus enganos, dizendo, que querem descer para as nossas povoações, e para o persuadir mandão algumas pessoas , isto he , varões , e poucas mulheres, e logoque recebem os prémios se re- tirão para as suas terras. CCLXVII. A nação Júri tem também malhas pretas , que cobrem os beiços , e hum risco do canto da boca até ás orelhas. Estas as trazem furadas. A nação Jurí he seme- * J da Capitania do Rio Negro. 8í lhante no génio , e nos costumes á Passe , e a lingoa de ambas tem pouca diíFerença. CCLXV1II. A nação Mcpurí não tem deformidade alguma. A sua lingoa lie semelhante, ou hum dialecto da Baré. Alem das mencionadas nações se conhecem no Ju- purá as seguintes. Yupurá , Cauiyarí, Gayuvicena , Xá- ma , Tamuána , Muruua , Peridá , Periatí , Parauamá , Ge- puá , Purenumá , Poyána , Clituá , Coretú , Tumbira, Am- buá, Mauayá, Pariána , Araruá , Ynpiuá , Umauá , Mi- ránha , sendo estas duas ultimas antropófagas. CCLXÍX. Os distintivos da maior parte destas nações são os seguintes. Os da nação Tamuána trazem os beiços inteiramente negros , e o mesmo os das nações Purenumá , e Poyana. Os da nação Xáma são iguaes aos Jurís. Cs da uação Tumbira tem todo o rosto negro , e trazem no bei- ço inferior hum buraco, tapado com huma chapa negra, e esférica. Os das nações Periatí , Yupiuá , Mauayá , Ara- ruá , trazem as extremidades inferiores das orelhas fura- das , que ornão com pennas de tocânos. ' CCLXX. Taes os modos de pensar , e caprichos dos homens, que huns chamao feio ao que os outros consi- derão como formoso. Todas estas nações observão os mes- mos costumes geraes , diversificando somente em algumas circumstancias particulares. IN ellas a religião he nenhuma. A sociedade imperfeitíssima , e por consequência pouco fir- me a obediência aos chefes , on principaes. Verdadeiramen- te senão podem chamar ■ nações , mas sim famílias, ou tri- bus , sem mais leis, que numas determinações momentâ- neas, expressadas de viva voz, quando a necessidade o pede para conservar a harmonia entre si. CCLXXI. ^ — Não he preciso , diz Mr. de Buffon (a) , ir procurar mais longe a causa da vida dispersa dos sel- vagens , e da sua indifferença para formarem a sociedade civil. Foi-lhe denegada a mais preciosa scintilla do fogo da natureza; pois lhe falta o ardor para a união do sexo , e por consequência o amor do seu semelhante. Ecomo não conhecem a mais viva, e terna de todas as uniões, são nelles frias , e languidas as mais sensações deste género : (a) Histoire Nat. tom. 18 pag. 147 da ediç. em 12 Paris 1764. L 82 Diário da Viagem ainao fracamente os pais > e filhos \ a mais intima de to- das ás sociedades , que lie a da mesma família, he susten- tada por débeis prizoes; a sociedade dehumas famílias com as outras não tem vinculo algum: daqur se segue, que não pode haver reunião, republica, e estado social. ~- CCLXXII. Na guerra porem , a que dá motivo qual- quer leve cliíferença , mostrão grande esforço , e conservão os rancores de nação a nação perpetuamente, que muitas vezes somente se terminão com a inteira destruição de al- guma delias. Usao de esgrava.tana , e de lança hervando as pontas da mesma com venenos activos. Também usão do coidarú , semelhante átamarana, que já descrevemos. Cobrem-se na peleja com escudos feitos de couro de anta, ou peito de jacaré. De todas estas armas me fizerão pre- zentes. Parti da povoação de Saído António pelas cinco ho- ras da tarde , seguindo viagem toda a noute por entre in- numeraveis ilhas. CCLXX1II. 26. Na madrugada tínhamos passado pró- ximos á boca do canal Uaranápú , que communica o Ama- zonas com o Jupurá , e lhe turba as suas aguas , tingin- do-a da cor do amazonas. CCLXXIV. Pelas oito da manhã avistamos a primei- ra boca do famoso lago Amaná, que se communica com outro nao menos famoso , Cudayás , e ambos habitados do gentio Mura. Pelas cinco da tarde passamos junto da se- gunda boca do referido lago , que íica na margem do nor- te do Jupurá. Navegamos toda esta noute , atéque chega- mos á grande barra deste rio. CCLXXV. Assim completei huma navegação , que nenhum dos meus antecessores emprendeo , e a que eu me resolvi movido da necessidade , que julguei haver de se •visitarem aquellas povoações, e da curiosidade de ver, e examinar hum rio de tanta fama, e celebridade. CCLXX VI. Por certo he o Jupurá o maior depois do Rio Negro, dos que desaguão no Amazonas. Oimmen- so pezo das suas aguas o faria innavegavel, se as multi- plicadas ilhas , que por elle estão dispersas , não rebates- sem a fúria das suas correntes. Actualmente corria soce- gado por estar vazio. O nome de Jupurá lhe vem da na- . £ão da mesma denominação (sendo que a pronuncia dos KXHfi29tJSLJE£^ da Capitania do Rio Negro. 85 Índios he Yupurá ) e também da fruta yupurá, de que fazem haina massa branda negra, e fétida, que comem. CCLXXVII. Os castelhanos na parte superior lhe dão o nome de grão Caquetá. As suas fontes são nas cordilhei- ras de Popayán. Dirigindo o seu dilatado curso de oeste a leste parallelo ao Rio Negro , e Amazonas , em cuja en- trada se inclina para o sul na altura de ires grács, e ai- guns minutos do mesmo polo. A hum rnez de viagem da sua barra tem cachoeiras , saltos , ou catadupas de grande altura. As aguas deste rio são cristalinas , e transparentes até o lugar, em que as turba o canal nomeado Uaranapú. As suas margens abundão em salsa parrilha , cacáo , óleo de cupaíba , baunilhas , e puxirís. CCLXXVIII. Concorrem a formar este grande rio outros muitos consideráveis. Pelo sul desde a barra até as cachoeiras os seguintes: Acúnauí; Mauarapí , Yuamiaçú, Yuamémerím , Furéu povoadissimo de gentio, e commu- nicado com o Içá , vencida pouca distancia de terra : Cu- nacuá, Arapá , das cachoeiras para cima até onde- he na- vegado pelos portuguezes : Cauinarí , e Mutú communica- do. com o Içá por meio do Peridá. CCLXXIX. Pela margem do norte desembocão 110 Jupurá os seguintes , Maruá pequeno rio , eao qual Mr. de la Condamine erradamente chama lago , e com igual en- gano o faz communicado com o Urubaxí , que desagua 110 Rio Negro: O lago Cumapí, o riacho Meuaá , este sim communicado com o Urubaxí , mediando sempre huma pe- quena porção de terra entre as cabeceiras de ambos : Pua- puá, Amaniyuparaná , cujas fontes são contíguas as do Inuuixí , que também desagua no Rio Negro : Oacapúpa- raná , Yucarapí, Apuaperí povoadissimo de gentio , e com- municado com o Uaopés , que desagua no Rio Negro: Mu- ni típaraná , Uaniá , Iraparaná , e Yarí , que he até onde tem navegado os portuguezes , e flcão estes quatro últimos para cima das cachoeiras. CCLXXX. Estava-se atégora na intelligencia de que o Jupurá desagoava no Amazonas por , oito ciíFerentes bocas , as quaes tenho hido referindo. Porem verdadeira- mente não tem mais , que a sua principal. As superiores á barra deste famoso rio são canaes , c^ue saliem do Araa- L 2 ?m> «*= 8 4 Diário da Viagem Zonas para elle , assimcomo o Auatiparaná , e o Urana- pú, o Manhána sahe do Amazonas ,e nelle torna a entrar, comnmnicando-se sim por hum breve transito como Aua- tiparaná. Isto he o que eu pessoalmente vi , e examinei. As quatro bocas inferiores adita barra são aguas , que pro- vem dos iagos Amaná , e Cudayás , os quaes as não rece- bem doJupurá. Fica assim desvanecido hum engano, que prevalece© principalmente depois da viagem de Mr. de la Condam ine, que com tom decisivo nos dá por certas aquel- las bocas (a). A este celebre