p n s# Iv SI - I ãf jWiaa 4*.&* ^ JL*. t f"+'/ ? » ;í .-« COMPENDIO NARRATIVO D O PEREGRINO DA AMERICA, EM QUE SE TRATÃO VÁRIOS DISCURSOS ' efpfrituaes, e moraes, com muitas advertências, e documentos contra os abufos , que fe achao introduzidos pela malícia diabólica no Eftado do Brazil. DEDICADO A' VIRGEM DA VICTORIA, EMPERATB.1Z DO CEO, RAINHA do mundo , Senhora da Piedade , e MÃi de De os. A U T H O R KUNOMARQUES P E R E I R A. LISBOA, Na Officina de MIGUEL MANESCAL DA COSTA,, ImpreíTor do Santo Officio. • " aíô7m7dc'g. L i í . Com todas as licenças necejarias , e Privilegio Real. '- SEN HO RA. E muitos FJcrttoYes fei eu , que pertendendo dar /eus livros àeftampa , therão grande trabalho , e defvelo , para com acerto acharem Mecenas , § ii que BE que .debaixo, de [eu patroánio puclejTeni fahir à luz com elles. Dejle trabalho me hw afies Vês , Senhora , for Jer divida , que ha muno tempo Vos e flava obrigado a contribuir por paga re- muneratória do muito , que Vos devo. Tomara com acerto que Vos falis fizer a ^ pois bem f abeis as limitadas poffes de meutabedal^ porque ain- nefla humilde oferta % que Vos faço , Vos dou aquillo mefmo, que por voffa inter cef são alcan- cei de vojfb Sagrado Filho. He todo voffo efle livro , Senhora , por mui- tas razões. A primeira he , porque àfombra da voffa Igreja foi ideado , ou delineado efle breve Compendio - y por cuja caufa bem pudera agora repetir aquelle antigo adagio , que quem à boa arvore fe chega , boa Jombra o cobre. A Jegunda razão he feto titulo , que tem de Peregrino - y porque também ofofles , Senhora , quando de Belém em companhia de voffo digntf- fimo Efpofo S. Jofé levafles ao Menino JESUS 9 voffo amado Filho , e noffo Bem , a livrallo das tyrannias de Herodes , para o Egypto por jor- nadas tão longes y feitos todos trez Peregrinos. He a ter cetra razão , porque a mia agora de prejente Vos eflats moflrando Peregrina no voffo grande po^er , e valimento , como bem o e pertmentamo% em todo o mundo. ( hamão-vos na Afia y la lhes ajjiflís : valem-fe de Vós na Afri- Africa , là os confolaís : implorao-vos na Ea- rot>a , là os remediais : valemo-nos de Vós na America , cà nos amparais : gritão por Vos no mar , là osfoccorreis : chamamos por Vós em ter- ra , ahi nos acudis com voffo amparo , e patro- cínio , andando fempre feita huma Peregrina por mar , e terra em nos acudir , e remediar* Logo com muita razão pertence a Vós , Senho- ra , efie livro pelo titulo de Peregrino da Ame* rica. A quarta razão \ porque também Vos per- tence efie livro , he pela poffe , e domínio , que tendes nefle eftado do Brazil , por fer o primei- ro Templo , que nefta terra Je Vos edificou pelos Portuguezes com o titulo da Senhora da Viíío- ria ; ou foffe permifsão Divina por reconhece- rem a vitloria , que havieis de alcançar contra o principe das trevas , quando com voffo gran- de poder , e auxilio converteftes , e e/lais conver- tendo a tão innumeravel multidão de almas fal- tas da luz da noffa Santa Fé ha tantos tempos , ou também porque fofles a que vence/les a fer" pente figurada na foberba y como nefle Compen- dio mojltamos. Com que por todos efies títulos fon condigna , e merecedora defie livro t que Vos offereço. Kefia-me agora , Soberana Senhora , mof- trar as muitas , e grandes excelkncias , e pe- § iii r o- J rogativas , de que Fm adornou De os 3 o que mui- 1o% Panegyriftas, fei eu> lhes tem cufiado para defcuhrirem os Progenitores , e feitos heróicos dos f eus Mecenas. Não ufarei de hypet boles y e encarecimentos f porque pertendo moftrar pelos Santos Euangelhos ( no que não pôde haver du- vida, por fer a mefma verdade} que fois amais bem najcida , e da melhor afcendencia , que houve , nem pode haver. E bafia que o d*ga S. Mattheus cap. r. Líber generationisjEsu Chrifti filii David , fí- lii Abraham, &c. E affim vai continuando a Jerie dos mais Progenitores de voffa Sagrada Genealogia de Santos , Profetas , e Reis , ate que acaba t dizendo : Jacob autem genuit Jo seph virum Marle , de qua natus eft Jgsus, qui vocatur Chriftus. Efie Euangelho fe vê cantar no dia devof- fo Santo Nafcimento ,• e parece , como he certo , que não pode haver maior elogio em voffo fanto louvor. E quando i/lo fé não bafiára fará cre- dito voffo , alem dos mais Euangelhos , e ditos dos Santos Padres , ouçamos as vozes daquella fanta mulher Marcella , certificadas , e referi- das por S. Lucas cap. x \ . Beatus venter , qui te portavit , & ubera , quapfuxifti: Bemaventura- do o ventre , que trouxe dentro em fitai folho, e bemaventurados os peitos , a que foi creado. Cor- Corvohorão-fe mais os vo/fos fantos louvo- res, quando tantas vezes ouvimos -repetir aquel- la Ânnfona : Ab initio, & ante íacula crea- ta íum, &iifque adfuturum feculum non de- finam , &mhabitatione fanfta coram ipío mi- niílravi. (Ecclf Z4. 14.) Nd. qual fe nos dâ a entender que defde optimipio, e antes ás/e* culos foftes creada no Decreto , e predifimção Divina , e também não deixareis de fer ate o futuro feculo , e dtante de Deos minifir ateis em a Cafa Santa , que he o Remo dos Leos. E para credito d® mais, que fe pôde dizer em voffo fmto louvor , fe verifica nas palavras proferidas pel) Anjo S, Gabriel, quando Vos an- nunciou a Encarnação do Divino Verbo , refe- ridas y e publicadas pn S. Lucas cap. 1. 3 jr. Spiritus San&us fupeiveniet in te , & virtus Akiííimi obumbrabit tibi. Nas quaes palavras vos afjegurou o Ajo que o Efpirrto Santo Vos havia de ajjíjlir , b Soberana Senhora \ na En- carnação d Verbo Divino. E por tffo fois : Xo- ta pulchra , & fine macula : toda Jormofa , e Jem macula. E quem logra eftes tão fobrelevantes encó- mios , no que não pôde haver a mínima duvida , nem dijct f t panem , por ferem todas eftas verda- des de fé , e tão Jolidas , bem pnffo agora dizer que fe calem os mais Chromflas à vijia de tão § iv pre- preclaros louvores] e que fê Pós, Soberana Se* nhora , e não outra alguma creatura deveis fer bufcada , e Solicitada para o amparo , e Mece^ nas não defla humilde obra , forem fim de ou- tras âe maior entidade. Mús como fei que Vos pagah de hum affe- 8o cor de ai , de quem rendido a vojfos Sagrados pés Vos bufca para feu amparo , por tf o Vos of- fere ç o efie meu Peregrino > para que como a po- bre , e muito humilde o ampareis com v o Jf o pa- trocínio , pois fó em Vós confio , como tão gran- de interceffora , e medianeira para com voffo Filho , e meu Senhor JESUS Chriflo , que fen- do para feu Janto fervi ç o , e bem das almas , o deixe correr, e andar peregrinando naejlampa 9 como coufa vojfa, que Vos dedico , e cffhreço. ' De quem fe digna muito de voflb humilde efcravo Nuno Marques Pereira* AO v;,. AO LEITOR. DISCRETO , e pio Leitor , comvofco fallo; que emprender perfuadir a eíTas altivas a* guias , que em feus remontados voos fobem a regiftar com o fublime de feus entendi- mentos os vibrantes refplandores dos raios do mefmo Sol, fora anniquilar mais o meu talento, expondo-me às notas de pouco advertido, e às cenfuras de defcui- dado; e mais ainda em tempo, que eflas águias, de que fallo, são tão prefumidas, e perfpicazes, que quando chegão afazer preza na terra, he neíTe monte Libano, bebendo das cryílallinas aguas da fonte Gaballina , e outras na corrente deíTe grande Rio Nilo , jà defpre- zando as humildes fontes , e os pobres rios. E por iííò parece que exercitando Chriíto bem noíTo todos os a&os de maior exemplo , e perfeição 9 em nos dar os melhores documentos com fua grande doutrina , não coníta da Sagrada Efcritura que efcre- vefíe livro algum, (affim o diz Santo AgoíHnho em o feu livro de Conítat. Euang. cap. 7. e o mefmo diz o Padre Vieira na fua i.p.Serm. 11. §. 4,) nem menos ef- crita , excepto naquella occafião , quando à inílancia dos Efcribas, eFarifeos lhe levarão a adultera , para a fentenciar. E reparo que podendo Chriílo bem noíTo efcrever a fentença em papel , ou pergaminho, ( que nada lhe havia de faltar) a efcreveo fobre aterra com o de- o dedo ; quiçá para que depois de lida nao exiíHfíe: e logo fe apagaffe , ( he penfamento meu) por fe não expor aquelle Divino Meílre às notas , e ceníuras da- quelles leitores, por ferem homens de mui louca pre- íumpção , e mui preíumidos de fabios, e letrados da- quelle tempo i porque erão os que interpretarão as leis, e os ditos dos Profetas; e poriflb mefmo havião de fazer reparo na oração , e fe lhe faltava ponto , ou virgula, interrogação, admiração, dous pontoa , pon- to e virgula , parenthefis, e toda a mais ordem , e re- gra da melhor orthografia ; não porque Chriíto Se- nhor noílb a não foubeíTe bem entender , e em todas as linguas, e idiomas melhor efcrever , e enfmar, co- mo enfinou ; porém fim ( parece ) o fez Chrifto por lhes não dar occafião a que murmuraílem ; porque fa- bia que havião de ler j e notar, e fenão havião de a- proveitar. Bem be verdade que me dirão muitos que efcre- ver , e ainda em matérias efpirituaes , fó incumbe a feus profeffores, e que eu o não fou, A ifto refpondo com hum exemplo bem vulgar. Que fe diria de hum homem , que eítando em parte , donde viíTe atear hum incêndio em huma cafa , ou Cidade , fe logo a vozes não gritaíTe que lhe acudiíTem com agua , ou inítru- mentos , para fe evitar o dano ? Sem duvida fe diria que fobre fer impio , era digno de todo o caíligo. E por iílb notou São Pedro Ciiyfoiogo que não he a- trevido em fallar, quem o faz por zelo de Deos , e do próximo. Demais que também do ociofo filencio fe ha de dar conta a Deos , como das ocíofas palavras; aífím o advertia Santo Ambroíio. Tal meconfidero eu noprefentecafo, levado do zelo, eamor de Deos, e da caridade do próximo, por ver, e ouvir contar o como eftá introduzida eíla quaíi geral ruina de feitiçarias , e calundus nos efcravos , e gente vagabunda nefte Eftado do Brazi! ; além de ou- tros muitos , e grandes peccados , e fuperílições de abu- abufos tão diífimulados dos que tem obrigação de os caítigar; motivo, porque o demónio meítre da menti- ra , e fciencia magica fe tem introduzido com perda de tantas almas remidas pelo preciofo fangue de nof- fo Senhor Jesus Chriíto. Tenho mais outra razão, que por direito me fa- vorece, fegundo alei; (Ord.lib. 5*. tit. 117. §. 1.) por- que como homem do povo , poflb avifar , e denunciar, para que fe ponha cobro, e fe caíHguem femelhantes vicios , e peccados ; porque he certo que diífímulallos he querer que fe não emendem. E femediíTerdesque neíte Compendio nada digo de novo, eque trago nelle muitas coufas, que difper- famente jà eftão ditas por mui doutos entendimentos, não fera a vez primeira , que fe diga : Mutajli ordinem, fecijli librum. Mudafte a ordem, fízefte o livro. De- mais que a iíTo vos fatisfarei com duas razões. A pri- meira dará por mim aquelle Oráculo da Sabedoria Sa- lomão , quando diíle : Nihiifub Sole novum : ( Ecclef. I. 10. ) Não ha coufa nova debaixo do Sol. Donde fe pôde bem entender que nada fe pode dizer de novo, que jà não efteja dito. Afegunda fera com a prefente comparação. Vif- tes jà huma Igreja bem armada, e aparamentada defi- no ouro , rica prata, luzidos efpelhos, perfeitos qua- dros , cuftofas fedas , crefpos volantes , viílofos frizos , branca cera , flammantes luzes , e em fim fragrantes aromas , e fer tudo iíto , ou parte deite adorno em- preitado? Não porque a Igreja, para fer digna de todo o culto , e veneração, lhe feja neceíTario eíte cuftofo apparato; porém fim permitte-fe eíte aíTeio, e alinho, para lifonja do golto , agrado da vifta , e recreio da vontade. O mefmo fe ha de confíderar no prefente cafo, pois também he Templo deDeos o livro, fe he efpiritualj porque fe he profano, he mefquita, ou fy- nagoga. E fe me notardes aviare&a de enfiar, ou enxerir to- SBC todos os dez Mandamentos por modo de extremos, como fe vão feguindo , fem os interpolar , de forte que mais parece fuppoíla que verdadeira ahiítoria, fabei que tenho eílado em muitas partes , e com mui differentes génios de peííoas tratado , e converfado, e nellas achei a maior parte dos cafos , que vos refiro nefte Compendio, e de outros, de quem tenho ouvi- do contar. E porque me pareceo defeito nomeallas, nem ainda todos os lugares, onde fuccedêrao, poriíto ufei do prefente meio , ainda que vos deixe neíía fuppoíição , e juntamente por levar feguida , e atada a compofição defta doutrina. Demais que o fundamento , e fubítancia da vida Chriíla he o cumprimento da Lei de Deos , e obfer- vancia de feus Mandamentos , por ferem as pedras fundamentaes deites noíTos efpirituaes edifícios, epa~ ra melhor dizer , o cumprimento perfeito da vontade de Deos. Finalmente he a Lei de Deos porta, por onde fó fe pode entrar à Bemaventurança : Hac por- tallominitjufti intrabunt tn eam\ (Pfalm 117.10.) por cuja razão fundo efta obra neítes tão folidos fun- damentos. Também não cito muitas authoridades em Latim , por faber que por vulgares os doutos as fabem ; e para os mais he embaraço, porque nem todos ©entendem, as quaes fe apontao em vários livros , que muitos os não tem, para as bufcarem. E fe reparardes noeítylo, por fer em parte para- bólico , tenho exemplo de muitos Authores efpiri- tuaes , que ufárão deita fraze , e género de efcrever; e o mefmo Chriíio Senhor noílo , tratando folida dou- trina com os homens , para melhor os perfuadir , o praticou , e ainda hoje com maior razão nos tempos prefentes , para convencer ao gofto dos tediofos de lerem., e ouvirem ler os livros efpirituaes, são necef- farios todas eítesacipipes, e viandas; efe não, vede o. que fe eítyla , e pratica nos banquetes de agora, offe- re- recendo- fe nas mezas aos convidados no primeiro pra- to varias feladas para mais agrado , e goíto do pala- dar, lílo , que fuccede nos banquetes do corpo , vos quiz também praticar neíte banquete da alma. E porque não pareça paradoxo eíle meu dizer , fa- bei que também os livros fe comem ; aííim o mandou Deos pelo Anjo dizer a S. João : Acctpe librum , & devora illum. (Ápoc.10.9.) Também ao Profeta Eze- quiel lhe appareceo hum braço, e na mão hum livro, e ouvi o huma voz , que lhe dirte : Comede volamen ijtud. ( Ezech. 3.1.) Come eíle livro. Porém eftáhoje o mundo, e os homens emtalef- tado , por enfermos, flatulentos , e tediofos de ouvi- rem a palavra de Deos, que fó goftão de ouvir as pa- lavras ociofas , a que chamão cultura , equívocos, fa- bulas, e comedias. Com grande razão nos ha Deos de pedir conta das palavras ociofas , por ferem caufa de tantas almas fe perderem *, e por iíTo difcreta mente diíTe hum contemplativo que o que lê livros efpíri- tuaes, paga o dizimo a Deos ; e o que lê os profanos y paga o terço ao diabo, Confeífo-vos ingenuamente, amigo Leitor, que pafmo , e me admiro de ver os homens como fe pre- cipitão, porfeguirem a opinião vulgar, defprezando a fanta doutrina do Sagrado Euangelho , levados mais da vaidade gentílica , que da doutrina de Chriíto , ao que eítamos obrigados procurar como Catholicos Chriílãos. Aeíteprof>oíito me lembra que eítando euemca- fa de hum amigo lendo o Báculo Paítorai, entrou hum deites loucos peripateticos , defvanecido com pre- fumpções de difcreto , e fabendo do titulo do livro , me diííe que nenhum homem de juiz > fe occupava em ler livro tão vulgar. E ouvindo eu ,. fenão blasfé- mia, propoíição tão mal foante, lhe perguntei : Pois que livro fe ha de ler? E logo merefpondeo mui ufa-, no : Gongora , Quevedo, Criticon , Para todos de 'Moa- Montalvan , Retiro de Cuidados , Florinda , CrJíhes da Àlraa, Novelias, e Comedias ; porque eáes livros enfmão a fa liar. Pois eu entendo , fenhor , lhe diíTe que eíTes livros, e outros femelhantes enímão a fallar para peccar ; e efie , e outros efpirituaes enfinão a obrar, para falvar. Não he para eíle s aquém offereçp o meu Peregri- no da America , fenão para vós, querido, e amado Leitor: evos peço, quando nelle acheis alguma cóufa, que vos agrade , louveis a Deos , que por mão de nu- ma humilde creatura vos quiz dar prato , de que gof- taíTeis , para que em reciproca união vamos a gozas da Bemaventurança em prefença de Deos, i ■ - ■.' b ris IO' .: . • .. site Vale. 5 EM — EM LOUVOR DO AUTHOR por hum feu amigo. : j SONETO. NEfte voflb Compendio , meu Pereira, De forte vos contemplo difcurfivo , Que me atrevo a dizer que por altivo , Enfinar podeis jà mui de cadeira. Pois fabeis efcrever de tal maneira, Por eftylo tão claro, e attraóiivo, Que tudo o que applicais he defenfivo , Nefta vofla lição mui verdadeira. Mas que muito fe fois tão peregrino , E grave no faber , por tão fecundo , Que de todo o louvor vos fazeis digno» E por iíTo agora fem íegundo Vos confidero jà ; e imagino Dando gloria aDeos, e pafmo ao mundo. EM = EM LOUVOR DO AUTHOR DECIMAS. PEreira f he tão fingular Eíle voíío Peregrino, Que de louvor íe faz digno , Por difcreto no enfinar. Voflas grandezas callar, He íeguir vofla doutrina , Pois volla eícrita me enfina Occultar voíTos louvores; Mas que digo ? Se eftas flores Publicão lição Divina. Agora poderá fer Que fe reforme o Brazil De abufos , e de erros mil, Em que fe eftá vendo arder, Pois lhe dais a conhecer Com tanta fatisfaçao , Que caufais admiração O zelo, com que faltais, Quando regra a todos dais Para bem da íalvaçao. De Pedro Ferreira Ferrete* LI- LICENÇAS. P DO SANTO OFFICIO. eminentíssimo senhor. Or ordem de V. Eminência revi o prefente livro , que fe intitula • Peregrino da America, Author Nuno Marques Pereira e nelle não achei fombra, que eclypfe a luz da dou- trina dos Santos Padres , nem por confequencia coufa , que repugne à pureza da Fé Catholica , ou bons coftumes ; em tudo moítra o Author Peregrino fer douto , elegante , e en- Kenhofo ; e affim bem merece efta obra por peregrina que fe imprima , dando-lhe V. Eminência para íílò licença. V. Emi- nência fará o que for fervido. Santo António dos Capucho de Lisboa, 13. de Dezembro de 1725. Fr. Vicente das Chagas. OMe reimprimir-fe o livro, de que fe trata, e depois volta rá conferido para fe dar licença que corra , fem a qua não correrá. Lisboa, 21. de Julho de 1750. Fr.R.de Âlancaftre. Abreu. Almeida. Trigozo. p DO ORDINÁRIO. ILLUSTRISSIMO SENHOR. OBediente à ordem de V. Illuftriflima , vi o livro intitu- lado : Compendio Narrativo do Peregrino da Ameri- ca , que compoz , e quer dar ao prelo Nuno Marques Perei- ra. Suppofto que o Author nos não declare a Província i que tem por pátria , ou lhe íerve de reíidencia , e ainda que não as infinuárao muito as reflexões , que faz na prefente obra, a fua grande erudição fó bailava , para o reputarmos por na- cional do Brazil ; porque fó em terra , bfíkina própria de en- genhos, fe podia fabricar obra com tanto , e aonde fe achão as pieiogativas do maior. Na fabrica., daquelies acha-fe junta §§ a uti- Plín. lib. i. Epift. 10. a utilidade com adoçara; enefte livro une-fe também de ma- neira a doçura do eftylo com a utilidade das matérias , que pôde gavar-fe de ter acertado em todo o alvo da eloquência perfuafiva , que a eiTa aponta o Poeta Lyrico : Omne tulit punttum, qui mifcuit utile dulci. Eíte livro nada defdiz da fua inferipção. Intitula-fe Compendio ,. e o he de mui doutri- , naes exemplos modernos, e antigos; de literaes fentenças da Efcritura Sagrada, e mui ponderofas dos Santos Padres ; de doutrinas úteis , e fervorofas ; de documentos catholicos , e rooraes ; de erudições Divinas , e humanas ; e finalmente nas varias matérias , em que o Author aqui toca , e efcreve com tanta intelligencia daFilofofia, Theologia, Medicina, Jurií pru- dência , Pòefia , e outras faculdades , que nefte feu Compen- dio de narrações fe moílra outro univerfal de fcientificas no- ticias. Daqui fe vê jà a grande propriedade , com que o ideou na metáfora de Peregrino, para que obra, que era peregrina em tudo , o moítraíTe fer atè no titulo. Em muitos peregrinos notou Judo Lypfio o defeito de que intentavao as fuás pere- grinações mais por appetite , que por fruto , trazendo-fe del- Jas fó coufas agradáveis para a viíta , e nada conducentes pa- ra -afalvação : Mui ti non tàmftuBu, qitàm voktptate pere- grinantur , plura ad afpeílum , quàm adfalutem referen- tes ; porem deite Peregrino , pelos folidos documentos , que dá para a reforma das vidas , pelo aclivo zelo , com que re- prehende a iníòlencia dos vicios , pela fervorofa efficacia , com que perfuade a obíervancia das virtudes , bem fe podem efpe- râr copiofos frutos efpirituaes em quem ler com verdadeira deíèjo de fe aproveitar. Atè no fer efte feu Peregrino da Ame- rica , mofíra o Author as virtuofas anciãs , com que folicita o bem daquellas almas , procurando que effe Mundo novo ( pois affim fe appellida eíla ultima parte do fublunar ) não efte- ja tão' inveterado nos vicios, e fe renove pela emenda, graça, e penitencia. Para confeguir com fuavidade , e deílreza intentos tão louváveis , e catholicos , fe moftra elegante nas difcripções, moderado nas invectivas , engenhofo nas ideas , e moral nas allegorias. Eftranha os abufos nos trages , nos officios , nas modas com difcreta , e innocente fraze , de forte que repre- henda fem offèníà , e perfiga não as pelTbas , mas as culpas: Infeãatur vitia , non Joomines , nec cafiigat errantes , fed emendat. As verdades , que por mui claras , e infipidas po- diao dião ficar menos frucluofas , as propõe encubertas no eítyb parabólico , de que às vezes ufa , e no qual irivolve impor- tantes advertências i por fer efte efficaciííimo para penetrar , e perfuadir , e por iíTo tão ufado de Chrifto Senhor noífo 1 , quando pregava às Turbas , como adverte o Euangelifta : E.£C omnia locutus eft JESUS in par abolis ad' turbas \ & Matth„ . fine par abolis nonloqiiebatur eis.' Sendo pois efte livro por 13. 34. tantas circumftancias , e pela de não ter nada , que fe oppo- nha à pureza de noífa Santa Fé, e bons coftumes tão digno de fe divulgar , juftamente merece a licença, para que fe pof- fa imprimir. V. IUuftriffima mandará o que for fervido. Lis- boa ,.e Congregação do Oratório de S. Felippe Neri, 14. de Fevereiro de 1727. O P. Manoel Confidencia. - 0'de reimprimir-fe o -livro, de que fe trata, e depois tor-í nará para fe dar licença. Lisboa , 13. de Novembro de 1750. D. J. Are. -r— tf DO P A C, O. S E N H O R. POr ordem de V. Mageílade vi o livro , que fe intitula Ve-,. grino da America , comporto por Nuno Marques Perei- ra; nelle não encontro coufa alguma, que pareça menos con- forme ao direito , ou regalias de V. Mageílade , antes muito conducente ao feu Real fer viço, que feda por mais intereíía- do no de Deos noíTo Senhor, ao qual fe ordena expreífamen- te o /argumento deita obra , dirigida a extirpar os abufos in- troduzidos no Eftado do Brazil. Efte fe acha quanto ao tem- poral nos Teculos de ouro ; intenta a piedade , e trabalho do. Author que feja o mefmo no efpiritual , para que na melhora dos coftumes poífa dizer-íe com verdade : Redeunt in aiirum têmpora prifeum. Com maior razão fe chamará mundo no- vo, fe na obfervancia de tão vários documentos tornar aquel- le Eftado aos antigos , e primitivos coftumes, que nelle fe plan- tarão com a pureza da noiTa Santa Fé. AÍIim fera, e fó aííim rico para os vaífailos detodaefta Monarquia, rico para V.Ma- §§ « ge£ geftade , e rico para o mefmo Deos. Eíle o meu parecer , V. Ma- geftade mandará o que for fervido., Lisboa, Cafa Proferia de S. Roque da Companhia de Jesus, 7. de Maio de 1727. ' x - Gregório Barreio. QUe fe pofTa reimprimir viftas as licenças do Santo Offí- cio , e Ordinário , e depois de impreíTo tornará à Meza para fe conferir, e taixar , e dar licença para que corra, efem iíTo não correrá. Lisboa, 4. de Março de 1751. Marques P. Almeida. Caftro. Mourão. EStá conforme com o feu original. S. Domingos de Lisboa, aos 11. de Abril.de 1752. Fr. Jofé Malaquias. Pode correr. Lisboa, 12. -de Abril de ijp. Fr.R.de Alancaftre. Silva. . Abreu. Trigozo. Pôde correr. Lisboa, 19. de Abril de 1752. Silva. Taixâo para correr em trezentos reis. Lisboa 9 21. de Abril de 1652. Marquez P. Ata/de. Cajlro, Mourão, IN- INDEX DOS CAPÍTULOS, QUE SE contém nefte livro. /"~^ AP.I. Dá oTeregrino principio àfua narra- f ção,etratadaconverfação , que teve com o 1*M Ancião acerca de que todos fomos peregrinos nefte mundo , e do que havemos de obrar com acerto, parachegarmosàno(fapatria,queheo Ceo f pag.i. CAP.II. Continua o "Peregrino a fua narração, de- clarando que não forno os intereffes doscabedaes, que o fizer ão ir às Minas do Ouro ; e com vários exemplos mo/ira o grande mal , que nos refulta ■ da ambição, e feberba , pág. n. CAP.III. Mo/ira o "Peregrino com vários exemplos que bem pode hum homem fer muito rico^e gr an- de per fona«em em qualquer eflado, e por fuás boas -■ obras de virtude vir a fà Iv a r-f e, pzg.zi. CAP.IV. Trata o Peregrino das grandes excellen- cias da pobreza : reprehende aos pobres calacet- ros: e declara o muito , que a todos aproveita o fazer efmolas aos pobres necejfitados pelo amor de Ueos, pag.33. ..... - ■ CAP.V. Dà principio oTeregrino a relação aajua jornada para as Minas do Ouro : trata das ex- cellenciasdd Miffa : e manifefi a algumas virtu- des do Venerável Arcebifpo da Bahia "D. Fr. Ma- noel da Refltrreição por eftar fepultado na Igre- ja de Belém, onde o peregrino entalo fe achava* CAP.VI. 7)o Cathaloço dos Bifpos , e Jrcebifpos da Cidade da Bahia de fie o principio de vfa a fun- dação. E fe moffrão algumas excellencias do AL Reverendo Padre Alexandre de Gufmâo , Reli- giofo da Sagrada Companhia de JESVS , $àM dador do Seminário de Belém ,pãg.$6. CAP. VII. Chega o Teregrino à cafa do primeiro morador , e trata dos Louvores da Santa Cruz, com muitos exemplos , e mihgres , que no mundo Je tem vifto , comprovados com toda a verdade, pag.ói. CAP. VIII. Conta o Teregrino ao morador o como Adio , e Eva forao feitos por T>eos, e o que lhes Juccedeo no Tarai/o , ate que forao dejierrados de lie por caufa do peccado , pag, 75. CAP. IX. Relata o Ancião ao 'Peregrino o principio de nojfa Redempçao ; e mojtra como a SantiJJima Virgem MARIA foi prefervada da culpa origi- nal por efpecial favor y e graça de T>eos, pag. 79. CAP.X. Manifefla oT ere gr ino ao mor adore orno fo- rmos creados à imagem , e femelhanca de T>eos : como devemos fazer huma boaConfifão: e quan- to nos importa ter orarão, com vários exemplos* pag.% 7 . CAP. XI. Falia o Teregrino do primeiro manda- mento da Lei deT)eos commuit a doutrina efpiri- tual , e moral : e reprehende o grande abufo dos calundus , e feitiçarias , que fe achao introduzi- das no Efiado do Brazil t pag. 106. CAP. XII. Trata o Teregrino do fegundo mandamen- to com muitos avijos , e documentos, parafe evi- tarem t antosjur amentos falfos em juizo , pag. 121. CAP. XIII. ç Do terceiro mandamento. Aconfelha o Teregrino o como devem os fenhores tratar afeus eferavos, e famílias >fazendo-os guardar os Do- mingos, e feftas> com vários exemplos de doutri- na , pag. 137. CAP. XIV, 'Do quarto mandamento. *Dá o Teregri,. no muitos documentos aos pais de famílias de co- mo áevem tratar , e enfinar a feus filhos , e -'aos filhos de como hão de obedecer afeuspajs^^zg. 15:4. CAP. CAP.XV. 7)o quinto mandamento. Mo/ira o Tere- grino que nuo devemos matar , nem ofender anofi f o próximo : e aconfelha a hum crimino fo o meio de fe livrar da culpa , em que eflava : e de como permittio^Deos que tudo fuccedefebem \ pag. 186. CAP. XVI. *Do fexto mandamento. E do que fucce- deo ao Peregrino em cafa de hum homem , que ef- tava concubinado : ecomo oaconfelhou , para o li- vrar daquelle mdo eftado, pag. 107. CAP. XVII. T)o fet imo mandamento. E do que fuc* cedeo ao Peregrino com hum vendeiro , que ejta- va roubando ao povo : e como o dijfuadio daquel- le mdo trato com vários exemplos, pag. 140. CAP. XVIII. T)o oitavomandamento. Trata- femui- ta doutrina , e fe reprehende o vicio da murmu- ração. Ilijfuade o 'Peregrino com vários exem- plos a trezmurmur adores , que achoumurmur an- do : e aconjelha o como fe deve livrar defíe vi* cio, pag. 25-5-. CAP. XIX. *Do nono mandamento. Relata o 'Peregri- no os lajfimofos cafos, que viofucceder por caupt dopeccado do adultério : e dd vários confelhos ,pa- râpnderem viver os Gafados em boa paz , pag. 277. CAP. XX. *Do decimo mandamento. Mojira o Tere* grino commuitos exemplos o dano, que nos faz, a ira , e confequent emente a inveja : e faz metter em paz adous homens vizinhos, que andavão em difcordia, pag. 307. CAP. XXI. Manifefla hum morador ao 'Peregrina o achaque continuo , que padece , e lhe pede algum remédio para elle: e o Peregrino lhe dd duas re- ceitas 1 huma corporal, e outra efpiritual : e lhe traz muitos exemplos dos que nefie mundo pade- cer 'ao enfermidades, pag. 320. CAP. XXII. 'Declara omefmo morador aoPeregrino a forma, em que difpõe de feus bens no teftamen- to , que tem feito; e o Teregrino lhe aconfelha o co» como deve teftar com acerto, paraajfegurar a fuá ftlvad-o , pag. 338. CA?. XXIII. *Do encontro , que o Teregrino teve com o 'Padre Capellão : e da converjaçao , que ii- verão acerca do e fiado Sacerdotal* pag. 351. CAP. XXIV. r Do que o ''Peregrino vio , e obfervou jto alpendre da Igreja , e dentro da Cape lia Mor, e Sacrijtia: e da pratica, que teve com oSacrif- tiío , pag, 362.. CAP. XXV. c Da explicação do quadro , ou efpelho da, vida humana , no qual fe trata matéria mui ejpi- ritual, pag. 374, CAP. XXVI. ( f)a relação , que da o Teregrino da converjaçao , que teve o Tafirano com os que ef- tavão no alpendre da Igreja acerca do que lhe fuccedeo na Cidade da Bahia, He matéria de mui- ta moralidade , pag. 378. CAP. XXVII. Copia de huma carta ejcrita da Cida- de de Lima ao Prefidente das Charcas , na qual Je lhe conta o infeliz fuccejfo , e ruina, que cau- fou o tremor da terra em toda aquella Cidade aos vinte de Outubro de 1687. defde as quatro horas e meia da manhã atè às fete e meia do mefmo dia % P a £- 4eclara-fe o Ancião com o Teregri- no , e lhe diz, que elle he o tempo bem emprega- do : faz- lhe muitos avifos efpirituaes para bem defuafalvação: edd~fe fim à primeira parte def- te Compendio , pag, 418. Pag. i COMPENDIO NARRATIVO PEREGRINO A M E R I...G A. CAPITULO I. ^Da oPeregrino principio à fua narração : e trata da converjaçâo , que teve como Ancião acerca de que todos fomos 'Peregrinos nejíe Mundo , e do que de- vemos obrar com acerto , {ara chegarmos à noj/a Pátria, que be o Çeo. M treze gráos da Linha Equinoccial para o Sul , na coita da America, on- de fe dividio a terra , e fe recolheo o mar , fazendo numa formofa abra , das mais efpaçofas , que reconhece o orbe em fuás ribeiras ; em cujo golfo, como em praça, paffeão navegando as embarcações, femmais roteiro que aaprazivelviíla dos altos montes j cubertos de verdes plantas, dasquaes po£ A ar- m i Compendio Narrativo arte de engenhos fe faz o claro aíTucar. Neítabella con- cha íe vê huma rica pérola , engaftada em fino ouro, aquelía nobre , e fempre leal Cidade do Salvador , Bahia) de todos os Santos , Metrópole do eílado do Bmzil : a qual teve feu principio pelos infignes Portuguezes na- quelle novo empório do Mundo, como largamente tra- tão vários Authores. Logo na entrada da barra , em hum viftofo oiteiro eílá edificada huma Igreja da Mãi de Deos com o titulo de Senhora da Vitoria. Neíle famoíb íitio , e devoto Templo me achava eu huma tarde de verão , por gozar da íua agradável viíta, tanto do largo Mar Oceano, como da muita par- tf d% recôncavo , por fer dilatado em difperfos rios , e muitas ilhas ; quando aviltei hum venerável Ancião, que dirigia feus paíTos para o mefmo lugar, onde eu ef- tava. Vinha elle veíHdo à cortezã , barba crefcida , e muita branca , cabellos próprios atè os hombros , com hum báculo na mão , e no alto delle hum relógio da Sol , e outro de horas , que em hum cordel o prendia , e lhe fervia de prumo quando delle ufava. E como o vi perto, me levantei, e depois de mefaudar, eeu a el- le, com o coftumado cortejo , e urbanidade , nos aíTen- támos , e rompeo neftas palavras. Como , fenhor , tão foiitario em hum lugar tão a- prazivel ? Ao que lhe refpondi : Jà ouvirieis dizer a- quelle rifão Caílelhano : %)na ave fila , ni canta , m Hora. E porque ordinariamente fuccede de algumas companhias refultarem muitas oíFenfas a Deos , prin- cipalmente no murmurar das vidas alheias, como ove- mos por experiência , e efcrevem vários Authores ;. por evitar eíle , e outros inconvenientes , depois de ter feito oração à SantiíFima Virgem da Vitoria , me af- fentei aqui , onde me achaftes ; mas agora me pode- rei dar o parabém de gozar de voíTa prefença , e com- panhia. Ao que me refpoadea o Ancião : Não devo pou- Da Peregrino- da. America. 3 pouco à minha dita , por vos encontrar , e participar de voíla difere ta converfação. Mas fallando do fitio, poílb affirmar que aíliílindo algumas vezes nefta Cida- de , não achei território mais agradável ; porém diítan- do menos de huma légua , e com tão bom caminho, o vejo tão pouco frequentado dos moradores delia. Se- nhor , lhe diííe eu , o trafego dos negócios não fó faz aos homens efquecerem-fe do recreio do corpo , mas também do efpirito. Oxalá não fora iffb tão certo , me refpondeo o Ancião. Porém paíTando de hum extremo a outro, quizera que me diíTereis que eftado tendes , e de que tratais? Eu , fenhor , lhe refpondi : Sou Peregrino , e trato de minha falvação. Muito me tendes dito, me diíTe o An- cião \ porque vos poílb animar que me dais motivo pa- ra fazer de vós maior conceito , do que fe me diíTereis fer huma grande perfonagem, Quizera , Senhor , lhe dif- fe eu, que me déreis a definição de voíTo encarecimen- to, por vos não ter por lifonjeiro; o que de vós fe não pôde prefumir. Nunca Deos permitta , me refpondeo o Ancião, que em mim tal vicio fe ache; por fer defua natureza tão peílimo, que fenão fora por vos moleílar, vos referira vários fucceílbs, que por eíte vicio, e pec- cado tem fuecedido no mundo. Mas jà que perteíideis vos diga a razão do meu encarecimento , Sabei que he efte Mundo eftrada de Peregrinos , e não lugar , nem habitação de moradores ; porque a ver- dadeira pátria he o Ceo , como aífím o advertio São Gregório Papa , que por iíTo em quanto andão os ho- mens neíte Mundo lhechamão caminhantes. E diz São João Chryfoítomo que neíte mundo não ha mais que huma virtude , da qual fe compõe as outras : e he o ter-fe por Peregrino neíta vida , e por Cidadão da Glo- ria. E quem affim conhecer a íua pátria * com razão A ii po- G O M P EN D í O N A t R A T I VO ; í poderá dizer com David : Ai de mim , porque he pro- longada a minha peregrinação. O qual fallando com Deos, diz: Não voscaileis, Senhor; porque eu fou ad- venticio , Eítrangeiro r e Peregrino diante de vós , co- mo forão os meus antepaíTados. Como quem queria di- zer: Senhor, pois eu não faço cafo das injurias dos ho- mens , nem das propriedades da terra , e nella me tra- to, como quem vai de caminho , não tapeis voííbs ou- vidos a meus clamores. Por eítacaufa premiou Deos aAbrahão, por fefa* zer Peregrino, com o fazer pai de todas as gentes ; por ver o zelo, com que o amava , defprezando todo o fo*. cego do mundo pelo fervir. Eíte foi também o modo de vida , que Deos deo , e eníinou a Ifaac , quando o mandou para a terra de Canaan , que devia morar , e juntamente fer Peregrino. E diz S. Paulo , fallando com os homens , que são todos Peregrinos , e que não tem aqui Cidade permanente 9 e própria : e que vão ca»- minhando , e bufcando-a , que he fem duvida a Gloria. Do Abbade Olympio fe conta , que perguntando-lhe de que modo fe viviria neíte Mundo , deo por refpof- ta : Trata- te , e eílima-te como Peregrino. Finalmente Chriítro Senhor noíTo também fe chamou Peregrino ; e os Apoílolos também o forão em quanto viverão neíle Mundo. E por iíFo com grande razão difFe David que to- da a vida do homem neífce Mundo , não he mais que hum quaíi entrar ne He , e fahir logo. E em outro lu- gar: ( Tfalm. 