viajante seguirão todos, e assim se arrumou nas cartas geográficas. CCLXXXI. O que mais fez conhecer este rio forão as multiplicadas navegações, que por elle se fizerão ao írato de escravos, antesque justamente se abolisse huma permissão tão injuriosa á natureza humana, e tão sujeita ainda nas condições facultadas ás mais impudentes, e frau- dulentas iniquidades. Abolição que bem caraterisa o nos- so século, e da qual resulta immortal gloria ao pio, e magnifico coração do nosso augusto Soberano : devendo-se imprimir com letras de ouro a santa lei de 6 de Junho de 1755, que restitue os Índios á sua natural liberdade, em reconhecimento da sua justiça 5 e esculpir-se em taboas de bronze para fazer indelével a sua memoria. Estas taboas deverão ser affixadas nas praças do grão Pará, e erigidos padrões em todos os rios da capitania do Rio Negro, que servissem de signal as innumeraveis nações de Índios, que habitão os seus vastos certões , que ainda perguntão , sehe certo abolir-se entre nós a escravidão ; paraque trocando em sincera amizade o ódio entranhado , que contra nós conceberão por aquelle motivo , olhassem para os mesmos padrões como memoriaes eternos da grandeza , e religião de S. Magestade , e procurassem estabelecer entre nós hu- ma união, e sociedade fundada na boa fé, de que devem nascer entre elles , e nós reciprocas utilidades. CCLXXXII. 27. Pelas cinco horas da manhã entrei no lugar de Alvaraes , aonde me demorei até o meio dia, em que seguimos viagem. No pequeno rio Urauá , que co- mo já disse banha este lugar, se via por ter vazado mais 00 O citad. Extracto do Diário pag. 50. da Capitania do Rio Neg-rò. 05* incrível multidão de jacarés, este tremendo, e sagacíssi- mo monstro, que he hum dos flagelos do Amazonas, do qual direi agora, o que tenho observado , e ouvido por es- te rio. CCLXXXIII. He o jacaré aquelle terrível animal conhecido na historia principalmente do Egypto^ com o no- me de crocodilo : sabe-se porem que o crocodilo ameri- cano excede em grandeza aos de Africa, que^ habitão o INilo , e Níger. Os do Amazonas chegão a trinta palmos de comprimento. CCLXXXIV. Para se pintar este dragão aquático, este leviathan, não ha termos, que sej ao suficientes. A sua cabeça he verrugosa. Os seus queixos costumão exceder qua- tro palmos de comprimento , e com hum labirintho de mós , e duplicadas fileiras de dentes formão agudas serras. Os olhos superiores á superfície do casco , em que estão mos- trando a malícia, de que he dotado. O corpo sustentado em quatro pés, e todos cheios de impenetráveis conchas ; ehu- ma cauda , que quando corre , eleva com espantozo mo- do. Eis-aqui huma pintura , postoque em borrão , deste he- diondo , e ferosissimo animal. CCLXXXV. As suas conchas fazem , comquedificul- tozamente o penetre a baila , sendo nos olhos o tiro mais certo para o matar. Em terra he muito mais feroz doque na agua. Depois de costumados a carne humana são peri- gosissimos ; porque assaltão com a maior temeridade. Po- rem ordinariamente o modo de fazer as suas prezas he por industria. Tem a arte de encobrir todo o corpo debaixo da agua , ficando-lhe somente os olhos próximos á super- fície delia para observarem os objectos , e desta sorte sem serem vistos , fazem prezas nas pessoas , que descuidada- mente se banhão á borda dos rios , principalmente rapa- zes. Até chegado a tirar os remeiros das canoas , sendo de noute , quando estão apartadas. O lugar que mais frequen- ta -o jacaré he o porto das povoações. Quando procura a fêmea, ou guarda os ovos, que põe á margem dos rios, eníre a espessura das plantas , e cobre de folhas secas , fi- cando de fora á mira emquanto não sahem dos ovos os jacarésinhos , he que anda mais enfurecido. Exhala de si Jmm tal almíscar, que muistos achão agradável ; postoque ■"■ $6 DlABIO DA VlAGEiM eu com outros o não possa suportar. O inimigo maior do ja- caré he a onça. Não se encontra aqui o iclmeumon , que se diz ser destruidor dos crocodilos do Nilo (a). Oichneu- mon he hum animal da grandeza de hum furão, e ao qual se dá também o nome de mongousta , mango, ou rato de Faraó. Vid. JBuffon. H. N. tom. 26. CCLXXXVM. 29. Fomos nestes dias seguindo a via- gem pelas correntezas do nosso Amazonas, e avistando ex- tensas praias, que esta vão cheias de gente , que tinhão vin- do a ellas fabricar manteigas de ovos de tartaruga. Já fal- íamos em huma espécie de tartarugas chamadas taracajás: agora diremos alguma couza sobre a-íartaruga verdadei- ra. CCLXXXVII. Nos mezes de Outubro, e Novembro sahem as tartarugas a desovar e em tão grande numero, que enchem humã praia, e ainda ficão muitas á borda da agua , esperando, que as outras serecolhão para ellas sahi- rem. Abrem huma cova na arêa , e logoque ahi largão os ovos, que costumão ser até o numero de sessenta e qua- tro cada ninhada, os cobrem da mesma arêa, e com tal ar- te , que alizão a superfície , paraque não possa ser conhe- cido o lugar. Em quinze dias sahem as íartaruguinhas , e vão direitas á agua por hum singular instinto. CCLXXXV1IÍ. No tempo, em que as tartarugas es- tão nas praias , he que se faz o maior provimento , porque se lança mão delias , e se virão com as costas para a ter- ra , ficando assim impossibilitadas a moverem-se, esecar- regão para as embarcações. CCLXXXIX. Os ovos não só seirvem para se come- rem , mas também delles se fabrica o azeite , ou mantei- ga, que constitue hum importante ramo do commercio en- tre as capitanias do Pará, e Rio Negro. Este azeite se pu- rifica ao fogo. Das banhas da tartaruga se extrahe tam- bém outra manteiga , que he na verdade excellente. Em íim a tartaruga he sadia, nutritiva, e de fácil digestão. Os indios a preferem a todo o outro género de comida , e os nossos europeos, costumados a elia , lhe dão a mesma preferencia. (a) Pluch , Spetacle de la nature tom. i. entr. 13. Mt m*l da Capitania do Rio Negro. &f, CCLXXXX. Alem disto também ha a tartaruga da terra, chamada jabobí, cujo fígado passa por hum bocado delicado. A sua concha superior he muito curva. mata- mata he outra qualidade de tartaruga, de figura horren- da por causa da sua concha cheia de tuberosidades , e excrecencias escabrozas , pescoso , e cabeça de longura des- proporcionada. Vive nos lagos. CCLXXXXI. 30. Pouco depois da meia nonte des- te dia chegamos não muito longe da foz do Rio Negro. CCLXXXX II. Dezembro 1. Pelas cinco da manha entramos a navegar o Rio Negro. Assim se vê completa em três dias e meio com as suas respectivas noutes , a via- gem que para cima nos levou treze dias também com hu- ma grande parte das noutes. A rápida correnteza do Ama- zonas pode a este respeito ser comparada á do Clituno rio daOmbria, que Plinio o moço elegantemente descreve (a), rr Precipita-se , diz o citado autor, o Clituno com tão igual descida , que para o navegar para baixo se pode passar sem o soccorro dos remos, e com remos de qualquer qua- lidade que sejão, he trabalhoso subi-lo. Huma , e outra destas couzas 'causa extremo prazer, aos que onavegao so- mente por se devertir , ou que vão contra o fio da agua , ou que o sigão , fazem suceder o descanço ao trabalho, e o trabalho ao descanço. CCLXXXXIII. Apenas os indios (sendo a maior par- te do Rio Negro) avistarão as alegres collinas, que rodeão a margem septentrional deste rio ; que tanto aformoseão a sua soberba entrada no Amazonas, e que meterão o remo na agua preta , não se pode expressar a alegria , comque logo clamarão ao seu modo, aplaudindo esta entrada ao som do memby instrumento de fôlego , forte . e sonoro , mas de fácil fabrica. Eu próprio senti contentamento ven- do-me livre dos contínuos perigos da navegação do Ama- zonas ; postoque me restassem não poucos , comtudo me- nos atemorizantes , que o risco dos passados. E agora prin- cipiarei a dar noticias do Rio Negro , que reservei para este lugar. (V) Liv. 8. carta 8. >' &vT NTMUaWH r o$ Diário da Viagem Descobrimento do Rio Negro , origem do seu nome , limites dos domínios portuguezes neste rio. CCLXXXXIV. Bem se deixa ver, que a côr das aguas do Rio Negro deo motivo a imposição do seu no- me. Eílas vistas no rio são de hum escuro tão fechado, que parecem hum lago de tinta preta ; porem a sua ver- dadeira côr he de alambre , como se conhece , quando se tomão em hum copo. Peias observações optico-fysicas se vem no claro conhecimento daquella côr preta, que se de- ve procurar nas razões , donde se tirão ascauzas da opaci- dade dos corpos. Huma só superfície , ou lamina daquella agua, he da côr de alambre , e transparente , mas unindo- se diversas laminas , e superfícies turbão a transparência , e causão a opacidade , e por consequência quanto maior fundo, tanto maior será o escuro. O que bem se observa, reparando-se , que á borda da agua até três palmos de ex- íenção , em que o fundo não chega a hum , mostra a agua a còr de alambre. A causa desta côr de alambre conjectu- ra-se porvir dos bitumes , que encontra o rio nos grandes e multiplicados rochedos , poronde passa em quasi todo o seu curso descendo das altas cordilheiras de Popayan. Ou- tros querem , que esta côr provenha das arvores, que inun- da, por ser todo cheio de ilhas, alagadiças : o que não pa- lece improvável. CCLXXXX V". O antigo nome do Rio Negro era Quia- ri. Na parte superior conserva odeUéneyá. Entra no Ama- zonas na latitude austral de três gráos e nove minutos , sendo o seu maior tributário. CCLXXXXVL Neste lugar se coangusta prodigio- samente á proporção da sua largura: porque chegando es- ta em parte a sete para oito legoas , aqui terá hum quar- to de legoa. He espectáculo admirável o seu encontro com o Amazonas , lutando ambos como em porfia para fazerem predominar a côr das suas aguas: mas fica o Amazonas ven- cedor, arrojando valente o negro para a margem opposta , o qual imperceptivelmente se vai misturando com o Ama- zonas , atéque em breve espaço se faz dominante a côr es- branquiçada das aguas deste. da Capitania do Rio Negro. 3<> CCLXXXXVII. Não tem sido possível alcançar no- ticia certa do anno do descobrimento do Rio Negro. Oan- nalista do Pará não nos disse nada neste particular, assira- como omittio outras noticias interessantes desta capitania, que lhe era fácil averiguar no tempo , em que escreveo: Oquesesabe he , que o seu descobridor foi Pedro da Cos- ta Favella: famoso por ser hum dos ofíiciaes da armada da viagem de Quito , famoso por ficar nesta occasião com- mandando o destacamento na província dos encabelados, e famoso pela expedição do Urubu, de que já falíamos. Depois desta expedição , em que se castigarão as rebeldes nações daquelle rio, tornou a elle o mesmo Pedro da Cos- ta , e como teve noticia participada pelos índios, de que no Quiari ou Rio Negro habitava a nação dos Tarumãs, a foi procurar com o padre Frei Theodosio religioso Merce- nário , e por via dos Aruaquís , já mencionados pelo mes- mo padre, foi admetida a pratica, e se fundou a primei- ra povoação do Rio Negro. CCLXXXXVI1I. O general do estado António de Albuquerque Coelho mandou edificar a fortaleza da bar- ra deste rio por Francisco da Motta Falcão, e foi o seu primeiro commandante Angélico de Barros. Orasendo cer- to, que a expedição do Urubu foi no anno de 1665 , me persuado, que o descobrimento do Rio Negro, que lhe foi posterior, vivia a ser pelos annos de 1668 , e 1669, dan- do luo-ar a esta conjectura a certeza, de que nesses annos andava Pedro da Costa oceupado nas tropas de resgates no Amazonas (a). CCLXX XXIX. Quando fallo em descobrimento, que- ro dizer da entrada interior , e reducção das nações ; por- que a sua barra já antecedentemente era conhecida ; pois- que delia se dá noticia na viagem do nosso Pedro Teixei- ra , mencionando algumas nações habitantes do mesmo rio, como são os Uaranácuacénas , que depois reduzimos. Ti^ nha vindo para a guarnição da fortaleza o sargento Gui- lherme Valente, o qual com heróico esforço entrou na empreza de penetrar o rio , conhecer, e domesticar as mui- tas nações , que lhe dizião habita vão nelle , e com efFeito 9)T 00 Bexred Ann. liv. 17 § 1 1 66. e seg. M FW1 elo Rio Negro ao Orinoco descobrindo- se o braço delle chamado Parauá , e o canal Caciquiarí , que o communica immediatamente com o Rio Negro : isto antesque os castelhanos tivessem nem ao menos noticia do dito Parauá , e Caciquiarí : pelo contrario duvidando seus escriptores da mesma communicação , como se pode ver da obra do Jesuíta Gumilla , superior das missões do Ori- noco , intitulada Orinoco illustrado (a). Escreverei as suas palavras por serem muito expressivas neste particular: — Niyo ( diz o citado author ) ni Missionero alguno delos que continuamente navegan costeando el Orinoco , hemos visto entrar, ni saí ir ai tal Rio Negro. Digo ni entrar , ni salír; porque supuesta la dicha union de rios, restaba por averiguar de los dos , quien daba de beber aquien ? Pêro Jagrande , j dilatada cordillera, que media entre Maran- hon , j Orinoco, escuza a los rios de este cumplimento, yoós outros de esta duda. — CCC1. E na mesma obra fazendo-se huma exacta dis- cripção do Orinoco, numerando-se os rios, que lhe são tri- butários , se não diz palavra da parte superior , ou braço do Parauá , nem menos do Caciquiarí. CCCII. No dito anno de 1744 entrou Francisco Xa- vier de Moraes em companhia de outros portuguezes com huma publica , e authorizada bandeira pelo rio Caciquia- rí , e sahmdo depois pelo Paraná encontrou qiiasi junto ao Orinoco verdadeiro ao Jesuíta Manoel Romão , que por (V) I. part. cap, 2 pag. j 7, »£! ■Ja HHS da Capitania do Rio Negro. f)f hllma casualidade navegava por aquelle rio , o qual trou* xe consigo para o arraial de Ávida. Essa foi a primeira occazião , em que castelhanos virão aquelles rios : e então disse o mesmo Jesuíta , que hia desenganar os moradores do Orinoco , de que este se communicava com o Rio Ne- gro , e tão remotas erão as noticias desta communicação , que no Orinoco se cria, que os habitantes do Rio Negro erão gigantes. CCCÍII. Poronde fica patente , que todas as descu> bertas feitas até aquelle lugar são dos portuguezes, que pela sua industria, e trabalhos as concluirão : poisque os castelhanos não só ignoravão aquelles paizes, mas até os tinhão por fabulozos. CCCIV. Mas também antes do dito anno de 1744 já os portuguezes conhecião a maior parte do Rio Negro das cachoeiras para cima ; porque nos annos de 1725 , e 26 su« bião varias tropas superiormente aos ditos destrictos , che- gando ao Yauitá , que desagoa quasi nas cabeceiras do Rio Negro , e não menos que vinte dias de viagem supe- rior á foz daCaciquiarí. No anno de 1740 continuou o mes- mo arraial no Yaceitá. Nos annos seguintes continuarão os arraiaes das tropas no porto do principal Coucí , próxi- mo a Marabiíánas. Destes arraiaes se despedirão corpos de gente por todos os rios, que desagoão no Rio Negro, até chegarem ao Iniridá , e outros