136. v. 4. ) Como podemos alegrar-nos em terra alheia ? E Job com viver duzentos e quarenta e tantos annos , dhTe que a fia vida era huma traslada- ção fomente de hum fepulcro para. outro : do ventre par- ra a fepuitura. - E affim permittio Deos que a vida do homem foíTe Breve r para que elle nem com as propriedades fe enfo- ber- SB Do Peregrino da America. y berbeceíTe , vendo o pouco tempo > que as havia de go- zar ; nem com as adveríidades perdeííe o animo , vendo que em breve havião de acabar : e para que fe refolvef- fe a fe mortificar , e viver conforme aos preceitos Di- vinos , e confelhos de Chriíto , tendo por grande ven- tura o comprar com trabalhos de huma breve vida na terra osgoítos eternos da Gloria, onde devefempre ter. o feu penfamento , e o coração, tendo- fe neíte Mundo por Peregrino , e deíterrrado , fugindo de empregar o feu coração na terra ; porque , como aconfelha Santo AgoíHnho : Onde eítão fixos, e permanentes os noííòs corações , ahi eítão os noffos goítos. E deíle difcurfo fe fegue que fe devem tratar , e haver os homens como Peregrinos ; porque fe bem re- pararmos que coufa he a vida de hum homem neíle Mundo , acharemos que não he mais que huma me- ra peregrinação, que vão caminhando com toda apréf- fa para a eternidade , defde o inferior ao fuperior , tan- to que chegão a ter ufo de razão : jà andando , jà na-* vegando , jà appetecendo glorias atè poíTuillas , e na mef- ma poíTe temendo perdellas. O defvalido , queixan- do- fe de não as poder alcançar , e poíTuir. O enfermo defejando a faude , para a eílragar. O navegante buf- cando o porto , e talvez para fe perder ; e quando jà nelle fe acha , appetecendo voltar ; e fe não he com o corpo , com a vontade, E aífim não ha no homem fir- meza , nem eítabilidade , que por muito tempo dure, por andar fempre em huma perpetua mudança. E fó pára eíle bulicio , quando chega a hum dos dous ter- mos , onde ha de ir parar : ou ao Ceo , para onde foi creado ; ou ao Inferno , o que Deos não permitta por fua Divina clemência , e mifericordia. Tenho- vos fal- lado efpiritualmente ; agora vos quero advertir moral- mente o como fe deve obfervar o Peregrino politico, e Chriitão. A iii Não í >, líii 6 Compendio Narrativo. Não merece pouca eítimaçao o que defprezando os mimos , e regallos de fua pátria , bufca as alheias, para nellas fe qualificar com mais largas experiências, por cuja razão he o fahir da pátria o que faz aos ho- mens mais capazes , e idóneos para mui grandes em- prezas , e fuíficientes para tudo , como o tem feito a tantos varões illuítres ; porém não ha de fer com ten- ção de não mudar fó de lugar , fenão também de cof- tumes ; porque he certo que quem peregrina acompa- nhado de feus vicios , mais valera não haver fahido j pois tornará mais perdido que aproveitado ; porque as enfermidades da alma não fe curão com a mudança do lugar. O Peregrino vai por onde ha de achar cada dia novos coíhimes , e os deve feguir , e approvar , e não reprehendellos ; pois he mais razão accommodar-fe ao ufo da terra , que pertender , e querer trazer aos mais ao coítume da fua pátria. Ha deconfiderar que vai obe- decer às leis , que achar eílabelecidas ; e não a dar re- gra aos mais, e que vai a aprender, e não a enfinar. E peregrinando aíTim , fe qualificará em hum perfeito he- roe. Faça muito por adquirir féis virtudes , que são piedade de Religião , efti mação da juítiça , prudência, fortaleza , magnanimidade , e temperança. Gbferve tam- bém quatro meios de virtudes moraes , e mui necef- fadas para ter eflimação , e fabedoria. O primeiro a- partar de íi todo o máo exemplo de opiniões , e leitu- ras , que não forem dirigidas a Deos. O fegundo fu- gir de ruins companhias , procurando imitar aosvir- tuofos i e fabios. O terceiro fer tão bom no interior, como defe}a apparecer no exterior. O quarto , e ulti- mo empregar o entendimento em conhecer , e a von- tade em eleger o que he verdadeiramente bom. Por- que são os meios de grande aproveitamento para com Deos , e os homens, E quem afira fe occupar em fua vi- Do Peregrino da America vida , e peregrinação , mediante a graça de Deos , al- cançará o premio do fruto , que deleja, que he o Rei- no do Ceo. Senhor, Jhe diíTe eu: Mui pago , efatisfeito eílou do que me tendes dito , e aconfelhado. Porém pergun- to: Gomo fe ha de hum homem conítituir em tão íoli- dos , e perfeitos documentos , fem ter fciencia , ou Me£- tre , que o enfine ? Refpondo , me diíTe o Ancião : Para fer hum ho- mem politico , bom Chriílão , deve fer obediente aos preceitos da Santa; Madre Igreja , procurando as mais vezes , que puder o Sacramento da Penitencia , tomam- do os avifos , e documentos do feu Padre efpiritual , e os confelhos dos bons: e entendendo que ninguém po- de fazer obra meritória fem a graça de Deos ; e não podem eílar juntos em hum fujeito , o peccado , e a virtude ; que Deos creou ao homem, para que o amaf- fe, emereceíTe; que fenão nega a nenhum, que o quer. £ ifto bafta entender , e feguir eíias verdades ; e não he neceíTario para entender eílas máximas fer Filofofo f nem Theologo. Suppoíto que todo o homem dotado de bom en- tendimento he Filofofo natural : e na Filoíofia , aífirrt natural , como Fyfica , e Moral , ha trez partes : a pri* nieira he definição , que declara o que he a coufa : a fe~ gunda, porque razão fe chama affim: a terceira, porque tal razão fe chama demonílração. E logo fe fegue o fa- ber o que he definição , entimema, confequencia , ver- dade , falíidade , e outras muitas coufas , que são per- tencentes a Diale&ica, para a Filofofia natural ; porem totalmente inúteis para a Moral, em que convém mais obra^que palavra, efimples conhecimento dos argumen- tos: e fó pertence ao Theologo dizer as razões, em que fe fundão; porque as futilezas Dialécticas mais fervem de embaraço, do que de clareza para o nofíb intento. A iv Tão Compendio Narrativo Tão lacónica , e ingenuamente , Senhor , lhe dif- fe eu , tendes moítrado os termos da Filofoíia natural , e Fyfica , que me tendes admirado ; pois fabendo que são neceffarios trez annos , e às vezes muitos mais , pa- ra declarar feus termos , e preceitos tão univerfaes, os tendes explicado tão brevemente, com tãofolidos fun- damentos , por meios tão perceptíveis , que me ten- des fatisfeito. Mas o que pertendo faber de vós , heque me digais o como fe poderá melhor entender efía ter- ceira parte da Filofoíia Moral , que de tanta utilidade he ao homem para viver bem , e virtuofamente , fundada na melhor razão , por não ficar indirTerente , fem me fa- ber determinar. Refpondo , me diíTe o Ancião : Filofoíia Moral va- le o mefmo que aífeição , e conhecimento das virtudes , e regimento prudente da vida efpiritual , que he co- mo vos diíTe : Prudência , juftiça, fortaleza, temperan- ça. Eítes fe aprendem com os didrames moraes , e pe- los bons exemplos , e livros efpirituaes , que também os muitos, livros são diílracção do entendimento , co- mo fe tem vifto em muitos , que cuidarão que fabião dar documentos , por doutos , e verfados em ler , e ef- crever , e fe acharão tão faltos de fciencia , como cheios de peccados no Inferno , dos quaes vos fizera mais ex- préífa , e individual menção , fenão fora prolongar efte difcurfo , que como tão fabido de todos , e efcrito nos livros me efcufo agora de vo-lo repetir. Porque he ve- reda perigofa a fciencia , fe a f é , e a humildade não guião feus paílos. Mas tornando ao noíTo intento » venho a dizer que mais fe aprende obrando que lendo. Exemplo. Me- lhor he fer caritativo, do que ler que he bom fello : e melhor he obrar hoje hum-a virtude , do que propor de fazer duas à manhã ; porque là diíTe hum experimen- tado , que pelo caminho de à manhã fe vai à cafa de nua- Do Peregrino da America. 9 nunca. E por iíFo fe diz que o Inferno eílá cheio de bons defejos, e o Ceo de boas obras, por fer a primei- ra virtude luz, e guia para encaminhar as mais: e quan- to fe tem efcrito , e inculcado para as virtudes não en- íina tanto, como a execução da obra, e exercícios dei- las. Para obrar bem he neceflario pôr por obra o que fe propõe na vontade : e melhor he obrar alguma cov> fa com virtude, do que ler, e fallar muito, e não fazer nada: e daqui vem que muitos fe moítrárão mui práti- cos na virtude de palavras , e pelo contrario obrando. E aíTim para o acerto da vida , como para a fegurança da Gloria , não ha de fer fó a memoria , e o defejo de obrar bem ; porém fim pondo-o em execução. Não feja fó o amor efpeculativo , ha de parlar ao pratico ; por- que niíto eítá todo o bem , em que nos devemos occu- par, confiderando os grandes poderes da virtude ; pois ella faz não fó dos bons , melhores , mas dos máos, bons , e de peccadores juílos , e tudo o mais fem virtu- de he nada ; porque também deixar o vicio por medo, e não por aborrecimento , mais fe pode chamar 3 eíle tímido que juíto , porque a nenhuma maldade pode fa- vorecer o fecreto. Bem pode hum occuitar o feu pec- cado ; mas não poderá deixar $e o temer , ainda que cego do amor próprio , que he a caufa , que o homem menos conhece, e fempre o engana, por fer o peccado morte da alma , verdadeiro mal, inimigo de Deos , oc- cafião de defgraças , incêndio voraz da confciencia , con- denação eterna. Pode o homem fer pela virtude amigo de Deos, bem quiílo com os homens , lograr faude , ter defcan- ço , feguir a luz da Fé , e os di&ames da razão , efca- par do Inferno, feguindo a Chrifto, abraçando a virtu- de , aborrecendo o peccado, que he a caufa de to- do o noílb mal, ultimamente meio de nos privar de gozar da Gloria, Finalmente o peccado lançou a Lu£- ■ bei io Compendio Narrativo. bel do Ceo , e deo com elle , e com todos os feus fe- quazes no Inferno : e a Adão deíterrou do Paraifo , e a todos os feus defcendentes os poz era hum valle de lagrymas. E defta forte me parece que vos tenho em parte fatisfeito do muito , que fe pôde dizer deite par- ticular; porque o achareis eícrito em livros efpirituaes , e praticado nos púlpitos por Pregadores Euangelicos, eMiíTionarios Apoftolicos. Reíta agora que medeisno- ticia de voíTa peregrinação. Tão obrigado , e fatisfeito , lhe diíle eu , me con- fidero , que por divida tenho não faltar ao que me pe- dis , e mais ainda , quando vos vejo tão douto , como enfinado do tempo, e com tão largas experiências, que eífcas fe não podem adquirir , fenão depois de muitos aa. nos. Por cuja razão levo feguro abonador à minha nar- ração , ainda que me reconheço pouco verbofo , e me- nos elegante no eítylo. Mas como fempre ouvi dizer que fe ha de fallar aquém defeja ouvir, afToito, e con- fiado , me animo a vos obedecer. Não me começarei a a inculcar pelo folar de meu nafcimento , ou alabanças da minha pátria, por aquelle fer muito humilde, e ef- ta ter pouco nome ; fuppoílo que para naícer qualquer lugar hafta, o que me parece neceflario he fó fazer elei- ção da terra para viver, não me eximindo porém, quan- do no fio da hiftoria paliar por ella , de publicar fuás* excellencias , que algumas inclue em íi, como notoria- mente fe fabe. E aífim fó tratarei agora do que faz ao noílo intento. CA- Do Peregrino da America. CAPITULO II. ii Co n t in ua o Te reg ri n o a/u a na?' ra cão , declara n do que nãoforão os intereffes dos cabedaes, que o fizerão ir às Minas do ouro, E com vários exemplos mo fira o grande mal t que nos refulta da ambição , cjoberba. DEpois de ter corrido , e navegado muitas partes deíle eílado do Brazil , e aííirn Cidades , como Villas , e Lugares , chegando a cila da Bahia , a tempo que fe contavão tantas alabanças , e grandezas deíTas Minas do ouro de S. Paulo , mais levado de hum de- fejo de ver ene portento da fama , novo mundo def- cuberto , ha tantos annos incógnito , que dos lucros do intereííe , me deliberei ir a vellas. Senhor , me dif- fe o Ancião: NeceíTariamente vos hei de atalhar os fios da voíTa narração r pois vos ouço dizer coufa tão ef- tranha de me perfuadir a crer : e vem a fer , que hou- veífe peíToa , que intentaíFe confeguir huma jornada tão longe , e por caminhos tão afperos ? fem que o le- vaílem os intereíles , que todos neíta vida appetecem. Pois fabei , Senhor , lhe diíFe eu , que por reconhecer os grandes males , que deffe vicio refultão a quem nel- le fe entrega, fugi , e fugirei, como quem de huma fe- ra peçonhenta procura efcapar. E vede fe tenho ra- zão. He a ambição irmã da foberba , e ambas produ-' sidas da inveja , por fer eíta femelhante ao Inferno. Onde entra efte vicio , impera a foberba , crefce a ava- reza , reina a luxuria t accende-fe a ira, exiíte a gulla t governa a inveja, acha-fe aperguiça. E como fera pofc fivel livrar-fe huma creatura racional do Inferno , a- chando-fe nelía todos eítes fete peccados ; fendo que todos eítes vicios, ou peccados os favorecem as rique- zas , e confequentemente a foberba. E o peior he que fem; ti Compendio Narrativo fem embargo de ferem tão grandes males , andão tão introduzidos no mundo , e em todos os eítados : e não fei fe diga que ainda naquelies , que tinhão obrigação de os reprehender» e caftigar. Fundo eíiia minha razão nas palavras de Chriíto Senhor noíFo por S. Lucas cap. 18. v. 25". quando dif- fe que mais fácil lie paíTar hum calabre pelo fundo de huma agulha que entrar hum rico no Reino do Ceo. E he muito para reparar que não diíTe Chriíto hum la- drão , ou malfeitor , fenão hum rico ; porque parece nos quiz moítrar que baíta que hum feja rico para ca- hir em todos os peccados , por ferem as riquezas em poder de quem as eítíma, a matéria , em que fe ateão, e ardem os mais vicios. E não cuidem os Reis , e Monarcas do Mundo que fe podem livrar deita fumma verdade , por fe ve- rem eítimados de todos, fenão feguirem a doutrina do mefmo Chriíto , que para todos nos deo remédio , co- mo quem veio ao Mundo para nos falvar. Porque nos moítra a experiência , pelo que temos ouvido , lido , e viíto de muitos Emperadores , Reis , e grandes perfo- nagens , que por ambiciofos , e foberbos , fe vierão a perder , por ferem a ambição , e foberba inimigas da Lei Divina , e por iíTo caufa danoíTa perdição. E fenão vede. Do Emperador Commodo , que fuccedeo no go- verno de Roma por falecimento de leu pai Marco Au- rélio, no anno de 180. fe refere que nelle fe defcubrí- tão os vicios de Calligula , e Nero , efcurecendo todas ( as virtudes moraes de feu pai , e admittindo todas as maldades * e torpezas, que pode acumular para feu de- pravado goíto, e appetite. Por fever rico, epoderofo, fefez ornais cruel, e foberbo Emperador daqueile tem- po. Efta peite durou treze annos , atè que Narcifo La- vrador o matou na Praça. Porque nao é tarda o caítigo a quem Do Peregrino da America. 13 quem o merece , por ferem os goílos , e deleites deita vida, veíperas de tragedias lamentáveis a quem as pro- voca por feus peccados. Não falta quem diga que Dário foi o primeiro Rei , que cunhou dinheiro ; tão poderofo , e rico fe fez, que nenhum teve maior thefouro , nem poder co- mo eile. E que vos parece que lhe fuccedeo com to- do eílepoder, e riquezas? Vir Alexandre Magno, pôr- Ihe guerra , vencello , deítruilla ; e não fó desbaratai- lo dos bens , que idolatrava , como também tirar- lhe o fceptro , e Reino , defpoílallo da mefma mulher , e filhos , e prendelío , tendo-o maniatado em correntes; e tudo iífco , porque foi tão foberbo , e ambiciofo, O' que talvez não experimentara , fe fora mais humilde , e defintereííado , porque fe fujeitára a partido , pa- gando feudo , e tributo , como muitos Principes , que por não quererem experimentar os rigores de quem pa-' rece dominava a fortuna , como Alexandre , íe rende- rão à fua vafTallagem t e affi.ni ficarão livres de maiores- trabalhos. Ifto , que a Dário fuccedeo, moílra a expe- riência y porque muitos fiados nas fuás riquezas , e íb- berba , vem a fer ludibrio de efcarrnento, e efpe&aculos' de compaixãov Carlos VIII. fe fez Rei de França; e por fever Í$* fongeado de muitos , fe perdeo , porque fe quiz fazer fenhor de muitas Provindas , e dominar muitos Rei- nos. Por ambiciofo , e foberbo y veio eíte a morrer de repente, depois de ter tomado poííe do fceptro , e Co- roa no anno de 1495". e acabou dalii a trez annos ; não j achando hum fepulchro no feu Reino , entre os feus- vaífallos, em que feu corpo foífe fepultado , que a tan- to como ifto chega a demaziada ambição , e foberba, por não feguirem a Lei Divina , e os diclames da ra- zão. São as riquezas , e as foberbas as que defra vida; i-m^ Compendio Narrativo Impedem , e tirão o focego , e ainda o rnefmo credi- to , e honra , como fe tem viílo dos muitos exemplos. Veja-fe o que fuccedeo em França no anno de ióox. a Marifcal de Yeron. Efte , todo o feu valor , e efclare- eidas façanhas, que obrou pelo feu Rei, as desfez com o delito , que fez contra fi mefmo. Por foberbo , e am- biciofo , menos prezando os favores do feu Principe, depois de ter livrado a vida de tantos perigos, a veio a entregar às mãos de hum verdugo , porque fe não fou- be vencer t guardando as Leis Divinas , em que nos de- vemos fundar. Quem ama as riquezas, e fe deixa levar da fòber- ba , vem a experimentar a fua pouca firmeza , e eílabi- lidade ; porque ainda no maior auge da fortuna fe não livra do precipício , e defamparo, AíTim fuccedeo a Roberto , Conde de Fez , de Inglaterra. Efte havendo obrado feitos heróicos com o feu grande valor , e es- forço : depois de ter ganhado aquelia memorável bata- lha dos rebeldes Irlandezes, cahio em tal baixa em hum infhante da privança da fua Rainha Ifabella , por fober- bo, e ambiciofo das glorias, e riquezas do Mundo, que veio a acabar a vida em hum cadafalfo , não lhe valen- do os clamores do povo , porque o fentimento não im- pede a juífciça. Diz Séneca , que as riquezas fazem aos homens altivos, foberbos , e invejofos, e que poucos são os ri- cos , e grandes do Mundo , que não tenhão eíles effei- tos comílgo. Ao Duque de OíTuna , que em Nápoles ti- nha grangeado o nome de bom foldado , o mandou pren- der ÈlReí Filippe III. por haver incorrido em ódio da nobreza, por foberbo, altivo , e ambiciofo j todavia fi- cou fufpeitofa a prizão. Porém o certo he , que a am- bição domina a razão. Finalmente, he a ambição a que mais brevemente nos tira a paz s e o focego , e abbrevia a vida. De Ale- xan- Do Peregrino da America. íf xandre Magno fe conta , que fendo tão esforçado na guerra , como favorecido das venturas , e riquezas do Mundo , acabou a vida no breve curfo de fetis annos, não chegando ao rim da idade , pela grande appetencia de mais Mundos vencer. E talvez vivera mais , fe não fora tão foberbo, e ambiciofo de glorias vaidofas j por- que he certo que quem fe não contenta com o que tem, vem a perder o que mais defeja. Não affim fuccedeo àquelle grande Emperador Si- gifmundo , por fer tão defintereífado , como ajuílado às Leis Divinas , do qual fe conta , que trazendo- fe-lhe quarenta mil efcudos em ouro , de huma Provinda de Ungria , penfativo , como cuidadofo , em que os havia de empregar , palTou toda huma noite fem dormir - y e aííim como amanheceo , chamou a todos os Cabos do feu exercito , e abrindo o cofre , onde eítavão os do- brões, lhes diffe: Vedes aqui os meus inimigos, que me não deixarão dormir , nem ter foce go Í tomai-os, e re- parti-os entre vós- outros , e aííim me livrarei delia mo- leíHa paífada ; e fahindo tão contentes , como aprovei- tados os circumítantes , tornou o Emperador a chamai- los , e repetio , dizendo-lhes: Forão-fe jà effes verdugos f que me atormentarão efta noite paífada > E refponden- do-lhe , diflerao os Cabos t que jà os tiahao repartido; DiíTe o Emperador : Graças a Deos , que jà eftou livre deite tormento. Com grande razão diíTe Santo Agoílinho ,. que he o ouro principio de todos os trabalhos , porque bem confiderado , não ha género de moleítia , que o amor das riquezas não traga convílgo: aos corpos priva de to- do o defcançp , e às almas defpe de todas as virtudes. Donde fe vê bem claramente o p-auco focego , e paz r que tem os ta es com figo , pois todos os defveílos , e- cuidados entregão às temporalidades, as quaes os fazem viver efquecidos de Deos , e da Gloria ,. conilderaçãe* ift ! :!Í xá Compendio Narratívo 1 de que não ha outra felicidade maior, que as riquezas, e bens deite Mundo \ e fenão vede o que diz Chrifto Senhor noíTo por S.João caf* $, $. 44- Como po deis ter fé, fe era tudo bufcais as honras do Mundo? E af- fim he fem dúvida, porque tanto fepaga hum rico dos. bens , que poííue , que lhe parece não he necefíario mais nada a para fer bemaventurado na terra ;e por iffo tanto anelão, eappetecem as adorações mundanas, que são os cargos , e poítos do Mundo , fendo eftas hum fi- nal certo de prefeitos: motivo, por que chamou S.Pau- lo às riquezas , e grandezas deíle Mundo laços do- de- mónio. E daqui procede que muitos querem antes tor- menta , para fubirem , que bonança , e paz , para vive- rem. Quem jà mais vio ambiciofo, e foberbo, que não acabaíle nas máos do fentimento ? Pois he certo , que eítes cegos do engano atropellão as leis contra fi mef- mos, edão armas à crueldade, para ferem executados; e nunca haveria pena , que os moleítaííe , fe não houvef- fe nelles goíto , em que fe embellezaíTem. E o peior he , que podendo tomar exemplo dos paliados , não fe querem defenganar , fenão em fi mefmos. Sendo que são muito limitados todos oscabedaes dos homens mun- danos , e ambiciofos , porque nunca chegão a comprar o que feu defejo appetece , e muitas vezes lhes não baítão para pagarem os juros, do que fuaefperança tem feito de divida. E porque não fique eíte eftado do Brazil fem al- gum exemplo dos muitos , em que a foberba , e as ri- quezas tem feito eílragos , reparai , e notai com atten- ção. Ide a Pernambuco , paíTai o Rio de Janeiro , fu- bí a S, Paulo , entrai neíta Cidade , correi eíTas Villas, q feus recôncavos-, vereis a quantos tem a foberba , e os intereífes feito notáveis deítroços, A huns arrimar baf- toes; a outros largar ginetas > a muitos encoílar benga- las; Do Peregrino da America. 17 las, a alguns deixar alabardas, e fugirem muitos Tolda- dos ; defpejar engenhos ; defamparar fazendas. E fe perguntardes a eííàs minas, quem lhescaufou tão laf- timofos eílragos, vos rei ponde irão em ecos eílas arrui- nadas paredes , e medonhas fornalhas dos engenhos, que tudo lhes procedeo da foberba, e demaziada am- bição. Oh fe eíres taes , a quem iílo fuccedeo , foubeíTem perfuadir-fe que tudo era huma quimera, e prefump- eão vaidofa, como efcufariao de experimentar aquel- les lamentáveis golpes! Virião a conhecer, que todas as foberbas, e riquezas fehão de tornar empo, e cin- za , e que a maior valentia coníiíte em pelejar contra os noíTos inimigos , que são mundo, demónio , e carne» e não contra os noíTos próximos , que são creaturas feitas à imagem , e femelhança de Deos ; e pelo que tem de ferem de barro , são fracas por natureza ; e triun- far de hum fraco não he valor , fenão covardia , por- que fó fabe fer valente quem a fi.íefabe vencer. Mas defenganem-fe todos, que fenão fizerem eítes difcur- fos, tão fundados nos dictames da razão , e Lei Divi- na, ferão caítigados por Deos rigoro lamente nefta vi- da , e na outra , porque he do mefmo Euangelho, que Deos contrafaz a foberba. São tantos os males, que trazem comílgo a fober- ba, e avareza, que fe os homens bem advertidamente os coníideraílem , as havião de aborrecer, pelos damnos, e precipícios, em que os põe de fua falvação. Admi- ravelmente S.Paulo a eíte intento, quando diíTe, que difíicultofa mente fe achará hum rico, que não fejafo- berbo. E eu digo , que não fó contamina eíle vicio, ou mal ao fenhor da cafa, mas também à mulher, aos filhos, e aos mefmos efcravos, por fer a morada éeíta peite infernal em cafa dos ricos, e muitas vezes fóbe aos Palácios. E o peior he , que também entra nas ' B Clau- »a : ; ?1 iS Compendio Narrativo Glaufuras mais reformadas , e fe não he pela pompa das galas, aceommette pela prefumpção donafcimen- to, e fidalguia; e quando vê, que nem por hum, nem, por outro modo fe pode introduzir , entra pela pre- fumpção dofaber, e por eíte meio tem deílruido gran- des talentos. E vejão la os fcientes fe achão de que fe reprehenderem. E confiderai agora fe pode haver maior enfermi- ; dade , que o peccado da íoberba. Baila que atè no Ceo entraíTe porfuamá qualidade, por fer conceituo- fa , como fuccedeo a Lusbel , e a feus fequazes. E que fará no Mundo fomentada pelas riquezas? Verdadei- ramente a maior parte dos que vão ao Inferno, he por eíte peccado, porque he oppoíto à humildade, a qual Deos preza em fupremo gráo por fuás grandes excel- lencias. Muito bem devia de faber o quanto importa para âfalvação eíta virtude aquelle Grande Duque deGan- dia S. Francifco de Borja , quando largou o feu Duca- do , para fe recolher à Sagrada Religião da Compa- nhia, enella exercitar todos os actos da maior humil- dade ; e baila , que quando efcrevia ao feu Geral , fe puzeííe de joelhos , por moítrar o quanto obfervava ef- ía fanta virtude. E por iílò o que pertende falvar-fe , não deve fa- 2er tanto apreço das vanglorias do Mundo, porque he certo que quem ama ao perigo , periga nelle. iQuerer fer ricos , he querer fer dos muitos , que fe perdem. Os ricos , e foberbos do Mundo não crem eftas ver- dades, como cegos da ambição ; contentão-fe com a- dorar as riquezas, fucceda o que fucceder, fazendo- fe cada vez mais altivos , e defprezando aos humildes pobres. Porque verdadeiramente bem confíderado o co- mo trata hum rico a hum pobre , parece que o não tem Do Peregrino da America. 19 tem por próximo, pois tanto o defpreza; porque ain- da do cortejo, e urbanidade, que lhe faz, feoíFende^ por fuppor o rico que o fim daquella cortezia aíTen- ta fobre lhe pedir alguma coufa da fua fazenda , e que perderá as adorações, que folícita entre os mais ricos; e aífim fe fazem tão inchados , que nem junto de íi querem ver a hum pobre. São eíles taes , como huma caíla de peixes , que ha neíle Brazil, e lhes chamão Baiacus: entre osquaes ha huns , que tem efpinhos. São eíles peixes peçonhen- tiffimos, por terem no fel o mais refinado veneno, que ha no Mundo : é que ainda que algumas peíToas os co- mem, he com muita cautella. Mas vamos àcomparar ção. Coílumão eíles peixes, aílim como ospefcão, e tirão da agua, começarem a inchar, efazerem-fecomo humas bolas. Os de efpinhos , não ha quem pegue nel- les , pelo rifco das agudas pontas : inchão de forte que aílim morrem , às vezes dando hum grande eílouro, Occupão-fe eíles peixes em marifcar pelas margens do? *ios, e mangaes; e ío quando fevem em terra he que inchão. Aílim são os Baiacus humanos, e deshumanos: tanto que fe vem nas praias , e terra do Brazil , logo co- meção a inchar : e fe lhes dão algum officio , ou poíto , fazem-fe Baiacus deefpinhos, não ha quem fe chegue junto delles. E fe dizem a hum deíles baila Baiacu, porque, podes rebentar, ou fe lhe tocão, cada vez in- cha mais. Bem fei que eíle exemplo , ou moralidade he mui humilde ; porem como he tão vulgar , cada qual o tome no fentido mais accommodativo. Oh defgraça da natureza humana ! Oh cegueira dos racionaes ! Quem te pudera defenganar, antes de chegares ao precipicio de tua vaidade , e perdição ! E para prova de tudo o que tenho dito , refponda o rico avarento , de que lhe fervírão as riquezas, que tinha» B ii os Compendio Narrativo os comeres exquifitos a prefumpção vaidofa , a faude perfeita , as galas cuítofas , a cama branda , as adora- ções mundanas, os defprezos a Lazaro? Dirá fem dú- vida que lhe não fervírão demais que paraeftar arden- do para fempre no Inferno. E por contrapofição, que goílo, que alegria, que gloria eírará gozancfo para fem- pre Lazaro na Bemaventurança , por ter fido pobre, chagado, roto, faminto, e defprezado? Agora conheço que com muita razão difíe S. Ber- nardo , vendo o tropel das culpas , que corrião neíle Mundo , que a moeda corrente entre os homens, não era mais que o amor defordenado dos bens tempo- raes , por cuja razão não havia fé fegura entre os ho* mens , porque tudo tinhão contaminado a foberba , a avareza, a cobiça, e a luxuria : e que por caufa deites vicios faltava a obfervancia nos Reiigiofos , a modef-» tia nos Sacerdotes , a juíKça nos Miniílros , a madu-* reza nos velhos , a fujeição nos moços , o amor natu-* ral nos parentes , a fidelidade no povo , a reverencia nos fubditos, o exemplo nos Prelados, o amor dacafr íidade nos virgens , a púdicicia nos cafados. Tudo iíto diíTe o Santo ha mais de quinhentos e tantos annos. E que terá fuceedido defde então atè agora , em tem- pos tão perverfos, e cheios de tantos vícios, como ef* tamos vendo, e experimentando? Por iffo David com efpirito profético pedia a Deos que lhe tiraíle o véo dos olhos , para que pudeíFe conhecer as maravilhas dos feus myfterios. ( Pfalm. 1 1 8. 18. ) Iíto he a ceguei- ra da foberba , da ambição , da concupifcencia , e de todos os mais vicios , e peccados > que nos privao , e eegáo para não podermos ver os infinitos benefícios, ' Pi* jS Compendio Narrativo que tenho , dou hum pão ao que o ha de miíter. Vários, e infinitos são os bens, que reíultao aos que coílumão fazer efmolas, e obras de mifericordia, como também muitas são aspromeíTas, com que Deos fe obriga a remunerar a quem faz obras de caridade sos pobres , porque fendo (eus attributos iguaes , faz alarde de fua mifericordia. Elle mefmo diz por S. Lu- cas : Sede mifericordiofos , affim como voílo Pai he mifericordiofo. ( Luc. cap.6.v.s6.) E também prometa te por S. Màttheus : Bemaventurados os mifericordio* fos , porque elies alcançarão mifericordia. {Mattb.c. f. v; 7. ) E à viíta de tão grandes favores , e promeíTas, não haverá quem confiadamente não dê hum para co- brar hum cento, porque eíte mefmo Senhor promette dar cento por hum. Eíles são os verdadeiros bens , que pode cada hum levar comfigo ; porque pafsão com a alma à outra vi- da , onde ainda os Monarcas , e Principes do Mundo ie achão fós , e defamparados de toda a companhia; e fó fe achão com as fuás obras boas. Aos quaes acon- íelharia eu que déílem parte das fuás fazendas à fua •alma, e não toda ao leu corpo, e a feus filhos, que-lo- go os deixarão , e fe não lembrarão delles jà mais : e que fe houveíTem de gafcar cada dia comfigo vinte, garlaíFem quatro com as fuás almas; porque fe o guar- darem na terra poderá ter defcaminho \ e fe o repar- tirem com os pobres o enthefourat ao noCeo, onde o terão bem guardado. Loucura he mui grande ( diz S.João Chryfoítomo) deixar teus bens^mlugar, don- de has de fahir, podendo levallos para onde fempréhas de viver. Faze efmolas aos pobres , que te paliarão a tua fazenda para as índias dos Ceos. Não me lembro (diz SJeronymoefcrevéndo aNeopofiano) haver iido que morreíle má morte o que de boa vontade fe ex- ercitava em obras de mifericordia j porque tem eftes taes %v- !!■; Do Peregrino da America. 39 taes muitos , que intercedao , e roguem a Deos por elles, nem he poíliv&l que não fejao ouvidos; Poreíta razão devem os ricos fer mui caritativos., e compaíH- vos para com os pobres : e quando lhes não demefmc- la , ao menos lhes não devem dar más refpoítas íj com que os façãu ir defconfolados 8 para não ofFenderem a Deos , que tanto fe paga das obras de caridade feitas aos pobres. Aefte refpeito vos quero contar o que meíucce- deo com hum pobre mendigo , que fe citava queixan- do de huma defabrida refpofta , que lhe dera hum rico, por lhe pedir huma efmola , e por eíta caufa eítava mui triíre , e afUigido. Vendo-o eu naquelle eirado , lhe diíTe : Pedi confiadamente , irmão pobre , e não vos envergonheis de pedir aquillo, que fe vos deve, por> que maior razão tem o rico para fe envergonhar de vos negar a efmola , do que vós em lha pedir , pois vos nega aquillo , que Deos lhe deo , ou empreitou para repartir comvofco. E fe elle vos diífer , que lhe tem cuítado muito a ganhar , e adquirir o que poíTue , di- zei-ihe , que muito mais cuítou a Ghriíto noíío Senhor o remir-nos , para nos dar o Ceo de graça. E fe vos pa- rece encarecimento eíte meu dizer, reparai quando vos refponde hum rico à voíía petição , dizer- vos , que lhe perdoeis peio amor de Deos: e deita refpoíta tirai a inferência , e vereis que quem pede o perdão moí- tra-fe em parte devedor a feu acredor , e de alguma forte fe confidera obrigado. Tudo ifto lhediííeeu, porque o vi triíte, edefconfolado dama refpoita , que lhe havia dado aquelle rico avarento, porque havemos de fuppor que o pobre reprefenta a pefiba de Chriíto Senhor noíto , como fe tem viíto , e coníta de vários prodígios , em que nos quiz moftrar Deos o quanto fe paga de nos ver efmoleres para com os pobres. E he tanto divida o dar efmola ao neceífitado , que G iv aii> mam 40 Comp rn d 10 Narrativo ainda no eftado Ecclefiaftico , quem come renda da Igreja , eftá obrigado a foccorrer aos pobres. A iftc* me diífe o Ancião: Bem aviados eftão alguns Párocos, que eu conheço , que nem ao penfamento lhes vem o darem e Imolas aos pobres, na consideração de que muito fazem em lhes darem o pafto efpiritual. NeíTe particular, fenhor, lhedifleeu, menãometto aacon* felhar; porque no dia do Juizo fe verá o premio, que a todos ha de dar o re&iffimo Juiz conforme feu me- recimento ; elles tem livros , e são doutos , faberão a razão deíTa razão ( fe he que ha algum , que deixe de o fazer ; porque ainda affim eu me não perfuado , que deixem de obfervar a obrigação do feu eftado.) Jà que eftamos em matéria de caridade , tomara faber (me diífe o Ancião) fe o empreitar a quem tem neceffidade , he também obra de caridade , e meritó- ria ? Refpondo , lhe difle eu : E com huma circumftan- cia , que pôde fer o empreftimo em tal occafião , e a peífoa , que efteja em tanta neceffidade , que tenha o mefmo merecimento ( fenão for maior ) que a própria efmola ; e fe não vede. A efmola jà fabeis , que fe faz pelo amor de Deos ao próximo , e que podeis dar o que quizerdes ; porém quando fazeis o emprefti- mo , dais , e empreitais pelo amor do próximo mais do que quereis; porque aqui fe entende o preceito da Lei de Deos , quando nos obriga a amar a Deos fobre todas as coufas , e ao próximo como a nós mefmos. Eíte , quando vos pede empreitado , o faz com gran- de neceffidade : e quem acode ao feu próximo em grande neceffidade , também ama a Deos ^ e obra ca- ritativamente ; e de tal forte , que não fó dá o que quer, fenão muito mais, porque dá o que fe lhe pede. E fe à efmola repugna a natureza dar voluntariamen- te do que tem \ efta obra do empreftimo faz maior força , por dar, ou empreitar mais do que quer , e af- fim, Do Peregrino da America. fim , que tanto tem de maior repugnância , quando cref- ce mais o merecimento i porque verdadeiramente to-? mado em rigor, quem pede empreitado , he porque não tem valor para pedir, fem tornar a reílituir a im- portância do que pedio , e muitas vezes com maior neceflidade que o pobre mendigo ; e por iífo diz San*, to Agoitinho nofeu Tratado damifericordia àeDeos, que he bom dar efmola a quem a pede ; mas dalla a quem a não pede he melhor , porque não he perfeita a caridade, que a poder de rogos fe alcança. E neítas palavras nos eílá iníinuando o Santo, que quem pede empreitado não pede efmola , porem fim tem grande neceífidade. E como o bem , e fruto da efmola aífen- ta no foccorro da neceífidade : logo dando* fe a quem pede empreitado com neceífidade , também fe faz grande obra de caridade , confiando fer precifa , e ne- ceífaria. Tendes definido ovoífo difcurfo (medifle o An- cião ) e approvado o voíTo conceito com authoridade de Santo Agoitinho , que fe não pode duvidar , e af- fim podeis continuar o mais , que vos reita acerca do voífo intento. O maior encarecimento, lhe diíTe eu, das obras da mifericordia,e dofingular merecimento diante de Deos, para os que dão efmola aos pobres , he que no dia do Juizo , callando-fe todas as mais virtudes , fó pelas obras de mifericordia feremos fentenciados : os que as obfervárão com o premio da gloria , e catinga- dos os -miferos com a pena eterna do Inferno. Final- mente , fó por não ouvirmos contra nós aquella for-' midavel , e horrenda fentenca , que ha de dar no dia do Juizo aquelle redtiílimo Juiz Jesus Chriíto Senhor noíTo, tão irrevogável, como merecida, dizendo; Ide, malditos , e defaventurados ao fogo eterno , porque tive fome, enão me deites de comer: tive fede, enão m 'm 1 H'1 ! ; 41 Compendio Narrativo me déftes de beber; devíamos fer caritativos ; e de£â forte me parece que tenho fatisfeito à pergunta, que me fizeftes acerca de fer a pobreza de todos louvada, e de muitos aborrecida. Perdoai-me, fe não tenho da- do a folução àvoíTa propofição, tão coherente, como defejaveis. Senhor , me diííe o Ancião , nunca me enganei comvofco , defde que vos ouvi referir osprogreílos da voíTa peregrinação. De tal forte me tendes fatisfeito, que permitta Deos, que íirvão a todos os que vos ou- virem de regra , e norma para poderem obfervar vol- fos documentos, por eftes ferem fundados em tao fo- lidas verdades , que não poderá haver nellas duvida , nem a mínima difcrepancia. O que vos peço agora , he que continueis a narração devoíTa hiftona ; porem aí- fentemos que vos não haveis de offender fe vos per- guntar alguma coufa , ainda que feia cortando os fios de voíla narração. Suppofto , Senhor, lhedhTeeu, que feja a pergunta filha da ignorância , nunca poderei fuppor efta°em vós , alem do muito , que^ vou colhendo de voíTos reparos, e difcreta converfação. C A P I T U L O V. «Dd princípio oTeregrino à relação da fua jornada para as Minas do Ouro : trata das excellencias da Miffa : e manifejía algumas virtudes do Ve- nerável Arcebiffo da Bahia 7). Fr. Manoel da Refurreição 9 por eflar fepultado na Igreja de Be- lém , onde o Teregrino então fe achava. Om efFeito me embarquei , e chegando ao porto ^j da Villa da Cachoeira , jà quando as fombras da noite ernbargavão a luz do dia, por não ter conheci- mento em terra , me deixei ficar na embarcação, b an- c ! Do Peregrino da America. 