muitos, descendo, e resga- tando indios nos mesmos. Todas estas descubertas erão fei- tas por cabos authorisados , e os arraiaes formados á conta da fazenda de S. Magestade. CCCV". Estes factos se achão legalmente provados; e justificados por ordem do governador, e capitão general, que foi deste estado o illustrissimo e excellentissimo Ma- noel Bernardo de Mello de Castro , dirigida em officio de nove de Setembro de 1763 ao ouvidor geral do Pará, pa- raque procedesse á mesma justificação , a qual se continuou na ouvidoria desta capitania : mostrando aquelle general neste, e doutros particulares o seu inimitável zelo no ser- viço de S. Magestade, e na conservação, e defeza dos seus Reaes domínios. CCCVÍ. Não obstante porem a indisputável certeza, e notoriedade dos mesmos factos , e da sna necessária con- M 2 : I ■■> - m 92 Diário da Viagem cludencia, esquecido delles D. Joze de Iturriaga commis- sario de S. Magestade catholica para a execução dos li- mites da America entre Portugal, e Hespanha , dirigio huma carta em vinte de Maio de 1763 ao nosso dito ge- neral , rogando-lhe a evacuação dos destacamentos portu- guezes dos destrictos das cachoeiras do Rio Negro, assi- gnando»nos por limite a cachoeira do Corocobi. Carta que produzio a elegante , solida , e irreplicavel resposta , que tenho o gosto de copiar neste lugar. Resposta. CCCVÍI. — Excellentissimo Sr. Mui senhor meu. Em consequência do amor, comque S. Magestade catholica firmou a paz com a coroa Fidelíssima , recebi a carta de V. Ex. a em data de vinte de Maio do anno corrente , co- mo huma producção do cordial affecto, e sincera aliança de amizade novamente estabelecida entre os augustos prín- cipes nossos amos, e por elles mandada alternar entre os vassallos de ambas estas amabilissimas coroas : correspon- dência , que me he tão agradável, como sensível a maté- ria, que contem a carta de V. Ex. a ; pois transcendendo o poder das nossas jurisdições inteiramente nos priva de a tratar, quanto mais de a resolver, sobre hum importante assumpto reservado aos nossos monarchas , que fizerão a paz , e as potencias , que a garantirão. Pertende V. Ex. a , que eu mande retirar os destacamentos das tropas , que guarnecem as margens do Rio Negro desde, a cachoeira do Corocobi para cima, e restituir osindios das povoações , com o abso- luto motivo de serem estes da devoção de Hespanha , e aquellas terras dos seus mesmos domínios. Permita-me V. Ex. a , que em defeza da verdade dê a V. Ex. a as noticias , que qualiíicão esta causa , aindaque não suponho novas ao conhecimento , e instrucção de V. Ex. a ; pois as terá ad- quirido em todo o tempo, que serve a S. Magestade ca- tholica nesta parte da America. CCC VIII. A possessão do Rio Negro he tão antiga na coroa portugueza , que principiou logo com o domínio das mais colónias , que tem neste estado , sendo todos os vassallos delle os que de tempo iminemoravel o navega-* 1MOR-»J>UK^A da Capitania tio Rio Negro» 93' rão sempre , desfrutando todos os annos os haveres , que produzião os sertões de ambas as suas margens, ^com tão efficaz curiosidade , que continuamente estendião a sua navegação pela mãi do rio muitos dias de viagem acima da boca da Caciquiarí , e por varias outras bocas , que tem o mesmo rio , de sorte que em todo este tempo foi o Rio INea-ro encuberto , não só ao domínio, mas também ao co- nhecimento hespanhol , que ignorando totalmente a sua situação hydrografica , questionavão a sua origem, e a sua direcção até o anno de 1744, em que curiosamente a quiz indagar o P. Manoel Romão religiozo da Companhia chamada de Jesus, e superior das missões, que dirigia a sua congregação no rio Orinoco , vindo por elle a entrar no rio Caciquiarí , aonde encontrou huma tropa portugue- za; na sua companhia desceo até o Rio Negro, aonde fez pouca demora , e donde logo voltou , dizendo , que hia desenganar os moradores do Orinoco, de que as suas^ aguas pagavão feudo ás correntes do Rio Negro, até então des- conhecido dos castelhanos, não só pela via do Caciquiarí , mas pela dos rios Iniridá , Passavicá , Tumbú , A'ke , que também do Orinoco correm a entrar no Rio Negro , cujas differentes aguas sulcarão sempre as canoas portuguezas , por serem uzuaes á sua posse , e incógnita á noticia lies- panhola. CCCIX. Desta experiência , que fez o dito religiozo ,' não surtio acção alguma da parte de Hespanha , com que presumisse legitimar a sua posse imaginaria , até o anno de 1759 , em que com o motivo das Reaes demarcações mandou V. Ex. a ao Rio Negro o alferes Domingos Simão Lopes, o sargento Francisco Fernandes Bobadilha , e J ou- tros hespanhoes, a saberem do arraial portuguez destina- do para as conferencias das Reaes divisões, e elles de ca- minho vierão com clandestinas praticas persuadindo os ín- dios ásua communhão, e formando em algumas povoações dos principaes, cazas , com o pretexto de previnirem ar- mazéns, em que recolhessem as bagagens do seu respecti- vo corpo, quando descesse para o arraial das conferencias. Com esta occasião se estabelecerão na povoação de S. Car- los , e de lá se estendeo o sargento Francisco Fernandes Bobadilha pela barra do Rio Negro até a primeira povoa- ?*ara? \ $4 Díario da Viagem ç%o dos Marabiíanas , que ha pouco tempo abandonou queimando os índios as suas mesmas rústicas habitações! Estes são os princípios, de que V.Ex. a quer deduzir aper- íenção ao Rio Negro , e estas são as razões da nossa par- te , a que V. Ex. a chama violências praticadas no tempo da boa amizade. CCCX, . A 1 vista de huma , e outra justiça parece, que V. Ex. a não só me desculpa, mas juntamente me obri- ga a fazer-lhe a reconvenção , paraque V.Ex. a mande re- tirar os destacamentos das povoações de S. Carlos S. Fi- lippe , emais povoações praticadas doCaciquiarí para bai- xo , por se terem introduzido todas nas dependências do Rio Negro. Este requerimento , que ligitinia mente faço a V. Ex. a acompanhará a conta , que proximamente darei a S. Magestade Fidelíssima para a communicar a S. Majesta- de catholica. CCCXI. Com que horror , e escândalo da razão não ouviria V. Ex. a outra semelhante proposta, se eu lha fi- zesse , paraque mandasse evacuar de tropas , e Índios os des- trictos do Orinoco ? He certo , que este pensamento por in- justo causaria em V. Ex. a hum admirável assombro ; pois affectava querer dispor, e governar o presidio alheio. ^ CCCXII. JNo tratado annulatorio dos limites , e neste ultimo das pazes , convierão os nossos príncipes , que as couzas se conservassem no estado antecedente , isto he , an- tes da negociação dos limites , e antes do rompimento da guerra, e a observância de ambos estes tratados, he ou- tra razão , para nos conservar-mos na mesma forma , em que estivemos sempre antes destas duas assignadas épocas. CCCXIII. Se estas duas razões , assimcomo conven- cem o entendimento, persuadirem a vontade de V. Ex. a * estou certo, que V. Ex. a desistirá da empreza , que por- todos os títulos está recommendada só ao poder Real , e amigável convenção dos nossos respectivos monarchas, em cuja soberana e Fidelissima prezença porei na primeira frota a carta de V. Ex. a , paraque vista a sua matéria a trate Sua Magestade Fidelissima com a corte de Castella; e" a deliberação , que sobre ella as duas Magestades fo- rem servidos acordar , as participaremos reciprocamente executando as ordens , que nos dirigirem a este res- da Capitania do Rio NegkÔ; 95* peito , e por ellas terei eu mais occaziões de possuir a hon- ra, e correspondência de V. Ex. a , e de lhe votar rendida, e fiel vontade, com que odezejo servir. Deos guarde a V. Ex. a muitos annos. Grão Pará vinte seis de Agosto de 1763 — Manoel Bernardo de Mello de Castro — Excellentissi- mo Sr. D. Joze de Iturriaga. CCCXIV. Esta resposta será sempre tida não só co- mo monumento perpetuo do já louvado zelo, mas também dos incomparáveis talentos daquelle esclarecido general. CCCXV. Poronde se conhece, quanto bem fundados sejão os direitos de Portugal sobre o domínio do mesmo Parauá , Caciquiarí , parte superior do Rio Negro , de to- dos os rios colateraes de huns , e outros , e terras adjacen- tes : domínio fundado incontrastavelmente em todos os di- reitos de invenção , oceupação , e posse , e todos os mais que se costumão allegar para provas da legitimidade da possessão das terras novamente descubertas, e fundado em factos de evidente certeza, e que existem em documentos indisputáveis , e concludentes. Mostrando-se assim clara- mente sem fomento, e razão alguma de direito a fundação dos castelhanos do seu presidio de S. Carlos na margem do Rio Negro, e juntamente as mais povoações do Parauá fei- tas por hum abuso da boa fé, com que entrarão por aquel- les destrictos na occazião , em que se lhe facultou o tran- sito por causa da execução dos tratados dos limites da America entre as duas coroas; poisque sendo necessário transportarem as bagagens dos seus commissarios , e para commodidade da passagem principiarem a levantar humas cabanas , e dahi arrogarem a si a posse daquelles lugares : conhecendo-se por esta forma , que sendo aquelle transito concedido por hum modo precário, e mera faculdade, não são estes meios lícitos em direito para por elles esta- belecer posse , e adquirir domínio. Porem vamos continuan- do a nossa viagem. CCCXVÍ. Dezembro 1. Pelas nove da manhã deste dia chegamos á Fortaleza da barra do nosso Rio ,Negr o ,. aonde me demorei por todo elle para dar déscanço aos ín- dios. Junto aestaíortak za está. hum a não pequena povoa- ção de índios, na qual habitãO juntamente vários morado- res brancos , íica na margem oriental dè rio em hum ter- 96 Di arío da Viagem reno enxuto , e elevado , aindaque em partes , desigual. Existe aqui hum officiai commandante da mesma fortale- za com a sua guarnição militar. Esta fortaleza serve de re- sisto , e defeza á entrada do mesmo rio. CCCXVÍI. As nações de índios, que habitão a po- voação, são Banibá, Baré , e Passe descida ultimamente do Jupurá. Os Muras iufestão as suas visinhanças , pelo que he perigosa a passagem para a margem opposta , que sen- do as terras mais férteis , ficão sem cultura por causa da- quelle gentio. CCCXV1II. 2. Na madrugada deste dia seguimos viagem continuando-a sempre pela margem septentrjonal. Ao amanhecer entramos a rodear huma espaçosíssima enr seada , avistamos o lugar da antiga , e primeira povoação , que houve neste rio , de que já falíamos. Povoação , que che- gou a ter outocentos homens de guerra , a maior parte da nação Tarumá, hoje extincta. Mudou-se esta povoação pa- ra o lugar de Ayrão , de que adiante fallaremos. A^s oito da noute tínhamos chegado ás primeiras ilhas chamadas vulgarmente de Anavilhanas , corrupção do nome do rio Anauéne , que desemboca no Rio Negro pela parte do nor- te. He este rio habitado da nação Aruaquí , muito guer- reira , e antropófaga , mas sem deformidade alguma arti- ficial , das que costumao praticar as nações do Amazonas. CCCXIX. 3. 4. Nestes dous dias continuamos sem- pre a navegação por entre canaes compostos pelo inextri- cável labirinto de ilhas de diversas grandezas, seguindo va- rias direcções de rumos. CCCXX. 5. TinhamW continuado a viagem atraves- sando a procurar a margem meridional do nosso rio , e por seis horas e meia chegamos ao lugar de Ayrão, Fica este lugar bastantemente emminente ao rio. Pelo poente o banha hum pequeno riacho. No alto corre huma bem for- mada planície, em que estão dispostas as ruas. As nações, de que se compõe este lugar, prezeníemente são Aruaquí, Manáo , e Tacú , descidos estes proximamente para o mes- mo lugar , nação de que não havia noticia antecedente. O nome antigo desta povoação era Jaú, denominação, que tira do rio , que lhe fica vísinho pela parte do poente , fre- quentado do gentio Mura, que nelle commete muitas hos- ba Capitania do Rio Negro. 97 tilidades. Acba-se esta povoação em bastante decadência ; porque sendo composta pela maior parte dos Índios habi- tantes na margem opposta a este lugar , lhe são fáceis as fugidas para as suas próprias terras, aonde chegão em me- nos de hum dia. JNas visinhanças deste lugar he abundan- te o breu. Ha também varias madeiras finíssimas, e com especialidade páo roxo. CCCXXI. Fomos neste dia continuando a viagem pe- la margem austral ; porem a pouca distancia nos introdu- zimos pelas ilhas , que são innumeraveis. Ma mesma mar- gem desemboca o rio Uniní , que corre parallelo ao Jaú , e que como este, he também frequentado dos Muras. Abun- da em tartarugas, e cupaiva, ambos tem as suas fontes próximas ao lago Cudayás , de que já tratamos. CCCXXII. 6. A^-s oito horas da manhã chegamos a villa de Moura. Fica esta villa na margem austral do Kio Negro em hum baixo , mas enxuto , formado sobre huma pedreira, que se estende á roda da mesma. INa en- trada forma huma espaçosa praça , em que depois da igre- ja corre hunia rua. Segue-se logo outra dirigindo-se para o nascente , commuiiicada com outra mais extensa , que vai dar ao poente. Esta rua he muito agradável ; porque esta toda cheia de laranjeiras , que fazendo-a aprazível com a frescura da sombra, a fazem tambem.de bella vista. Foi erecta em villa no anno de 1758 pelo governador e capi- tão general Francisco Xavier de Mendonça Furtado , im- pondo-lhe o nome , que agora conserva, CCCXX1II. Compoe-se esta villa das nações 'Manáo* Carajás , Coeuána , e Júma , e de vários moradores bran- cos , que se aplicão á cultura do café T e cacáo , sendo ella^huma das mais bem povoadas desta capitania. Destas; nações he muito famosa aCarayás, antigamente guerreira, antagonista da nação Manôa. Alem do resto desta nação, que habitava nesta villa, ignora va-se que houvesse mais- alguma parte entranhada nos bosques : porem o anno pas- sado repentinamente entrou nella huma porção de. gente, que veio fugindo ás hostilidades do gentio Mura, que en- trando nas suas terras os fez despejar depois da morte de muitos, de sorte que vierão procurar o asylo da nossa po- voação, e entrar na nossa sociedade. Os que tem averigua- N ' $?