43 antes que de todo o Sol comfeus rutilantes raios uíur- paíle o verdor das plantas , e aduítaíTe a terra com feu calor , me puz a caminho , feguindo minha derrota , fem mais comboi que hum cajado , alforges , e huma cabaça de agua. E depois de ter paíTado a Villa , fera que feus habitadores me déííem os alegres dias , co- mecei a ir defcubrindo copados arvoredos , fragrantes flores , efpaçofo prado , todo cuberto de fino argento em forma de pérolas , com que a rica aurora fem dif- pendio o enriquecia , para lhe communicar a vida ao frefco orvalho, em que fe convertia. E logo começa- rão os paíTarinhos a feítejar a alegre manhã com tão fonóra harmoaia , e canto de fuás vozes , que podião competir com o melhor contraponto que a arte pôde inventar. ROMANCE. LA' cantava o Sabiá Hum recitado dê amor f Em doce metro fonóro, & Que às mais aves defpertou. , A eíle tempo fe ouvia Num raminho o Curió t Com fonóra melodia, E com requebros na voz. O Mazombinho Canário, Realengo em fua cor, Deo taes paííbs de garganta* Que a todos os admirou. O' encontro lhe fahio^, PaíTarinho bom cantor, De ramo em ramo faltando, Só por ver fahir o Sol» fsjs^f^' M \M m '!'?■ íSC Compendio Narrativo De picado o Sanhaçu, Tão alto foltou a voz , Que cantando a compaíTo, CompaíTo não levantou. A encarnada Tapiranga , Quando mais bem fe explicou , Foi por numero da Solfa, Com mil requebros na vóz. A linda Guarinhatã Chòchorriando compoz Hum fólo bem affinado, Que feu amor explicou. O alegre paíTarinho, Que fe chama Papa-arroz , Pelos feus metros canoros Cantava , Ut , Re , Mi , Fa , Sol. A Carricinha cantando, Tanto feu tiple affinou, Que nas claufulas da Solfa Se não vio coufa melhor» E logo por eíles ares Remontado o Beijaflor, Tocando hia nas azas Com donaire hum belio fom^ O valente Picapáo, De hum páo fez o tambor, E com o bico tocava Alvorada ao mefmo Sol. Defpertando o Pitahuã Com impulfos de rigor, DiíTe logo : Bem te vi Deite lugar, em que eítou. O Fradinho do Deferto Contemplativo moftrou, Que também fabe cantar Os louvores do Senhor. -MS Do Peregrino da America. 45 O Curuginha cantando, Parecia hum Roxinol , E fempre tão entoado, Que nunca defafmou. As Andorinhas no ar, Com donaire , e com primor Fizerão hum lindo baile, Que feu amor inventou. O lindo Cucurutado Com bella voz fe moítrouj Que era mufico famofo Do Real Coro do Sol. O pintado Pintacilgo, Da Soifa Compoíitor, &*t*~<*. , Endecjias fez, e hum Romance^ Que em pafmo a todos deixou. As for mofas Aracuans , : Sem temer ao caçador, Em altas vozes canta vão, Cada qual com bello fom. Sahio de ponto a dançar A Lavandeira , e moítrou Era tão deftra na dança , Que pés na terra não poz. A formofa Jurutí No bico trouxe huma flor ^ E com tão cuítofa gala , Que as tenções arrebatou. Sahio de branco a Araponga Com tão galhardo primor , ■■> */. m Que foi alvo das mais aves, Pela alvura, que moílrou. Vierão em bandos logo , Cantando com bom primor * Periquitos , Papagaios , i Tocanos , e mais Paós-, m& mm li m I: 4 Mas receio que por frio Vos não dê bom agazalho. Porém agora conheço, Meu Divino Soberano , Que do voífo amor foi traça, Por me livrar do peccado. Por iílb agora, meu Deos, Diante de vós proítrado Vos venho pedir perdão , Nas valias confiado. Peço- vos por voíTa Mai ; Pois conheço fer de agrado A volTos fantos ouvidos O mimo de feus affàgos: D E tarar ■«■ jo Compendio Narrativo E também por S. Jofé, Aquelle bemdito Santo, Que logrou o privilegio De vos aífíítir por Aio: Que me perdoeis , Senhor, Para que deite lethargo Me polia livrar da culpa , Em que me vejo engolfado» E olhando para a Senhora , lhe dijfe EVós , Sagrada Senhora , Amparo de peccadores , Attendei a meus clamores, Com que vos invoco agora. Ajuda peço , e foccorro* Fará me poder livrar Do pélago deíle mar, Onde jà me aíFogo, e morro. Pois fois rutilante Sol Para os triíles navegantes, Sendo eu hum dos errantes , Sede vós o meu farol. E porque eífoais em lugar, Que tendes a Deos prefente* Sendo vós Mai tão clemente, Perdão efpero alcançar. E como fei de certeza, Qae vós fois o noíTo amparo, Soe- Do Peregrino da America, ji Soccorro peço, e reparo A' minha grande tibieza Para que com clara luz PoíTa melhor acertar, E dos meus erros livrar Para fempre. Amen Jesus. E olhando fará S. Jofé % lhe dlpt PAraninfo Sagrado t Meu S. Jofé , Applicai os ouvidos A quem vos quer» Não olheis meus peccados. Pois bem fe vê, Que por iíTo o Infanta Veio a nafcer, Alcançai-me o perdão; Pois pode fer, Que vos ouça quem pôde Tudo fazer Para que poíTa ir Ao Ceo a ver, Como vejo na terra , A todos trez. E depois de ter feito eftes breves foliloquios ao Menino Jesus, à Senhora, e aS.JosE', pedi aoSacrif- tao, (que logo alliappareceo) que memoítraíTe o lu- gar, onde eítava fepultado aquelle Venerável Prelado Arcebifpo D. Fr. Manoel da Refurreiçao. Senhor, me diíTe o Sacriílão, que motivo vosperfuade para querer Dd ii ver p? :m- ; i k í.f ,jr Compendio Narrativo ver o fepulchro deíTe Venerável Prelado ? Sabei , lhe diíTe eu que a caufa procede de o ter ainda hoje mui prefente na lembrança , defde o tempo , que o vi em ília vida, e dos grandes frutos efpirituaes, que obrou com fua fanta doutrina, e bom exemplo, tanto na Ci- dade da Bahia , como quando foi de vilitar àquellas Villas do Sul , moílrando fer bom Paftor no zelo de bom Prelado ; fem embargo de eítar occupado em os mais honoríficos cargos , e occupaçoes de Arcebifpo no efpiritual , e Governador no temporal por faleci- mento do General Mathias da Cunha ■> tendo-fe havi- do em todos elles fempre com grande prudência no decidir, refolução no executar, inteireza no advertir, madureza no reprehender , piedade no caítigar , mof- trando em tudo hum efpirito adornado de virtudes, e grande generoíidade de valor* T E ainda neílas occupaçoes, como fe informaíTe> e foubeííe que havia paffado muitos annos fem terem ido Prelados àquellas Villas , fe refolveo a ir vifital- las, reconhecendo quanto fèrviço faria aDeos em acu- dir ao bem das almas , por ferem fuás ovelhas , como tão cuidadofo Paítor j porque fummamente defejava dar cumprimento a fuás obrigações. E não reparando nos longes , e inconvenientes de viagens por mar ; nem no trabalho dos caminhos por terra, tãofragofos, co- moafperos, pordefertos, todas eílasdifliculdadesven- ceo. E quando fe lhe reprefentavao por algumas pef- foas , dizia ; Com eíles encargos tomei efta occupa- çao de Prelado , e não he bem os deixe agora por te- mor, porque hei de dar conta a Deos do que fe me en- carregou. Comeffeito partiopormar, e chegou àVilla dos Ilheos. E depois de a ter vifitado com aquelle fervo- rofo efpirito, fe paz a caminho ; e chegando ao Rio das Contas > que são mais de vinte legoas, por longas pra- Do Peregrino da America. jj praias , e altas ferranias , fez também fua coílumada doutrina ao povo , e fruto aDeos. E dahi fepartio pa- ra a Villa do Camamú , que lhe ficava mais de quatorze léguas diítante , porafperos campos , e rios caudãlofos , onde eíleve mais dias pelo maior concurfo da gente, e ter mais que fazer na fua viíita , e mifsão ; porque nunca perdeo tempo , em que fe não viíTe vifitar, chrif- mar, pregar, e ainda confeífar, fendo em tudo incanfa- vel na vinha do Senhor, como tão grande operário pela obrigação de feu digniííimo cargo de Arcebifpo. Dal- li paíTou à Villa de Boipeba , que diíta doze léguas, embarcado parte da jornada por mar em canoas, e par- te por terra , fazendo o mefmo fruto naquella Villa. Deila fe embarcou para a do Cairú por hum dilatado rio , que tem mais de quatro léguas , na qual foi rece- bido com mui aprazivel goílo. Defpedio-fe delia pa- ra a Força do Morro , e dahi paíTou por huma grande praia, que tem mais de nove léguas à Villa de Jagua- ripe. E correndo muita parte das Freguezias , e Igre- jas deite recôncavo , caminhou tão apreífado , como defejofo de chegar a eíte Seminário , porque parece que corria para chegar ao fim , que tanto appetecia. Iíto poíTo eu certificar , por lhe ter ouvido dizer que hia defcançar a Belém. Como fe por efpirito profético eítiveíTe vaticinando o lugar, onde havia de ter o íeu fé- liciffimo traníito. E não fera bem que eu paíTe agora em filencio, ou deixe de publicar o muito , que lhe fizerão os ha- bitadores daquellas Villas, e Lugares, em demonítra- çoes de agradecimento, pelo que havião recebido , e experimentado daquelle Prelado tão pio , como libe- ral; pois nunca lhequiz aceitar dadivas, nem offertas pelos chrifmar , pregar , e adminiítrar todos os mais Sacramentos. Poreíla razão todos aquelles moradores com difcreta emulação , e agradável cortejo fe lhe D iii hiao 54 Compendio Narrativo Mão oíFerecer para o acompanharem , do que o Prela- do fe moítrou mui agradecido , e lhe cuftava muito diíTuadillos , para que não tiveílem aquella moleítia, íendo em muitos fruítrada efta diligencia ; porque nem por iíTo deixavão de o feguir , acompanhando-o nos de- fertos, pelo perigo do Gentio bárbaro, onças ferozes, e vários animaes peçonhentos, como alguns o tem ex- perimentado naquelles caminhos por folitarios. Man- dou-fe-lhe fazer cafas em alguns lugares mais defa- bridos, providas de todo o neceflario, e com regalos, para em parte lhe fuavizarem a moleítia de feus longes , para que pudeíle defcançar , porque não experimen- íaíTe aquelle Serafim humano a menor falta naquelles corações abrazados de amor ; efuppoíto que e nalguns faltaftem os cabedaes , viíTe que lhes fobrava a vonta- de de muito mais obrarem pelo fervir. Quando fe partia eíte Prelado daquellas Villas, e Lugares , não fe ouvia outra coufa , fenão lagrymas , fufpiros, e ais pelas portas , e janellas daquellas devotas, e faudofas mulheres , dizendo : Jà fe vai o norTo Pai, que de tão longe nos veio ver , e chrifmar. Os efcra- vos não havia quem os acalantaíTe com faudofas la- grymas, e alaridos em fom de amor, pelo muito, que eíte zelofo Prelado tinha advertido a feus fenhores o como osdevião tratar. Os meninos dizião pelas ruas: Jà fevai o Arcebifpo Santo, pelas grandes demonítra- çóes , que vião de fua conhecida virtude. Deixo de vos referir os mais prodígios, e relevantes obras deite Venerável Prelado , tanto de reforma de vidas, como de emenda de máoscoítu mes, que fez naquelles povos em ferviço de Deos , que como vou de caminho , me não poíTo dilatar. Muito me tendes edificado, mediíTe oSacriítao, na relação, que me flzeítes deite Prelado, e agora ve- ia que com gtande razáo me pedis que vos moítre on- Do Peregrino da America, jy onde eítá fepultado. E logo foi comigo à Capella Mór i e nella memoítrou huma fepultura' com huma campa de pedra , na qual me certificou eítar o corpo deite Prela- do ainda incorrupto ; porque.nos quer Deos molhar que não tem aterra jurifdicção para o desfazer; pois tanto fe mortificou em o fervir. E para defafogo da minha faudade lhe repeti eíte SONETO. OH Príncipe, que foítes hum Atlante Em o voííb governo Arcebifpalj Pois com zelo devido tão fatal Vos moítraítes de Deos mui fino amante! E aíTim não perdeítes hum inítante Na obfervancia do bem efpiritualj E moítrando hum affe&o cordial, Sempre foítes na Fé muito conítante. Foi o fim , que tiveítes mui ditofo , Por bufcares jazigo em tal lugar j Pois morrendo viveítes gloriofo. Beneficio tão grande , e fingular , Que por feres de Deos jà tão mimofo, Tantas glorias vieítes alcançar. Senhor , me difíe o Sacriítão , muito folguei dé vos ouvir recitar o Soneto em louvor deite Venerável Prelado. E porque me pareceis fer homem de larga noticia deita terra , vos peço que me digais quantos Bifpos , e Arcebifpos tem havido neíte Arcebifpado , depois que fe defcubrio o Brazil, Sabei , fenhor , lhe diííe eu , que fegundo hum caderno manufcri to , que achei emcafa de hum homem digno de todo o credito, e mui curiofo de fazer lembrança de algumas antigui- dades, eítava nelle o aifento feguinte. D iv GA- i hm t fcfe»< já Compendio Narrativo CAPITULO VI. 2? rompi neítas palavras. 03 o*- £3 03 s- • CU .O. Fé. W Caridade,. BEmáito , e louvado feia Deos , pois vos rejo y e adoro, Eftandarte da Gloria , Inftrumento danoí- fa Redempeao , Symboío da Fé , Chave do Parai fo , Di- vino arco íris da paz entre Deos, e os homens > terror do Muito me tendes edificado, fenhor (me difle o morador) com os louvores, que tendes dito da Santa Cruz : peço-vos me digais algumas das/uas excellen- cias; porque nella me dizem íeencerrao muitas. Sao tantos , e tão innumeraveis , fenhor , lhe difle eu, os prodígios, que nefte Santo Lenho da Cruz fecompre- hendem , que fora querer efgotar o mar pertendet numerai , e repetir feus louvores ; porem direi os que puder no breve defte difcurfo, fó por vos fat.sfazer. Primeiramente haveis de faber que todos osRei- nos, Impérios, e Monarquias Chriftans fe reftaurarao , fundarão, dilatarão, e confervão mediante o vifivel fa- vor, e auxilio da Santa Cruz. Prova-fe ifl» comdiver- fos àpparecimentos, em que os Chriftaos com taolin- gulares favores vencerão tantas , e tão innumeraveis ba- talhas, econfeguírao novas regiões, deftruindo tantas idolatrias , e herefias por todo o Mundo , em detenta de noffa Religião Catholica. Seia o primeiro milagre o exemplo de quando ap- pareceo a Santa Cruz, e nella Chriíto Senhor noffo cru- cificado ao noífo primeiro Rei D. Affonfo Henriques , naquella milagrofa batalha no Campo de Ourique con- tra os Mouros, que por coufa tão fabida, e autentica- da , me efcufo de referir. Ao Rei D. Pelaio em Caftella nas Auftnas , elran- âo para dar batalha contra os Mouros em hum alto „ Do Peregrino da America. -culto , e veneração. E baf- ta que todos os Santos da Igreja deílefan to final fe aju- darão , e delle fe valem para lançarem fora os demó- nios, e fazerem outros milagres, como forão S. Bento, Santo António, e outros innumeraveis Santos, que fe não podem repetir no breve deite difcurfo. Finalmente são tantos , e tão grandes os bens , que refultao da veneração devida à Santa Cruz, que aMif- fa, fendo tão excellente Sacrifício, queDeosfez, (co- mo jà tenho dito ) fe não pode celebrar fem aíTiíten- cia da Cruz. E os homens Cathoiicos , que de mais honrados, e esforçados fe prezão , o maior brazão , e timbre, que podem ter em remuneração dos feus fer- viços he aceitarem por paga a Cruz de Chriíto nos peitos. Deixo o mais , que pudera repetir; porque co- mo são immenfos os prodígios da Santa Cruz, não po- dem dizer-fe todos neíte limitado difcurfo. Admirado , e fatisfeito eítou , fenhor , ( me diíTe o morador ) de vos ouvir publicar as grandes excellen- cias da Santa Cruz ', porém fó reíta que me digais o co- mo foi eítimada porDeosdefde o principio do Mundo, como proferiítes na voíTa faudação , que lhe fizeítes ; porque me parecia que antes que Chriíto noíTo Re- demptor padecefíe a fua Sagrada Paixão, e Morte, não tinha veneração a Cruz , por fervir de patibulo , oií inítrumento de caítigar os culpados , e condenados à morte , como hoje ferve a forca ; e que fó depois que fervio de inítrumento para noíTa Rede mpção, tivera o culto, e veneração , que lhe dão os Cathoiicos Chriítãos. Aílim parece, lhe diíTe eu ; porém fabei que a Cruz, logo defde o principio do Mundo foi feita , e eítima- da de Deos no Ceo, e venerável na terra ; porque tan- to que Deos creou o Ceo, logo lhe poz huma Cruz f que vulgarmente chamão o Cruzeiro , feita , e compof- ta de luzentes eítrellas , como viávelmente apparece E iv da Kmii ■ yz Compendio Narrativo da Linha Equinoccial para t) Sul , da parte do Oriente. Foi também venerada a Cruz no Mundo em todos os tempos , tanto na Lei da natureza , como na Lei efcrita , e agora na Lei da graça pelos Chriítãos. Foi eílimada, e venerada na Lei da natureza pelos Santos Patriarcas, quando com ella abençoavão afeus filhos, e fazião alguma coufa de maior eítimação no íerviço de Deos. Aífim fe vi o figurado no cajado , com que Jacob perfeguido paíTou as aguas do Jordão. Também fe reprefentou nas mãos do mefmo Jacob trocadas fo~ bre Éfraim, eManaíles, onde efcolhendo ao mais mo- ço, retratou o Efpirito Santo a nova eleição, que em virtude da Cruz. de Chriílio fe havia de fazer da Gen- tilidade. Foi também reprefentada a Cruz no pão, com que o Profeta Elifeo tirou do Jordão o ferro do machado, que nelle tinha cabido. Outra figura da Cruz. foi o facrificio de Ifaac , pelo que depois fe vio ea Chriílo noííb Senhor no Monte Calvário.. Na Lei efcrita foi venerada a Cruz na figura da* vara de Moyíés , como o entendem , e dizem os San- tos Padres E o mefmo Moyíés não efcaparia de fer affogado no rio Nilo ,. quando nelle o lançarão feus. pais pelo livrarem de Faraó , e de feus edi&os, fenão- fora dentro daquella ceítinha de juncos, tecida, e fei- ta de muitas cruzes. Além de outras muitas figuras da Cruz, que neíTe. tempo fe virão-. Na Lei da graça teve , e terá a Cruz efriraação- atè o fim do Mundo , por fer o inílrumento da nofla. Redempção ,. e pelas eítupendas maravilhas, com que obrou ChriUro no feu amor para comnofco , confum- mando tudo , quanto os Profetas, tinhão efcrito , e dito dos feus milagres. O que tudo fez por remédio de nof~ fa falvaçao , tomando a Cruz por inítrumento de fua Sagrada Paixão ; pois delia, como de cadeira, deo ao, Mmido tanta doutrinai delia, como de Altar, facrinV eou mm Do Peregrino da America. 73 cou fita Sagrada PeíToa emfatisfação dasnoflas culpas: delia como de baluarte fortiífim© pelejou contra o& inimigos mortaes apoderados do Mundo pelopeccado \ e delia finalmente aperfeiçoou tudo o que convinha para o noífo remédio. E daqui lhe veio ao mefmo Chriílo aquelle nome , que ( como diz o Apoítolo ) he lbbre todos os nomes, e a elle fe proílrão , e ajoelhão os Anjos , os homens , e os demónios. ( Ad Fhilipp, 2. 10.) Éílas glorias , eílas ditas logrão fim os Fieis Chríf-^ tãos de verem exaltada , e venerada a Cruz de Chriílo - p porem para os pertinazes Judeos , e os mais inimigos de noíTa Santa Fé, em vez de gloria lhes caufa maior pena , verem , e ouvirem, fallar na Cruz , e lhes ha de íervir nas mãos de Deos de feu caflrgo. E para os demónios , e todo o Inferno não poder haver maior terror , que ver a Cruz de Chriílo. AHInt o publicão elles , e por larga experiência o fabemos- todos os Chriílaos. E iílo fe comprova com aquelle' cafo , que fuccedeo a hum Judeo , o qual anoiteceu- do-lhe longe do povoada, fe recolhe© a hum Templa 5 derribado de ídolos r onde juntos os demónios , co- mo a fazer audiência , ou refenha de feus fucceíTos r virão eílar o Judeo , que com grande medo tinha feito- o final da Cruz r benzendo- fe. Mandou o maioral aos outros que vifTem o que era aquillo. O demónio, que chegou a reconhecello v diíTe- a grandes brados : Ai r ai, que eíle vafo eílá vafio j mas eílibemfeílado! Mo- tivo, por que o deixarão; edalii fe converteo o Judeo y pelo que experimentou de fer livre pela Cruz. E que" pouca devoção tem muitos Chriílaos à Santa Cruz , à qual deviao de prezar tanto , como arma, com que nos livra Deos de todos os perigos 2 E para maior intelligencia deíle myfterio da Cruz, e fuás excellencias , haveis de faber que trez forão as. 74 Compêndio Narrativo bentes , que Deos fez, e obrou em forma de Cruz no principio do Mundo. A primeira foi a da natureza: a fegunda a da graça : e a terceira ha de fer no fim do Mundo, quando em corpo , e alma formos gozar da Bemaventurança. Todas trez nos moftrou Deos por figura , e realidade na creação do primeiro homem Adão, quando o fez em forma de Cruz, depois quan- do lhe infundio a alma com os dotes da graça * e ulti- mamente quando em companhia de Eva os abençoou em figura da Refurreição , em que havião de refufcitar. Eftas benções fe vem íambem lançar os Papas, Car- deaes , Bifpos, e todas aspeíToas conftituidas em Dig- nidades Eccleíiaílicas, no fim da MiíTa, e nas mais cô- remonias da Igreja, quando abençoão ao povo Chrif- tão , invocando nellas as trez PeíToas daSantiffima Trin- dade , que as formou , e dirigio para bem noílb. Na Vara , ou Xnílgnia do Summo Pontifice fe vem expref- fadamente eftas trez Cruzes , fymbolo do fummo po- der daquelle fupremo Miniftro de Deos. Efta infignia , ou eftandarte da Cruz fe vê levarem todos os Arcebifpos, e Bifpos diante deíi nosfeusBif- pados , e os Primazes por todo o Reino , onde o são. E ainda muitas Religiões em a£to de Communidade, quando adminiftrão osOfficios Divinos a levão alçada, para nos moftrarem que com aquelle eílandarte nos remio Chrifto Senhor noífo do cativeiro denoíTopec- cado. E por iíTò quem não ama a Sagrada Cruz , pra- ticamente nega a Fé. Tem a Cruz quatro partes, em que fe divide : e eftas fe moftrão na forma , em que a viftes pintada , e efçrita no principio defte difcurfo. A primeira he a Fé, a fegunda Efperança, a terceira Caridade, e a quar- ta Humildade. E para poder eftar levantada , he necef- fario que fique a humildade fixa em parte fólida, por- que fe não poderá ver bem eíte eílandarte 9 ou. triunfo fe Do Peregrino da Ameiga, y^ fe não fe eílribar nas bazes da humildade ; e alTim he certo que ninguém pode acertar com ò caminho dô Ceo, fem levar por guia a Cruz. Efta foi a razão, por que dhfe Chriíto bem nofíb : Se alguém quer vir apôs mim, tome a fua Cruz , e íiga-me. (Matth. 16. 14.) Porque a Cruz he o principio , meio , e fim efficaz dá noíla falvação , por ter fido o principio de toda a for- mação do género humano principiado em Adão. Ilíb he o que eu tomara faber ( me dilTe o morador) com mais diílinção. Pois ouvi , lhe diíTe eu , que he neceíTaria muita attenção, e começarei pelo principio do Mundo # e creação do primeiro homem. CAPITULO VIII. Conta oTeregrino ao morador o como Adão , e Eva forão feitos for "De os , e o que lhesjuccedeo no Ta- raifo atè que forâo dejierrados delk for caufa da feccado. CReou Deos o Ceo , e a terra , como confta daí Sagrada Efcritura : e deíla creação não trato aqui por nãoeílender eíle difcurfo ; mas fó tratarei da crea- ção do primeiro homem , que foi Adão , o qual foi formado fora do Paraifo no campo Damafceno pelas* mãos de Deos. E querendo Deos dar-lhe principio, diíTe toda a Santiííima Trindade : Façamos o homem à noíTa imagem, efemelhança. E logo tomou daquel- la terra limofa , que eítava na fuperficie , e daquelle embrião em forma de Cruz ( reparai que aqui teve principio a Cruz ) começou a delinear aqtieile íupre- mo Artífice ao noííb primeiro pai , havendo- fe então Deos como hum eítatuario quando dá principio a huma eítatua com os braços abertos , e depois de o aperfei- çoar, econfummar, ficou huma formoílifima creaiTira. Eaf- $6 C O M P EN DíOiNaiEATIVO ] U- E aíTirn feito Adão , logo Deos o compoz de quatro .humores dacompofição dos quatro elementos, de que neceffita a creatura vivente para fe confervar, que fo- j-ão , terra, agua , ar , e fogo , dando a terra a matéria , de que foi creado , a agua para a compofição da niaf- fa, o ar o refrigério para refpirar, o fogo para o calor natural. Confummado affim finalmente o corpo de Adão; lhe inípirou Deos a alma racional. Vio-fe Adão feito liòmem com tão relevantes dotes da natureza , como forao fciencia infufa , livre alvedrio , memoria , enten- dimento, vontade, e outras diíferentes graças, de que citava adornado , e compoíto. pelas mãos de Deos , e iCom huma rectidão natural, que chamao juftiça origi- nal , com que naturalmente a alma racional obedeceife a Deos , e íenhoseafíe aosfentidos, e membros corpo- raes , e a todos os animaes. Aqui fe poz de joelhos Adão, reconhecendo a feu Creador o beneficio defua creação-, e das mais graças , de que o havia adornado. Deite aáo fe feguio lançar-Ihe Deos a benção em for- ma de Cruz. E cita foi a fegunda vez , que fe vio a Cruz feita pelas mãos de Deos : huma, quando formou a Adão; e outra, quando lhe infundio a graça. Seja^-me agora concedido fazer aqui hum reparo, ®u exclamação. Deíta forte fahio Adão feito das mãos de Deos a mais bella, e perfeita creatura, que fe vio: e como fahio Ghriíto das mãos dos homens , quando o puzerão na Cruz ? (Antes que o profiga, deixai-me enxugar as lagrymas para poder referir eíle laítimofo çafo. ) Feito hum retrato da morte, ferido, e tão mal tratado , como o vemos na Cruz, Vede agora o quan- to vai das obras dos homens às obras de Deos. Osbo- xnens aíFeando a mais perfeita belleza ; pois nunca fe vio , nem ha de ver nafcido no Mundo outro homem cpm tantas perfeições como foi Jesus Chriíto. E Deos de I Do Peregrino da America. 77 de huma vil matéria , como foi limo , e barro , fez a Adão tão perfeita creatura. Vejao là os homens o co- mo fazem as fuás obras à viíta das obras de Deos, Formado aííim o homem no campo Damafceno, perto de Hebron , logo paliou o Senhor ao Paraifo de deleites , que era hum horto amenifíimo , íiíuado da parte do Oriente em o mais alto da terra , em cujo meio eítava a arvore da vida , a da fciencia do bem, e do mal , e outras varias arvores fructiferas , ervas , e flo- res cheirofas, e neíle meio nafcia huma fonte de que procedião quatro rios, Ganges, Nilo, Tigre, e Eufra- tes , os quaes regavão o mefmo Paraifo , e depois ef- condendo-fe debaixo da terra , e tornando a fahir em outras partes, fertilizavão todo o Mundo. Eítando Adão neíle deliciofo Paraifo , poz em lingua Hebraica feus próprios nomes a todos os ani- mães, que forão trazidos à fua prefença por mandado de Deos. E depois, para que não eítiveííe fem compa- nhia, lhe deoDeos hum fono, ouextafi, e tirando-lhe huma coílella de feu lado , eílando dormindo , delia formou huma mulher , que foi Eva , e a deo a Adãío por companhia em matrimonio , deitando-lhes a ambos a fua benção ( eíla foi a terceira Cruz , que fez Deos na creação &é Adão , e Eva > como vos tenho dito r e promettido moílrar,) para que crefceílem em fuccefsao, e multiplicação , e encheíTem a terra , e dominaífem , e governafTem a todos os animaes , e fe fuítentaííem a fei» goílo, e vontade dos frutos delia.- E fó lhes mandou que fe abíliveíTem de comer d* arvore da fciencia do bem , e do mal , com pena de morrerem , fe comeífem delia. Porque não comendo daquella arvore , viverião no Paraifo com toda a feli- cidade em perpetuo , e continuo contentamento de feus entendimentos, e faude de feus corpos , parte enx virtude , â e forcas da re&idão original, e parte em fuf- taxi* ■ 7 3 Compendio Narrativo tento do fruto das mais arvores , para alimento da vi- da , e no fim fem morrerem , ferião trasladados vivos com toda a fuccefsão , e mudados ao Ceo , onde para fempre em eterna bernaventurança gozaííem de Deos em companhia dos Anjos. Porém Adáo conílituido em todas eftas honras não guardou o preceito de Deos , porque comeo do fruto prohibido , que lhe deo Eva , àqual tinha dito o demónio transformado em ferpente, que comendo-o elles s ferião como deofes. Comerão finalmente am- bos do fruto da arvore vedada» primeiro Eva, e depois Adão , e deite modo fe fizerão a fi , e a todos os feus defcendentes fujeitos não fó ao peccado , que he a mor- te da alma, mas também avarias calamidades, e enfer- midades do corpo, e à morte corporal, e condenação eterna; e por eíla razão fe chama eíle peccado denof- fos primeiros pais peccado original. Do qual nafceo que viciada are&idão original, fentindo-fe, e conhe- cendo-fe a mefma carne rebelde ao efpirito , e tendo jà Adão, eEva pejo de fe verem nús , cubrírão-fe com folhas de figueira , e ouvindo a voz do Senhor , que paíTeava ao frefco do ar no Paraifo depois do meio dia , envergonhados temerão , e fe efcondêrao da face do Senhor; porém chamando os Deos , vierão à fua Divina prefença , (porque a Deos não ha quem fe lhe efconda 1 ) e lhes deo o Senhor afentença a cada hum, conforme a pena do feu peccado , ouvindo-os primei- ro , e também a ferpente não ficou fem caftigo. A* ferpente amaldiçoou , que andaria fempre arraftada , e fe fuílentaria da terra : a Eva , que teria dores no parto, e eftaria fujeita ao varão; e a Adão, que come- ria o pão com o fuor do feu roílro , cultivando a terra. E finalmente à hora nona ( iíto he, às trez depois do meio dia ( veíUndo Deos a Adão , e Eva com túnicas depelies deanimaes, os deílerrou daquelle lugar, e os le- • „ ,■ Do Peregrino da America 79 levou a Judéa junto a Hebron , cerrando-lhes as por- tas do Paraifo , e pondo diante delle hum Querubim com huma eípada de fogo, para guardar o caminho da arvore da vida. CAPITULO IX. Relata o Ancico ao Peregrino o principio de nojfs redempção : e moftra como a Santiffima Virgem Maria foi prefervada da culpa original % por ef» pecial favor % e graça de 'Deos. MElhor não podíeis, dizer, me diíTe o Ancião, da creação do homem , nem explicar o feu princi- pio. Porém agora vos quero declarar hum myíterio, que tal vez ainda não tereis ouvido , por fer mui di- gno de ponderação , e de grande edificação para todo o fiel Chriítão. Muita mercê me fareis , Senhor , lhe diíTe eu, em mo dizer. Pois ouvi , me difíe o Ancião, Sabei , que ficando ainda então Deos no Paraifo , fe não arrependido de haver, feito a Adão, (pois em Deos não feda arrependimento, porque tudo tem pre- fente ) parece que confiderando a pou- ca eftabilidade , e grande fraqueza da natureza humana , appareceo alli a fo- berba (por fer eíta a raiz de todo opec- cado, (i) e inimiga do homem) pom- pofamente vertida de efcarlata , com huma capa roífagante , e hum efcndo, bia. Êccl. \i$$* e nelle efcrita huma letra , que dizia: Sou a foberba invejofa, Semelhante ao Inferno , E por iíTo meus fequazes Padecem hum mal eterno. E fa- (3) Iniiium omnís " Si quis pecca- ▼erít. ãdvocatnm habemus apud Patrem, jfcfum Chriftum jirttú. I. Joann. 21. (3) Ord. lib. 3. tit.20. <4) Contra regula tesi. in cap, i.de Cauf. pofletl. & propriet. (í) ío charitate per- peiaa d;kxi te. jeremias 35. 3. (6) Pervifcera ro - feri coid ias Dei noílú. L11CC.7S. Ab initio, & ante fasculacrei- ta iam. Êccl.24 14. (8) Ante oinnem creaturaa). Eccl. 24. 1. Et homilia ret pícit inGoelo, & ín terra. Píakn. 112. 6. Cio) Dixit Ootnfnus Domino meo, fe- de àdextrii méis, &c. Pi. joo. 1. Compendio Narrativo E fazendo liuma grande genufle- xão a Deos, rompeoneftas palavras: Se- nhor , venho da parte de Lúcifer fazer- vos hum requerimento , como a tão re- dojuiz, contra Adão, e íua defeenden- ■cia. Aqui acudio o Verbo Divino , (2) dizendo ao Eterno Padre: Senhor, bem fabeis que temos determinado, que haja lei entre os mortaes , por onde elles fe governem, e que na ordem dojuizo são neceílarias trez peíToas , Juiz , que jul- gue , Author , que aceufe , e Reo , que fe defenda. (3 ) Adão eífcá aufente, vai indefezo j (4) e poreíta razão deve ha- ver quem defenda a fua caufa. E logo acudio o Efpirito Santo , dizendo: Ve- nha a Piedade , que pode affiíUr em fua defeza. ( $ ) E affim o mandou o Eterno Padre por feu Divino decreto , e grande mifericordia. (6) Veio logo huraa for- mofa Donzella (7) veílida de azul celeíle com manto de gloria , de tão exeellente forma , que a todos fatisfez fua prefen- ça, e formofura, por fer feita, e creada peia omnipotência de Deos; (8) e prof- trada de joelhos mui humildemente, fe poz abaixo do Throno da Santiflinu Trindade. { 9 ) DiíTe então o Eterno Pa- dre ao Divino Verbo , que fe aíTentalTe à fua mão direita , em quanto caítigava a feus inimigos j ( 10 ) e à foberba per- mittio que fizeífe feu requerimento. E continuando a foberba , diiie : Se- nhor, peecouLusbel , e pelo peccadofoi condenado elle , e todos os feus fequa- zes Do Peregrino da America, Si zes ao Inferno , por voílb Divino decre- to , onde padece , e padecerá terríveis tormentos por toda a eternidade, (n ) Agora vejo que peccou Adão contra voila Divina Mageílade , e que foi con- denado a deílerro (ix) corn pena de morte, (13)0 qual aindavive,e cornei peranças de merecer perdão de fua cul- pa ; (14) quando parece que não tem lugar, por fua grande defobediencia , e ingratidão , que commetteo contra vof- fa Divina Mageílade. E olhando o Eterno Padre para a for- mofa Donzella , (15") lhe difte : E que refpondereis por parte de Adão em fua defculpa? Senhor, (16) bem conheço, diíTe a Piedade, que vos tem defobede^ eido Adão , e por eíTa caufa com juíla razão mereceo o caíligo , e deílerro, que lhe deites a elle , e a toda a fua def- cendencia. Porém, Senhor, Adão he de mui frágil metal , peccou por fraqueza, e não por foberba , ou malicia. E fendo affim , parece que não he o feu peccado da qualidade , e graveza do de Lúcifer j porque fendo eíle de natureza Angéli- ca , e com tão claro entendimento, ar- rojado da foberba , e da inveja vos quiz negar a adoração , fendo vós o que o creaíles , e lhe déíles o fer , e os mais dotes da graça , de que fe vio adornado. Acudio logo a foberba , mui arro- gante , e prefumida ( 17 ) dizendo : Não livra eíTa razão a Adão , e a todos os feus defeendentes de ficarem fujeitos àpena F eter- C Tf > In inferno null* eft redempsio. ( 11 ) Emífítenm Do- minós Deus depa- radifo voluptatis, Gen. 4. 13. ( *3 ) In polveremre- verteris Gen.3. 19. ( M ) Converdmimaá me, & convertar a d vos. Zach. 1. 