■' do a origem dá sociedade civil DíARÍO DA VíAGEM , attribuindo«a a diversas cauzas , e sendo huma delias adefeza das forças externas, achao aqui huma prova da sua asserção ; porque vivendo estes indios nos matos como selvagens , somente depois que se virão oerseguidos dos seus, inimigos , he que procura- rão o. refugio no bem da mesma sociedade' civil. CCCXX1V. Quasi fronteiro a esta villa desagua pe- la parte do norte o Yauapirí , que desce da famosa cor- dilheira de Guyana , recebendo em si outros pequenos rios. He largo, de agua branca, e desemboca por duas bar- ras. He habitado das nações Aruaquí, Caripuná , e Ceri- eumá. Abunda em madeira de angelim , cedro , e cupaí- ba. Houve nelle antigamente huma povoação de indios. CCCXXV. Neste mesmo dia continuamos a viagem seguindo a margem austral do nosso rio , navegando com bom vento , depois de dar algum descanço ao meiodia, entramos a atravessar o rio para a sua margem do norte, tendo huma favorável travesia por cauza do vento, que nos sérvio á bolina. CCCXXVI. Passamos defronte da principal barra do rio Queceuéne , chamado vulgarmente Branco por causa de côr das suas aguas , e em contraposição do negro , no qual desagua por quatro bocas. Também se dá a este rio o nome de Paraviana tirado da nação dominante nelle. CCCXXVII. Arroja o rio Branco bastante cabedal de aguas, -que lhe commúnicão muitos rios , e lagos de grande extensão , que nelle deaguão , e sendo os prmci- pâes pela parte do nascente o Macoaré , os lagos Uaduau, e Curiúcú , Uarícurí , e o rio Uanaúaú , seguindo-seo maior delles , que he o Tacutú , que dirige as suas correntes do nascente, e no qual desemboca o Máho , e neste o Pirara , poronde passado meiodia de viagem por terra se entra no Rupumoni. Parallelo ao mesmo Tacutú corre o no Kupu- moni, que desaguando no Essiquíbe dá commumcaçao as colónias de Guyana holandeza , mediando também unica- mente meiodia de viagem por terra do Tacutú ao dito Ku- pumoni ; o que deo motivo a eommumcação' antiga dos índios do Rio Negro com as mesmas colónias. Pelo occi- dente desaguão no rio Branco os rios Ccratirímaní. O bra- ço do occidente , que se une ao Tacutú tem o nome de S!^-A èA. Capitania do Rio Negro. 99 Urarícoèra, o qual he que se julga o rio Branco contí* nuado , e nelle desagua pelo norte o Parimá , famoso pe» lo nome, mas não pela grandeza; pois he de pequena con- sideração. CCCXXVIII. O Urarícoèra he caudaloso , elle banha as mais bellas campanhas, que se podem imaginar. Este rio sempre foi navegado pelos portuguezes , que em diver- sas expedições entrarão nelle. INo anno de 1740 governan- do este estado João de Abreu €astello Branco entrou nel- le por cabo Francisco Xavier de Andrade, na qualocca- sião subirão as bandeiras , que elle mandou , quasi dous mezes de viagem. CCCXXIX. Em todos estes rios habitao muitas na- ções de indios, sendo asprincipaes Paraviána, vulgarmen- te chamada Para vilhana, Macuxí, Uapixána , 3a para, Pa^ xiána , Uayurú , Tapicarí , Xaperú , Cariponá ; esta belli- cosissima nação conhecida com o nome de Caríbes na his- toria da America. Os que vivem no rio Branco usão de ar- mas de fogo , que lhes vendem os holandezes , sendo entre elles de maior estimação o uso dos bacamartes. CCCXXX. Os portuguezes tem navegado o rio Bran- co , e todos os seus rios colateraes , descubrindo^ e occu- pando as terras , que os mesmos banhão , que são exten- síssimos campos com pastos tão próprios para a criação do gado vacum , que podem contribuir para os mais bem fun<- dados estabelecimentos , e avultados interesses , como ain- da se espera da merecida attenção , que este objecto ãU cançará dos nossos superiores. CCCXXXI. He o rio Branco fecundíssimo em todo o género de peixe , suas margens férteis para toda a qua- lidade de plantação, e o cacáo lhe he naturalíssimo. A sua abundância conduz infinitamente para a subsistência das povoações do Rio Negro , principalmente da capital; porque annualmente se vão a elle fazer pescarias de peixe > e tartarugas, que abundão, . e suprem as falias. Em fira. se as largas campinas do rio Branco fossem- povoadas de gado, e no mesmo rio se estabelecessem algumas* povoa- ções , objectos ambos, que não são de irsuperavel dificul- dade , estou certo , que esta capitania chegaria. a hum-inr crivei augmento 11a população, e riquezas*: não sendo me» JN 2 ico Diauio da Viagem * nos essencial a fortificação daquelle rio , como o mostra a visinhança do mesmo, de que já falíamos. I & Breve noticia do lago Farimá , ou dourado. CCCXXXII. Na divisão , que íemos feito do rio Bran- co, ineíuimos o pequeno rio Pari má , que depois da des- euberta da America tem dado corpo a decantada fabula do lago dourado , que tanto tem inflammado as imaginações hespanhplas. Fingio-se que hum grande lago estk situado no interior de Gujana, e que nas suas margens está edifi- cada a soberba , e riea cidade chamada — Manóa dei Do- rado — , e que aqui he tão vulgar o ouro , que tudo he ouro f que esta cidade foi edificada pelos Peru vianos, que para ali se refugiarão para se livrarem da dominação hes- panhola. Os escriptores castelhanos dão esta historia por tão certa, que tem gasto immenso cabedal em emprezas , c viagens para descobrir este famoso lago , semque até- gora pudesse algum dos seus descobridores alcançar o pre- mio de tão feliz descuberta. As viagens de Pissarro , Ore- Ihana , Orsua, Quesada , Utre , Berne, e outras muitas, que contão até o numero de sessenta, dirigidas todas a este fim se inutilisarão. Pode na verdade chamar-se a es- ta teimosa diligencia dos hespanhoes a pedra filosofal das descubertas. CCGXXXIII. Os hespanhoes vivem tão persuadidos da existência daquelle riquíssimo lago, e cidade, que até chegarão a dar o titulo de governador do mesmo lago ao de Gujana, como consta dos despachos, que se acharão em huma preza , que fez o cavalleiro Walter Raleigh , quando procurava fazer huma descida na Guyana. Osobre~ scripto destes despachos o refiro pela sua curiosidade. Diz, assim : rz A Diego de Paíameca , governador y capitan general de Guyana, dei Dorado, y de la Trinidad. — CCCXXXIV. O mais he , que até osiuglezes se per~ suadirão daquella mesma existência £ porque se acreditar- mos alguns authores, as viagens de Raleigh se não diri- girão a outro fim , tão inutilisadas que na expedição per- »yl I ■■ ■■! ■ ■ « ■ loi Diário da Viagem CCCXXXíX. 6. Vamos continuando a nossa viagem, a qual fizemos seguindo "a mesma margem septentrional , e indo passando as bocas superiores do mesmo rio Branco. Asseis horas chegamos ao lugar de Carvoeiro , tendo atra- vessado o Rio Negro para a margem meridional , em que elle está situado , occupaiido huma iiugoa de terra, qua- si rodeada de agua, CCCXL. He composto este lugar das nações Manáo, Paraviána , e Uaranácoacéna , e de alguns moradores bran- cos. O seu antigo nome era Aracarí, as suas visinhanças são infestadas do gentio Mura , e por isso com bastante incommodo vão os moradores fazer as suas culturas á mar- gem opposta do rio, em que cresce admiravelmente o ca- cáo. Fronteiro a este lugar desemboca o rio Uananácoá, habitado antigamente da nação Uaranácoacéna, que foi a terceira que se domesticou no Rio Negro , formando-se nelle huma povoação , que hoje não existe. Nesta noute aproveitamos a viagem pelo bello' clarão do dia , que a fazia agradável. CCCXLT. A de hoje foi seguindo a proximidade da margem austral , navegando comtudo entre ilhas , ou para melhor dizer , entre matos alagados. Ficava-nos na mesma margem o rio Cauauarí , chamado vulgarmente por cor- rupção Caburis , que desemboca na mesma margem supe- rior quatro legoas a Carvoeiro. Neste rio se fundou a se- gunda missão , que nelle houve , tendo abraçado o Evan- gelho , a nação Caburicéna habitadora do mesmo , do qual depois se mudou , do Carmo das Caldas. CCCXLIL 8. Principiamos a navegar na madruga- da , porem huma medonha trovoada nos obrigou a recolher por mais de duas horas, e logoque cessou , continuamos, e ao meiodia chegamos ao lugar de Poiares situado na mar- gem do sul do Rio Negro , sobre huma elevada eminên- cia. He esta huma das boas situações, que occupão as po- voações deste rio; porque alem de se estender por huma dilatada planicie , alcança larga, e agradável vista para o rio, que neste lugar se acha parte despido de ilhas, e for- ma 'tal largueza , que de margem a margem chega a sete para oito legoas. O antigo nome deste lugar era Cumaru. Também lhe chamavão Jurupariporaceitáua, isto he , lu- da Capitania do Rio Negro. 