3. ( if ) Oculi Dei in di- ligentes fe, Eccli. 34- tf- ( 16 ) Adjuvabit eam Deus mane dilu- culo. P&loMf.ãe Super biaejus,& arrogsnda ejus , plufqitam fortim- doejus. lfai. tó . & G.O M P. £ N D.T. O Na RA T 1 V O C 18 ). ( •Formav.it igitur Dominas Deusho- 111 i nem ck li mo let- ra. Gen. 1. 7. ( 19 ) Faciamusbomi- nem ad imaginem , &í]mi3itadine nof- tram. Gen. i. zó. ( 20 > Comparitus elt jnmentis infípienti- bus, & fímiiis fac- íuseíliliis. Pi. 48. 13- ( 21 ) Qui fíicit pecca- tum fervas eft pec- caii. joan. 8. 34. ( ia ) Per peccatui moss r Rom. 5:. 12 eterna. Porque fendo Adão de nature- za inferior, ( 18 ) por iíío me.fmo tinha razão de fe moítrar mais agradecido a quem o fez , e adornou de tão relevan- tes dotes da graça , e da natureza , de que fe vio enriquecido. De mais , Se- nhor , que vós o fizeítes à voífa imagem, efemelhança, (19) beneficio tão gran- de, elingular, e lhe deites mais a fcies- eia infufa , com a rectidão natural , e a promeífa da Gloria; e fendo aífim, pa- rece que mais obrigado eítava ; Adão a obfervar os voífos preceitos \ e quando^ não foííe mais, em lugar parallelo com Lúcifer. E fe nenhuma deitas razões baila para fer caftigado Adão t elle pec- cou , e pelo peccado ficou femelhantè aos brutos , (10) e fervo do mefmo pec^ cado i (21) e como humilde cneatura, não pôde merecer perdão,, nem fatisfa- zer a culpa, que commetteo contra vof- fa Divina Mageílade , a qual , por fer in- ço mpreheníivel , não a pode compre* hender o entendimento creado , epeía deíigualdade , que vai da creatura ao Creador, fica Adão inhabil para o me- recimento , e fatisfação ,. pela qual razão he digno de todo o caíligOje morte, (n) E olhando para a Piedade , lhe difTe : e aílim que não podeis deixar de conce- der a minha conclusão. ■ Aqui fe lhe arrazárão os olhos em iagrymas à formofa Donzella,derraman- do líquidos cryítaes por entre encarna- das rofas * e olhando para o Divino Ver- bo. Dq Peregrino da America. Sj bo. ( 13 ) A eíte tão enternecido aclo acudio o Verbo Divino , dizendo : Se- nhor , eu me offereço (2,4) pelo género humano a fatjsfazer a culpa , que com- metteo Adão contra voífa Divina Magef- tade. E aceitando o Eterno Padre a offer- ta , também a approvou oEfpirito San- to , e fe confirmou por toda a Saiitiffima Trindade, (z?) Foi então lançada da prefença de Deos a maldita foherba. (2.6) E achan- do- fe ella tão abatida , e envergonhada , por ver que fe lhe não deferio como in- tentava, nem poder entender o Myílerio da Encarnação do Divino Verbo para noffaRedempção, enchendo-fe de maior raiva , e inveja , fe precipitou ? arrojando- fe , e desfazendo-fe em golpes , com horrendos alaridos (17) fe foi à prefen- ça de Lúcifer; e efta foi a primeira vez, que fe virão , e ouvirão no Mundo re- lâmpagos, e trovões, vomitados daquel- les ferozes lobos do Inferno , ameaçan- do , e defejando devorar ao género hu- mano. (2,8) E logo fe vio- em alegres accentos a coros fubir da terra para os Ceos toda a Santiílima Trindade com repetida muíi- ca de Anjos, que cantavão: Vicloria, vicTroria, Cantem os Ceos , Pois Maria Sagrada A' foberba venceo. (13) Emitte manum tuamdeaUo, eri- peme,& libera me de aquis mokis. Pfalm. 143. 7. (*4) Oblatuseft^quia ipfe volait. IfaJ. 3Í- 7. Delinse meãs , eííe cum fiiiisho- miaú. Prov.8 31. (16) Fecit potentíam ín brachio iíio„ uííperíií íuperbos mense cordis íuL Luc. í. $1, Tanquam leo rugicns 1. Petr* (1%) Et ecce beftís altaíimilis uríuin parte ftetit. Dan. 7- í« F ii Vi- 'Compendio NarratíVo Ipfsconteretca- pmtuú.Gen.3.15*. Viâroria, Yictoria, - Pois o Verbo nos dea Palavra , cobrar O que Adão perdeo. Vi&oria , vi&oria , Que Adão não morreo Pelo horrendo bocado „ Que a mulher lhe deo, Vi&oria , victoria , Mortaes, pois vencea Maria o triunfo, Que Eva perdeo. (19) E agora ficará mais claro como a Virgem Maria Senhora noíTa foi livre, e prefervada de toda a culpa,, e rifco dopeecado original, defde o primeiro inítahte de feu fer , por ter fido medianeira dos homens para com Deos defde o principio do Mundo , depois que Eva, e Adão peccárão. Senhor, diíTeeu ao Ancião, não tenho a mínima duvida de que a Senhora folie , e feja livre de toda a culpa defde o primeiro inftante de feu fer ; porém fá reparo neííe voíTo dizer, que também foi livre de rif- co dopeecado original. Refpondo, medifTe o Ancião* e para que fiqueis no cabal conhecimento deita verda- de, dai- me attencão; Peccou aquelle povo de Ifrael no deferto , cahin- do em atrozes,, e abomináveis culpas, quando efque- cidos do verdadeiro Deos, lhe negarão a devida adora- rão ; e vendo-fe Deos tão oífendido de hum povo , a quem ti nha feito tantos benefícios ,. tratou logo de o caf- f igar. E conhecendo Moy fés a grande razão, que Deos tinha , lhe fupplicou hu-ma-, emudtas vezes, que perdoaf- feaopovo, jàcom jejuns, jà com muitas penitencias en- tre noite, e dia, E como Deos lhe não deferiíTe a eíla fup - Pli« .- Do Peregrino da America. 8j plica , lhe chegou a dizer Moyfés : Senhor, ou haveis de perdoar ao povo , ou me haveis de rifcar do vo0b Livro. E vendo- fe Deos (ao noíTo modo de dizer ) porto em extremos, acabou com fua Divina juítiça, a ufar de fua mifericordia , perdoando antes ao povo , que borrar , ou rifc2r a Moyfés do feu Livro. Que eíte Livro fêja figura de Maria SantiíTima, affim oentendem os Santos Padres. Livro (parece que diííe Deos , ) em que fe ha de efcrever a minha pala- vra : Verbum caro facítim ejt ? Livro da geração de meu amado Filho ? Livro finalmente da vida eterna, borrão , ou rifco nelle ? Iíío não , perdoe- fe a eííe pova ingrato , que eu fou quem fou. É aqui tendes ( con- cluio o Ancião) a prova real, por onde fe moílra que não houve a menor mancha , ou rifco na pureza de Maria Santiílima. A muito, parece, featreveo Moyfés com Deos, 1 dhTe eu ao Ancião. Ao que elle me refpondeo : Moy- fés tinha-lhe Deos revelado todos os Myíterios da En- carnação , Paixão , Morte , Refurreição de feu unigé- nito Filho: e fabia o como por meio de Maria Santif- fima havia de vir todo o bem daRedempção ao géne- ro humano , e fiado neíla tão grande valia , porifib com hum refpeito amorofo, em tom defuhmifsão, e reve- rencia de fervo , tomou eíte atrevimento. Tenho entendido, e fico muifatisfeito, diíTe eu ao Ancião, com aprova, que déíles tão genuína, com tanta clareza, e primor do voíTò difcurfo , tãodifcreto, como douto \ porém fó me fica huma dúvida ; e folta efta , não terei mais que duvidar : e vem a fer , que fallando Chriílo Senhor noíTo de S.João Baptiíta, dif- fe que entre todos os nafcidos nenhum nafceo maior que S. João. Baptifta. Sendo certo que também a Vir- gem Senhora noífa nafceo, e o mefmo Chriílo. Logo fe a Senhora nafceo, e n mefmo Chriílo , como enten- deremos eíte texto ? F iii Ora Z6 Compendio Narrativo Ora reparai nos termos, com que fallou Chriílo, (me difle o Ancião ) e entendereis ofentido do texto. Diííe Chriílo : Inter natos mulierum non furrexit maior Joanne Baptijla. ( Matth. n. .11. ) Aquelle verbo Surre xít, quer dizer levantou-fe. O Baptiíta an- tes de fer fantificado por Chriílo no ventre de Santa Ifa- bel, eílava cahido na culpa original» e fó depois fe le- vantou. Maria Santiílima , e Chriílo Senhor noíTo nun- ca eíKverao cahidos na culpa, e por eíla razão não era neceíTario levantarem- fe. Eaqui tendes folta a dúvida. Eaflim podemos todos confeíTar, que Maria San- tiíftma , entre todos os filhos de Adão , foi ifenta da culpa , e livre do rifco do peccado defde o primeiro inflante de feu fer , fendo a excepção da natureza , o mimo da ventura, a fonte da graça, o remédio dos ho- mens ; porque a creou Deos defde o primeiro inflan-i te de feu fer deílinada , e predeíKnada para fer Mãi fua. EporiíTo com muita razão difíe, ou cantou aquel- le difere to Poeta Portuguez. SONETO. NO Decreto maior, que do eminente Sacro folio alcançou o Amor confiante ' A favor do Univerfo naufragante, Que agonizava laílimofamente : O Padre poz a mão Omnipotente, A pena concedeo a Pomba amante, Foi o Verbo a palavra relevante, E Maria o papel foi mais decente. Como pois , fendo taes neíle traslado A mão, a pena, e a palavra, havia O papel deíle aíTumpto fer manchado? Oh pura fempre, oh íingular Maria! Mal o borrão teria do peccado O papel, em que o Verbo fe eferevia. Tão - Do Peregrino da America» 87 Tão admirado , como fatísfeito eílou , fenfcor, diíTe eu ao Ancião , de vos ter ouvido relação tão pro~ digiofa ; porque alem das muitas lagrymas de gozo , que tenho derramado , me ficará por hum grande defper- tador ter mais que agradecer a meu Senhor Jesus Chri- íto tão grande beneficio. Bem he que conheçais , e todo o género humano ,' me diíTe o Ancião, o muito, que fe deve a Deos noíTo Senhor, pelo feu grande amor, e infinita piedade, com que fe dignou vir ao Mundo a tomar carne humana, para poder padecer pela culpa , quecommetteo Adão, fendo feu Redemptor, e Salvador, e de todo o géne- ro humano ; o que tudo tem fatísfeito , e completado na fua SacratiíTima Paixão , e Morte , e admirável Re- furreição. Podeis agora continuar o mais, que paíTaf- tes com o morador. líTo farei , fenhor , lhe diííe eu , por vos dar goílo , pois tanto vos eftou obrigado : e agora com mais duplicada razão, pelo que meacabaf- tes de explicar do principio de noíTa Redempção. capitulo x. Manifeft a o Peregrino ao morador como fomos cr ea~ dos à Imagem , e femelhança de T)eos : como de~ vemos fazer huma boa Qonfifsão : e quanto nos importa ter Oração , com vários exemplos. DEpois de me ter ouvido com grande attenção o morador,continueieu dizendo-lhe : Sabei, fenhor, que tenho trazido todo eítepaíTo, e relação, para vos moftrar em como a Cruz logo de fde o principio do Mun- do foi feita , e ordenada por Deos , e que ella fervia, ferve, ehadefervirdeinírrumentodetodas as obras de feu maior agrado, e )à defde então por vaticínio de como havia de fer o meio , e remédio de noíTa Redempção. F iv Te- , 88 Compendio Narrativo \i Tenho entendido , fenhor , me diíTe o morador, que melhor me não podeis explicar o que vos tenho perguntado. Ecomo feja tarde, fazei-me favor de que nos recolhamos do fereno da noite , e deícançareis do trabalho do caminho. Agradecido me moítrei, e obe- decendo , logo nos recolhemos a huma varanda , na qual achámos a meza poíta; e depois de cearmos, co- mo o morador foíTe de bom entendimento , e fizeffe de mim bom conceito , me tornou a metter em con- vérfa, dizendo-me : Senhor, perdoai-me fe eu for im- portuno , porque o defejo de faber me faz tomar efta confiança. Como fe me offerece huma duvida , toma- ra que maexplicafTeis ; evem afer, que tenho ouvido que Deos , em quanto Deos , não tem forma humana : logo que imagem , e femelhança he eíla , que Deos deo ao homem, comodiíTeftes na formação de Adão? Ref- pondo , lhe diíFeeu , pofto que a matéria não feja de mi- nha profifsão; porém como feja tão neceffaria a expli- cação deila, pelo que tenho ouvido , elido, fujeitan- do-me à Fé , e aos preceitos da Santa Madre Igreja, com a devida reverencia , e fubmifsão a Deos, Digo, que fuppofta a grande deíigualdade, que ha entre oCreador, eacreatura, podemos confider ar que a femelhança , que tem p homem com Deos , he nas operações da alma ; porque affim como Deos eftá em todo o Mundo, e o enche com a grandeza defuaeíTen- cia , aílim. a noíTa alma eftá em todo o corpo, e o en- che com o fer natural , que Deos lhe deo. Aílim co- mo Deos não pode fer inficionado , nem offendido com alguma coufa deíbe Mundo , aílim a noíTa alma não pôde fer cortada , nem quebrada com as coufas corporaes. Aílim- como Deos vê todas as coufas, e não he vifto com os olhos corporaes nefta vida r aífím a noíTa alma vê todas as coufas exteriores , e não pode fer viffca delias. Aílim como Dôos he vida verdadeira, e dá ^ Do Peregrino da America. 89 e dá vida a todo o vivente, affim a noíTa alma he vida do corpo , e dá vida a cada parte delJe. Affim como o fer infinito de Deos ainda crefcendo, ou decrefcendo ascreaturas, não heaccrefcentado, nem diminuído, af* fim a noíTa alma, nem nos pequenos membros do cor" po , nem nos maiores fe faz maior , nem menor. Aílim como em Deos ha huma EíTencia , e trez PeíToas , aílim na noíTa alma ha huma fubítancia , e trez potencias. Aílim como o Eterno Padre he Deos , o Filho he Deos, e o Efpirito Santo he Deos, affim o entendimento he alma, a vontade healma, e a memoria he alma. Aílim como Deos he hum fó, e em todo o lugar, e todas as coufas vivifica, e governa : affim a noíla alma em toda o corpo , e toda em qualquer parte delle , eítá vivifi- cando , movendo , e governando todas as partes do mef- mo corpo. Affim como Deos he fimpliciílimo , e não compofto de matéria , nem forma , affim a noíTa alma he fimpliciffima , e não compoíta de coufa corruptiveL Finalmente, nenhuma honra ha tão grande para o ho- mem, como fer a fua alma creada à imagem , e feme* lhança de Deos , e fer ornada com os quatro dotes da Gloria. Senhor, me diffe o morador , antes que deis fim aovoíTodifcurfo, tomara que meexplicaíTeis quaessão eífes dotes da Gloria. Sabei, fenhor , lhe diffe eu, que o primeiro he claridade, o fegundo futileza, o tercei- ro impaíTibilidade , e o quarto agilidade. Em quanta ao primeiro , baftante moftra nos deo Chriíto nofTo Senhor deite dote , quando fe transfigurou no Monte Tabor, poíto que osDifcipulos lhe não virão mais que oroítrogioriofo, e as veftiduras alvas como a neve , da luz , que participarão de feu corpo r que todo eílava banhado delia. Eíta cegava em Moyfés os olhos da- quelle povo , a qual, por fer tão grande, o não podiãa ver. Eàa vio Santo Eíievao nos Ceos abertos } nas ho- ras fo Compendio Narrativo ras de feu martyrio. Eíta vio fem duvida a Santiílima Virgem em feu Filho refufcitado. Efta vio S. Paulo, quando Chriíto lhe appareceo no caminho : e forao tão grandes os raios defua luz, que cahio docavallo, perdendo a vifta. E muitas vezes nos ha molhado Deos, ainda nos corpos defuntos, a quem ha concedido eíle gráo tão fuperior. De Santa Margarida , filha do Rei de Hungria , fahírao refplandores como do mefmo Ceo. Aquelle menino , a quem os Judeos tirarão a vida em ódio de noíTo Senhor Jesus Chriíto , foi defcuberto o lugar , onde o havião efcondido , com tantas luzes , que por iílb foi vifto , e achado. E affim fuccedeo também a S. Pedro Bifpo de Cappadocia com os quarenta Mar- tyres , que os inimigos de noífa Santa Fé havião lan- çado no rio , para que não foífem achados dos Chrif- tãos , como forao viílos por Duarte Rei de Inglaterra. Sobre o corpo do Rei Ofualdo fevio huma coluna mi- lagrofa de claro refplandor , que chegava atè ao Ceo. O fegundo dote, que chamão de futileza , ficarão com elle os corpos, e as almas tão futís , que não ha- verá parede, ou corpo, (por groflb, ou denfo que fe- ja) que o não paíTem , ou trafpaíTem , fem impedimen- to. E iílo mefmo fe vio em Chriílo , quando entrou nó Cenáculo depois de refufcitado , fem que foífe ne- ceíTario abrirem-lhe as portas os Difcipulos para en- trar. O terceiro dote , que he o da impaíTibilidade, faz aos homens incapazes de padecer mudanças do tem- po, nem enfermidades, nem outra alguma molellia: de tal maneira, que nem o fogo os poderá queimar, nem o frio offendellos, nem ferillos o cutello, nem fazer- Ihes oífenfa coufa alguma. O quarto dote , que he a agilidade, conftitue aos homens tão ágeis para oufo de todos os feus membros , que em hum iníhnte panarão da terra ao Ceo , fem que Do Peregrino da America. 91 que haja pezo , que retarde fua ligeireza. • Mb tomara eufaber (mediffe o morador) poral- guns exemplos j, porque fendo tão longe da terra ao Ceo , como he poífivel em hum inftante fubir huma alma a gozar da Gloria , tendo merecimento para là ir , e deícer em hum inftante ao Inferno huma alma em peccado mortal , eftando o Inferno no centro da terra , e fendo efta tão groíTa de qualquer parte , em que efteja, para ir a efte abyfmo? Por huma evidente comparação, lherefpondi eu, vos hei demoftrar iflb, que vos parece tão difficultofo. Haveis de faber , que ( fegundo o que dizem os Mathematicos) difta o Sol da terra hum conto duzen- tas e treze mil e trezentas e trinta e trez legoas , cujo corpo tem hum milhão, emais fetenta e finco mil feis- centas e oitenta legoas de groflb. E fuppofta efta dif- tancia , ponde ao Sol , quando eftiver reverberando o feu calor, hum vidro cryftallino , e debaixo huma mi* galha de la, ou outra femelhante coufa, e vereis que em hum inftante o calor do Sol paífa , e trafpaíla o vidro, e queima a lã , ou matéria , que debaixo delle efta. Af- fim também como o amor he fogo , e fendo efte Di- vino, hemais a<£tivo, evehemente, o mefmo hefahir huma alma de feu corpo , ( que he a nuvem , que fe entrepõe ao Sol Divino ) que ir logo em hum inftan- te bufcar ao feu centro, que heDeos, a participar def* fa visão beatifica. E por contrapofição , a alma, que ama as coufas terrenas, eeftá em peccado mortal , he como humaef- pingarda, ou peça de artelharia , que quando feouve o> eftrondo, queheofentimento da morte, jàabala, qus he a alma, tem feito o emprego no centro do Inferno, para onde tinha feito o feu ponto nefta vida. Aílim fuccedeo a Lusbel : rompeo o relâmpago da inveja, deo o trovão da íbberba, cahio a pedra do íeu pecca- do ■ — pi Compendio Narrativo do no centro do Inferno , onde íicou , e eítará para hu- ma eternidade. Baila, fenhor, mediíTe o morador; porque jà te- nho entendido cabalmente toda a verdade , e me def- tes a conhecer o que eu ignorava. Mas jà que Deos vos trouxe aeffca.caía, tomara que meexplicafleis mais algumas coufas do bem do efpirito, que he o que de- vemos procurar; porque as mais converfaçóes me pa- recem fer palavras ociofas , das quaes dizem nos ha Deos de pedir conta. Aílim he , lhe diífe eu ; porém converfaçóes pode haver entre os homens , que como não fejão dirigidas a máo fim, também ferao admitti- das na ordem do bom viver , e governo do homem. Aílim fupponho ( me diíle o morador ;) porém peloque hoje fe pratica no Mundo, poucas são as converfaçóes, que não aíTentem em offenfa de Deos , e do próximo. A ifto lhe diíTe eu : Mui efcrupulofo me parece voíTa mercê. Oxalá que aílim fora ( me diíTe o morador; ) porque não feria tão grande peccador (que portal me reconheço;) porque pafsão às vezes muitos mezes fem me confeííar, e muitos Domingos, e dias Santos, fem ouvir MiíTa. Tudo pôde fucceder , fem ferpecca- do, IhediíTeeu, havendo urgente caufa. Com iíTo me não poíTo eu efcufar ( me dilíe o morador ; ) porque bem fabeis que daqui a Belém não he tão longe , e que o podia eu fazer mui facilmente ; porém fobre fer pre- ceito j tenho mais o peccado de preguiça. Agora vos não defculparei, IhediíTeeu; porque não fei que pof- fa. haver defculpa neííe peccado. Perto da Igreja dei- xar de ouvir MiíTa, he final de prefeito, e não depre- deítinado. Senhor $ ainda que eu pareça demaziado ( medif- fe o morador) em vos moleílar , o defejo de faber me faz fer importuno. Como entenderei os íinaes , que tem hum homem de fer predeítinado > ou prefeito ? Sa- bei « mmmm Do Peregrino da America. 93 Sabei , fcnhor , lhe diííe eu , que nunca me poderei mo- leílar, entendendo que o fim da voiTa pergunta a {Ten- ta no proveito efphitual, e bem da alma. São n uitos os íinaes de predeílinado, que apontão os Meíhes de efpirito aporem os mais prováveis , por onde fe pode conhecer o que he predeílinado , são ouvir hum ho- mem a palavra de Deos , e obrar bem nas trez virtudes Theologaes, que são , Fé , Efperança ,e Caridade ; e por prefeito teremos todo aquelle , que obrar o contrario , e fe deixar eílar na culpa , fem o moverem os golpes da doutrina , nem os remorfos da conferencia , além de outras muitas razões, que feachao eferitas por graves Authores. Mas tornando aonoíTo propofito , ornais celebre dito, que tenho ouvido de Príncipe Chriílão, e digno- de fe trazer fempre na memoria , e muitas vezes m converfaçao , foi o do Rei Filippe o Prudente de Caf-- tella, quando diíTe, que nãofabia qual era o Chqílão,, que podia dormir em peccado mortal - r dito , e docu- mento merecedor dèfer eferito com letras de ouro nas portas publicas das Cidades, e Villas. Senhor , me diíTe o morador, iíTo dizia efTe Monar- ca, porque tinha hum Capellão à fua ordem, e todas as noites fe confeíTava ; e quando eíle por algum inci- dente eílava impedido > mandava chamar a outro ; mas eu , e outros femelhantes , que vivemos em hum de.- ferto fem copia deConfeíTor, e mal nos podemos con- feíTar de annoa anno ;e muita mercê nos faz Deos, quan* do nos confeíTamos de mezes a mezes, como nos po- deremos livrar de dormirmos , não em hum peccado , fe-- não em muitos ? Refpondo, lhe diíTe eu, Deos he de mui- ta miíencordia; e como fabe melhor as noíTas impof- fibilidades , e inconveniências , do que nós as entende* mos , e fabemos conhecer , para tudo nos deixou re- médio - ? e poreíta razão não temos defeulpas, que lhe dar* ~ 94 C o m p e n d io Narrativo dar. Lede os livros efpirituaes, confultai aos Confèf- fores, que são os noíTos Directores, e vereis que vos hão de aconfelhar , que à noite , antes , ou depois de Tos deitares a dormir , façais exame de çonfciencia , trazendo à memoria todos os peccados , que commet- teftes -naquelle dia , e que façais então hum a&o de contrição , com dor , e arrependimento de ter oífendi- do a Deos , por fer quem he , e porque o amais fobre todas as coufas, pedindo-lhe perdão devoíTas culpas, propondo de as confeíTar, e de não tornar apeccar. E deite modo vos poreis em graça de Deos; e íe morrer- des naquella noite fem coníifsaOj por não ter Confef- for, não ireis ao Inferno. E peio contrario, milhares de homens fe tem condenado , por não fazerem eíta breve diligencia. Senhor , me diííe o morador , iíTo tenho lido , e me tem aconfelhado os ConfeíTores ; porém nunca fiz reflexão neíla matéria, como devo , e fou obrigado. Mas agora prometto , mediante a graça , e' favor Divino, pôr por obra daqui por diante o que me dizeis ; porque não he bem que por huma coufa tão breve perca eu o muito, em que vou intereíTado, que he o premio da eterna, gloria. Mas jà que tocámos neíTa matéria de Coníifsão, tomara que medeíleis algum modo, ou in- terrogatório breve de como melhor me poíTa confef- far, e que eleição farei de Confeííor. Senhor , lhe diíTe eu , muitos sâo os livros , que deíTe particular t ratão s . e dão a forma de como nos ha- vemos de confeíTar ; porem como me vejo obrigado a fatisfazer ao que me pedis , vos digo que trez coufas deve fazer o Chriítão para bem fe confeíTar , alem de outras muitas, que fe aconfelhão. Senhor, me diíTe o morador , ainda que feja em breve , tomara que mas repeti (leis. Ta- Do Peregrino da. America. Con- f, 9 5 Co m pendi o Narrativo ConfeíTor. E feita eíta memoria com dor , e arrepen- dimento , e hum propoíito firme de nunca mais pec- car , vos podeis confeííar , difcorrendo pelos Manda- mentos da Lei de Deos, e da Santa Madre Igreja, va- lendo- vos do patrocínio de noílo Senhor Jesus Chriíto, e da SantiíTima Virgem María fua Mãi , por fer tão grande Medianeira para alcançarmos a graça de poder- mos receber o Santiilimo Sacramento com limpeza da alma. E de caminho vos quero mais advertir; que fe de- pois de feita eíla memoria, e exame, entre a voíía la- voura , que he o bem ganhado , achardes íizania , ou monda alheia, que he o mal levado, arranca i-a de préf- áa, e não efpereis de dia em dia para o reftituir ; por- que não fabeis fe vos dará Deos lugar de o fazer , nem também fera acerto, cuidar quevoíTos filhos, ou her* deiros, encommendando-lhes vós iíTo em voífo teíla- niento, cumprirão o que vós nãotiveíies zelo de o fa- zer em vida por voíTa alma. E fenão, vede o que fuc- cede no Mundo acerca dos teflamenteiros , e herdei- ros , quantas demandas fe movem , e quantos tempos durão , e as almas padecendo. Eíle avifo vos faço de paíTagem , e peço- vos que o confidereis muito de va- gar. E aflim, fe tiverdes alguma coufa, que reíHtuir , ef- pecial mente de honra,, fama, ou fazenda mal ganhada, ou havida illicitamente , o melhor confelho he que antes que vades aos pés do ConfeíTor, o tenhais fatif- feito ; e fe não tiverdes poífibilidade para o fazer en- tão, proponde firmemente de o fatisfazer com toda a brevidade poífivel , compondo-vos com as peífoas , a quem deveis , para vos darem tempo para lhes pagar. E fe houverdes injuriado a alguém, e tendes inimiza- des, reconciliai- vos com elles , antes que vades .rece- ber aquella Hoília immaculada, para que vos nãofuc- ce- Do Perfgrino da Amirica. 97 ceda o que fuccedeo ajudas ; porque fazendo aífim, mediante -a graça de Deos , alcançareis o fruto deite Sacramento da Penitencia , que he livrar da culpa, communicando-vos a graça , e fazendo- vos capaz de gozar dos bens eternos. Senhor » antes que acabeis o voílb difcurfo , me diíTe o Lavrador, quero que me digais que eleição farei de ConfeíTor , como vos perguntei. Tendes razão , lhe diíTe eu , que por humas coufas efquecem as outras. A eleição , que haveis de fazer de ConfeíTor ( poden- do) deve fer de hum íó s aquém tenhais por voíTo Di- rector , e eíTe feja douto , prudente , e virtuofo , que faiba diíHnguir , difcernir , e conhecer & enfermidade da voíTa alma ; porque fe para os achaques do corpo bufcamos o melhor Medico , e para fazer hum veítido o melhor official, com maior razão para a enfermidade da aima devemos de bufcar o melhor Medico ; e para o veítido, com que havemos deapparecer na Corte ce- leítial o melhor official , para o fazer com acerto; por- que fuccede muitas vezes haver tanta ignorância da parte dos penitentes , que de pequenos peccados fup- põem não poderem fer obfoltos fem irem a Roma a buf- car a abfolvição ; e de outros de grande pezo , e cir-* cum irar, cias fazem tão pouco eafo , que não chegão a CMifefí" os : e por eíta razão heneceíTario haver Con- feíTor douto , prudente , e virtuofo para os faber exa- minar, e aconfelhar. DeíTa forte , fenhor , me diíTe o morador , pare- ce-me que a coníifsão , para fer bem feita , tanto depen- de do penitente como do ConfeíTor. Aílim fuccede muitas vezes , lhe diíTe eu , porque por falta de bons confelhos vão muitos ConfeíTores ao Inferno , levan- do a muitos penitentes comfigo. Tomara que mecon- taíTeis algum exemplo acerca diíTo , me diíTe o mora*" dor. Pois ouvi, lhe diíTe eu. G Con- F~ .z é cap.$. que houve em França na Província de Aquita- nia dous Eccleíiaíticos ricos , e grandes amigos , hum dos quaes era Abbade , e o outro Arcediago em huma Igreja Cathedral daquelles Reinos. Gaítavão eftes a fua fazenda em regallos, e entretenimentos, cuidando no defcanço de fua carne , e em dar goílo a feus corpos , e defcuidando-fe totalmente das fuás almas , e anda- vão , como andorinhas , bufcando para o Inverno as ter- ras quentes , e para o Verão as frefcas , e temperadas. PaíTando ambos em huma occaíião por tempo de Verão ao lugar que coítumavão, os colheo a noite em hum campo defpovoado , onde havia huma deferta Igreja, algum tanto apartada do caminho : recolherão- fe alli para defcançarem aquella noite , cearão , e ac- commodárão-fe para dormir , como melhor pudérão. O Arcediago , ainda que tinha alguns vicios , tinha tam- bém algumas obras boas, pertendendo caminhar pelos dous caminhos,largo,e eítreito, e gozar de ambas as glo- rias deita vida,e da outra. ConfeíTava- fe a meudo,e tinha por Padre efpiritual para a fua alma a hum Religiofo de S. Francifco , grave , douto , e exemplar , o qual tinha muito cuidado da falvação do penitente,dando-lhe bons confelhos , reprehendendo-lhe feus defcuidos , avifan- do- o de feu perigo , e encommendando-o continuamen- te a Deos noíTo Senhor, que são os officios de hum verda- deiro Padre efpiritual. E na verdade lhe aproveitarão muittf ao penitente as orações de feu ConfeíTor ; pois por ellas confeguio a emenda de fua vida , e com ella fua falvação, como feverá nofucceíTo deíla noite. Eílava G ii o Ar- ioo Compendio Narrativo o Arcediago dormindo na Igreja , que tenho dito, e na mefma occaíião eítava feu ConfeíTor orando por elle. Vio o Arcediago entre fonhos , que ao lugar , onde elles eítavão dormindo , vinha Chriíta a julgar aos homens com grande Mageítade,*e apparato , e que fe juntava huma multidão de gente, huns à mão direita, e outros ã efquerda, Vio também que elle mefmo, feu compa- nheiro o Abbade, e todos os feus criados, queosacom- panhavão, ficarão àmão efquerda, e que os demónios osaccufavão de todos os feus peccados, culpando feus paífatempos, eregalos, em que gaítavão as rendas Ec- clefiaíticas, asquaes devião gaitar emfuítento dos po- bres , e em fazer bem por fuás almas. Vio mais , que ha- vendo ouvido o Juiz todas as accufaçóes , deofenÇença de condenação contra elles, e que logo acudirão com grande ímpeto os demónios, elevarão ao Abbade, e a feus criados ao Inferno. Tudo iíto via com grande te- mor , e tremor , fuando de anciã , e pena , e fe lhe dobrou o temor, quando vio que os demónios o vinhãobufcar, e a feus criados , affim como tinhao feito ao Abbade, e aos defua familia: eque eítendendo os demónios os garfos , hum delles lhe pegou pelo ventre , puxando delle para o levar com igual fúria , e dor. Chegou o feu ConfeíTor neíta occafião , e o deteve , e também force- java para defendello. E eítando neíta agonia , batalhan- do o demónio porlevallo, e o ConfeíTor por defendei- lo , defpertou com hum mortal fuor , palpitando-lhe o coração, e tão quebrantado , como fe fe achafíe em hum exercito de inimigos batalhando. Eíteve duvido- fo do que faria : mas crendo que havia fido fó fonho, e cançaíTo do caminho , quiz defcançar da pena , que tivera , e não defpertar aos mais , e aííim tornou a dor- mir, encommendando-fe a Deos noíTo Senhor.* Mas apenas havia cerrado os olhos, quando tor- siou Deos a moítrar-lhe a mefma visão que antes , do jui- Do PEREGRINO DA AtíERtCÍAÍ fõl juizo , e condenação do Abbade feu amigo , e dos feus j e chegado a efte paflb , defpertou fegunda vez frio , e pafmado , e com maiores dores que a vez primeira , com que recebeo grandiílimo temor, e começou com vozes a chamar por feus criados. Defpertárão aos gri- tos, e ordenou que fe veítiíTem, para no mefmo pon- to partir, e profeguir fua viagem. Forão defpertar ao Abbade , e a feus criados , e a todos acharão mortos. Então conheceo o Arcediago que o fonho havia lido verdade, e que pelas orações de feu bom Gonfef- for elle , e feus criados não eftavão no Inferno. Poz-fe de joelhos, dando graças a Deos noíTo Senhor pela mer- cê, que lhe havia feito, e porque lhe concedia tempo para chorar fuás culpas , e fazer delias penitencia. Pro- poz firmiílima mente de fe emendar dalli por diante, e de tomar outro género de vida. Tratou de dar fe- pultura aos defuntos , e tornando à fua terra , avifou a feus criados do perigo , em que eftava fua falvação , e da visão , que tivera , exhortando-os a penitencia , e que na mudança da vida o feguiíTem , jà que na vida larga, e deliciofa o havião feguido. Pagou cumprida- mente os falarios , e dividas , que devia , e dando o ref- tante de fua fazenda aos pobres tomou o habito de Sao Francifco, e perfeverou emrigorofa obfervancia atè o fim de fua vida. Avifou a muitas peíToas conhecidas como as havia vifto à mão efquerdà dojuiz, e em par- ticular a dous criados. Huns , e outros fizerão pouco cafo de feus avifos, e fe virão nelles infelices fuccef- fos ; mas elle teve felicilHmo fim , paflando deíla vida carregado de merecimentos ao Ceo. Daqui fe vê â im- portância grande de ter hum bom GonfeíTor , pois to- da a falvação deite Arcediago confiítio em ter hum ConfeíTor bom , douto , e fanto. O GonfeíTor ha de fer como o Medico , Cirurgião , e Sangrador ; não ha de olhar para o melindre , ou grandeza do enfermo, G iii fe- I ^m^ ioi Compendio Narrativo fenão para o rifco , em que eítá da faude da alma. Andando à caça Filippe II. Rei de Caítella, foi- Ihe neceílario fangrar-fe logo , e chamarão o Sangrador daquella Aldeã, em que então fe achava, porque não havia outro. Pérguntou-lhe o Rei, fefabia aquém ha- via de fangrar? Refpondeo: Sim, a hum homem. Ef- timou grandemente o Rei ao Sangrador , e fervio-fe delle dalli em diante. AíTim hão de fer os ConfeíTores, e todos osquecoítumão fallar deíintereíTados ; não hão de olhar para refpeitos de Principes, nem de dignida- des Eccleííaíticas. Nunca íuccederia aquelle tão laítimofo cafo a cer- to Ecclefiaítico deita America , ha bem pouco tempo, fe eíte foíTe advertido defeus ConfeíTores, e Prelados. Muita mercê me fareis , fenhor , diíle o morador , fe roo contardes, porque não tive noticia deíTe fucceíTo. Sabei, lenhor, IhediíTeeu, que, fegundo huma carta, que ouvi ler, feita noanno de 171 5". foi o cafo na for- ma feguinte. Hum Sacerdote deita America eítava pu- blicamente concubinado com huma mulher havia mui- tos annos, com grande efcandalo de hum povointeiroi mas todos lhe diffimulavão eíte peccado, ainda aquel- les, que opodião emendar, e reprehender. Succedeo pois que em huma noite eítando elle com a concubi- na em huma facada das cafas , em que morava , para ver certo feítejo , que na rua fe fazia , pegou o fogo em huns barris de pólvora , que eítavão nas loges das mefmas cafas, e fez o incêndio voar o edifício , e do ar veio huma trave, que cahio fobre ambos , e os matou , fi- Eftecafo canc *o todos os mais, que junto delles eítavão , livres fuccedeo do perigo, Notável cafo, fenhor, me diíTe o morador, em Per- para exemplo de todos , e mui efpecialmente para os ITcila Eccleflafti cos , que fabendo o quanto devem fer efpe- ãc de 1J } os da virtude , eítão dando efcandalo com o feu máo Olinda, viver aos fecukres. Mas Do Peregrino da America. 103 Masjà, fenhor, que tão bem me tendes inítruido (continuou o morador) no modo , com que fe ha de confeílar hum Chriítão , e das partes, que ha de ter hum bom ConfeíTor, com tão claros exemplos, tomara que me eníinaíTeis o como poderei agradar mais a Deos com algumas orações , e em que forma poderei eítar orando, fe de joelhos, ou empe, ou também aíTenta- do '? Haveis de faber , lhe difle eu , que ha muitos li- vros efpirituaes , que nos inculcão por vários modos como devemos orar vocal, e mentalmente , e por eíta razão me pudera eu efcufar de fatisfazer ao que me pedis ; porém com exemplos vo-lo direi o mais byreve que puder. Primeiramente haveis de entender que Deos não fe paga de muitas palavras , porém íim de hum cora- ção contrito , e humilhado. Iíto fuppoíto , a oração, ou meditação he a noíTa riqueza efpiritual , por fer o negocio , em que a náo da noíTa alma fe carrega nas índias das virtudes das cargas dos merecimentos , pa- ra fazer viagem para o Reino do Ceo , fervindo-lhe de farol o entendimento ,0 qual fe accende no lume celeítlal do Sol Divino , e enchendo- fe as vellas do prof- pero vento dos fantos affectos do amor de Deos ; e pof- ta huma alma neíte mar de graças , baíta que reze as fuás contas com muita attençao \ porque aíTim como todas as embarcações , para fe poderem fegurar das correntes do tempeíluofo mar , necelTitão de fe amar- rarem com boas amarras, e firmes ancoras, aíTim tam- bém os Chriftãos, para fe poderem fegurar dastempef- tades do mar deite Mundo , hão de trazer as amarras nas mãos , e as ancoras no coração, iíto he, as contas nas mãos, e as palavras do Padre noíío , e Ave Maria no coração , para fe poderem livrar de irem à coita defamarrados , e perderem- fe nos penedos, e baixos do peccado. E então a Virgem noíTa Senhora vendo eíta G iv fir- m . 104 Compendio Narrativo firmeza , intercederá por todos a Deos , para que não periguern no mar das culpas , e vão feguros ao porto da fal sração ; porque não ha oração mais agradável a Deos que a do Padre noílb , pela fazer o meímo Chriílo noííb Senhor, e a Ave Maria, por fer feita em louvor de fua Mãi SantiíRma. E eílas orações ditas, e medi- tadas, como fe devem dizer, e rezar, baítão para nos grangearem a graça de Deos. Aílim rezava aquelle Santo Lavrador , que fempre fe levantava ameia noite, eeítava em oração atè ama- nhecer. Começava a confiderar, Padre noíTo, que ef- tás nosCeos. E mettendo-fe para dentro da grandeza, efantidade de tal Pai, e vendo a fua baixeza, e vileza, chorava amargamente, por fer filho tão indigno deite foberano Pai: e neítas coníideraçôes ficava arrebatado atè amanhecer, dizendo mil males de fi, eque era tão grande peccador , que nunca podia acabar hum Padre noífo. líto he fer fanto. Senhor (mediíTe o morador) tomara faber donde vemeíla palavra, ou nome de fan- to. Ser fanto , lhe diíTe eu, vale omefmo que fer ho- mem são depeccado, defa pegado da terra , e com me- recimentos para gozar de Deos na Bemaventurança. Iílo fuppoíto , dizia hum , que não fabia ler : Eu eftou occu pado em ler o meu livro , que tem trez folhas. Pela manhã atè o jantar leio a primeira folha, que he preta , na qual leio os meus peccados , e as penas do Inferno , que mereço , e me desfaço em lagrymas de contrição. Depois atè Vefperas leio a fegunda folha, que he vermelha , e nella leio a Paixão do Senhor , e efpero perdão , e me animo a levar a minha Cruz , e feguir a meu Senhor. De Vefperas por diante leio a terceira folha , que he de ouro , e leio nella a gloria do Ceo , e com quantas fadigas , e penas a alcançarão os Santos, e me animo a obrar bem pelo caminho dellcs. E para confirmação do que vos digo , ouvi o feguinte cafo. Era ^SS! Do Peregrino da America. 105 Era Santo Iíidoro Lavrador, e entrando huma vez em huma Igreja , e vendo nella a Chriílo Senhor noíTo, foi tal o arredio defeuamor, que não podendo por ou- tros termos melhor explicar- fe , e fazer a fua oração, rompeoneílas palavras, dizendo: Senor, fivós tuviera^ desganado, yo os los guardara. E poriílb teve tantos merecimentos para com Deos,que chegou a fer tão gran- de Santo. Iíto fó he fer bom eíhidante , e Grammatico efpirituai, que foube fazer bem a fua oração. Mas que importa que muitos fejão grandes Latinos, e ainda Fi- lofofos , e Theologos , e darem- lhe as partes da ora- ção, fe as não fabem concordar em género, numero , ecaíb, que são as trez virtudes Theologaes, Fé, Efpe- rança, e Caridade ; nem conformarem- fe com as oito partes da oração, que são as Bemaventuranças. EaíTim vos digo , que todos podem ter oração, e meditação, ainda os que não fabem ler, nemefcrever, meditando na Paixão de Chriílo Bem noífo, e nos qua- tro noviílimos do homem , que são Morte, Juizo, In- ferno , e Paraifo ; fabendo os Mandamentos , e guar- dando- os mui inteiramente ; crendo firmemente no que contém o Credo , e os Artigos da Fé , por ferem Myílerios de noíTa falvação , e fendo mui devotos da Virgem noíTa Senhora, para alcançarem ofcu patrocí- nio para com Deos. Em quanto ao como devemos eílar quando oramos, as nolTas forças nos eníinarão ; porém pelo grande ref- peito, que fe deve a Deos , eílando com faude , fempre he acerto eílar de joelhos; mas nocafo que o nãopof* fais fazer, também fe pode orar em pé, ou aíTentado, e ainda deitado ; porque Santa Maria Magdalena orava muitas vezes ( por enferma , e fraca ) deitada , e nem por iíTo deixava de agradar a Deos a fua oração; porém nunca fera acerto eílar fallando no tempo de orar. E feito iíto com defejo de maior perfeição , não Compendio Narrati vo poderá faltar a graça , e auxilio de Deos para nos falvar Verdadeiramente vos poílb afirmar , me diíTe o morador, que eflou fatisfeito do que vos tenho ouvi- do, que tenho por venturofo acerto o chegardes aef- ta cafa , pelo bem efpiritual , que tenho recebido de voíTa difcreta converfação ; porém como feja tarde, tendes naquelle apofento cama , podeis ir defcançar. E logo me recolhi a huma camará , que ficava na mef- ma varanda , onde paíTei a noite. CAPITULO XI. Falia o Teregrino do primeiro Mandamento da Lei de 'Deos , com muita doutrina efpiritual , e mo- ral^ e reprehende o grande abujo dos calundus , feitiçarias , que fe achão introduzidas no Eíla- do do Brazil. ^J Ao era ainda de todo dia , quando ouvi tropel jL^I decalcado na varanda, e confiderando andar nel- la o dono da cafa , me puz a pé , e fahindo da camará , o achei na varanda , e lhe dei os bons dias, e elle tam- bém a mim. Perguntou-me , como havia eu paíTado a noite ? Ao que lhe refpondi : Bem de agazalho ; porém defvelado, porque não pude dormir toda a noite. Aqui acudio elle logo, perguntando- me, que caufa tivera? Refpondi-lhe , que fora procedido doeítrondo dosta- baques, pandeiros, canzás, botijas, e caítanhetas , com tão horrendos alaridos , que fe me reprefentou a con- fusão do Inferno. E para mim , me diíle o morador, não ha coufa mais fonóra para dormir com focego. Aiíto lhediíTe eu: Com razão dizem osnaturaes, que vivem junto do rio Nilo , que não fentem o eítrondo- fo fuíTurro de fuás correntes ; e pelo contrario os que vão de fora fenao podem entender, ainda quando mais ai- Do Peregrino da America. 107 alto gritão. Senhor, mediíTe o morador, fe eu foube- ra que havíeis de ter eíTe defvelo , mandaria que. eíta noite não tocaíTem os pretos feus calundus. Agora entra o meu reparo, IhediíTeeu. Pois, fe- nhor , que coufa he calundus ? São huns folguedos , ou adivinhações , me diíTe o morador , que dizem eíles pretos , que coflumão fazer nas fuás terras ; e quando fe achão juntos , também usão delles cà , para faberem varias coufas, como as doenças, de que procedem , e para adivinharem algumas coufas perdidas, e também para terem ventura em fuás caçadas, e lavouras, epara outras muitas coufas. Verdadeiramente ,fenhor, lhe diíTe eu, que me dais motivo para não fazer de vós o conceito , que atè agora fazia, pois vos ouço dizer que confentís navof* fa fazenda, e nos voíTos efcravos coufa tão fuperíticio- fa, que não eítais menos que excommungado , e os vof- íes efcravos , além de ferdes transgreíTor do primeiro Mandamento da Lei de Deos. Acudio o morador di- zendo : Como aííim , fenhor ? Tornai-me a explicar eíTe ponto, que me tendes metttdo em grande coníu^ são. Sabei , fenhor , lhe diíTe eu , que além de terdes peccado mortalmente no primeiro Mandamento da Lei de Deos , eítais excommungado , e todos os vof- fos efcravos , por convirdes, e confentirdes em feme- Ihantes fuperfrjções contra o mefmo Mandamento. Porque haveis defaber que efte preceito de amar a Deos he (como diz S. Mattheus cap. 22. verf. 38.) o primeiro , e o maior Mandamento. Por eíle precei- to fe prohibe , e condena todo o culto dos ídolos , e fuperítições, e ufo de arte magica , e fe manda guar- dar tudo o que pertence à verdadeira Religião , a qual fomente dá culto, honra, e adoração julta , e devida a hum fó Deos verdadeiro , eterno , immenfo, e omni- potente , Trino em PeíToas , e Uno na EíTencia. Eíbe pre- • , /": io8 Compendio Narrativo preceito de amar a Deos , confta claramente de toda a Sagrada Efcritura, Por elles temos obrigação, tanto que chegamos a ter ufo de razão , faber de memoria os Mandamentos da Lei de Deos , fob pena de pecca- do mortal, e a explicação delles: em tal forma, que fe ignorantemente peccamos, também ignorantemente havemos de ir ao Inferno , porque he culpa grande ignorar aquillo, que temos obrigação de fabermos. E não baíta que hum diga : SouChriftão , ou : Vivo em terra de Chriítãos, fenao também he neceíTario ir ouvir , e aprender a palavra de Deos para fi , e para a enfinar à fua familia , fe a tiver j porque para os que vi- vem nas trevas da gentilidade coftuma a Divina pro- videncia ufar de fua mifericordia com elles , mandan- do-os alumear com a luz da Fé pelos operários do San- to Euangelho, aosquaes chamou Chriílo luz do Mun- do, (Matth. cap.ç. verf.14.) e por outras palavras, candea acceza. (ibid. verf.15.) Eftas luzes forão en- tão os Sagrados Apoítolos , e Santos Doutores, e são agora os Pregadores da Igreja , que nos pregão o San- to Euangelho. E também permitte fua Divina miferi- cordia, que muitos deites gentios fejão trazidos às ter- ras dos Catholicos , para os enfinarem , e doutrina- rem, e lhes tirarem os ritos gentílicos, que là tinhão aprendido com feus pais. E fenão, dizei-me: He fem duvida que eíles ca- lundus , que vós chamais , e confentís que ufem delles os voífos efcravos , e na voíTa fazenda , he rito , que cof- tumão fazer, e trazer eítes gentios de fuás terras. Tam- bém he certo, que por direito efpecial de huma Bulia do Summo Pontifice fe permittio que elles foíTem ca- tivos, com o pretexto de ferem trazidos ànoífa Santa Fé Gatholica , tirando-fe-lhes todos os ritos, e fuperíH- ções gentilicas , e enfinando-fe-lhes a doutrina Chrif- tã, o que fe não poderia fazer , fe fobre elles não tivef- fé- Do Peregrino da America. 109 femos domínio. Logo como fe lhes pôde permittir ago- ra que ufem de femelhantes ritos , e abuíbs tão indecen- tes, e com taes eítrondos , que parece que nos quer o demónio mandar tocar triunfo aofom deíles infernaes inílrumentos , para nos moílrar como tem alcançado vi&oria nas terras, em que o verdadeiro Deos tem ar- vorado a fua Cruz à cuíta de tantos operários , quan- tos tem introduzido nefte novo Mundo a verdadeira Fé do Santo Euangeiho ? Não vos parece que tenho razão para vos eíhanhar , e a todos os que iílo con- fentem , e diflimulão em terras de Catholicos Chrif- tãos? Dizei-me : Atrever- fe-ha algum Chriítão ir fazer, os ritos , e ceremonias da noíTa Santa Madre Igreja 3 terra de infiéis, fem que lho prohibao elles com rigo- rofos caftigos? He fem duvida que não. Logo parece que tacitamente (ou para melhor dizer, expreífamen- te) fe eílá eíte peccado da idolatria , e feitiçaria per- mittindo neíles povos , e Chriítandade , pois não ha caíligo. Oh (deixai-me dizer) por ifíb experimenta- mos 4 e havemos de experimentar muitos caíHgos , fe não houver cobro em coufa tão importante. Là dizia o Profeta Ifaias : Ai de mim, porque callei. ( cap. 6. v.$.) Como fedilTera: Ai de mim , Senhor de Iírael, quantos peccados hei confentido, e quantas maldades hei dilíimulado , e callado , as quaes , fe eu as repre- hendêra, fe emendariãoj fe eu as defcubríra, fe caíli- garião. Senhor, me dilTe o morador, jà que tão bem me tendes explicado o que eu tanto ignorava , e de que não fazia cafo , permitti-me mandar chamar eíles efcra- vos à noíTa prefença, que o de mais , com o favor de Deos, em quem confio, e adoro , eu o evitarei. E logo def* pachou hum fâmulo a chamar os mais efcravos, os quaes ainda que de vagar, forão chegando; e por mais diH- gea- iro Compendio Narrativo gencia, que o dono dacafa fazia, para que chegaíTe o meítre dos calundus , não era poÂivel , fendo que o dia era Domingo , e não havia occupação. E chegando emfíraelle, e todos os mais à minha prefença, pergun- tei ao meítre dos calundus : Dize-me , filho , ( que me- lhor fora chamar- vos pai da maldade ) que coufa he calundus? O qual com grande repugnância , e vergc* nha me diíTe, que era ufo de fuás terras, com que fa- zião fuás feitas , folguedos , e adivinhações. Não fabeis, IhediíTe eu, eíla palavra de calundus o que quer dizer em Portuguez ? DiíTe-me o preto , que não. Pois eu vos quero explicar, lhe diíTe eu, pela etymologia do nome o que figniíica. Explicado em Portuguez, e La- tim, he o feguinte: Que fe callão os dous: Cala duo. Sabeis quem são eit.es dous , que fe callão ? Sois vós, e o diabo. Calla o diabo , e callais vós o grande peccado , que fazeis, pelopa&o, que tendes feito com o diabo, e o eílais eníinando aos mais , fazendo-os peccar , para os levar ao Inferno quando morrerem , pelo que cà obrarão junto comvofco. Aqui tendes a explicação deíTe horrendo peccado , o qual por fua natureza , e malicia he tão peílimo , que fe vós foubeíTeis a quali- dade deíTa culpa , e o mais , fugiríeis delia como do mefmo Inferno. Mas dizei-me : Sabeis vós as orações ? DiíTe-me o preto , que fim. Pois dizei-me o Credo , lhe diíTe eu. E querendo o preto dar-lhe principio, nunca o pode pro- ferir , nem acertar. Aqui fe começou a atemorizar o dono dacafa, e os eferavos, enchendo-fe de temor, e horror. Ao que acudi eu, dizendo, que não temeflem ao inimigo , poíto que o tiveíTem à viíta , porque com ajuda deDeos, em quem eu tanto confiava, havia elle de fahir deítruido; pois nada pôde, fem Deos lho per- mittir. E logo lhes diíle , que todos diíTeíTem comigo a oração feguinte : Eis a Cruz de Chriílo aqui , efpi- ri- Do Peregrino da America, iii ritos máos fugi , que do tribu de Judá o leão foi ven- cedor da geração de David : alleluia , alleluia , alle- luia. E repetindo eu todo o Credo, e os Mandamentos da Lei de Deos , perguntei ao preto , fe cria em Deos Padre todo poderofo ? Ao que me reípondeo , que fim cria verdadeiramente. Pois fe credes , lhe diífe eu , e fabeis os Mandamentos da Lei de Deos, nos quaes fe nos manda que o honremos , e amemos fobre todas as coufas , que razão tendes para crer no diabo , e fazer que eftas pobres miferaveis creaturas , remidas com o preciofo fangue de meu Senhor Jesus Chriíto , creão , e idolatrem em fuperíliçoes , e feitiçarias do diabo? Aqui fe callou o preto. Então lhe diífe eu : Pois fabei , ( e a vós todos vos digo o mefmo } que por eíle noíTo bom Deos deveis deixar todos os bens , e haveres do Mundo , e ainda ao mefmo pai , e mãi , mulher , e filhos , e le neceíTario for entregallos ao facriíicio , como de boa vontade o fez Abrahão alfaac. Era feu único filho Ifaac, eman- dando-lhe Deos que o facrificaíTe , por obedecer a Deos , cujo amor excedia ao do filho , opoz em execução , ao que Deos acudio, fufpendendo-lheogolpe, por ter co- nhecido afuafé, eamor, e nos dar exemplo. E a razão he , porque mais devemos a Deos que a todo o Mundo ; e fenão , vede. Eíle Senhor nos tem dado vida , e o mefmo fer, e nos promette falvar, dando-nos os bens da gloria , o que nenhum dos noíTos parentes , nem o poder de todo o Mundo nos pôde fazer > porque tudo. eftá dependendo deite immenfo Deos. E reparai com attenção as muitas , e grandes obri- gações , que deveis a Deos , por vos ter dado confie- cimento defi, e por vos ter tirado de voíTas terras, on- de voífos pais , e vós vivíeis como gentios , e vos ter trazido a eíta , onde inítruidos na Fé viveis como Chrif- táos, e vosfalvaes, Fez Deos tanto cafo de vós, edif- .tQk " ih Compendio Narrativo to mefmo que vos digo , que mil annos antes de vir ao Mundo o mandou efcrever , e profetizar nos feus Livros, que são as Efcrituras Sagradas. Virá tempo, diz David, em que os Ethíopes (que fois vós) deixa- da a gentilidade , e idolatria fe hão de ajoelhar dian- te do verdadeiro Deos. Eque farião aífim ajoelhados? O mefmo Profeta : Farão oração, levantando as mãos ao mefmo Deos. E quando fe cumprirão eílas duas pro- melTas , huma do Pfalmo fetenta e hum , e outra do Pfal- mo íeífenta e fete ? Cumprírão-fe principalmente de- poisque osPortuguezesconquiítárão a Ethiopia Occi- dental: eeílão-fe cumprindo hoje, mais, e melhor que em nenhuma outra parte do Mundo , neíta America, aonde trazidos os mefmos Ethiopes em innumeravel numero , todos com os joelhos em terra , e com as mãos levantadas ao Ceo , crem , confefsão, e adorão todos osMyíterios da Encarnação, Morte, eRefurreição do Creador , e Redemptor do Mundo , verdadeiro rilho de Deos , e da Virgem Maria , e em fim todos os mais Myíterios da Santiffima Trindade. Vede fe pôde haver maior beneficio , que efcolher- vos Deos entre tantos idolatras, e diíFerentes nações, trazendo- vos ao grémio da Igreja, para quelàcomvof- fos pais vos não perdeíTeis , e cà como filhos feus vos falvaíTeis. Pode haver maior benificio ? E vós pagan- do-lhe tanto pelo contrario com voíTos abufos , que- rendo defprezar efte beneficio por huma cega promef- fa diabólica , e tão vil entretenimento. Logo fe aílim he , no que não pode haver duvida : fe o credes , e o confeífais , como eftais obrando o contrario , fem te- mer o caftigo deite Senhor , fiados em que he pai , quan- do lambem he de juíliça , e tão re&o , que nos ha de pedir conta de tudo o que obrarmos contra os feus Mandamentos? Aqui começou o dono dacafa, poíto de joelhos ài- Do Peregrino da America, irj diante de huma Imagem de Chrifto Senhor noíTo , que eítava em hum Oratório da mefma varanda , a dizer em altas vozes : Senhor Deos , mifericordia ; e logo todos repetimos o mefmo em vozes altas , com mui- tas lagrymas , e demos principio a rezar todas as Ora- ções » e Ladainhas. Acabado eíle grande acto , diíTe eu ao dono dacafa, que mandaííe vir todos os inítru- mentos, com que fe obravão aquelles diabólicos folgue- dos ; o que fe poz logo em execução , e fe mandarão vir para o terreiro, e no meio delíe fefez huma gran- de fogueira , e nella fe lançarão todos. Alli foi o meu maior reparo , por ver o horrendo fedor , e grandes eítouros, que davão ostabaques, botijas, canzas, caf- tanhetas, e pés de cabras, com hum fumo tão negro, que não havia quem o fupportafle , e eítando atè en- tão o dia claro , fe fechou logo com huma lebrina tão efcura, que parecia fe avizinhava a noite *, porém eu, que flava tudo da Divina Mageítade, lhe rezei o Cre- do, e immediatamente com huma frefca viração tudo fe desfez. Alli os fui confortando , e exhortaírdo , de forte , que mettidos em confiança do poder ,.e amor de Deos , ficarão muito contentes. Então lhes diíTe eu : Para que venhais no conhe- cimento do que são os erros , e abufos , com que o diabo tem introduzido em tão varies povos, e nações eíla feiencia , e peite infernal de feitiçarias , e adevi- nhações , fabei que varias forão as fuperítições anti- gas entre a gentilidade , as quaes ainda hoje as obfer- vão os Mouros , porque prognofticavão por canto das aves , e a eítes chamão Arufpices , e vaticinavão por voz, e movimento dosanimaes, e pelas entranhas das vi&imas. Aeílas fuperítições feajuntavão outras , hu- ma das quaes he a Geomancia , que depende de certas figuras , circulos , e pontos formados em terra , e eíta ainda hoje fe vê entre vós- outros obfervada. A Pyro- H nian- H4 Compendio Narrativo maneia fe funda em algumas obfervaçôes ridículas de cores , e movimentos de fogo. A Hydromancia con- Me em barro , em caldeirões de agua , deitando dentro algumas coufas com diverfas ceremonias fuperíHcio- fas, A Quiromancia he a que hoje profefsão os Siga- nos, de mentir, e enganar pelas raias das mãos; e com fer manifefto engano , ha nos homens appetencia.de faber o futuro. Outra feiencia ha , a que chamão Af- trologia judiciaria, a qual pôde fer certa em quanto à ©bfervação do movimento dos Aítros ; porém Deos fobre tudo. E o mais douto , e acertado fundamento de todo efte difeurfo he , que todos nafeemos para morrer , e que trabalhemos muito para feguirmos os confelhos de Chriílo , para nos falvarmos. Eíla he a mais certa doutrina , que eu vos poffo inculcar , e a todos os mortaes , e que deixeis de confultar a eii.es falfos oráculos mentirofos , que não fabem mais que enganar- vos, e levar- vos ao Inferno. ■ Alli paliei todo aquelle dia a rogo , e perfuasão do morador, em varias converfações , todas dirigidas a bom fim , e a propofito deíle primeiro Mandamen* to , dizendo- lhe o quanto lhe importava oceupar aos feus eferavos , e familias em os exercitar na doutrina Chriftã, elivrallos de ruins companhias, porquedeílas tem refultado muitos damnos, e oííenfas de Deos. -i Contou-me então o morador a eíte propofito o seguinte cafo. Sendo eu eítudante (diíTe elle) na Ci- dade da Bahia , me manifeftou huma mulher parda, como em certa occafião outras quatro , duas pardas, huma branca, e outra crioila, a induzirão com perfua- sões, dizendo-lhe, que feellaquizeíTe ter ventura com os homens, com quem tiveíTe amizade illicita , havia de ufar do que ellas faziao , porque de outra forte fe nao havia deaugmentar, nem ter nada de feu. Eleva- da deitas perfuasões as acompanhou huma noite de ef- Do Peregrino ba America, iij efcnro a certo lugar defviado da Cidade , e depois de feitas as ceremonias , chegando a huma paragem con- íignada , lhes appareceo vifivelmente o diabo em for- ma de hum grande cão mui negro ; e degois de lhes fazer mui grandes feílas, e affagos, tratou deter con- cubito comellas; e chegando a eíla parda com o mef- mo intento , lhe diíTe elía , que não convinha em tal peccado; elogo lhedeo humdefmaio tão grande, que não tornou em li, fenão no dia feguinte , achando-fe em caía de huma das camaradas , ou ( para melhor di- zer ) das inimigas. E perguntando- lhe eu , quem erão as da conlulta , nunca mo quiz defcubrir. Eíla parda, que mereferio eílecafo, faleceodalli a poucos tempos, e com demonítraqões de mui boa Chriílã, fe- gundo o que me pareceo. Também me havia certifi- cado , que depois de fe confeíTar deite fucceílb , não tivera amizades deshoneílas com homem algum , è que havia feito voto a Deos de guardar caílidade. E depois confeíTando-me eu do que tinha ouvido , me diiíe o ConfeíTor, que eu fizera mal em não denunciar da parda ; porém como foííe ignorância , e não malí- cia , e por ler jà falecida , me abfolveo. Atèqui o mo- rador. Ahi tendes o exemplo , lhe diíTe eu , do que fejão êíles adjuntos , e feílas dos calundus. E ainda mal, que tanto pode o inimigo com femelhante gente , e não fei fe diga , Iílo he bem que fe diga , para confusão de alguns Chrif- tãos prefumidos de mui entendidos, ignorando a Dou- trina Chriítã, que todos eílamos obrigados afaber, fob pena de peccado mortal , porque tem muitos para íi, que lhes baíta que os tenhão por homens práticos, bem failantes, everfados em ditos fele&os, fendo que pouco importa que hum faiba bem fazer huma Deci- ma , ou hum Soneto , fe não fouber a Doutrina Chriítã , que he porque Deos nos ha de perguntar , e do que nos havemos de aproveitar para noífa falvação. Porém iílo fuppoíto , para maior luz , e íntelligen- cia deite fegundo Mandamento , havemos de advertir que nelle fe não prohibe abfolutamente os juramentos permittidos em Direito Divino , e humano , quando a razão , e juítiça os pedem, com verdade , e neceílida- de , e em juizo. Eítes juramentos fe devem entender em trez formas, que são aífertorio , comminatorio , e execratorio : todos são de huma mefma efpecie , por- que todos fe ordenão a hum mefmo fim , que he con- firmar , e manifeítar a verdade ; e £ ó o que fe prohibe neíte Mandamento , he jurar falfo , trazendo a Deos por teítemunha ; e também fer hum homem tão pou- co advertido , e menos Chriítão , que por quafi nada tenha por jufo invocar a Deos , e a feus Santos, fem in- gente neceífidade : iílo he , trazer , e jurar o Santo No- me de Deos em vão , fem caufa , ou neceífidade ur- gen- — ^» M Do Peregrino da America. 125 gente. Tenho entendido , fenhor , me diífe o mora- dor, e fico de acordo para perguntar daqui por diante o que não fouber acerca da Doutrina Chriítã. Mas jà ( que falíamos em juramentos , tomara que me expli- cafleis , fe além deites , que me acabaítes de dizer , ha mais formas, ou nomes delles, porque vejo que fe tra- ta nos auditórios do judicial de outros nomes de jura- mentos , e tomara faber qual delles he mais arrifcado, quando fe vão dar, e por juítiça fe obriga a que fé jure. Refpondo, lhedhTeeu: Suppoítos os muitos no- mes, que lhes dá o Direito civil, e fe tratão nos audi- tórios , ( porque fó hum Author chamado Rocafuli, quer que haja dezefeis formas de juramentos, tom. 2. tra&.x. lib. 1. fedi:. 2. num. 52. & feq. ) reduzillos-hei a trez formas , que mais vulgarmente fe praticão nos auditórios , que são os feguintes : Juramento de calum- nia, fuppletorio, e deciforio. Juramento de calumnia coítuma pedir o reo , e dar o author , quando fe põe em algum líbello , ou ar- tigos, ou fe dá alguma querela; eneíte juramento de- clara o author, febem , e verdadeiramente põe aquel- la caufa, e a pertende provar fem dolo, ou malicia. Juramento fuppletorio fe permitte , quando nas caufas entre partes fe não acha plena , e concludente prova, pela qual os Miniítros pofsão determinar as íentenças, ecoítumao mandar, que osauthores jurem fuppletoriamente em fupprimento de prova, para de- clararem as circumítancias , e fadto da caufa , porque fuppõe ©Direito, e os Miniítros , que não haverá pef- foa, que jure falfo. Juramento deciforio he no cafo , que hum au- thor manda citar ao reo ; e vindo eíte a juizo , fe lhe permitte que jure fe deve o que lhe pede o author em fua acção, e por eíte juramento , fe confefla , fica (condenado o reo 5 e abfoluto , fe jura que não deve. Cha* Compendio Narrativo Chama-fe vulgarmente juramento da alma. Neíta forma de juramento tem introduzido a ma- licia grandes abufos , e a maior parte deita culpa tem os Advogados ; ( e não fei fe diga que os ambicioíbs folicitadores ) porque fuccede mandar hum homem citar a outro; e vendo- fe o reo citado, cego de raiva, e talvez falto de dinheiro , bufca a hum Letrado , e muitas vezes a hum Requerente , e diz-lhe, que para aquella audiência o mandarão citar. Pergunta- lhe o Advogado , ou o Requerente : Pois deveis , ou não ? Refponde-lhe o miferavel apaixonado , que não deve coufa alguma. A iíto lhe diz quem o aconfelha: Pois ide à audiência, que là averiguaremos iíTo. E quando lhe diz, que he verdade que deve, porem que não eítá em tempo de lhe pagar, coítumãorefponder-lheacon- felhando-o : Tendes o remédio na mão, dizei que he verdade que deveis , porém para pagar para tal tem- po. Vai hum deites mui contente, edá hum juramen- to falfo, e o peior he, que diíto fenão confeíla, por- que diz , (como a alguns tenho ouvido dizer) que o Letrado, ou Requerente o aconfelhára aílim , porque o entende mui bem. Pôde haver maior defgraça ? Que por huma tão limitada paga queira hum homem dar tal confelho, para ir, e levar ao outro comfigo ao Inferno , poden- do- lhe dizer : Senhor , quem deve paga, ou roga, ou vai à cadea : confeílai a divida puramente , e depois fazei por vos compor com aparte, porque não ha ho- mem tãotyranno, que vendo ao feu devedor confeflar a verdade , lhe não dê huma efpera , para lhe poder pagar ; e quando por iíTo tenhais alguma moleítia na execução, confiderai que porterdes fido demorofo na paga, retendo o alheio, padeceis eíTa execução, e mo- leítia, eque melhor he padecer neíte Mundo qualquer detrimento, que ir pagar ao Inferno. Hum — — — «tf Do Pfregriko dá Amekica. 117 Hum cafo vos quero contar , que fuccedeo em certa Villa , diante de hum Juiz de vara vermelha , e podia fervir de arefto para alguns de vara branca. E" foi , que mandando citar hum homem a outro para fua alma, por certa quantia , que lhe devia, vierão o author , e reo a juízo ; e fazendo o Miniílro ao reo as perguntas judiciaes , reparou que elle fe perturbava , enaquelle breve intervallo acudio o Juiz, dizendo ao reo : Eu entendo o que pertendeis , he fem duvida que deveis , e quereis que o author vos dê huma ef- pera para lhe poder pagar. DiíTe o reo : Aflim he, fe- nhor. Pois jurai a verdade, lhe diíTe o Juiz, que todo o bem fe fará. ConfeíTou o reo a divida , e depois de fe ter feito o termo , diíTe o Juiz a ambas as partes, que lhe farião muita mercê acharem-fe em fua cafa a taes horas , o que aíTim lhe promettêrão ambos. Era eu mui amigo do Miniílro , e folicitei achar-me tam- bém prefente naquella occafião , como com effeita me achei , e chegando àquelle termo , não faltarão^ Perguntou então o Juiz ao reo , qual fora a razão , porque logo não confeíTára dever ao autor c que lhe pedia na fua acção ? Refpondeo , que a razão fora, porque lhe tinha aconíelhado hum Requerente da- quelle auditório ( nomeando-o ) que juraíte não dever coufa alguma , ou que , fe confefíaíTe a divida, podia tomar o tempo da efpera , que lhe pareceíTe , e que eítava confiderando naquelle tempo o que faria. E tendo o Juiz ouvido o que relatara o reo , mandou chamar ao Requerente , e chegado eíts , lhe perguntou o Juiz , em que livro f ou Ordenação achara aquelle ponto? Ao que lhe refpondeo o Requerente, que ou- vira dizer , que fe praticavão aquelles juramentos em muitos auditórios, E logo lhe diíTe o Juiz : Pois para que não obferveis , nem aconfelheis femelhante pra- tica 8 vos hei por fufpenfo , e mando que vades prezo» pot .. i ;." ; i'.; Compendio Narrativo por oito dias , para que nefte tempo façais exame de confciencia , para melhor vos poderdes confeíTar , de- pois de folto , do que coítumais aconfelhar às partes. E tomou o Juiz do feu dinheiro , e pagou ao author, dizendo ao reo , que efperava de fua pontualidade , que para tal tempo lhe não faltafle. No feguinte dia fui eu pedir pelo Requerente ao Juiz , dizendo-lhe, que jà tinha feito exame, eeítava arrependido, a cuja petição foi folto. Deita forte fez aquelle Miniítro , com que hum não perdeííe a alma , e ao outro fe lhe não dilataíTe o feu pagamento , por entender que eítava obrigado o reo a refarcir o damno ao author pela mora ; quando não juraífeabfolu ta mente, que lhe não devia coufa al- guma, que ainda mal que coítumão muitos affim fazer. Porém (fallandocomtodoorefpeito, que fe deve aos fenhores Miniftros) parece-me que fe devia man- dar em femelhantes acções ler onarratorio da petição , ou perguntar ao author de que procede aquella divida , e depois ao reo em que a pagou , por fe não refolver. tão brevemente nas duas perguntas , fe deve , ou não deve. Fundo efta minha razão nas palavras da Ordena- ção lib. 3. tit.io. onde fe manda na forma feguinte: Ao Juiz pertence mandar fazer os adtos neceífarios para a ordem do Juizo, aílim como libello, ou petição, poref- crito , ou por palavra, conteítação , juramento de ca- lumnia, artigos contrários de replica, &c. Enomefmo titulo §.1 . diz aílim : No começo da emenda , dirá o Juiz a ambas as partes , que antes que facão defpezas , e li- gão entre elles os ódios , e diftensòes , fe devem con- cordar , e não gaftar fuás fazendas por feguirem fuás vontades , porque o vencimento da caufa fempre he duvidofo. E iíto que dizemos de reduzirem as partes a concor.lia, não he de neceífidade, mas fomente deho- neítidade, nos cafos, em que bem o puderem fazer. Bem Do Pêreçrinç da America, 119 Bem fei que me dirão os profeífores defta facul- dade que a lei , poílo que falia nos prefentes termos, tem outra intelligencia, evadas interpretações, enão falia expreílamente na acção de juramento da alma, que tratamos ; porém eu ( com licença dos fenhores Juriílas) digo, que fe deveen tender genericamente, e Into modo , que também fe pôde tomar no prefente fentido , por fe evitarem tantos juramentos falfos em juizo , huns por malícia , outros por equivocação , e muitos por fe ignorarem as circumítancias da acção, fe jà não he falta de exame dos Miniftros , com tanto prejuízo das partes , do que refulta perderem huns a alma , e outros a fazenda. Ahi me parece que ouço dizer aos Miniítros, me difle o morador, que acaufa, porque não podem eftar com eílas perguntas , e refpoítas , ( além de parecer pro- lixidade) he por não tomarem o tempo às partes no breve de huma audiência. A iíTo lhe diífeeu , { não en- íinando , porém a-dvertindo) que me parecia poder- fe remediar tudo, com ferem os Minillros mais zelofos, e cuidadofos em vir mais cedo a fazer as audiências, e os advogados mais promptos em lhes aííiftir , pela obrigação das fuás partes, (porque osEfcrivães tem a pena impoíta pela lei , que os obriga , conforme feu Regimento) e logo haverá tempo, e lugar para tudo; porque aífim como ha tempo para a vifita , e para ou- tros divertimentos , com maior razão não deve faltar para aquillo, que lhes he tanto de obrigação, por não incorrerem no peccado de omifsão , nem experimen- tarem o rigor, com que Deos promette julgar asjuíti- ças : Cúm accepero tempus , ego jujiitias judie abo. (Pf. 74. 3.) F.u tomarei tempo 9 diz Deos, para julgar as juíHças. Se Deos para julgar as confeiencias dos que governão , diz qne ha de tomar tempo , como fe po- derão efeufar os homens de tomar tempo , para com I acer- 130 Compendio Narrativo acerto obrarem aquilío , que Deos , e o Rei lhes tem encarregado por obrigação de feus ofiicios , e cargos, em que lhes não vai menos que a fua falvação , ou con- denação eterna? Porém o que mais eítranho , e tomara que fe emen- daíTe, he o que hoje vejo tão praticado no Mundo ; e vem a fer, huns certos oradores com capa de virtude, os quaes procurão muitas vezes tirar a juftiça a quem a tem , para a darem ao que a não tem. Como aílim , fenhor ? me difíe o morador. Coílumão certos ho- mens , lhe diíTe eu , com prefumpções de honrados, ir a cafa de hum Miniílro a perfuadillo, que dê huma fentença , ou defpacho contra eíte , em favor daquelle. Acção digna de hum grande caíligo , e reprehensão, tanto pela oífenfa de Deos , e do próximo , como pela injuria , que fazem aos Miniílos ; porque além de fe- rem os Miniílros doutos , e terem livros , e faberem entender o Direito , moílrão eítes taes oradores , que ou os querem eníinar , ou fobornar : motivo , por que fe não ouvem muitas vezes os clamores da razão , pe- lo eítrondo dos refpeitos. Porém o que mais he para reparar, efentir, he ver hum Sacerdote (fe jà não he Religiofo) ter valor para pedir a hum Miniftro, que dê huma fentença injufta ; e talvez por lhe ficar em cafa, ou na cella a remuneração do pedido. Boa doutrina nos deixou nefte particular o noíTo Rei D. João II. porque não queria que lhe pediíTem mercê por terceira peíToa , e deita forte ficavão os vaíTallos em divida ao feu Rei , porque os premiava, fegundo feu merecimento , e efcufavão de agradecer a outro a mercê, que refultava de fua mefma juíHça; porém eíláhoje eíte negocio em taes termos , que não manda o Efcrivão os autos à conclusão , fem o dar a faber à parte, para ir, ou mandar pedir a fentença em feu favor. Oh horror, e laítima , para fer chorada na Re- - Do Peregrino da America. 131 Religião Chriítã ! Não digo o mais , que finto , pela mo- deília, e refpeito, que fe deve a tão alto eílado. Porém eítesMiniílros, quando fe lhes forem pe- dir eíTas femrazões , refpondão como là refpondeo o Papa Benedito XII. o qual pedindo-fe-lhe da parte de hum Rei certa injuítiça , refpondeo : Dizei a eíTe Principe que fe eu tivera duas almas, poderia dar por elle huma ; porém que não tenho mais que huma , e não quero perdella. Verdadeiramente que melhor não podia refponder. Na verdade vos digo , me diíTe o morador , que muitohademiíter defanto, quem houver de de fprezar refpeitos humanos , pelo que eítamos vendo hoje no Mundo. Dirvos-hei , lhe diíTe eu , todo o homem , que teme a Deos , e fabe a conta , que lhe ha de dar, faz muito por acertar em qualquer cargo , ou poder, em que fe vê conítituido. Conta- fe doPapalnnocencio, que mandou retra- tar-fe em huma lamina com huma velaacceza na mão, dando os últimos arrancos. Efte quadro tinha poílo fempre diante dos olhos em hum bofete ; e quando havia defentenciar, ou definir alguma coufa, primeiro punha os olhos na pintura , e meditava na morte , e conta, que havia de dar a Deos do feu officio ; e aíEm fe efcreve que foi muito ajuílado o feu governo. Porém como fe ha de ajuftar a Lei Divina , e ainda às humanas , o que fò põe. os olhos no interefie , e o cuidado nos refpeitos? Além do que ha outras muitas razões , que fazem aos Miniftros atropelar a Lei Divi- na , e negar o fentido das leis humanas, fendo que fa- rão, e são fundadas em muita razão , e juftiça, como pode ver quem as ler comattenc.