103 gar das danças do diabo ; porque aqui os Índios fazião as suas no tempo do paganismo. CCGXLIII. Tem este lugar muitos moradores bran- cos , e bem estabelecidos , que com os Índios formão hu- ma numerosa povoação. Produz aqui admiravelmente o ca- fé , de que ha ja rendosas fazendas. Ás nações de Índios , que habitão este lugar , são Manáo , e Jlaré do seu estabe- lecimento, e também Passes descidos do Jupurá. CCCXLIV. Fomos logo seguindo a viagem pela mes- ma margem. Entramos a navegar bum canal estreito , sa- hindo delle outra vez a procurara mesma margem , e pe- las nove horas da noute aportamos na villa de Barcel- los cabeça desta capitania , situada na dita margem aus- tral. . CCCXLV. Está esta villa formada sobre três outei- ros. Pelo nascente corre huma boa campina , em que se edificou a caza da pólvora. Segue-se logo o aquartelamen- to militar, os quartéis dos officiaes , e continuando a rua á margem do rio , estão dispostas as residências do ouvi- dor , e vigário geral, e logo a igreja matriz, e próximo á mesma o palácio do governo , e nos fundos hum bairro de indios. Na baixa deste primeiro outeiro fica o armazém Real de bella architetura. Seguem-se as cazas dos morado- res brancos correndo em huma rua direita até o pequeno riacho , que banha , e fecha esta villa pela parte do ocçi- dente. JNos fundos desta ma ficão as cazas dos indios oc- cupando os dous seguintes outeiros para o mesmo rumo , dosquaes sahem outras ruas , que desembocão no rio. Pas- sado o mencionado riacho fica em alegre situação outro bairro de indios chamado commummente a Aldeinha. O antigo nome desta villa era Mariuá, da qual foi princi- pal o famozo Camandre Manáo de nação, hum dos que abraçou a fé com maior dezejo, ' que recolheo hum mis- sionário para a sua aldeia , que por acaso andando á pes- ca encontrou , o qual conservou namesma aldeia, concor- rendo muito para isso as instancias damãi do mesmo prin- cipal. CCCXLV I. Foi erecta em villa com o nome deBar- cellos pelo governador e capitão general do estado Fran- cisco Xavier de Mendoça Furtado ? que deve merecer ftQH2 « II I W I MH 104 Diarío da Viagem o titulo de fundador desta capitania, áqual subio em qua- lidade de plenipotenciário , e primeiro commissario de S. Magestade para a execução dos tratados dos limites. CCCXLVÍI. Habitão esta villa os Índios das nações Manao , Baré , Bayâna , Uariquéna , e Passes ultimamente descidos do Jupurá. Ha também muitos moradores bran- cos , que com os^ índios fazem a mais numerosa povoação de toda a capitania , não fallando ainda na guarnição mi- litar. As suas terras são muito próprias para as culturas do café , e anil :^ estabelecimentos , que vão continuando com grande actividade pela protecção , com que os animão as ordens , e providencias do Illustrissimo , e Excellentissimo João Pereira Caldas, nosso esclarecido general, incança- vel em promover as felicidades do importante deposito, que lhe está confiado no governo deste estado. São também deliciosas, e abundantes as frutas desta villa , principal- mente laranjas, ananázes , sorvas, maracujás, araçazes &c. CCCXLVIÍ1. Este lugar foi escolhido para nelle se juntarem os commissarios para as conferencias sobre a exe- cução do tratado dos limites: por cujo motivo aqui se for- mou o campo, e arraial da tropa, e se edificarão aloja- mentos , e cazas^ necessárias para as pessoas empregadas na- quella diligencia, que foi a primeira origem domais bem fundado estabelecimento desta villa. CCCXLIX. Criou-se em cabeça desta capitania, de que foi primeiro governador o Illustrissimo e Excellentis- simo Joaquim de Mello e Povoas, que entrou a governar em 7 de Maio de 1758. Succedeo-lhe Gabriel de Souza Fil- gueiras , e por morte deste ficou interinamente governan- do o coronel Nuno da Cunha de Ataíde Varona , ao quah rendeo também interinamente o tenente coronel Valério Corrêa Botelho de Andrade : vindo depois a governarem propriedade esta mesma capitania Joaquim Tinoco Valen- te, que prezentemente existe. CCCL. Criou-se também ouvidor para a mesma ca- pitania no anno de 1760 vindo despachado para o mesmo lugar Lourenço Pereira da Costa, ao qual succedeo Antó- nio Joze Pestana e Silva, e a este eu. CCCLI. Tem também esta capitania vigário geral lu- da Capitania do Rio Negêo. iôf gar, que do seu principio tem occupado o Reverendo dou- tor Joze Monteiro de Noronha. CCCLíí. Temos dado fim á parte da nossa viagem ," vencida com tanta brevidade, e felicidade, que nada fica mais que apetecer neste objecto. Ella deveria continuar im mediatamente para as povoações superiores a esta capi- tal , se o encommodo de hnma moléstia me não obrigasse a occupar o leito por todo o resto doprezente mez, e par- te do de Janeiro seguinte, que com mais algumas occu- pações do officio me suspenderão a partida até dezesete de Fevereiro do anno corrente de 1775. • •■ CCCLIIL Fevereiro 17. A's sete horas e meia da ma- nhã embarquei , e fui navegando seguindo a margem me- ridional do nosso Rio Negro , vencendo com bastante difi- culdade a não pouco rápida correnteza do rio , que a en- chente tinha augmentado. A navegação de tarde foi toda por entre ilhas pouco agradáveis. Na margem do norte nos ficava o rio Uaracá , aonde antigamente habitavão os Ca- raiaís estendendo-se por elle, e pelo Rio Negro até o rio Uarirá , de que adiante fallaremos. CCCLIV. Ha noticia, de que ainda nas suas cabecei- ras existe resto da nação Guariba. He abundante de toda a qualidade de peixe , e as suas terras são férteis para to- do género de culturas , neste desagua o rio Demeuasse de agua branca entrando pela sua margem oriental. CCCLV. A 1 huma da tarde chegamos ás terras firmes , que principião a elevar-se pela sua margem meridional, ena verdade são muito agradáveis por todas estarem cheias de rossas , que continuao até o lugar de Moreira , ao qual chegamos pelas oito horas danoute. Occupa este lugar hu~ ma belíssima situação na mesma margem austral do Rio Negro. Concorre para a fazer vistoza a largura do rio des- pido de ilhas. He habitado de muitos moradores brancos, que se applicão á cultura do café , e cacáo , de que já tem bem estabelecidas fazendas. As nações de Índios , que o ha- bitao , são Manáo , e Baré. As terras das suas visinhanças sao também muito próprias para a mandioca; pcstoque prementemente huma incrível multidão de porcos do ma- to destruísse quasi inteiramente as rossas, sem se lhe po- der atalhar. Este porco he o íayaçú , ou pecarí descripto O j 5 Diário da Viagem excelentemente porMr. Buffon na sua historia natural (a). v CCCLVI. O nome antigo deste lugar era Cabuquena, appelido do principal seu fundador, que para o formar se segregou de outra povoação , que lhe ficava superior, que hoje he vilia de Moura. Era este principal muito amante dos brancos, pela qual razão o matarão os Índios de outras aldeias , que írzerão o formidável motim doanno de 1757, do qual agora darei huma breve relação. ' CCCLVlf. O indio Domingos do lugar de Lama lon* õà inflamado contra o seu missionário em vingança de es- te ter feito separar da "sua companhia huma concubina, foi a primeira origem , e faisca deste