ão, Honrofa coufa he o officio de Miniílro ; porém ha de entender quem o procura, que fe não affenta na cadeira para defcan- çar , fenão para trabalhar ; e que fendo hum fó , deve I ii ne- .. ■ — J 131 Compendio Narrativo negociar o bem de todos ; e grande ignominia fera para hum Miniftro , que manda a todos , fer efcravo dos vicios. Temerofas são as fentençás , que os Santos derão neíta matéria. Seja a primeira a de S.João Chryfofto- mo , fallando dos que governão em qualquer eftado„ Muito duvido , diz o Santo, fe falve algum. E excla- mando S. Bernardo, diz que a ambição de mandar, he doce fifcal da vida humana. E qualifica eíle penfa- mento S. Gregório , dizendo , que tem por apoftata todo o que fe goza com fuperioridades , e mandos do> Mundo , e dá a razão ; porque o tal pertende ante- por- fe ao mefmoDeos. Santo Agoftinho dizia que em nenhuma coufa fentia a Deos tão irado contra fí , co- mo quando fe conílderava Prelado , entendendo que muitos, para feu mal, exercitão o officio de emendar. Confeífou de fi S. Pio V. que quando Religiofo , ti- nha efperanças de fe faívar , quando Cardeal , temia muito , quando Papa , quafi defconflava. E a razão de tudo dá S. Gregório, dizendo que fe não podem con- tar os vicios, que nafcem da ambição, com que o ap- petite de dominar a outros, fe acha nos que governão^ Iíto fuppoílo , não quero dizer-vos que não haja Prelados , nem Miniítros , para governarem as Reli- giões , e as Republicas ; porque he muito necefTario, e affim o mandou Deos ; porém o que fe deve procu- rar he que fe obfervem as Leis Divinas , e humanas com toda a inteireza , porque todas são fundadas em muita razão, e direito; porém os homens levados dos ; interefíes, e refpeitos humanos, são os que as perver- tem; motivo, porque fe vem tantas liberdades, eabu- fos contrários à virtude , como o experimentamos: líto nos quiz Chriíto moílrar naquella Parábola do' Euangelho, quando diíTe que houve hum homem , que- femeou bom trigo, em feu campo ; porém dormirão os Do Peregrino da America. 133 os que haviao de vigiar fobre elle , e entretanto veio : o demónio, e femeou fizania. AíTim fuccede, quando os Prelados, e Miniítros dormem , e não vigião fobre a obfervancia das leis , e eílatutos para governarem aos feus fubditos. O primeiro Juiz , que houve no Mundo de vara vermelha foi Moyfés, porque nos quiz Deos moítrar, que aílim como deo a Lei , que são os dez Manda- mentos , era necefíario que houveiTeMiniit.ro , que a fizeíTe guardar, e obfervar feus preceitos. E que foífe Moyfés Juiz de vara vermelha, e por iífo mais rigoro- fo, não fe pode duvidar , porque foi grande executor da Lei , pelos caítigos , que fez a Faraó , e ainda ao feu mefmo povo , como confía da Sagrada Efcritura, e por iífo a Deos chamavão então Deos das vinganças^ Não faltava Moyfés às obrigações de feu cargo , por- que fe não deixava levar dos refpeitos humanos , tra- balhando muito para julgar com acerto , fubindo ao monte a tratar com Deos ; jà defeendo ao valle a caíti- gar , e reprehender ao povo. E que titulo vos parece lhe derão? Não foi menos que de Vice-Deos , que a tanto como iílo chegao os homens , pela boa juítiça, que fazem. Outro Juiz, e o primeiro de vara branca, que hou- ve no. Mundo , foi Chriíto noífo Senhor , o qual veio do Ce o a embarcar- fe na Náo de Santa Maria, e def- embarcou no porto , ou portal de Belém , e logo man- dou apregoar pelos Anjos paz aos homens , ( Luc. cap.x. n. 14. ) porque os vinha governar de boa vonta- de , defpachado da Meza do Paço da Santiíftma Trin- dade, trazendo o poder , o faber, e o amor. Foi áffif- tido de Anjos , adorado dos Reis , e vifitado dos ho- mens , os quaes lhe tributarão , e oíferecêrão muitas offertas, e regalos; e nem por iííb deixou de fer mui- to humilde, defprezando a foberba 9 e re&o em fazer I iii juf- . mu. 134 Compêndio Narrativo juítiça. Veio pobre , viveo independente , morreo defpido, e partio-fe para a fua pátria com muitas en- chentes de graça, pelos merecimentos., que fez na ter' ra em todo o tempo de feu bom governo , levando o titulo de B.ei , ( Matth. cap. 17. n.37.) o qual gozará para toda huma eternidade. (Pfalm. 2,3. num. 7.) Quem me dera imprimir eíta verdade no coração de todos os Miniítros, por noíla, efua conveniência! Pela noíTa , todos o fabemos , e digão-o os pleitean- tes; pelo que refpeita à dos Miniítros, não ha coufa, de que mais fe temão , que de huma má reíidencia i fendo que nós , eelles a devemos temer muito , quan- do no-la tirar aquelle recliííimo Juiz Jesus Chriíto. Muito nos detivemos acerca dos Miniítros , me diíTe o morador , fem me dizerdes que partes hão de ter , para ferem bons , e fazerem fua obrigação. Pois fabei , lhe diíTe eu , que tudo he neceflario , e muito mais , porque de hum bom Miniítro depende o bem de huma Republica. Não confiíte o fer bom Miniítro em fer temido de todos , fenão em fer a Deos muito obediente : e deita máxima depende a bondade do julgador ; porque aíllm como dos olhos nafce o ver, também do bom exemplo procede o aprender. Se o Miniítro teme a Deos , logo faz boa juítiça , e todos o temem , e faz venerar a Deos , e guardar as Leis. Entremos agora no juramento entre partes , que, eomo também fe comprehende neíta forma de jura- mento deciforio , de que tratamos , neceífariamente delle havemos de fallar, e para melhor intelligencia, ponho hum exemplo. Quer Pedro pôr huma deman- da a João , e a primeira coufa , que faz, he bufcar tef- temunhas \ fe a caufa não he da natureza daquellas, que fe provão com documentos , ou Direito , bufca Pedro a teítemunha, e diz-lhe: Senhor, eu tenho in- tentado eíta acção contra João, pertendo provar eíte, ou Do Peregrino da America. 135 ou aquelle artigo, &c. quero que me façais mercê ju- rar aquillo, que fouberdes. Atè aqui vai bem; porém diz-lhe a teítemunha : Eu deíTe cafo não fei coufa al- guma , porque não prefenciei eíTe negocio ; de mais que fou amigo , ou inimigo de João, e não quero que fe diga que juro apaixonado. Aqui entrão agora as boas palavras , os carinhos , e affagos , as offertas , e promeílas , ou para melhor dizer a calumnia , de que pedia David a Deos que o livraile. (Pfalm. 118. 134.) Diz lhe a teílemunha: Tudo farei por vos fervir. Chega o termo da dilação , vai a teílemunha a cafa do Eícrivao , e pergunta-lhe o Inqueredor pelo articula- do ; e defde que começa a jurar, atè que acaba, fem- pre eílá mentindo ; porque fe diz a verdade , mente, ao Author, fe jura pelo que prometteo, condena-fe a li, porque jurafalfo. E aílim diz David ( Pfalm. 26. n.) que a maldade fe mentio a íi mefma. Tende mão , fenhor, me diííe o morador, deíTa forte nunca fe pôde jurar fem encarregar a confcien- cia, logo melhor he não ir jurar. Refpondo, lhe dif- fe eu , por vos livrar deíle efcrupulo ; e reparai nos termos , em que vos fallo. Baíta que diga o Author à teílemunha que quer que lhe jure na fua caufa, o que fouber na verdade ; porém não perfuadindo , nem af- fagando com dadivas , e promeífas , que iílo he com- prar a teílemunha. E por iíTo o Direito approva fem- pre as maiores da excepção , na confideração de que não forão fobornadas as partes. Juramento entre partes ha de fer livre , jurando a teílemunha a verdade ; e fe necefíario for , e fouber o contrario do articulado , deve jurar centra dtícen- tem\ porque deíla forte falva , e livra a fua confeien- cia. E nenhum fe engane , cuidando que baila dizer que foi jurar por fazer bem a eíle, ou àquelle , e me- nos por foborno de promeíTa , ou amizade ; porque I iv da- i$6 Compendio Narrativo daqui fuccede perder Joáo a fua caufa , e a teítemu- nha cahir no peccado de confequencia , e reflituição, além do juramento falfo. Também he peccado mortal deixar de dar o ju- ramento, fabendo a verdade, porremiíTo, ou malícia, razão , por que fe permitte em Direito que fe polTa obrigar à teílemunha por juítiça a dar feu juramento, para fe faber a verdade das partes , e a decisão dos pleitos. Porem eu agora dera hum confelho, que ain- da que velho , por iíib mui verdadeiro , e vem a fer, que mais vale hum ruim concerto que huma boa de- manda , por não vir a experimentar femelhantes con- troversas , e ditos de teftemunhas , com tantas incer- tezas no vencimento das demandas. E por iíTo admiravelmente o noíTo Séneca de Por- tugal D. Francifco Manoel , quando diíTe que fempre deíejára a feus inimigos trez males : pedir, ainda que lhes deíTem : jogar, ainda que ganhaflem : e pleitear, ainda que venceffem. E deita forte me parece vos te- nho dito o que bafta , a refpeito do que me perguntaíte. Senhor, mediíTe o morador, eftou mui fatisfeito do que me tendes dito , e explicado acerca deite fe- gundo mandamento , pois me declaraítes muitas cou- fas, que eu ignorava : pague- vos Deos tão grande fa- vor. São horas de cear , fazei-me mercê de aceitar efta boa vontade , o que lhe agradeci , por fer favor gratulatorio, feito a peííoa , de que fe não podia efpe- rar remuneração , como a de hum Peregrino. E de- pois deo-me poufada , onde paliei a noite ; e porque me accommodava acordar cedo , por gozar do frefco da manha, antes de amanhecer mepuz a pé, e medef- pedi do morador com moítras de agradecimento , e cortezia, por fer paga, que cuíta pouco, e vale muito. CA- — -: ,.\ Do Peregrino ba Amekica. 137 CAPITULO XIII. SD0 terceiro Mandamento. Aconfelha o Teregrino o como devem os fenhores tratarem a/eus ej cra- vos , e famílias y faz>endo-os guardar os 'Domin- gos, efejlas, com vários exemplos de doutrina. COmecei a feguir a minha jornada por entre ame- nos campos , e copados arvoredos , que com o brando terral, fazião agitação às flores, que exhalando fragrantes aromas , me fuavizavão o fentido do olfa&o , e para recreação da viíta , me lifongeavão o fentido de ver tantas arvores floridas , fem mais cultura que a fabrica da natureza , que as havia aperfeiçoado , e muitas com viftofos pomos , de que participei , e ou- tras com elles ainda em agraço , promettendo feliz abundância , para convidar aos caminhantes , que^delles quizeffem participar ; porque nefle particular são mui liberaes as arvores de frutos da America i as quaes, co- mo não devem o trabalho aos agricultores , liberal- mente entregão os frutos aos que delles fe quizererrt aproveitar. Tendo caminhado naquelle dia atè quaíi às quatro da tarde , ouvi perto da eítrada , por onde fe defcia a hum valle, amufica paftoril de pretos, que parecia fe eítavão fuavizando do jugo do trabalho 5 porém como era dia Santo, fuppuz que nãoeíhtrião em tal occupa- ção. Encaminhei para aquella parte os pálios , para tomar informação, onde me ficaria mais perto a cafa, em que paílaíTe a noite y e dahi a pouco aviítei doze efcravos, entre machos , e fêmeas, todos trabalhando em huma lavoura , na occupação de cavar. Cheguei g faudei-os, e lhes perguntei fe era dia Santo? Ao que me refpondêrão que bem fabião. que não era dia de tra- í wm '» J , ; 138 Compendio Narrativo trabalho ; porém que feu fenhor os mandara para a- quelle ferviço , e lhes dizia que fe comião naquelles dias, também havião de trabalhar, e fealgum orepug- nava fazer , o caítigava ; e porque erão cativos , não querião experimentar maior rigor , por ferem pretos, pobres, humildes, e defamparados por fua grande au- feria. Filhos, lhes duTe eu , bem conheço que não eftá da vofTa parte a culpa de quebrar o preceito defte ter- ceiro mandamento ; porém de dous males devemos eleger o menor. Dizeis que fenão obedecerdes avof- fo fenhor , além de vos caftigar , vos não dará o fuf- tento : foffrei-o com paciência , e levai efte trabalho com cruz : fervi com humildade, que vos fera menos penofo ; e o que he peccado , fendo voluntário , e por goílo quebrar eíte preceito , fendo obrigado , e vio- lento , fera merecimento ; e vale mais trabalhar , e obe- decer a voíTo fenhor do que fugir ; porque diíTo re- fultão muitos inconvenientes , e peccados , como he o furtar para vos fuílentardes , encher de ira a voíTo fenhor , para que vos caftigue. Deos nunca falta a quem nelle confia : ha de acudir-vos, como coíluma, nos maiores trabalhos. Também os brancos vão fer cativos à terra de Mouros , e fervem dobradamente , e fe lhes não dá Domingo , nem dia Santo : là virá tempo , que voíTo fenhor fe vá confefíar , ou também algum bom homem o advirta deífe erro, em que vive: e não vos pareça que voíTos fenhores, por ferem bran- cos, e forros , deixão de fer caítigados por Deos, por não guardarem feus Mandamentos ; porque poíto que todos querem fer glorificados com Chriílo , para go- zarem da fua gloria , hão de padecer , e procurar ter parte na fua Cruz ; pois he confequencia infallivel que quem não padecer por Chriílo , não terá o pre- mio da gloria, que nos prometteo. Nem Do Peregrino da ÂmeriCa. 139 Nem vos metta defconfiança a voíTa cor preta , e ferdes humildes , e defprezados no Mundo por po- bres , porque eíle he o meio , por onde fe alcança o Reino do Ceo. Chriíto Senhor noíTo , que he o noíTo verdadeiro exemplar, na fua Sagrada Paixão, foi pre- zo, açoutado, defpido, paííou dias, e noites com dif- velo, padeceo fomes, e frios, efoi todo mal tratado, e affrontado dos homens, atè que opuzerão emhuma Cruz , onde padeceo morte affrontofa, pára noíTo ref- gate ; e quando nefte lugar fe vio , então deo a gloria ao Bom Ladrão , porque também o vio pobre , nú , e crucificado ; porem em todo eíle trabalho , e defpre- zo , em que fe vio o Bom Ladrão , fempre efteve fir- me , e confuante na Fé. Áífím vos peço que vos não deíconfoleis, quando vos virdes mais pobres, rotos, e caíligados por voíTos fenhores : então crefça mais a voíTa confiança em Deos, que vos dará por premio do voíTò trabalho (fendo conílantes na Fé) a Bemaventu- rança , como a tem dado a S. Benedi&o , a Santo An- tónio de Calatagirona , e a outros muitos Santos pre- tos ; porque fuppoíto ainda não eítejão canonizados, ha noticia de muitos pretos , que morrerão com opi- nião de Santos, por viverem ajuítados na Lei de Deos. Eu conheci hum preto cafado, por nome Manoel, em certa Villa , o qual fendo cativo , tinha fua cafa na fazenda de feu fenhor, mui limpa, e afleada, e na va- randa tinha hum nicho feito, enelle hum altar, onde eitava collocada huma Imagem deChriíto, e outra da Senhora do Rofario , com outros Santos , e todos os dias cantava o Terço de noífa Senhora com fua mu- lher, e filhos, e depois feaífentava em hum aíTento, e exhortava aos demais , que viveíTem bem , e que fof- freíTem o trabalho temporal , porque maiores erão as penas da outra vida: para o que jà que fervião todo o dia a hum homem, ao menos de noite não deixafíem dQ: " I4q Compendio Narrativo de louvar numa hora a Deos , que os havia de falvar: Comeítas, e outras razões os capacitava, e evitava de muitos vicios , e peccados. Era mui bem viílo de to- dos os brancos , e nas eleições de fuás Confrarias , é , Irmandades tinha o primeiro voto , pelo zelo , com que fervia a Deos, e a Senhora do Rofario nafua Ma- triz. Teve mui boa morte , e acabou com mui boa opinião. O que agora vos peço, diíTe eu aos efcravos, lie que me encaminheis para a cafa de voíTo fenhor , e depois que eu là eíliver , fazei muito porque vos veja ir do trabalho. Aííim o promettêrão elles fazer, fi- cando muito agradecidos do que eu lhes havia relata- do, para alivio de feu trabalho. Cheguei pois à cafa do morador, e elle fahio lo- go a receber- me com demoníirações de grande corte-. zia , dizendo-me , que não fabia com que palavras me fignificaíTe o grande contentamento, que tinha de me ver chegar à fua cafa. Fiquei eu admirado , e confu- fo , por fer homem , a quem eu nunca tinha vifto ; e parecendo-me que fe enganava comigo, depois de me ter dadoaíTento, lhediííe: Senhor, agradeço-vos mui- to a grande demonítração , que me tendes feito neíte agazalho; porém como ignoro a caufa de tanto favor, pergunto- vos , o que vos perfuade a feítejar a minha vinda? Senhor, me diíTe o morador, a eíla hora che- go de cafa de hum meu compadre , onde paífei hoje o dia, e na converfação , que tivemos , me diíTe , que foubera de hum homem, que eftivera em cafa de hum feu vizinho , haverá trez dias , o qual hia de marcha em trage de Peregrino , e que da fua breve aífiíten- cia refultárão muitos ferviços a Deos , por fer caufa de evitar hum grande abufo , que achou introduzi- do em cafa daquelle morador , acerca de ufarem de calundus , e feitiçarias, os feus efcravos ;e por iíTo r aífim Do Peregrino da America. 141 afíim como vos vi, meperfuadi que íbisvó» o mefmo, de quem tenho ouvido publicar o que vos relato ; e prezo muito agora a vofta prefença , para também de vós colher algum bom confelho, e doutrina. Refpondo, fenhor, ihediíTeeu: Affim fuccedeo ; porem entendei que não reconheço em mim partes, por onde poíTa fer louvado ; e fe alguma coufa fiz , e obrei neííe particular , foi tudo obra de Deos ; por- que muitas vezes fe ferve eíte Senhor de hum humil- de inftrumento , para obras de mui grande perfeição; porque he tal o poder de Deos , que tem feito que o mefmo diabo, fendo pai da mentira, e maldade, def- cubra , e diga coufas , que firvão de bem para muitas almas, do que tereis lido , e ouvido contar vários ex- emplos ; e fora erro, e louca prefumpção minha o ter para mim que poíTo obrar obra boa , fem que concor- ra a Divina mifericordia de Deos; e de não haver efte certo conhecimento , eftão os livros cheios de vários exemplos ; e o mefmo Euangelho por São Mattheus (cap«7.v. 15-.) nos certifica que ha homens, que no ex- terior são ovelhas , e no interior lobos : moíbão hu- mildade no exterior, e no interior são a mefma fober- ba : moftrão honeftidade publicamente , e no fecreto* são a mefma luxuria : moftrão fer cafa, e apofento de toda a virtude, e são morada de todos os vicios. Eíles taes enganão aos homens , e tem confufos aos demó- nios ; em algum tempo lhes fuecedem coufas, por on- de fendo conhecidos , são> dos demónios mofa , e dos; homens efcarneo. E fe não , vede o que fuccedeo aos. mefmos Difcipuíos de Chrifto Senhor noíía. Vinhaa elles muito contentes por terem feito milagres'', e dei- tado diabos fora ; diíTe-Ihes o Senhor :. Eu via a Sata- naz cahirdoCeo, como hum relâmpago. (Luc.ro.i8.) E foi dar-lhes a entender que com a luz do Ceo, cheio de foberba cahio nos Infernos \ e aífím que ne- nhum 14* Compendio Narrativo nhum fe pode defvanecer , nem prefumir que pode obrar coufa alguma fem a graça de Deos , e de outra forte fera foberba, e não humildade. DeOngenes fe conta que foi de tão alto entendi- mento, e de engenho tão feliz, que em pouco tempo aproveitou a muitos em as Divinas letras, efantidade; e de entre muitos, que coníta da fua lenda, fediz que foi Meílre de Santa Barbara , e era tal o feu zelo de converter almas, que andando dehuma parte para ou- tra, pregando, e exhortando a Fé de Chriílo, chegou a compor, e efcrever féis mil livros ; e de fua grande doutrina o affirmão vários Santos, e Doutores da Igre- ja, Dionyfio Alexandrino, Santo Athanafio , Severo, Sulpício, Vicencio Lirinenfe, dizendo, que nenhum homem mortal efcreveo tanto, como Origenes, cujas obras ninguém as pode ajuntar todas ; e por fim veio a perder toda eíta opinião, por lhe faltar a fé, e temor de Deos, e entrar em grande prefumpção , parecendo- Ihe que bailava ter huma virtude, para fer confirmado em todas. O mefmo fe conta daquelle grande Bifpo de Cór- dova em Hefpanha , chamado Ozio , o qual foi ho- mem mais nomeado, efamofo, que houve no feu tem-; po, de letras, e virtudes; e baila que feache em mui- tos Concilios , e fempre foi admittido o feu voto , e parecer, e o fim, que teve , fe pode ver na fua lenda ; porque fegundo o que delle fe efcreve , acabou com mui má opinião de Catholico , por fe defvanecer na prefumpção de fabio , e por fe querer introduzir com hum Principe herege ; que não pode haver maior def- graça, que morrer hum Chriílão feito herege. Salomão , de quem afrirma a Sagrada Efcritura, que era mais fabio que todos os homens , com fcien- cia infufa , e muito mimofo de Deos , eílá em duvida fua falvação. Epor Do Peregrino da America. 143 E por ultima conclusão deite difcurfo, haveis de entender que todo o cuidado , e exercicio da vida Chriítã, feha de fundar, e reduzir a trez coufas, con- vém a faber : boas obras , evitar culpas , e íbffrer pe- nas. Eítas trez coufas são neceíTarias para fe falvar huma alma ; e não baila huma delias , nem duas , fem a outra , porque he certo que não baíta que huma pef- foa faça huma obra de virtude, fenão evitar as culpas em outras matérias, e fobre ambas eílas coufas he ne- ceíTario que as penas , e trabalhos , que Deos nos en- viar, as levemos com paciência, e humildade; ecomo para o podermos fazer não baítão as forças humanas fem a graça , e ajuda de Deos , devemos folicitallas por meio de o fervir, e amar. Aeíletempo, que eu tinha acabado o difcurfo da minha converfa, chegarão os efcravos do ferviço , dan- do-nos as boas noites ; e o morador fem fe faber de- terminar, equaíi fentido, por ver que me achava pre- fente, diífe aos efcravos, que foíTem guardar as enxa- das , e que depois lhes fallaria y porem eu que eítava à mira , efperando occaíião , lhe perguntei logo fe erão feus aquelles efcravos ? ( fazendo-me defentendido do que com elles tinha paílado na lavoura , para melhor difpôr no que intentava ) Ao que me refpondeo o mo- rador, que íim erão feus. Pois, fenhor, lhe diífe eu, como fendo hoje dia Santo, os confentís trabalhar, e deixais de os mandar ouvir MiíTa , quebrando dous preceitos , hum Divino , e outro Ecclefiaftico ? Refpondo , me diífe o morador : Duas são as caufas ; porque são de tal condição eíles efcravos , que fe os mando ouvir Miíla , vão metter-fe por outras fazendas, com folguedos femelhantes aef- íes , que ouviftes em cafa deife morador , onde eíli- veítes , e o reprehendeftes deífes calundus , e feitiça- rias. A fegunda caufa he , porque quando os mando à Mif- _ 144 Compendio Narrativo MiíTa , tomão- fede bebidas, e fazem varias brigas, def- agilizados , e traveíTuras , e poucas vezes vem para cafa , feni que lhes fucceda alguma coufa deitas ; em cujos termos , refolvo que maior acerto he, viíto darv lhes eu o fuítento , e o veítido , occupallos , porque também he certo que o efcravo ocioío ordinariamen- te cria vicios ? e deites refultão maiores offenfas a Deos. Pergunto , lhe diíTe eu : Tendes confultado eíTe VoíTo parecer com os voíTos ConfeíTores ? Refpondeo- me que não , porque tudo fe tirava da boa razão ; e como aquella lhe parecia tão ajuítada , entendia que acertava no feu parecer. Pois viveis mui enganado , lhe diíTe eu , porque nenhum , por douto que feja, fe deve governar por feu parecer , tanto peia razão do amor próprio , como por fe não compadecer com a conveniência alheia ; e por eíta caufa , ainda nas cou- fas temporaes, oeítampsvendoobfervar, comohe que por grande Medico , que hum feja , fempre tem obri- gação de confultar a fua enfermidade com cutro Me* dieo. O Letrado , também por Direito não pode ad* vogar nas fuás caufas. Os maiores talentos de virtude fempre procurão Meítres de efpirito , para confulta* re.rn as fuás duvidas ? para ferem Directores das fuás almas. Vede agora com quanta maior razão eítais obri- gado a Gonfeííar-vos deífe voffo parecer, fendo em ma- téria de tanta importância , como he hum Mandamen- to do Direito Divino , e pofitivo, e outro Eccleíiaíti- co, ambos pertencentes à honra de Deos, quando ve- mos que ainda em huma lei mental , como he a de hum, que faz o feu teítamento, e deixa eíte, ouaquel- le legado em huma verba , eíta fe não pôde derogar fem grande caufa, e por quem tenha poder por Direi- to para o fazer. E fe iíto aíilm he , como he poífivel que Do Peregrino da AmeriCa, que vós reíblvais , e determineis por voílb parecer a Lei Divina , e Ecclefiaftica ? De mais que eíTa razão, que vos parece racionavel , he apparente ; porque por iflb vos fez Deos pai de familias , o que vos não pare- ça coufa de tão pouca entidade , que fe não prezaíTe Chriílo muito deofer, comoconíla do Sagrado Euan- gelho. Quereis evitar efles inconvenientes aos vo (Tos ef- cravos? Dai-lhes bom exemplo, ide à MiíTa, levai-os em voíTa companhia , ( excepto os que são neceíTa- rios para o provimento do fuftento da cafa , que efíes irão em outra occaíião ) e vede fe aífiítem aos OfE- cios Divinos comaquella decência, como são obriga- dos, e trazei-os outra vez em voíTa companhia ; e da meio dia para a noite , deixai-os occupar em alguma coufa , que nunca lhes faltará em que fe entretenhão : dai-lhes algumas ferias no anno , em que totalmente; ceife o trabalho, comão, folguem , e fe alegrem, para que cobrem alento , e defejo de continuarem no íer- viço; e trazei-os fempre diante dos olhos, que o pre- mio , e o caíligo são dous eixos , em que fe move o acertado governo ; e deíba forte lhe evitareis as ocio- íidades, e obrando caridade. E não queirais fer como muitos fenhores de ef- cravos , os quaes não fó lhes permittem que vão por onde quizerem , fenão que vivão em liberdade de confciencia , com tanto que lhes paguem por dia , fe- mana , ou mez , hum tanto : iíto fuccede principal- mente nas Villas, ou Cidades do Brazil. Vão eítestaes efcravos , alugão hum a cafa , ou cafebre , e nelle fazem muitas oífenías a Deos, como he fabido de todos, ex- cepto de feus fenhores ; porque como lhes não procurão mais que pela paga , do mais lhes não importa faber; fem conhecerem que as culpas dos fervos defdourão muitas vezes aos fenhores , além dos peccados , em K que 14Í Compendio Narrativo que eítão encarregados , por lhes darem eftas licenças , e liberdades. E fabeis de que lhes fervem eítes recep- táculos ? De alcouce para oíFender a Deos no fexto Mandamento , de muitas feitiçarias , de covas de la- drões , e finalmente de centro, e covil de toda a mal- dade. Porém pergunto eu agora , me diíTe o morador, fe niiTo, que obrão eíTes efcravos , terão também culpa os que os confentem morar neíTas cafas , e lhas alugão, fabendoque fe fazem neliasfemelhantes infultos? Iífo deixo a feus ConfelTores , para que lhes refpondão , lhes diíTe eu, fe he que dilTo fe confefsãoi porque os ConfeíTores não coílumão adivinhar , e he prohibido em Direito por Lei Divina, e humana y porém fó direi a bem da Republica , que fe eu tivera voto em Capi- tulo , havia de mandar que todas as vezes , que fe a- chaíle cafa alugada a efcravo, a perdeífe feu dono pa- ra a Coroa , ou para aquillo , que feapplicaíTe para mais ferviço de Deos ; porque fó afiitn fe poderia por co- bro emcoufa tão prejudicial à Republica, e bemcom- mUm. Outra coufa vejo obfervar neíla terra contra a juf- tiça, razão, e caridade; evem afer, que fe ferve hum fenhor de feu efcravo em quanto são ; porém fe eíte cahio em doença importuna, e dilatada, pelo não cu- rar, nem dar lhe o íulteoto, lança-o fora de cafa, que vá pedir efmolas. A iíto havia de acudir a Republica, pondo pena ao que tal fízeíTe > e além de arbitrada, que foíle obrigado o fenhor a fuítentallo até a morte * pois fefervio delle em quanto teve faude, e força pa^ ra o fervir. Queixão-fe muitos fenhores que lhes fogem os efcravos , e lhes morrem , fendo que muitos efcravos com maior razão fe podião queixar de feus fenhores , pelos terem em fuás cafas, tratando- os tão mal. Como al- H Do Peregrino da America. 14? a'ÍTim? mediíTe o morador. Dirvos-hei: (lhe diíTe eu) A fome, e o frio mettem a lebre a caminho. Como he poilivel viver hum efcravo em hum lugar, onde oma^ tão à fome, e o deixão perecer ao frio , e fobre iíTo o fazem trabalhar? Os Lavradores em Portugal, ainda aos bois» com que trabalhão, lhes dão o fuÀento necellario, e os re- colhem do frio ; porque fe aífim o não fizeílem , tra^ balharião hum atino., porém para o outro havião de ficar fem bois , que os ajudaííem ; e eu vejo que mui- tos Lavradores no Brazil tratão tão mal a feus efcra- vos, que não fó os fazem trabalhar de dia , fenao ain- da de noite, rotos, nus, e fem fuftento. Pois com que razão fe queixa hum homem deites , que ailim obra, de que lhefujão os efcravos, e lhe morrão, faltando- Ihes elle com o neceíTario para alimento da vida. Se nas devaças, que mandai Lei todos osannos aosMiniítros, que fe perguntem por vários Gapitulos, e por bem da Republica , fe pudeíle áccrefcentar mais hum artigo, pelo qual fe perguntaíTe , fe havia fenhor, que trataífe tão mal a feu efcravo , que por iíTo foíTe caufa de que morreíTe , eu vos prometto que talvez haveria maior caridade , não por amor , porém fim por temor. Ver ávida, e a lida de muitos Lavradores do Bra- zil com os feus efcravos, faz pafmar, e parecem mais homens faltos doufo da razão, queracionaes, eChrif- tãos ; e fe não vede. Amanhece o dia, e antes que o Sol faia , fahe eíte homem da cama ,-e talvez fem fe lembrar que nafceo para morrer , levando-lhe as pri~ micias de fuás acções as occupações da lavoura , e as ganâncias do intereíTe, e começa a gritar , quando de- via começar a rezar, e éncommendar-fe aDeos. E por quem vos parece que começa a gritar ? Pelo inimigo máo , e depois por hum Congo , por hum Benguela , K ii e por 148 Compendio Naíratiyo e por hum Mina. Senhor, lhe perguntara eu, eflesef- cravos são baptizados ? He fem duvida que me dirão que fim. Pois como os não chamais pelos nomes , que lhes puzerão , quando os baptizarão ? Porque eítes ef- cravos t refpondem alguns fenhores , tem o nome de Chriítãos , porém obrão peior que o demónio. Pois fenhor , quem os poz neíTe eítado? Aqui fe callão, e com razão, porque femelhante pergunta não tem ref- poíla , pois he certo que o fenhor faz ao efcravo , á não o efcravo ao fenhor. Ah Eítado do Brazil, como te temo , e receio hum grande cafcigo , pelo máo governo , que tem muitos dos teus habitadores com feus efcravos , e famílias ! A eíte propoiíto vos contarei o que me fuccedeo em certa occafiao, vindo de caminho para a cafa de hum morador. Foi o cafo , que não podendo eu com dia chegar à fua cafa da vivenda , fiquei em huma , que elle tinha na fua roça , e lhe fervia de officina de la- voura, porém folitaria; e antes que amanheceíTe, ou- vi grandes gritos , e porque havia rifco de Gentio na- quelle fitio, quiz pôr-me em cobro, e cautela; porém cliíTe-me hum preto, que eílava em minha companhia, que não temefíe , porque aquella bulha era de branca com pretos , e logo vi com evidencia que fe não en- ganara o efcravo , porque brevemente chegou o mo- rador acompanhado de efcravos, aos quaes levava pa- ra o trabalho. Perguntei ao morador, que caufa tivera para tão grande grita ? Refpondeo-me , que partira de cafa pelas quatro horas da manhã , e que era tão gran- de a repugnância dos efcravos , por não quererem ir para o trabalho, que eíHvera indignado a matallos. E perguntando eu aos efcravos , que motivos ti- nhao , para fazerem tão grande repugnância , me ref- pondêrao : ( quiçá por me terem preíente » ou talvez pordefeíperados) Senhor, como havemos devir con- ■ ú \ * ten- Do Peregrino da America. 149 tentes a hum ferviço , quando vimos trabalhar todo hum dia , fem mais fuítento que huma limitada tami- na de farinha , fem nos concederem tempo de poder- mos bufcar o conduto , para paíTarmos eíta miferavel vida? Maisdirião osefcravos, fe o íenhor os não man- daíTe callar. Porém eu lhe diíTe então : Senhor , aífim como he certo que he neceflario para ter amigos bufcallos com prudência, e cultivallos com benefícios , também para hum fenhor ter bons efcravos , he neceíTario ta- par-lhes a boca com o fuílento, e cubrillos do frio, para terem vontade de trabalhar , dando-lhes a boa doutrina para fe falvarem ; porque tratallos de outra forte, he tellos por inimigos, e no tempo mais necef- fario vem a faltar , e com razão fe diz que o homem , que procura ter muitos efcravos , vem a fer efcravo delles. Vede agora como poderia fer aquelle homem bem fervido de efcravos , quando os tratava tão mal , qua nem o fuítento neceíTario lhes dava. Ainda mal , fe- nhor , me diíTe o morador , que fallais com larga ex- periência , e praticamente pelo que eítamos experi- mentando ; e em quanto aos efcravos, fico de acordo daqui por diante obfervar voífos di&ames , e confelhos , com a ajuda de Deos. Porém que remédio me dais para as efcravas ? Por- que eftas , me diz a dona da cafa , que não hão de ir fenão em fua companhia à MiíTa , e que chegado a irem, ha de fer com todo o preparo, e roupas , como as mais efcravas de fuás vizinhas ; e como para iíto fe carece de grande difpendio , pela maior parte nunca vão à Miíía , excepto de anno a anno , ou no dia de al- guma feita principal. Antes que refponda , e vos dê o remédio , vos que- ro perguntar huma coufa , e vem a fer , fe fois filho K iii do | ryo Compendio Narrativo do Brazil , ou de Portugal ? A iíto me refpondeo o morador que era natural do Reino de Portugal. Pois nãofabeis como làfeobfervão as mulheres com as fuás criadas? Senhor, me diíTe o morador, as filhas do Bra- zil não querem obfervar efla doutrina. Pois , fenhor, lhe diíTe eu, dahi procedem eíTas defordens ; amulher eíM obrigada a obedecer a feu marido por preceito Divino, e principalmente nas coufas, que forem diri- gidas ao ferviço de Deos ; e ainda no Direito Civil fe acha efcrito que nem os cabellos da cabeça pode cor- tar a mulher fem licença , e authoridade de feu mari- do. Dizei- me , que quer dizer que ha de ter poder huma mulher para quebrantar ri Lei Divina, eque hum homem não ha deter forças para a poder defender, e fazer obfervar? Ora cuidai niílo devagar, e commui- . ta attenção. As efcravas fe não podem veítir feda , viílão lã > porque quem as vir aíTim , dirá que aquellas roupas cuítárão dinheiro de feus fenhores , e não prefumirá que lhas deo outrem ; e quando com iíto fe não con- tentem , que he fem duvida que fe accommodarão, para ifTo ferve então o caíligo , e a reprehensão , que chamão fraterna ; porque de não haver efla advertên- cia, e caíligo, procedem muitos defcreditos, e offen- fas a Deos , que he o que mais fe deve fentir ; porque íia mulheres neíle Eílado do Brazil , que não fó diíli- mulão a fuás efcravas as õffenfas , que fazem a Deos, mas ainda as obrigão que ganhem pelo peccado para veílirem ; além do mais, que deixo de publicar ; por- que não he para proferir entre gentes , que prefumem o eílado de honrados ; porém iíto fuppoílo , là virá tempo , e hora , que faberao eítes , e eítas o quanto melhor lhes feria não haverem tido efcravo algum, por não virem a fer cativos do demónio por toda hu- ma eternidade, vendo-fe arder a íi, e a feus efcravos, fem Do Peregrino da America, iji fem terem mais que hum grande arrependimento do que cà lhes parecia acerto , e eiti mação. Meu fenhor, acabai de entender que Deos muito nos encarregou a guarda dos feus preceitos , e Man- damentos com toda a execução , e que não os have- mos de defprezar com qualquer capa de neceílidade , fenão temellos , e amalios. Reparai no que nos diz por David : Tu mand^fti mandata tua coftodiri nimts\ (Pfalm.118.4. )e em outro lugar (Pfalm.93.10.) omef- mo Rei David , como fe dííTera , e fallára para o cafo prefente \ diz elle : He poffivel que a tanto chega a tua maldade , ( fallando com qualquer peccador ) que finges dificuldade na obfervancia da Lei, e preceitos Divinos ? quando eítes fó fe devem temer , e guardar a troco de todos os incommodos temporaes , pelo grande perigo da falvação. O pai de familias não ha de fer fó bom para íi, mas também o deve fer para os mais; ha de confiderar que he cabeça daquelle corpo, e que por ella fe hão de governar todos os mais mem- bros, e para iílo vos quero trazer hum exemplo vulgar De muito grandes Santos reza a Igreja , e nos confia eítarem gozando da Bemaventurança por feus grandes merecimentos , que particularmente fizerao de virtude , como forão os Martyres , Virgens , Con- feíTores , e Anacoretas ; e baítou-lhes a eítes tratarem de fi particularmente, para fe falvarem , porem os que quizerão fer Patriarcas , que vale o mefmo , que fer pais de famílias , não fó tratarão de íi , mas também dos mais, dando-lhes Regras , fuítento, veítidos, e guar- das, que são os Porteiros , e cercando-os com muros, dando-lhes ocaítigo, e as fraternas, quando henecef- fario. S. Eento, e Santo Elias com mais grandezas de roupas. São Francifco cubrindoos de burel. Santo Ignacio fazendo-os viver do commum , dando-lhes o provimento por efmola, mandando-os pedir em quan- K iv to f ijr* Compendio Narrativo to Noviços , com pretexto de que fenão procedeffem bem , os lançariao fora da Companhia , não olhando para refpeitos , nem razões de paranteíco. O Padre Diogo Laines , fegundo Geral da Companhia , deitou a hum feu irmão fora , pelo julgar não fer digno para nella eftar, fem duvida, por conhecer o dano, que faz hum membro pobre em hum corpo. E por iílb bem julgou Séneca , quando diíTe , que perdoar aos máos , he fazer mal aos bons , porque com o máo exemplo daquelles , os bons affroxão na virtude. Ainda Santa Terefa , fendo mulher , poz Regra a feus fubditos tão ajuítada , como fe vê de feu bom regime, e governo , fazendo-os andar defcalços , por- que fe não confideraffe , que eílavão livres deita obri- gação as mulheres, que tem a feu cargo ferem fenho- ras de fuás cafas, e mais de famílias. E nifto imitarão todos a Chriíto Senhor nolfo , que fe prezou muito de fer pai de famílias , e náo fó enfi- nou a feus Difcipulos , dando-lhes regra , e forma de como fe havião de haver, que são os dez Mandamen- tos, e os Santos Euangelhos, mas também a todos nós, e por iífo nos havemos prezar muito de fermos filhos de tão bom pai, obrando bem em feu fanto fervico. E aíTim o pai de famílias tenha entendido que*não bafta que feja pio, e devoto ; ha de fer Argos na guar- da dafua cafa, dando regra, preceito, e caítigo a feus filhos, e mais família; porque não importa que fe met- ta em huma camera , e fe ponha a fazer oração men- tal , fe deixa a porta aberta , tanto a da rua , como a do quintal ,^ara que faia o filho , e o efcravo a offender a Deos ; e que fendo hum Francifcano na pobreza, queira veítir a feus filhos com huma cugula , ou capa branca, como hum S. Bento, ou Santo Elias , porque d2qui procedem tantas defordens, e gaftos em muitas cafas, e de não haver huma refolução f como a de San- to Do Peregrino da Amekica. 153 to Ignacio, para lançar fora os mal procedidos. Digo iíto, porque coíhimão dizer alguns fenhores, ou pais de famílias : Eu não hei de vender hum efcravo , ou efcrava , nem lançar fora de cafa a hum filho , por te- rem cite , ou aquelle vicio , porque são os meus pés, e as minhas mãos , e os olhos da minha cara. Mas ouvi o que diz Chriíto Senhor noííò por São Mattheus no cap. 18. v. 8. e 9. Se atua mio, ou o teu pé te efcandaliza , corta-o , e lança-o fora de ti : me- lhor te he entrares para a vida fem huma mão , ou fem hum pé, do que feres mandado para o Inferno, tendo douspés, eduas mãos; e fe o teu olho te efcandaliza , arranca- o, e lança- o fora de ti : melhor te he entrares para a vida com hum fó olho , do que feres mandado para o Inferno, tendo dous olhos. Lfto he , explicao os Expofitores : Se as tuas mãos , ou os teus pés , ou os teus olhos te levarem à occafião da culpa , evita-os , e tira-os daquelle perigo , e occafião. Vede agora com quanta razão devem eíles taes fenhores, e pais de fa- mílias cortar pela fua conveniência , vendendo o ef- cravo viciofo , e lançando fora de fua cafa ao filho mal procedido. Sei eu que coníla da Sagrada Efcritura ( Gen. cu, verf s i4) que Abrahão lançou fora da fua cafa alfmael feu filho , e de fua criada Agar , por eíte querer intro- duzir certos máos coílumes a feu irmão Ifaac , e por lho dizer , e advertir Sara. E porque fez iíto Abrahão ? Porque era homem juíto, e muito temente aDeos. Po- rém muitos fenhores, epais defamiliasnãofó não que- rem vender osefcravos mal procedidos, nem lançar fo- ra de cafa os filhos viciofos , mas antes lhes eílão diffi- mulando osvicios, epeccados, por certas conveniên- cias; mas fiquem entendendo eíles taes, que fenão cor- tarem por todos os inconvenientes, para obfervarem a Lei Divina, hão de ir, elevar aos mais comfigo ao In- ferno, Se- IH Compendio Narrativo & f Jjf" hor '™ edi f e morador, por venturofo acer to tenho a vofla vmda a efta cafa, porque me abrife &S?Í qUe , 6 , U 3tè ag ° ra traZÍa f ^ chados > ■ PoS íe g com a° P /° S / n° S d ° S maÍS } e da 1 ui e <« W» ZLZ a,uda de Deos ' Pierrô emendar efta> íalSo nS K qUe asco " fid ero muito em rifco de minha ialvaçao. E porque são horas de cea , aceitai efta boa ÍZ VoTt V0S ° ffere<ÍO ' de cear em "unha comp a - temn o r i ^ he - qUe e / VOS admi n^e a comida S'' ' a que vos me fartaltes com o paito eíbiri- tual, e logo depois da cea, nos fomos agazalhar. CAPITULO XIV. Vo quarto Mandamento. T>d o Teretrino muitos tratar a feus filhos , e os filhos de como hão 4e obedecer ajeus pais. XJ O dia feguinte me levantei a tempo , que tam- demeterZT ?™/ PZt l ÍÍO para oí e™ço, e depois enific an f P d ° d ^ n ° da cafa • e elIe de "i«n , &- vetemS 21 °§ rande .8 0Ítí >. fe não niet^ te mais que Iiunia refpiraçlo. Pela ij8 Compendio Narrativo Pelo peccado vem aos homens horrendos caílígos, e defgraças , como são doenças , mortes repentinas , deshonras , defcreditos , e infinitas penalidades , que os affligem , e por iíTo fe diz : Supflicium eftpoena pecta-* ti. Donde S. Jeronymo tirou por confequencia , que dos peccados ordinariamente procedem as enfermi- dades. Finalmente he o peccado coufa para tanto fe te- mer , como por larga experiência temos viíto , e no- lo enfinão , e moílrao os livros Divinos , e humanos , pela grande ingratidão , com que as creaturas fe hão para com Deos , efquecendo-fe dos grandes benefí- cios , que delie tem recebido ; e fe não vede. Quem lan- çou os Anjos do Geo, e ao homem do Paraifo ? Quem alagou o Mundo todo com o diluvio? Quem abrazou arnieilas finco Cidades com fogo? Quem provocou as pragas do Egypto? Quem no deferto foi caufa do catingo daquelle povo? Quem fez tragar a Dathan, e a feus fequazes? Quem foverteo aNinive? Quem af- folou a Jerufalem ? Quem cativou , e entregou a Hef- panha aos Mouros ? Tudo iílo fez a malicia do pec- cado, além de outros muitos , e grandes caftigos ge- raes , e particulares, que houve , e temos viíto , e a ca- da paíTo eítão fuccedendo. Vede agora fenão he para temer , e tremer cahir em peccado mortal : e para tão mortífera enfermidade , não ha melhor remédio que ufar do Sacramento da Penitencia. Mas tornando ao propofito das enfermidades do corpo , havemos de fuppor que muitas vezes os acha- ques corporaes são mezinhas para a noíTa alma ; pon- qm diz o Padre João Eufebio no feu livro Di&ames, Década 7. §.69. que mais gloria , eagrado feda a Deos em nos ter na cama inúteis para obrar , do que lhe dão todos os Anjos , e Santos do Ceo , e da terra. Louvai a Deos, tende paciência, e as penas, que pa- de- - Do Peregrino da America, 159 deceis, vos fervirao de alegria; e pelo contrario, fera duplicada pena a enfermidade , não havendo paciên- cia i além de que muitas vezes fuccede fermos nós mefmos ílagello da noíía faude , como por larga expe- riência eílamos vendo, e experimentando , e de vários exemplos coníta. Pois como aílim pode fer , me diíTe o morador, huma peífoa ílagello de íi próprio , quando de todos he tão appe tecida a faude ? Não fó da faude , lhe ref- pondi eu , mas também da mefma vida , pelo intenfo pezar, ou demaziada alegria. Primeiramente haveis de faber que as caufas ex- cefíivamente intenfes produzem eífeitos contrários. A dor faz gritar ; mas fe he grande , faz emudecer : a luz faz ver ; mas fe he exceffiva , cega : a alegria alenta ; mas fe he eítupenda , mata : o amor pôde fer tão extremofo , que faça loucuras : o ódio poderá fer tão extraordinário, que commetta abfurdos : as efpe- cies fe fazem venenos, ematão, tanto que pafsão dos? quatro gráos de quente a frio. Efta he a razão y porque mata o grande pezar, ou a demaziada alegria. Mas fallando agora dos eífeitos do pezar , fabel que o homem tem alma racional , que os outros ani- maes não tem : delia refultão as reminifcencias , me- moria , entendimento , razão , e vontade ,_íituadas na cabeça , membro mais nobre do corpo , íitio , e mora- da da alma racional. Pelo entendimento entende , e fente os males , e danos prefentes : pela memoria os males parlados: pela razão efpera, eteme os males fu- turos , e pela vontade aborrece eítes trez géneros de males , prefentes , paíTados , e futuros ; ama, defeja, teme , e aborrece ; por cuja caufa lhe vem tangos gé- neros de enfermidades , e tantas mottes repentinas, quando o pezar he tão grande , que baila para que de yepente a vida fe acabe > e quando he menor, vai pon- do» ■— 'kl, i para fe executar eíle mandato , faltámos em terra todos os que na ar- mada eíla vamos , e ficámos fem quartel , em que ti- veíTemos abrigo , e fem provimento para o fuílento corporal: vendo aquelle povo a feu inimigo prefente, e mui poderofo ; porque como fe havia feito fenhor de huma Ilha chamada a das Cobras , vomitava vefu- vios de fogo por bombas tão artifiçiofas , que chegava o feu veneno a offender aos moradores da Cidade , por citar a Ilha mui Yizinha delia. E pa- 190 Compendio Narrativo E para maior confusão , começou a Cidade a ex- perimentar o ardor do incêndio em numas cafas , em que fe ateou o fogo tão vorazmente, que a todos cau- fou efpanto. As baias fazião grande deítroço nos edi- fícios j e parece que fe encaminhava a maior parte delias ao Convento, e Igreja dos Monges de S. Bento, por lhes ficar fervindo de alvo a feu depravado ódio , fem guardarem refpeito à immunidade , que fe deve aos Sagrados Templos; por cuja caufa aos Religiofos lhes foi forçofo largarem' a claufura, vendo- fe em tão' evidente perigo. Como os habitadores da Cidade viíTem que oim- pulfo do inimigo fe lhe não rebatia , não havia trai- ção , que não imputaíTe aos noíTos Cabos , fegundo o ódio , que contra elles jà tinhão concebido ; e aíTim rompião em queixas, e alaridos disformes : jà não ha- via injurias , que fe não publicafíem contra todos os foldados ; motivo, porque em nada nos querião pref? tar, nem foccorrer : tudo erão eítrondos no mar, gri- tos em terra , lagrymas , e fufpiros nas mulheres , e meninos. Não fe achava ordem no governo politico , nem àe guerra. E deita grande defordem , e confusão , vim eu a conhecer que fendo a nação Portugueza de tão grande valor , e acertado confelho , forão neíta occaíião , em femelhante conílido , indetermináveis, de que procedeo a maior parte dos ruins fucceífos militares ; porque o confelho , e a preíteza na guerra , são as virtudes mais neceíTarias para o bom venci- mento. E como fe tomaíTe por ultima refolução que fe re- tiraíTem todos da Cidade , para que o inimigo pudeífe entrar fem controverila , ou receio , obedecerão os moradores com todo o rifco , e perda , ( pois fempre os Portuguezes forão mui obedientes aos preceitos de Do Peregrino da America, i e fanguinolento \ e tornando em mim t '►.«; ipi Compendio Narrativo mim, concebi hum tão grande arrependimento, que antes quizera de bom partido ficar íem nada , do que ter commettido tão atroz cafo. A eíle tempo chega- rão hum , e outro efcravo , e a ambos dei huma fatis- façãoapparente, dizendo-lhes, que houvera entrenós humas razões tão pezadas , que por querer o morto òíFender-me, lhe tirara a vida. Dei-lhe fepultura , fem mais pompa que as quei- xas das aves , e o efpanto das arvores. Fiz-me fenhor do alheio , mais por necelfídade , que por vontade , por ter concebido hum temor tão intrinfeco, que vo- lo não fei relatar. Prometti ao efcravo alforria , e ao índio hum bom premio ; porem nem eftas promeíTas forão baítantes para algum delles mais de mim fe fiar, porque a traição atè dos míticos he aborrecida. Anoi- teceo, efem embargo de eu fazer huma defvelada fen- tinella , me não valeo eíle cuidado , porque quando amanheceo o dia, me achei fó. Tratei pois de me acautelar, porque temia o pe- rigo , mais carregado dos foborços , que do mefmo pezo do ouro; e porque tiveíle menos carga, bufquei parte conveniente , onde deixei o ouro enterrado , e levando comigo o que mebaílaíle para defcubrir cam^ po à minha maldade , me parti para huma das Villas deite recôncavo , na qual pedindo agazalho a hum mo- rador, mui pezadamente mo deo , depois de lhe offe- recer quatro oitavas de ouro, E quando fuppuz que defcançava aquella noite, me vi cercado da juítiça, e entregue pelo mefmo do- no da cafa , (acção vil por certo) fegundo a noticia, que depois tive. Hivia no quarto , em que me derão o agazalho, humajanella para o quintal; efentindo eu para aquella parte rumor de gente, abri a janella , e vi que eílavão de guarda a ella hum Meirinho , e hum Efcrivão. Fiquei baítantemente aíTuílado com eíta vif- Do Peregrino da America; t$y viíh ; mas lembrando-me que efta cafta de gente (co- mo diíTe hum difcreto ) tem entranhas de rodas j pois tanto que fe vem untados , não griíão , foi-me fácil o fahir, porque lhes deixei as mãos occupadas. Dalli bufquei traças para paliar à Cidade ; e por mais que quiz encubr.ir o meu delido, foi por demais; porque experimentava o que fempre ouvi dizer: Que a mefma confcienciaaccufa. Não tive outro remédio que tornar-me a valer do occulto das brenhas , qual outro Caim depois de ter morto a Abel, pois tão ate- morizado me vejo , pelo rifco , em que me confidero f por ter lido jà duas vezes accommettido pelajuftiça, & Capitães de alTaltos. De huma me livrarão duas co- bras ; porque ãibindo a huma arvore, onde eftava hum grande caravatal , faltarão ellas de firna , e encontran- do-íe com os que me perfeguião , correrão atrás del- les, e me derão tempo de me pôr em fegurança ; e da outra vez , fazendo-fe-me embofeada junto de huma barraca, eílando eu fora delia neíla occafião, e fentin- du-os, não tiverão tempo de me prenderem, Vivo nelle território de todos aborrecido , por me confiderarem ter perdido o temor de Deos , e o refpsiro à juíliça,, fegundo os atrozes , e horrendos crimes , que tenho commettido. E a tanto chegarão os meus infultos, que defpi a hum Religioío Francif- cano , e tomando-lhe o habito , cordão , e cape lio f o deixei ir em menores. E allim não ha quem de mim fe não tema, e me defeje ver deítruido ; e poreíta cau- fa me tenho retirado da communicação dos homens, vivendo nefte bofque tão folitario. Senhor, lhe diíTe eu, baítantes caufas tem eíTes, que vos aborrecem , pelos atrozes crimes, que tendes commettido ; porem pergunto-vos : No decurfo de todo eífe tempo fizeíres alguma obra de caridade , ou tendes alguma devoção com Deos , ou com fua Mãi N San* Compêndio Narrativo Santiífíma , por onde tenhais livrado de tantos peri- gos ? Senhor , me diíTe o caminhante , íb o que me lembra ter feito , he que encontrando-me com huma mulher viuva , que levava huma filha fua donzella a pedir efmolas , para fe amparar , a deixei ir fem a of- fender , e lhe dei algumas oitavas de ouro , do que fi- cou mui agradecida ; e não tenho mais devoção que rezar todos os dias hum Terqo à Virgem noíTa Senho- ra .com aattenção , que poílb. Pois fabei, fenhor , lhe diíTe eu , que a caufa de terdes livrado de tantos pe- rigos, he a obra boa , que íizeítes a efla viuva, e à fua filha ; e mui efpecialmente a devoção , que tendes à Virgem noíTa Senhora. E como folTe jà tarde, e eítiveíTe defcarregando a tempeítade, mepedio o caminhante que nosrecolhef- femos j e com effeito entrámos para dentro da barra- ca , onde achei huma rede armada , e huma cama de Varas com humas eílopas por fima > t e na cabeceira o habito de S. Francifco; e logo me diíTe o caminhante que daquelles dous lugares efcolheíTe eu o que foíTe mais de meu agrado, eque ceaíTemos primeiro. Acei- tei a cama de varas ; e accendendo elle hum rolo de cera da terra , e pondo-me a meza , me deo de cear. DiíTe-lhe eu : 'Na verdade vos digo , fenhor , que por venturofo acerto tenho a ha ver- vos encontrado ; por- que a todos os voífos males fe ha de pôr remédio com o favor de Deos. Senhor, me diíTe o caminhante, dif- ficultofa coufa fera achar remédio a minhas culpas , e maldades ; porque ainda que a mifericordia de Deos feja muito grande , he para os que fazem diligencia para a bufcarem ; porem eu pelos meus grandes pec- cados eítou impedido de a poder achar; e fó mecon- íidero a cada inílante topar com alguma defgraça , pe- la ter tanto merecido; e por eftas caufas me tem vin- do jà impulfos, e tentações de tomar a morte por mi- nhas — Do Peregrino da America, 195 nhãs mãos, pela defefperaçao, em que me vejo, pois fou tão aborrecido, e perfeguido de todos ; eaífim te- nho aíTentado comigo , que antes me hei de matar, que deixar-me prender. Não digais iíTo , fenhor , lhe diíTe eu , que não he bem que tal chegue a proferir hum Chriítão , quanto mais executallo: não queirais feguir ospaíTos de Nero para o Inferno , o qual , como gentio , falto de fé, e cego da razão, por não morrer com maior ignominia, fe tirou a vida a fi mefmo, como fe fora mais honeílo morrer de feu delido, que por mãos alheias: além de que, haveis de faber que ainda eítais em via de mere- cer perdão de voíTas culpas ; porque fuppoíto que os attributos de Deos fejão iguaes, mais fe preza de mi- fericordiofo, que de juíticeiro; e fe não, ouvi. Muitos são os exemplos, que tem fuccedido no Mundo , por onde fe deve ter grande efperança na mifericordia de Deos, ainda que fe ha de advertir que neíle particular ha dous extremos, porque huns def- eíperão, e outros conflão demaziadamente. O confiar demaziado , os faz peccar fem temor ; e o defconfiar, com demazia , faz que defefperem, como defefperárão Caim , e Judas , e he hum peccado graviflimo , chama- do final impenitencia contra o Efpirito Santo. Sem- pre ha de haver no peccador temor , e efperança, porque vãmente efpera na mifericordia de Deos , fe- não teme a fua juítiça; e fem proveito he temer afua juítiça , fenão confia em fua mifericordia. David no Pfalmo 36. verf. 3. ufou deita maneira de nos eníinar, quando diíTe : Efpera em o Senhor , e obra bem. Por iíTo bem he que por graves peccados , que hum haja commettido, não defefpere de que Deos lhe perdoe, mas ha defer fazendo penitencia. Efpera (diz o mef- mo David ) em o Senhor , mas com a difciplina nas mãos: iítohe, dando execução à penitencia, epropo- N ii fito Mi V; Á0 Compendio Narrativo fito da emenda. O que peccou , neceíTariamente fe fe quizer faivar, ha de fazer penitencia ;efea faz , por graves que fejão feus peccados, pôde confiar na mife- ricordia de Deos , que lhos perdoará. Palavra tern dado Deos por Ezequiel (c.3 3. v.n.) dizendo : Não quero a morte do peccador, fenãoque fe converta a mim, eque viva. Ediz logo: O pecca- do não danará ao peccador em o dia , que fe conver- ter, e deixar de me offender. (Ibid.v.n) Eporlfaias (cap.49. v - r 5\& 16.) diz : Será poífivel que a mãi fe efqueça, e não tenha mifericordia do filho, quenafceo de fuás entranhas ? Pois quando ella pecca mortalmente contra eíte Mandamento de Deos. Em "*\ Do Peregrino da America, zoi Em cujos termos, vifto o grande crime, que ten- des commettido , tratai logo de refarcir o dano às partes offendidas , que são a mulher , e filhos deíTe morto, pois eítais obrigado por preceito de caridade, quando não fora divida , que vos obriga a reíHtuir, iegundo a opinião de muitos Authores, além da razão natural ; aífim o diz Salon. 22. q. 62. art. 2. Fauft. in Spe- culop. i.difp.?. q. 18. tí. tf $. EporiíTo ajuíliça coÃu- ma condenar aos culpados em pena pecuniária para as partes, que os accusão, além da pena corporal , e jun- tamente em as defpezas da mefma juftiça , que os pu- ne ; e mais ainda quando a morte foi tão tyranna, co- mo me tendes relatado. E aflim tratai de vos veíHr nefle habito de São Francifco , ide à Cidade da Bahia , bufcai o Guardião do Convento do mefmo Santo , e fazei-lhe prefente eíte cafo , debaixo do flgillo da Coníifsão , para que entregue eíTe ouro, e mais papeis à mulher deíTe mor- to ; e pedi-lhe que vos encaminhe , e moítre o melhor meio de voíTa falvação ; e elle , como Religiofo tão pio , e douto , vos guiará de forte que vos falveis , e alcanceis a Bemaventuranqa. Com os olhos arrazados em agua, entrou o cami- nhante para dentro da barraca , e fahindo com huma Imagem de Chriíto de metal em huma Cruz ao pef- coqo , e hum habito nas mãos , e em íima huma thefoura , nú da cintura para fima , me dilTe : Senhor , jà que tendes fido meu Director , fede também meu Prelado. Lançai-me eíte habito , que fupponho não foi furta- do , porém fim muito de propoíito dado por Deos , para delle me aproveitar , e fervir de inítrumento de me livrar de tão grande precipício. Cortai- me eítes cabellos, e ponde-me tonfurado também no exterior, jà que me tendes efpiritualmente diílípado os meus yicios , e más inclinações com os voííbs pios docu- men- lei Compendio Narrativo mentos, e aviíbs. E pegando eu na tifoura , lhe cor- tei os cabellos, e lhe lancei o habito, cingindo-lhe o cordão, epondo-lhe ocapello, fem mais ceremonias, que de hum affedto cordial, e animo Chriftáo. E depois de feito eíte adio , tomou o caminhante a imagem de Chrifto Senhor noíTo nas mãos , e poíto de joelhos , qual hum penitente arrependido , com muitas lagrymas rompeo em eíte Adto de contrição. A6ío de contrição. AQui tendes, Senhor, o homem mais ingrato, que cobre o Ceo , íuítenta a terra • o maior pecca- dor , que foíFre voíTa bondade infinita ; aquelle , que poz em competência asoffenfas, que contra vós com- metteo , com os favores , que de voíla mão tem rece- bido; aquelle, que defprezando as voíTas Divinas inf- pirações , fó abraçava as voíTas oíFenfas. Não fei com que palavras figniflque agora a minha dor , nem com que obras fatisfaça as minhas culpas , fe vós me não ajudardes com a voíTa graça, e me não acudirdes com voíTa mifericordia. E por iíTo agora, Senhor, aquive-, nho a pedir- vos, qual outro rilho pródigo, que me per- doeis as minhas culpas, como meu Pai amorofo. Bem fei que não mereço chamar-vos Pai , nem ter-me por filho voíTo ; porém Senhor , como tenho palavra voíTa em meu favor , dita por hum voflb Pro- feta , na qual prometíeis , que fe hum peccador cho- rar feus peccados , não vos lembrareis mais delles , e que o livrareis da morte , e das fuás culpas, e lhe da- reis a vida da voíTa graça \ por iíTo confiado , a fim de lograr tanto bem, venho, como aMagdalena, avoíTos pés , arrependido das minhas culpas , e contrito dos meus peccados, chorando-os amargamente, como São Pedro , ferindo a golpes o meu peito , como o Publi- ca- Do Peregrino da America. 103 cano no Templo , ainda que nefte ermo , porque fei , por mo enílnar a Fé , que vós em toda a parte eítais. E confeíTando minhas culpas, e lamentando meus er- ros , como tão grande peccador , vos digo , Senhor, que vos offendi gravemente, fendo vós meu amantif- fimo Pai , e Soberano Deos. E por ferdes vós quem fois, e porque vos amo , e eíHmo fobre todas as cou- fas, me peza muito de todo o meu coração de vos ter offendido : proponho firmemente de nunca mais pec- car , e de me apartar de todas as occaíiões de offen- der-vos, e perder antes todos osbenstemporaes , e pa- decer quantos trabalhos ha no Mundo , e ainda as mef- mas penas do Inferno , do que tornar a offender-vos, meu Deos , e meu Senhor. Oh bondade infinita , oh Deos amorofo , quem fempre vos houvera amado , e nunca vos houvera offendido ! A dor da MagdaJena I as lagrymas de S. Pedro , e o arrependimento do Pu- blicano, quizera eu ter, Senhor, na vida, e na morte f para alcançar de vós o perdão de meus peccados, Oh formofura eterna, que tarde vos conheci , e que tarde me conheço ! Vós , Senhor , tão bom para mim , bufcando-me para me falvar , e eu fugindo de vós , e perdendo-me , com perder- vos o refpeito. Vós me dáveis a vida, para que eu vos ferviíTe, e eu a gaf- tava em offender-vos. Vós me fazíeis tanto bem, e eu : me fazia tanto mal, aggravando-vos meu fummo bem. A vida déftes , Senhor , por me livrardes da mortes em huma Cruz vos puzeftes , para que me puzeíTe eu no Ceo j cravado com agudos ferros , por me foltar- des dos meus peccados ; coroado de efpinhos , para me coroardes de gloria ; derramando rios de fangue, por lavardes tanto à voíTa culta as minhas maldades ; cheio de tantas chagas , por me farardes de meus de- lidos ; abrindo effe lado , para que eu o yíí[q , e me metteíTe neífas piedofas entranhas ^ inclinando eíTa Sa- cra J 204 Compendio Narrativo çra Cabeça , fazende-me final , para que eu chegaífe, como o Bom Ladrão , a vos pedir perdão de meus enormes peccados, e a alcançar o favor devoíTa graça. Eílabufco comlagrymas de grande fentimento, aman- tiffimo Redemptor meu. ConfeíTo que são graviíTimas minhas culpas, e fem conto minhas ingratidões. Co- nheço que fou o maior dospeccadores, mais perdido, que o Pródigo , mais efcandalofo , que o Publicano, maisaleivofo, que Judas, ealfim fugitivo, como a ove- lha perdida, e peior , e mais máo, que todos ; e affim neceíTito de mais auxílios de voíla graça, para me po- der livrar de tão grandes tropeços da culpa , em que me vejo fumergido. Não permittais, Senhor, que eu me aparte mais de vós. Quem tivera fido , Senhor , em voíTo fanto ferviço, e amor tão diligente , e amante , como eífes efpiritos Angélicos , que vos fervem , e amão ! Quem vos fer- víra , e obedecera , como todos os Santos juntos ! Quem fempre vos houvera temido, e amado, e nunca offen- dido ! Se eu agora , fazendo-me em pedaços , pudera desfazer minhas culpas, e voíTas ofFenfas, o fizera hu- ma , e muitas vezes ; porém daqui por diante , meu Deos, com voífa ajuda, e favor, prometto, que antes me exporei a padecer todos os trabalhos deita vida, e ainda a mefma morte , que tornar a oíFender-vos. Se atè agora fui cego , louco , e fem íentidos , defde hoje prometto emendar-me. Se atè agora perdi os meus dias , e annos tão cegamente, com voífa luz pro- teíto encaminhar meus pálios , em vos bufear , minha vida , em vos fervir , e meu amor, em vos querer. Anjo da minha guarda, Cortezãos doCeo, Santos da minha devoção, Vigário de Chrifto S. Pedro, glo- riofa Magdalena , alcançai-me de Deos que os meus olhos fe facão fontes de lagrymas , e o meu coração fe desfaça em dor, e penitencia. Soberano Deos Efpirito San- Do Peregrino da America. íoj Santo, que confumís as tibiezas, eabrazais comvofTo Divino amor os corações enregelados , abrazai a eíle coração frio, para que , ainda que atè agora fui rebel- de a vofTas infpirações , daqui por diante as abrace com intimo amor. Virgem Santiífíma , Mãi de Deos, e advogada de peccadores , compadecei-vos de mim ; e jà que fois JVIãi de piedade , e de mifericordia , alcançai-me de voíío bemditiííimo Filho eflicaz auxilio de fua graça, para merecer o perdão de meus peccados , e que o não torne mais a offender , antes lhe diga fempre de todo o coração : Pequei , Senhor , havei mifericordia de mim. Amen. E depois de ter o caminhante feito eíle grande Acto de contrição, com mui copiofas lagrymas , en- trou para dentro da barraca ; e trazendo huma moxil- la, a lançou aos hombros, e mediíle : Aqui eítou, fe- nhor , à voíTa ordem , e obediência. E pondo-nos a caminho, chegámos à eítrada, e dalli a breve efpaço, encontrámos com huma efquadra de vinte homens, entre brancos, e pretos; e tanto que nos aviltarão, íi- zeraoalto, e osdous, que vinhão adiante, nosmettê- rao duas armas de fogo à cara ; e olhando eu para o meu companheiro , lhe diííe : Não temais perigo al- gum , que nem cites homens vos conhecem , nem vos hão de fazer mal. Erão eit.es dous, Capitães do mato, a que chamão dos aíTaltos ; e depois de nosfaudarmos, nos diííe hum delles : Não eítranhe Voíía Reverencia, nem voíía mercê eíta cautela , porque andamos por aqui a fazer huma empreza por ordem do noíTo Co- ronel , ao qual manda o Governador , e Capitão geral da Cidade da Bahia , que' com todo o empenho faça- mos a diligencia poílivel , para prendermos, a hum lar drão facinorofo , que anda neíta eítrada, tão efcanda- Icfo, que todos os vizinhos , e moradores fe temem „ e re- io6 Compendio Narrativo e receão delle, pelos grandes infultos, e infolencías, que tem feito , e baila que defpiíTe a hum -Religioíb do habito de voíTa Reverencia , e lhe tomafle a efmo- la, alem de outros roubos, edefaforos, que tem com- mettido ,. matando a hum feu camarada Mineiro , e roubando-o ; e tendo feito tão atrozes delidos, ainda vai continuando em maiores malefícios. Jà me efca- pou duas vezes: huma pelo não achar naoccafiao, em que o bufquei na barraca , e outra , porque fubindo a huma arvore , fahírão duas cobras ., que chamão furu- cucús, e nos fizerão correr, e fugir, por delias nos li- vrarmos , e por eíle meio teve eíle ladrão occaíião de poder efcapar. Porém agora levamos ordem , para que não fe que- rendo dar à prizão, o matemos, por livrar a eíle povo de tão grande ílagello. Queira Deos , difle eu ao Ca- pitão do mato , dar-lhe tempo , para que conheça os feus erros , e fe arrependa de feus peccados. Muito duvido , me diíTe o Capitão , porque femelhantes cul- pas , poucas vezes fuccede terem arrependimento del- ias os que as commettem , antes de ferem caftigados pela juíliça. E olhando o Capitão para o caminhante, lhe difíe : E voíTa Reverencia veja fe quer o mande a- companhar , atè fe pôr em parte fegura. Agradeço o favor, e caridade, lhe diíTe o caminhante ; porém co- mo tenho pouco que perder , com tanto que me dei- xe a vida , tudo lhe darei. Tornará a defpillo , lhe diíTe o Capitão , como jà fez a outro Religiofo. Per- mitta Deos, lhe diíTe o caminhante, que lhe firva eíTe habito de mortalha , arrependido de feus peccados. Amen , lhe diíTemos todos. E defpedindo-fe de nós os Capitães , e mais companhia , fomos feguindo a nof- fa jornada. DiíTe eu então ao companheiro: Que vospareceo o encontro ? Que me ha de parecer ^ fenhor , me dif- Do Peregrino da America. 107 fe elle. Que jà me não conhecerão os mefmos , que mebufcavão para prender-me. Agora vereis, lhe diíTe eu, o que faz a mudança da vida , e o arrependimento da culpa ; porque em tão breve tempo , e à viíla dos que vos bufcavão , foíles deíconhecido. Podeis tomar muito animo , e confiança de que Deos vos perdoará as voíFas culpas % fazendo vós penitencia , e que o ini- migo infernal vos não conhecerá', para vos accufar no Tribunal Divino ; porque jà fuccedeo , e por muitas hiílorias conftaque ó demónio nãoconheceo a alguns, que jà andavão delle affinalados , por terem feito pe- nitencia , e confeíTado os feus peccados , o que acha- reis efcrito em muitos livuos. E chegando nós a hu- ma encruzilhada , me diíTe o companheiro : Senhor, aqui he o termo, onde nos havemos de apartar, ainda que bem contra minha vontade, pelo muito, que defe- jo a vofía companhia \ porém como por eíta parte fe fegue a minha jornada , e por elTa eítrada a voíTa der- rota, ide com Deos. E defpedindo-fe de mim com mui faudofas lagrymas de fentimento , fe partio. CAPITULO xvi. ^Dofexto Mandamento. E do que fuccedeo ao Pere- grino eme afa de humhomem ^ que ejíava concubi- narão > , e como. o acr>nfelhou,para o livrar da que lie mão ejiado. X^ Profeguindo eu a minha derrota , dalli a pouca .O diílancia fahi fora da efpeífura , e logo vi hum di- latado campo, e nomeio delle numa cafa: de vivenda, e perto delia huma cajafeira , que parecia eílava of- tentando a fua bizarria , por fe achar cuberta de flo- res , abundante de folhas , farta de ramos, viítofa por alta, e folida por firme : nella com magnifico applaufo os 20-8 Compendio Narrativo os alegres paíTarinhos , com mui fuave harmonia em al- ternativo canto , eítavão recreando a todos os que a bufcavão pela protecção de feus ramos , os quaes teci- dos de verdes folhas , e brancas flores , parecião hum rico pallio de primavera , que com fua fombra cubria aos canqados caminhantes , que calmoíbs , e moleíta i dos fe valião dofeu abrigo; e poriílb verdadeiramen- te fymbolo, ougeroglifíco do homem mundano: não, como lhe chamou Platão , arvore às aveíTas , fenão às direitas , pelo que nelle eílamos experimentando nos tempos prefentes , por fe lhe não ver mais que pom- pas, galas, folhas , flores , e nenhum fruto ; e por fim brevemente fe vem a murchar com os annos da velhi- ce, ou com o golpe da morte. E porque ferião jà finco horas da tarde, convida- do eu do frefco íitio , em que eílava a cajafeira , me aíTentei debaixo delia , por gozar da fua fombra , quan- do ouvi em cafa do morador affinados inítrumentos, fonoramuíica, e trincos de caftanhetas , como de quem andava dançando. Foi-fe offufcando a tarde , e efcu- recendo o dia , vaticínios de que tornaria a tempeíla- de, como tinha fuccedido na noite antecedente. Eis que neíte tempo vi fahir da cafa do morador, trez nomens em companhia de trez mulheres, e al- gumas efcravas ; e chegando à porta da fazenda , fe defpedíráo do dono da cafa , o qual ficando com hu- ma mulher , me derão as boas tardes , e eu lhes cor- re fpondi com todo o primor. Offerecêrão logo aga- zalho , o qual aceitei ; e levando-me o morador para a cafa , e dan lo-me aífento, me perguntou, dizendo: Como , fenhor , não chegaítes mais cedo , para parti- cipardes do rigozijo , e paffatempo , que tivemos eíta tarde em companhia daquelles amigos, que de mim fe defpedírão ? Senhor, lhedhTeeu, como o pouco conhecimen- to Do Peregrino da America. 