voracíssimo incên- dio que checaria a reduzir a cinzas todas as colónias por- tuguezas do Rio Negro , senão fosse brevemente atalha- do Coniurou-se o dito indio com os pnncipaes João Da- masceno, Ambrozio, e Manoel, e no primeiro de_ Junho do dito anno de 1757 acometerão a caza do dito missioná- rio , e não o achando arrombarão a caza, furtarão , e des- truirão todos os seus' moveis. Passarão os amotinados ím- mediatamente á igreja , derramarão os santos óleos por ter- ra roubarão os ornamentos e vasos sagrados, arrumarão a capella mór , e finalmente botarão fogo á povoação. No intervallo, que corre do primeiro de Junho até vmtequa- tro de Setembro do dito anuo , continuarão os amotinados a engrossar a lista dos seus alliados com muitos Índios, com o principal Uanocaçarí, com o principal Mabe.do lu- gar de Poiares, e neste ultimo dia vierão sobre o dito lu- gar de Moreira, matarão o missionário Fr. Raymundo de S. Eliseu Carmelita, o principal Cabuquena , de que aqui tratamos , e outras pessoas , roubarão , e queimarão a ígre- CCCLVIII. No dia vinteseis do dito mez vierão os levantados sobre a aldeia de Bararoá, hoje villa de Tho- mar. Postoque nella houvesse hum destacamento militar de vinte homens , commandado pelo capitão de granadei- ros João Telles de Menezes e Mello, este cabo não sei se por prudência , ou por medo abandonou a aldeia , e como os conjurados a acharão desguarnecida, forão direitos a- (a) Tom. 20. pag. a 6 da ediç. em 12 de Paris 1765. mm^uLá ó Rio Negro. %jg *om cor na casca exterior da mesma noz. Dentro inclue duas como amêndoas unidas de sustancia farinhosa , e de acti* vo aroma Para o uzo se costumão secar ao fogo estas fru* tas, para lhes fazer exhallar o muito óleo, ou bálsamo, que contem. Crescem , e produzem estas arvores sempre á margem dos rios, estando a maior parte do tempo do an- uo alagadas , e são raras na terra enchuta. «o CCCLXXVIII. Ha também neste rio , e outros a cas- ca chamada vulgarmente preciosa, de finíssimo , e activo aroma. Pela hngoa Baré se chama a dita casca, e arvore; iumdáo. A fruta destas arvores , que este anno foi o pril meiro em que se colheo , he igual ao puxirí na figura, mascomadifferencadeser muito incomparavelmente mais pequena , e de aroma , e gosto mais delicado que o pu« *™ C ^??t XIX * T Se § Ue " se na mesma margem do sul da no so Rio Negro o Inuixí aonde esteve a aldeia do princi- pal Camandn que depois se mudou para o lugar , onde It h ° J o ir^ de , Ba . rcellos capital desta capitania. Sc! lT»L n ?™ &m J habltaçao do celebre principal Caruná- ?**« * ? tls «mo dos portuguezes, e por esta cauza sacrifi- ?!!,, Í.T ranna ^ n r ja dos P»ncipaes Debari, e Beiari da e o fe M^/ ^jWW Se^e-se maiAdian! «e o mamyxi, o Mená , o Curiuriaú, o Cubatí e o Cu- Prí^eM^r 8 t0d ° S habitãoaiada i»dio S das nações Me- íí T^r^í? J' Hf* aí ? íant J e faz barra «famoso Ucaya- S^iSffii^ dÍrlvad0 danaçao assim <**- de figura tr abular v5S *í a , mter Ç os í ça o de huma ilha O cufso deste ?iohe' prolongo T' ^ d ° ^^ mera veis cachopos e cxnhS ' e . lm P ed ido com iimu- *a de medonhoTvokces aZ7 ' VJW*Mmaa , por cau- muitos rios. Pe o su ' o Tiole' T°' $*** ndle OUÍros cipaes. Pelo norte cLe p^a e'lle ' hST ' q Tf° ° SprÍa - cação com o rio GuahiáFi « À i j^* 1 decoffl munj- Santa Fé de Boffotó (fe- q "n deSCe da f visi » h ^Ça S de Pés, que conimunít* dl ° S P^ 8 > Tariánas , e Uau- iu com pendentes de orelhas de ouro finíssimo , rtfc **y*USJI-esi 114 Diário da Viagem que se conjectura ser extraindo das minas da nova Grana- da. CCCLXXXL He o Uaupés habitado de muitas nações , das quaes as principaes são Coeuána , Macú , Macúcoena, Uananá , Tariána , Deçáca , Urinaná, Timanará, Boanarí, Ma- mengá, Panenuá : porem a mais celebre he a Uaupés, por cau- sa da differença , que entre si admittem de vários gráos de nobreza , a que serve de distintivo , como de huma ordem militar , huma pedra branca muito liza , de figura cylin- drica ; e furada para lhe passarem hum cordão , com que a trazem pendente ao pescoço. As dos principaes chegão a ter meio palmo de comprido. São menores as dos nobres , e muito menores as dos plebeos. Trazem também os Dau- pés as orelhas , e beiço inferior furados. i CCCLXXXII. Fica adiante o rio Içâna habitado de muitas nações, sendo a principal a Baníba. Habita neste rio também a nação Uurequéna , celebre pela communica- ção, que antecedentemente tiverão com os brancos, e usa- rem de nomes hebraicos, como são: Joab , Jacob, Jaco- bí , Thomé , Thomequí , Davidú , Joanaú , e Marianaú. He esta nação antropófaga , e celebre por usar de escripta de cordoes, na forma dos qUipós dos antigos Peruviannos, com o que transmitem os seus pensamentos a pessoas dis- tantes , que entendem, e sabem decifrar aquelles nós, e cordoes, que também lhe servem para o uso arithmetico. CCCLXXXIIL Corre a diante o rio Ixié , que habi- ta a nação Assauínauí. Os mais rios, que se seguem , são Túmo , Aké , Itacapú , habitados de varias nações. CCCLXXXIV. Pela parte do norte entrão no Rio Ne- gro superiormente ao dito lugar de Lamalonga, o Daraá , Maraviá , Inabú , Cababuris , cheio este de cachoeiras de mediana grandeza , e abundante em casca preciosa. Este rio, postoque discuberto , e occupado sempre pelos por- tuguezes , agora novamente se fortifica por ordem do nos- so general o illustrissimo e excellentissimo João Pereira Caldas. CCCLXXXV. Seguem-se mais adiante os rios Miuá , Cauá , Dimití , o famoso Caciquiarí , que he verdadeira- mente hum canal , o Tiniuiní , e o Yauitá , e outros de pequena consideração. da Capitania do Rio Negro. n^ CCCLXXXVI. Por toda esta extensão estão disper- sas as nossas povoações , que fazem o numero de quator- ze até a fortaleza de S. Joze dos Morabitánas, A dita for- taleza , e povoação foi mandada fundar pelo governador c capitão general do estado Manoel Bernardo de Mello de Castro , ao qual se deve todo o progresso dos nossos esta- belecimentos daquelles destrictos. Este general foi hum dos mais fortes defensores dos domínios de S. Magestade naquellas fronteiras , contra as pretenções hespanholas , do que deve servir de prova concludente a disputa 7 , que com os mesmos teve , e que já relatei. CCCLXXXV1I. Três dias de viagem acima de Ma- rabitanas fica a primeira povoação castelhana chamada S. Carlos , situada na margem septentrional do Rio Negro e pouco distante da barra do Caciquiarí , que lhe fica su- perior. Nesta povoação tem edificado hum forte , que guar- nece hum destacamento militar. Tem feito outros estabe- lecimentos na Parauá , e Cunúcunúmá , a que chamão das esmeraldas, por nelle descobrirem algumas. O que mais possuem os hespanhoes nas nossas fronteiras por esta parte , são as povoações do alto Orinoco , e tudo sugeito ao go- verno geral do novo reino de Granada , de que he capital Santa Fé de Bogotá residência do Vicerei ; Reino popu- loso , e ríquissimo em minas de todo o género , e subdi- vidido em vários governos subalternos, hum dos quaes he o do Orinoco. CCCLXXXVI1I. 22. 23. Pelas seis da tarde do mes» mo dia vinte dous deixei o lugar de Lamalonga , e con- tinuei a viagem a recolher-me á villa de Barcellos , aon- de cheguei no dia seguinte vinte três pelas dez horas da noute , tendo assim concluído a minha correição , e via- gem. <á4 :.-. \ &■ '~'A La. ^•"irfcTMi >^JDJIR>,v.^ Oi> -£ 5> sy »>D©^ 5^, i^#2 ;i í^M» ^ •-■> £U 53 ■'»' ~>J>- - M> D jc>^% »3 ^r^ ; ' 3P l>- ^«5> O.»