209 to me não facilitaíTe a tomar eíTa confiança, nem ane- ceíTidade me obrigaíTe a tão depreíTa pedir- vos aga- zalho , me aííentei a defcançar ao pé daquella arvore, onde me achaíles , e juntamente por vos não divertir do voííb recreio , que talvez me poderia fer caufa de offender a Deos. Como aífim, Senhor? (me perguntou o morador) Por me livrar, lhe diíTe eu , de cahir em algum penfamento confentido à viíta deitas danças deshoneftas , e muíicas profanas , que hoje fe usão , tão agradáveis para o demónio , como de oíFenías contra Deos. Bem aviado eílava eu, mediíTe o morador, fe eu fora tão efcrupuloíb , que de femelhantes penfamen- tos , viílas , e ouvidas fizeííe cafo , e myíterio ! Pois haveis de faber, lhe diíTe eu , que são muito para te- mer, e recear. E em quanto aos penfamentos: o pri- meiro peccado , que fe commetteo contra Deos , foi o de penfamento, e porelle foi tão gravemente caíli- gado Lusbel, que logo cahio no Inferno para fempre. Õ fegundo peccado , que de alguma forte fe pode chamar affim, pelaoccaíião, quedeo a fegumte culpa, foi o de palavras , com que Eva fe poz em converfa- ção com a íerpente* onde fe lhe veio occafionalmen- te a originar- fe- lhe fer degradada do Paraifo. E o ter- ceiro peccado foi o de obra , quando Adão comeo do pomo veda^do-r^por eíTa caufa elle, e todos nós ficá- mos fujeitos ao peccado original , e a padecer tantas miferias , e calamidades. E reparai que pelo primeiro peccado de penfamentos foi condenado Lusbel para íempre ao Inferno, e o fegundo, e terceiro , de pala- vras , e obras , tiverao perdão pela penitencia , que fizerão nofibs primeiros pais , e pela grande miferi- cordia de Deos. PoriíTo, quando tiosperfignamos, fazemos huma cruz na telta , para que nos livre Deos dos máos pen- O f*i 2io Compêndio Narrativo famentos , outra na boca , para que nos livre Deos das más palavras , e outra nos peitos ,. para que nos livre Deos das más obras , que nafcem do coração. E quan- do proferimos a confifsão geral , dizemos : Pequei muitas vezes por penfamentos , palavras , e obras. E pelo que tem os penfamentos de prioridade de tem- po , por iíTo parece que tem o primeiro lugar na cul- pa , tanto por fe gerarem no entendimento , tribunal da alma, como pelo que podem ter de entidade. E para iíTo vos quero trazer hum exemplo. O maior peccado , que ha , he o em que fe nega a noíTa Santa Fé, por fer herefia formai; e primeiro são os a&os do entendimento, com que fe não crê, ou nega o myíle- rio , e verdade , que fe lhe propõe. Logo eíte pecca- do ^ fendo produzido do entendimento , com muita razão devemos fugir do primeiro , por não cahirmos nos mais das outras efpecies , como pôde fucceder. Em quanto às viílas , fabei que a cegueira tem parte de innocencia ; e por iíTo quem fe não quizer achar afáigido de penfamentos deshoneftos , tenha os olhos cautos , e faça concerto com elles de não olhar o que lhe não he licito defejar. A muitos tem a viíla fido caufa de adultérios, inceílos, e latrocínios, além de outros enormes peccados , que por ella fe tem in- troduzido no Mundo. E fe não , ouvi o que diz aquel- le Oráculo da fabedoria Salomão, o qual fazendo gran- de catalogo dos goftos , a que fe entregou , logo decla- ra que a caufa de todos os feus males, e maldades, fo- rão os feus olhos. Tudo quanto defejárão meus olhos, diz Salomão, lhes concedi. (Ecclef. z. 10. ) E que vos direi de ouvir muíicas profanas? Mu- ficas profanas , e palavras deshoneftas , são a mefma coufa , porque o mefmo he cantar , que contar , e a diíFerença , que ha dehuma coufa a outra, he fer hu- ma armonipa mente dita , e outra proferida pratican- do. — " —— Do Peregrino da America, nt de. E por iffo là diíTe aquelle Poeta Caítelhano. Si dezir quiero a mi dama Amores muy requebrados , No puede dexar de oyrme Por fe los dezir cantando. Por iíTo com muita razão prohibe o Direito da- rem- fe muficas de noite pelas ruas das Viiias, e^Cida- des. E por certo que em nenhuma parte devião fer ellas mais bem evitadas , e caíligadas com duplicadas penas , que neíte Eítado do Brazil , pelo profano das modas , e mal foante dos conceitos. Eu ouvi proferir cantando , o que agora tremo de dizer ; porem como aífenta fobre o propofito do que tratamos , hei de pu- blicallo, para confusão dos que usão deitas muficas. E foi ocafo, que eítando eu huma noite na Cida- de da Bahia , ouvi ir cantando pela rua huma voz j e tanto que punha fim à copla , dizia , como por apoio da cantiga : Oh diabo ! E fazendo eu reparo em pala- vra tão indecente de fe proferir , me difíerão que não havia negra , nem mulata , nem mulher dama , que o não cantaíTe , por fer moda nova , que fe ufava. Vede fe pode haver maior atrevimento , e oufadia entre Ca- tholicos Chriítãos , que cantar femelhantes muficas, tanto em goíto do inimigo infernal , como fe chamaf- fem por Jesus Chriíto , que nos remio. Porem eu me perfuado que a maior parte deitas modas lhas enfina o demónio ; porque he elie grande Poeta , contrapontiíta , mufico , e tocador de viola , e fabe inventar modas profanas , para as enfmar àquel- les , que não temem a Deos. Conta o Padre Bento Remigio no feu livro Pratica Moral de Curas , e Con- felTores, pag. 9. e no outro livro intitulado Deos Mo- mo , que entrando o demónio em huma mulher ruíti- O ii ca > 2ii Compendio Narrativo ca, foi hum Sacerdote a fazeV-lhe os exorcifmos den- tro de huma Igreja 5 e entrando-lhe a curioíidade perguntou ao demónio oquefabia, refpondeo-lhe qu^ era Mufico. E logo lhe mandou vir huma viola ; e de tal maneira a tocou , e com tanta deftreza , que'pare- cia fer tocada oor hum famofo tocador. E dizendo-' lhe o Sacerdote que cantaííe , repetio o demónio hu- ma letra, que fe ufava naquelles tempos, ao humano, e começava : Efclavo fby , pêro cuyo , &c. E coma eílava dentro de huma Igreja , ou porque Deos lho não permittio , ou porque atè o mefmo demónio fe não atreveo a profanar o fagrado, (o que muitos pec- cadores não reparão fazer) mudou o conceito do ver- íb na forma feguinte 5 Efclavo foy, pêro cuyo; No puedo negarlo yo, Pues cuyo foy me mando Que dixeífe que era fuyo, Pues ai Infíerno me embió. Outras muitas muficas deshoneílas tenho ouvido cantar , como he huma moda , que fe ufou , e ainda hoje fe canta , e acaba , dizendo : Berra a tua alma. Parece que quem tal canta , e folga de ouvir cantar , ja eftão annunciando o como lhes ha de vir a fucce- oer , quando forem ao Inferno , chorando , e berran- do , pelas profanas muficas , com que neíla vida pec- carão, e foráo caufa de fazerem peccar a muitos. Mas agradeção-me eítes taes a boa vontade , que fe eu fo- ra Miniítro da juítiça, ou tivera poder fobre elles, eu os fizera cantar, ou berrar ao fom dos golpes de hum verdugo pelas ruas publicas para feu caítigo , e emen- da dos mais , que de taes modas usão ■, e verião então fe lhes valia o demónio , por quem chamão. A tan- Do Peregrino da America. 213 A tanto , como ifto , tem chegado o atrevi mosto, & e oufadia do inimigo infernal para com as creaturas racionaes, que delle fe deíxão levar. Oh laftima dig- na de fer chorada com lagrymas de fangue! Tomara que difto íbubeíTem os que tem obrigação de o cafti- aar, por zelo de Deos, e bem das almas. Tendes muita razão , fenhor , me diffe o morador, eu me dou por convencido ; porém tomara que me diíTeíTeis como faberei que pecco por penfamentos, porque me parece que não ha peíToa alguma , que não íeja accommettida delles. Haveis de faber , lhe diíTe eu , que o primeiro moto dopenfamentohe afUggeftão, que nos faz o de- mónio : paífa ao appetite natural , daqui entra no en- tendimento, depois na vontade; e fenefta ha confen- timento em matéria grave, he peccado mortal. E muito mais fe duplicão , e augmentão eítes pen- famentos, quando temos àvifta algum objeclo, v.g.da foberba , da luxuria , ou de outro qualquer peccado; e porefta razão he acerto fugir detaes viftas. E fe al- gum mediífer que o não leva a ver, e ouvir femelhan- tes divertimentos algum máo fim, aiíío lherefponde- rei , que também a barboleta vai ver a luz irmocente- jnente ; porém tanto fe chega , que abrazada morre. Finalmente , fuppofto que ninguém fe pôde livrar de máos penfamentos , também na noíTa mão eftá fu- girmos delles , ufando dos remédios , que nos enfinão os livros efpirituaes , e os Meftres de efpirito. E Chrif- to Senhor noíTo ifto nos deo bem a entender, quando na oração do Padre noífo nos enfinou , que peçamos a Deos, que nos não deixe cahir em tentação. E quanto tivermos mais de repugnância , e refiftencia a elles , te- remos maior merecimento. E aífim fica claro que o penfamento he o primeiro movei , que faz , ou deixa de fazer a culpa , e que das viílas , e ouvidas fe gera O iii no '•% 214 Compendio Narrativo ntftfrPtendimento o peccado , para depois fe pôr em execução. • ■ Por iíTo no peccado do fexto Mandamento fe não admitte defculpa , aflím como fe pode admittir nos outros peccados 5 e fenão, reparai. Pode hum homem matar emfua fiel defeza, ou por algum outro inciden- te , que poderá ter defculpa. Pôde furtar em tão ex- trema neceflidade , que não feja peccado ; porque no tempo da neceíiidade extrema todos osbens são com- muns. Pode trabalhar em algum Domingo , ou dia Santo , ou deixar de ouvir MiíTa por tão urgente cau- fa , que não peque. E affim em todos os mais precei- tos Divinosjoderá haver algum género de defculpa, que faça não incorrer em peccado mortal , o que fe não dá no peccado da fornicação ; porque eíte primei- ro fe vê , fe cuida , e fe forja no entendimento, e de- pois vai ao coração , para fe poder pôr em execução ; e como haja mora neíles effeitos , por iíTb fe lhe não admitte defculpa ; e ainda o que expellio o femen por fonhos , fe depois de acordado teve complacência , peccou , e pelo contrario fe lhe pezou ; porque no fo- no não ha livre alvedrio , é fem livre alvedrio não ha peccado. Bem tendes provado, fenhor, a voíTa conclusão, me diífe o morador \ porem tomara que me explicaf- feis agora huma duvida, em que ha tempos tenho re- parado , e vem a fer a feguinte. Se o peccado contra o fexto Mandamento tem eíTa graveza, e tanto fepro- hibe no Direito Divino , como difle Deos na fabrica do Mundo em prefença de Adão que todos crefcef- fem > e multiplicaíTero , fem fazer excepção de creatu- ra alguma ? Refpondo , lhe diíTe eu \ por iíTo diz là aquelle adagio : Que muitos ouvem cantar o gallo , e não^ fabem onde. Verdade he que aílim diíTe Deos; porém quando , e porque caufa, he o que fe deve no- tar. Dai-me attencão. Creou Do Peregrino da America, hj Creou Deos o Ceo , e a terra , e todas as mais crea- turas , e ao fexto dia fez a Adão ; e depois de o ter feito , o levou para o Paraifo terreal ; e porque o vio fó íem companhia, lhedeo hum fono, ou extafi; e ti- rando- lhe huma coflella do lado , eftando dormindo, de b formou a Eva , a qual junta com elle em citado de Matrimonio , lha deo por companheira , deitando- lhes a fua benção, para que crefceflem em fuccefsão, e multiplicaíTem , enchendo a terra , e prefidiílem , e governaíTem a todos osanimaes, e fe fuftentaíTem dos frutos da terra a feu goílo , excepto o fruto da arvore da feiencia do bem , e do mal. Tudo coníla da Sagra- da Eícritura. Genef. i. Agora notai que antes deter dado Deos oeítado do Matrimonio a Adão , não lhe dilTe, que crefceíTe, e muitipJicaíTe , por eítar fendo íblteiro , e fó depois que o conftituio no eirado de cafado , lhe concedeo a propagação. E fe vos ficar a dúvida de que foíTe ca- iado Adão , entendei que foi o feu Matrimonio hum dos mais perfeitos que houve, nem pôde haver, por- qa^ teve todos os requifitos de verdadeiros defpofo- rios. Nelle fe contrahírão as vontades entre os dous contrahentes , por não haver mais que defejar , nem appetecer ; houve affiítencia domais perfeito Pároco, que foi Deos Padre Eterno ; teve teítemunhas , que forão osCortezaos do Ceo, Efpiritos Angélicos ; fize- rão-fe finalmente todas as outras ceremonias , que fe obfervão hoie na Lei da graça , porque também tive- rão as benções, de que algreja ufa com os defpofados. E deite modo foi íolemne mente cafado , e recebido Adão com Eva , como a eíTa imitação manda a Santa Madre Igreja de Roma , e difpõe o Sagrado Concilio Tridentino. E fendo aflím, licita coufa he que depois de cafa- do qualquer homem , ufe da propagação , que he o O iv prin- - mmm n6 Compendio Narrativo principal fim , para que tomou aquelle eíhdo , fem a mínima fombra de peccado , ufando do Matrimonio licita, e neceíTariamente ; porque também tratando de outros meios illicitos, poderá haver culpa, e peccado. Senhor, na verdade vos digo, me diííe o morador, que faliais com grande acerto, e me tendes decla r do o que eu ignorava ; porém , como todos não podem ler cafados , tomara que me deíTeis algum remédio, com que me polia livrar de cahir neíle peccado. Ha- veis de faber , lhe difle eu , que para tudo nos deo Deos remédio , prevenindo a fragilidade da natureza humana ; nós fomos os que ufamos mal dos meios, que Deos nos tem dado para noíTa falvação. Trez são oseftados, em que fepóde confervar o homem em graça de Deos : de Matrimonio , de Reli- giofo , e de Celibato. Alguns querem que o quarto íeja o de Sacerdote , que vive fora da claufura , e por iífo^não me atrevia adizello , fe o não tiveíTe lido, e ouvido explicar por varões doutos ) o mais arrifcado de todos. Em quanto ao primeiro eítado , ainda que o Matrimonio foi inítituido pelo mefmo Deos, como jà vos diíTe , e nelle fe podem falvar os que o tomão, com tudo he mui penofo o feu eítado, porque a mef- ma experiência nosenfma , que ainda quando hum ho- mem trata fó do feu bem efpiritual , são tantos os in- convenientes , que o apartão de Deos , que vive em huma perpetua guerra; e daqui fe collige, que muito maiores ferão as dificuldades , que achará para fe dar a Deos , o que ha de governar a fua cafa , e família, com aquella re&idão , e promptidão, que he obriga- do, como Deos manda que fe viva neíle eíhdo. E aíFim diz S. João Chryfoítomo , que os cafados nunca tem defcanço , mas fempre eítão rodeados de moleítias, e afíligidos com pobreza , porque nunca fe dão por fatisfeitos com os bens ,■ que Deos lhes dá. E San- Do Peregrino da America, ny E Santo Agoftinho diz que mais os atormenta o te- mor de perderem a fazenda, que poíiuem, do que foi o gofto , que tiverão em adquirilla. Sendo que efte eirado fó fe deve tomar com aquel- la re&a intenção de obrar bem no ferviço de Deos , defprezando os fuperíiuos bens temporaes , dando bons exemplos à fua familia , e fazendo-os trabalhar, para comerem o pão com fuor do feu roítro , como mandou Deos a Adão , porque fó depois que fe vio pobre , obedeceo , e conheceo Adão a Deos , como fazem muitos à fua imitação. Ha outro eílado, que he o de Religiofo, ou Sa- cerdote , perfi o mais nobre de todos os eítados ; e fe nos Anjos coubeíTe inveja , parece que fó a terião dos Sacerdotes ; e fe não , vede. Com finco palavras fazem defcer o mefmo Deos às fuás mãos, e com ou- tras finco abrem as portas do Ceo a hum peccador , e fazem fechar as do Inferno : são as primeiras finco as da confagraqão , e as fegundas as da abfolviçao. Vede fe pode haver maior poder , ou império em nu-* ma creatura. Affirmão muitos Authores que fe jun- tamente viíTem a hum Anjo, e hum Sacerdote^, pri- meiro farião reverencia ao Sacerdote , em razão da fua dignidade , que ao Anjo. E aííim fe pode dizer que os que vivem como verdadeiros Religiofos , jà nefta vida mortal são bemaventurados , como diz Da- vid , Pfalm. 83. 5. Bemaventurados os que morão na cafa de Deos. Por efta caufa he muito para fentir o pouco refpeitcKque muitas vezes fe tem aos Sacerdo- tes, e ReiigtolosT Devem os que procurão o tal eílado não pôr os olhos em adquirir por meio delle honras , riquezas, fauftos, ou coufas femelhantes , mas fó fe devem em- pregar em fervir a Deos , obfervando os preceitos da Lei Divina , e de fua Religião , fendo efpelíios , cm ■ * que mKmÊ Jr n8 Compendio Narrativo que fe veja o povo , para fe comporem à viíra do feu bom exemplo ; porque a maior honra , que íe pode dar aDeos, he o bom exemplo, eeíte fe procura achar no eirado Sacerdotal , mais que em qualquer dos ou- tros ; e os que com mais razão devem temer o Juizo Divino, são os que tem à fua conta o bem das almas, fenão fazem inteiramente fua obrigação , adminiítran- do-lhes os Sacramentos , e não furtando o corpo ao trabalho , como bons Paítores , atè darem a mefma vida porellas, fefor neceíTario; porque affirma Chrif- to por S. João cap. 10. verf. n. que o bom Paítor dá a vida pelas fuás ovelhas. O terceiro eítado he o de Celibato , o qual tem aquelles, que nem são caiados, nem Religiofos. Eíle eítado em parte he mais próprio s para hum fe dar a Deos, que o do Matrimonio, e por iílb chama Chrif- to Senhor noíTò Berna venturados os que ttm o cora- ção puro, e limpo; (Matth.j.8.) porque os que vivem caítamente, tem em fi hum certiííimo penhor da eter- na Bemaventurança. E Santo Ifidoro explicando a etymologia da palavra Latina Calabs , que figniríca caílo , e continente , diz que he o mefmo , que eítar no Ceo. E fe bem repararmos no homem caílo, e continente , acharemos , que vive livre de todos os mais peccados , ou ao menos com facilidade fe emenda delles. Com tudo, he muito arrifcado efte eítado, por- que he neceíTario que tenha muito de Deos, queman- da fobre o fogo da fenfualidade, para não fe queimar, nem fe lhe pegarem os vicios , cujos exemplos traz fempre diante dos olhos. Por eira razão me parece que todos aquelles , com quem fallo neíle particular, me pedem lhes inculque o remédio, que vós defejais. Mas a iílo fatisfarei com o que diz o Eccíefiaílico cap. 15. v. 1. didado pelo Efpirito Santo : Quem teme a Deos, Do Peregrino da Amfrica. a Deos, fempre obrará bem. E aomefmo intento São Paulo ad Rom. cap. 8. v. 28. Aos que amão a Deos , tu- do lhes íuccede bem , e com profperidade ; porque com eíte e feudo do temor de Deos não fó levarão com paciência os eftimulos da carne , e moleílias do feu eftado , mas também farão muitas obras de virtu- de, como fizerão tantos varões iníignes em fantidade ; pois os que forao Santos não erao compoítos de outra natureza, da que Deos nos fez a nós, que eílamos em via de merecermos o premio da Gloria. E para eíte eíFeito nos devemos retirar de todos os perigos de mu- lheres, ainda que nos chamem fracos ; porque também na muíica as fugas fazem confonancia. De mais que he mui certo que ailim como o fo- go com o vento fe accende , também a carne com o contacto , ou viíla lafciva fe altera. E por ifíb aconfe- lhára eu a todos aquelles , que fe quizerem ver livres de femelhantes culpas, que fujão de mulheres , como là fugio Jofé de fua fenhora , mulher de Putifar , o qual poíto que ficou fem capa, por lha largar nas mãos, a cobrou mui aventa jadamente no Egypto , confer- vando a eílola da graça , e alcançando o premio da Bemaventurança no Reino do Ceo. E nenhum feja tão ouíado, que fe atreva a dizer que fe livrará de femelhantes encontros, fiado em fuás forças , faber, e virtudes , fe Deos o não livrar , fazen- do elle também de fua parte por fugir deífas occa- íiões. E fenao, vede o que fuccedeo a David, aquelle pafrno de forças , aífombro de faber , exemplo de vir- tudes, e tão amigo de Deos : bailou fó huma viíla de olhos , quando fe deixou embelezar de Berfabé , para cahir em tão atrozes culpas. E fe não fora advertido por mandado de Deos por hum Profeta , ou não to- mara o confelho , e reprehensão , como coíhim ao fa- zer muitos peccadores , vede o que lhe fuccederia j po- 2 io Compendio Narrativo porém David , como era homem de mui claro enten- dimento , conheceo o erro , e logo fe arrependeo , e Deos lhe perdoou os feus peccados. De S. Pedro de Alcântara fe conta na íua vida lib.3. pag.316. que foi tão acautelado, e amante deita fanta virtude da caftidade, que ainda eítando noCon- feílionario, não abria os olhos, quando confeíTava mu- lheres ; e feacafo, eítando em publico, via algum Re- ligiofo moço abrir os olhos, para ver alguma mulher, condoendo- fe do dano , que lhe podia j-efultar , lhe mettia os dedos nos olhos , reprehendendo-o de fua inadvertência , ainda que foíTe diante dos feculares, porque não queria por refpeitos humanos deixar de remediar o dano , que ameaçava a feu irmão. E cof- tumava dizer, que o que olhava para oroítro dehuma mulher , era diííicultofo , e quafi impoíiivel deixar de receber dano. E aífím avifava a feus Religiofos , que nenhum fe fiaífe de fi mefmo , nem diíTefíe que baila- va ter feguro , e guardado o feu coração , porque he tão delicado o inimigo carne , que por muita virtude, que hum tenha , tem ella mais ardil para enganar ao que mais prefume de efpiritual. Não vos repito outros muitos cafos, que temfuc- cedido no Mundo acerca deite particular , porque além de ferem tão fabidos, e vulgares, ainda hoje ef- tamos vendo a cada paífo fucceder os mefmos , pro- cedendo tudo de não haver grande cautela de fugir- mos de ver , e ouvir tudo aquillo , que não convém à noífa falvação. E por iftò advertio engenhofamente hum Author, que o Signo de Virgem eítá no meio de Leão , ani- mal vigilante, que dorme com os olhos abertos, eque tem na mão huma balança , fymbolo da temperança, para que entendeííemos , que para confervar a cafti- dade, além da parcimonia , he necefíaria a guarda dos fen- Do Peregrino da America, izi tidos , e fugir de toda a occafião de perigo. São Thomaz , depois de huma grande victoria, que alcançou contra o vicio da carne , fugia quanto podia das viltas , e converfaçoes de toda a forte de mulheres, ainda que foííem de maior idade, e paren- tas fuás. E eítranhando-lhe em certa occafião huma fua parenta fugir das mulheres , fendo nafcido de hu- ma , refpondeo fabiamente o Santo : Por iífo mefmo temo. Enfmando-nos que qualquer homem , por fan- to que feja, não deve dar-fe por feguro, em quanto fe acha rodeado , e veftido deíia miferavel carne occa- fionada a tantos precipicios. E aílim ficai entenden- do , que não ha maior virtude , nem coufa mais agra- dável a Deos , que huma alma, que guarda a virginda- de, e he continente, por feaíTemelhar com os Anjos, porque jà em corpo mortal tem muito da graça de Deos, elhe he mui fácil adquirir as mais virtudes por meio dos Sacramentos. E fora deíles trez eílados haveis defaher que tu- do o mais, que fe chama homem, e mulher folteiros, são gente mundana, que vivem cheios de vícios, fem temor de Deos , nem receio de perder a alma ; e por iíTo femelhantes aos jumentos, como diz David (PlaL 31. 9.) porque a luxuria he hum appetite defordenada de deleites fenfuaes : e os que feentregão a elle , nun- ca fe fartão , antes cada vez mais fe engolfão nelle, peiores que os brutos, e nada tratão do bem da alma, fervindo , e obedecendo ao demónio , meítre da mal- dade; o qual depois de os enlodar em todos os vícios, e tropeços, lhes priva as almas de todo o fuílento ef- piritual, e lhes mata também os corpos, e aílim os le- va ao Inferno , aonde vão penar para íempre. Eíte vicio da luxuria , diz São Gregório lib. 3t e Moral. cap. 17. he o que mais guerra faz aos defcen- dentes de Adão, defde que lhes aponta a barba, atè à fe- 221 Compendio Narrativo fepultura. E ainda que o demónio lança muitas redes no mar deíle Mundo, para pefcar aos homens, nenhu- ma he tão grande , nem de malhas tão miúdas , como a deite vicio , que com todos tem entrada , porque mora muito deaffento, como grande entre os grandes; e |)or iííb fe faz tão foberbo , por ter feito muitos de- licies fem o caíligarem ; mas antes por fe ver prezado de muitos , cada vez fe faz mais forte. E por eífca razão temo , e tremo de ouvir huma authoridade de S. Remigio aeíle intento: Excepto os meninos , diz o Santo „ poucos são por amor deíle vi- cio os que fe falvão. E que fuecederá aos que eílão deaíTento neíta culpa, como fe não tiverãoalma? Pois advirtão que diz S. Bernardo que quem fe detém hum anno em peccar , cem annos ha de penar. Iflo fe en- tende dos que vão ao Purgatório ; que para os que vão ao Inferno, nulla eft redemptio. Huma coufa vos quero perguntar , fenhor , me diíTe o morador , por nunca a ter lido , nem ouvido praticar ; e vem a fer : De que procederá permittir Deos que muitos homens , e mulheres , depois de te- rem fido grandes peccadores , vierão acabar as vidas com mui conhecida opinião de virtudes ; e pelo con- trario outros , começando bem, e com menos culpas, e tal vez por hum íó peccado , forão condenados para fempre ao Inferno } Refpondo-vos , fenhor , lhe diíTe eu. Primeira- mente havemos de aíTentar que os juftos juizos de Deos não ha quem os poíTa comprehender ; porém ifto prefuppoíto, dizem os Theologos, (e aílim ocre- mos de Fé ) que Deos tudo tem prefente , e conhece do pretérito, prefente r e futuro ; e como fabe que a- quelles peccadores , ainda que tiveífem cahido na- quellas culpas , havião de ter emenda , e fazer peni- tencia delias, poriíTo lhesefperou, e efpera afuacon- ver- Do Peregrino da America. 213 versão , para lhes dar a Bemaventurança. E os outros peccadores , porque conhecia , e conhece que fe vi- velíem eternamente , fempre havião de perfeverar na culpa, por iíTo são condenados para fempre. Corrobora-fe eíla verdade pelo que diííe S.Jero- nymo , que a vida do Chriílao não olha Deos para os princípios delia , porém fim para os feus progreífos , e fins. E por iíTo convém , e importa a todo o Chrif- tao , que fe quizer falvar , ponha termo em feus pec- cados, pedindo muito a Deos, que lhe dê forças, para abraçar as fuás fantas infpiraçoes , para fe poder tirar da occafião da culpa , pois para iíTo nos deixou Deos o livre alvedrio nas noflas mãos, porque he certo, que não querer largar a culpa, he final de prefeito, e dei- xar-fe eítar nella, he querer ir para o Inferno. Em quanto à razão de ferem condenados eterna- mente os peccadores , talvez por hum fó peccado j diz Santo Agoílinho , que como aquelle , que pecca , oíFende a hum Deos infinito , também fe morre em peccado , para fempre fera a fua pena , e infinita. A culpa, que fe commette contra Deos, por iíTo fe cha- ma peccado mortal , porque mata a alma , e bem fabeis que tanto mata huma fó ferida , fendo mortal , como mil, chegado a morrer delias. E daqui procede que a creatura, que cahio em peccado mortal, jà he do nu- mero dos prefeitos condenados , e não tem entre a vi- da , e o Inferno mais que huma refpiração. Por iíTo Job chamava àfua vida hum vento. (Job. cap. 7. v.7.) Efem embargo deitas folidas verdades, vivem os pec- cadores tão cegos , e faltos de difeurfo , e razão , que eítando em tão grande perigo , comem , bebem , dor- mem, e defeanção, como fe tiveífem as vidas eítriba- bas em hum firme alicerfe, ou folido padrão, quando devião temer , e recear que os apanhalTe a morte na occafião próxima da culpa , e fofíem a penar para fem- pre ao Inferno. E ago- -I 224 Compendio Narrativo E agora vos digo que fe eu fora Pregador Miflio- nario, não feria outro o meu empenho, que perfuadir aos Miniflros de Juíliça , que fizeíTem dar execução à Lei , caftigando eíte peccado de amancebamento pu- blico, e efcandalofo; porque he certo que fó aífím fe poderia emendar, e de outra forte fazem zombaria os que eílão mettidos neíla culpa; e fenão, vede. Quan- tas vezes fera advertido hum peccador deíles no Con- feífionario ? Quantos avifos terá dos Pregadores Euan- gelicos ? Quantas vezes haverá lido a graveza deita culpa? E que vos parece que lhe refuita de todas ef- tas advertências , avifos , e lições? Zombar de tudo. Porém feelies viífem que fe executava ocaíligo, con- forme a culpa merece, eu vos prometto que logo ha- veria emenda , e não virião a experimentar o cailiga Divino com tão lamentáveis deígraças , como eu te- nho viflo fucceder , e notoriamente fe eílão vendo a- contecer. E para con armação do que vos tenho dito, ouvi os feguintes cafos. Eu conheci hum homem em certa Villa, queeíla- va concubinado comhuma mulher havia mais de quin- ze annos; e porque o Vigário daquella freguezia ore- prehendeo , e quiz apartar daquella má occafião , fe pafTou de morada com toda a fua cafa para outro lu- gar ; e ainda que também por alli paííavão os Vifita- dores^, quando hião de vifita, com tudo , como o caf- tigavão em pena pecuniária , não deixava de perfeve- rar no íeu peccado ; e como era rico , e por iífo fober- bo , fuccedeo dar elle com hum páo em hum mance- bo , de que ficou refentido o offendido pela aífronta, que fe lhe tinha feito. Era eíle homem amancebado, muito amigo do Padre Capellãodaquelie Lugar; (e tal- vez por lhe diíllmular o máo eílado , em que eílava) e vindo o Padre vifitallo hum dia , o hofpedou com toda a grandeza. Perguntou-ihe o Padre, como havia paf- Do Peregrino da America. 2zj paflado com o Viíitador , que tinha eílado de viílta naquelle território. DirTe-lhe o amancebado : Em quanto eu tiver farinha , dinheiro , e arroz , não fe me dá do Viíitador. Fizerao-fe horas de fe defpedir o Ca- pellao , trouxe-o o amancebado atè o porto de hum rio a embarcallo em huma canoa ; e voltando para a lua cafa , lhe fez tiro com huma efpingarda o mance- bo , em quem elle tinha dado com o páo , e logo alli immediatamente cahio morto ; e tornando o Capellao com toda a preíTa para o confeíTar, jà o achou fem vi- da , e affim morreo fem confifsão. Vede quão defaf- trado rim teve eíle miferavel homem , o qual fuppon- do que com o dinheiro livrava do caítigo da terra, não pode livrar do caíligo deDeos, por fe não emen- dar da fua culpa. Outro homem houve , que de tal forte fe tinha a- tnancebado com huma efcrava de hum lavrador , que era jà efcandaloío no feu máo proceder , motivo , por que diíTe o Senhor à efcrava, que fe elle foubeííe que ella tratava com aquelle homem de oíFender a Deos , a havia de caíligar rigorofamente, Succedeo que in- do hum dia a efcrava a bufcar agua, achou ao homem junto da fonte, o qual pela ver diíTuadida de lhe fazer a vontade , a começou a perfuadir com palavras, affa- gos , e promeífas , para ver fe a podia obrigar. DiíTe- lhe a efcrava : Senhor , eu não quero mais coufa algu- ma com voíla mercê , por não experimentar o rigor de meu fenhor. E dando-lhe as coitas, o deixou. Ven- do o homem eíta refolução da efcrava, puchou de hu- ma faca , que levava , e mettendo-a pelos peitos, alli ficou morto. Laílimofo cafo por certo , me diíTe o morador , e não tenho ouvido contar outro femelhante ; porque ainda hum bruto irracional teme a morte. EíTe ho- mem devia fer falto dejuizo. Por certo, lhe diíTe eu, P que J % i6 Compendio Narrativo que das muitas vezes, que comelle tinha converfado, fempre o achei de muito propoíito 5 porém como es- tava cego do peccado , teve o demónio occafião de o precipitar a tão horrendo cafíigo, Outro cafo não menos lamentável fuccedeo a hum homem prefumido de bem fallante, e entendido, po- rém para as coufas do mundo ; porque pouco impor- ia que fe achem no homem peregrinas noticias, e fu- blimes idéas , fe lhe falta o temor de Deos. Andava efce homem concubinado com huma efcrava de hum vizinho , e tão cego nefie torpe vicio 5 que ainda que muitos de feus amigos o tinháo diíTuadido , para que deixaíTe aquelia occafião s nunca a quiz deixar; atè que omefmo dono da efcrava lhe chegou a mandar di- zer ? que fe o achaíTe na fua fazenda , o havia de ma- tar. Não obíbando todos eíles avífòs, tornou a ir buf* car a occafião do peccado ; e como jà o trazia o dono da fazenda em vigia , aíílm como foube que elle efta- va dentro da cafa da mefma efcrava , o foi bufcar ; e fahindo o miferavel de dentro ., lhe metteo o fenhor da fazenda huma efpada pelos peitos, e logo alli odei= xou morto s fem fazer a&o algum de Chríírão, E fe eu houver de vos contar os infinitos cafos . que por eíle peccado tem fuccedido no mundo , primeiro me faltará o tempo , e a vós a vontade de me ouvir , do que eu ceílarei de os referir. Bem fel, fenhor, me dijTe o morador, que nenhum ma coufa mais nos cafbiga $ que a mefma culpa , tan* to que nos não emendamos, e arrependemos atempo, •Com que à viíta deites atrozes cafos , que me tendes dito 9 neceíTariamente vos quero dar parte do máo ef- tado , em que me vejo , para que me deis algum re- médio , porque me acho com baílantes remorfos da confciencia. Sabei que haverá fete annos que eílou amancebado com aquelia mulher ? que eíta tarde vif- tes Do PERF.GRINO DA AMERICA, %$J tes Vir em minha companhia ; e ainda que muitas ve- zes me tenho confeíTado, e por ifíb fou reprehendid© dos Gonfcfíbres , nunca cabalmente me refolvi a lar- galla, mas antes cada vez me acho mais enlaçado nef- te peccado. Não vos pareça , fenhor , íhe dííTe eu , que vos a- gradeço pouco o manifeítares-me a voíTa culpa , por- que me perfuado que eílais com animo de vos emen- dar delia j que por ifíb fediz, que quem chegou a co- nhecer o feu erro , com facilidade fe emenda ; mas quem não conhece o feu engano , mui difficultofa- mente fe refolve a tirar do mal, que faz. Porém iílo fuprfbfto , dizei-me s íenhor : Como Yos abfolvem os Confeílbres deíTa culpa ? Porque te» siho dado, me diíle o morador, em huma traça diabo* liça ; e vem a ler 9 que tanto que chega a Quarefma^ coílumo mandar eíia mulher jpara a caía de hum meu compadre ^ e quando me vou confeílar, digo ao Gon- feílbr que jà a tenho deitado fora de cafa , e por iHo me abfolye. E deífas vezes, IhediíTe eu, que voscon* feííaítes, tiveítes alguma dor de ter oíFendido aDeos^ ©u fizeítes propofito de largar eíTa occaflão ? Nunca níe lembra que tiveíTe eíTe defejo , nem propofito de me emendar, me diíle o morador, mas antes defejava que fe acabaíTe logo a Quarefma , para tornar a man- dar vir a mulher para cafa. Pois fabei , íenhor ,, lhe àiíTe eu $ que não fó vos #ão tendes confeíXado , mas íizeítes muitas conílfsões nullas , e grandes facnlegios : e aílim entendei , que |e neíla occaíião morrefíeis fem vos confeíTardes corn verdadeiro propofito de emenda , hie.is ao Inferno; porque não ha coufa , de que Deos mais feofrenda, que de ver a hum peccador confeílar a culpa , e pro« .íter a-.emenda» e tornar açahir nofnefmo peccado, É ede quanto mais tem. de ç.ircumítaacia a voifa cul° P ii ¥«r 2i8 Compendio Narrativo pa , pois a callais na confifsão , enganando- vos a vós mefmo , e ao Confeílbr em huma efpecie de peccado tão grande , como o do amancebamento , que Deos mais frequentemente caíHga com mortes repentinas, pelo que tenho viíto , e lido nos livros , como jà vos tenho dito. E com muita razão fe pode temer aquella fenten- ça , que diz : Numero determinado Tem o peccado, e não fabes Se para fer condenado Somente falta que acabes De commetter hum peccado. Senhor , me diíTe o morador , bem fei que obro , mal- porém tomara que Deos me dera hum efficaz au- xilio de fua graça , para me livrar deíla culpa. Ha- veis de faber , lhe diíTe eu , que a noiTa falvação não depende fó de Deos , nem fó de nós , porém fim do concurfo de Deos com feu auxilio , e juntamente de nós , pedindo-lho , e abraçando-o ; porque ainda que Deos lempre nos quer falvar , pelo que tem de bom , e mifericordiofo , com tudo ha de preceder da nofía parte a vontade de 9 bufcarmos , pedindo-Ihe , e ro- gando-o , como tão neceffitados , para lhe merecer- mos o feu agrado. Dizia Deos a Moyfés : Extende wanum tuam , extendam manum meam : (Exod. c. 4. v.4.&cap.3. v.io.) Eítendei a voíla mão, que eu tam- bém eftenderei a minha ; mas fabei que a minha fem a voíla não vos ha de valer para vos falvar. E diz San- to Agoílinho : &hii fecit te fine te > non falvabit te fine te. Sabeis porque nos não ouve Deos ? Porque nós tapamos os ouvidos, quando elle nos chama: por ifío faz Do Peregrino da America. 229 faz muitas vexes que também nos não entende , quan- do o chamamos , como diífe pelo Profeta Zacarias cap. 7. v. 13. Se nós cuidaíTemos das coufas Divinas, também Deos cuidaria de nós , diíTe S. João Chryfof- tomo in Genef. Homil. 14. in fine. Gomo efperais que Deos ponha os feus Divinos olhos de mifericordia em vós , quando aíTim o eítais oífendendo , fem lhe pedir perdão dos voíTos pecca- dos com hum acto de amor , e contrição ? Ponhamos efte cafo em queítão , e depois o refolveremos com a boa razão. Supponde hum homem ( não digo herege, fenão Chriítão) dado a todos osvicios, e atropelando a Lei Divina com fuás culpas , fem fazer exame de confciencia, nem ado algum de amor de Deos, ou de compunção de feus peccados , fendo que devia olhar para o Ceo, ou para huma Imagem deChrifto Senhor noííb , e dizer de coração : Peza-me , Senhor , de vos ter offendido , por ferdes vós quem fois : dai-me hum auxilio de voífa graça , para me poder emendar das muitas offenfas, que contra vós tenho feito. Ou fazer também hum a&o de amor Divino , dizendo : Meu Deos , meu Pai , meu Senhor, eu vos amo fobre todas as coufas : livrai-me de vos oíFender , para que poíTa merecer a voífa gloria. E da mefma forte devia valer- fe da Virgem Maria Senhora noíTa , como advogada de peccadores, dizendo-lhe com hum afFe&o cordial: Senhora , bem vedes as minhas grandes culpas , que tenho commettido contra Deos : acudi-me com voífa intercefsao , e piedade , para alcançar perdão delias. Para todos eítes aclios , e outros femelhantes não he neceífario fer Letrado , bafía que o peccador os faça com grande vontade de que lhe fucceda tudo o que pede , como neceííitado ; e de outra íorte , de nada lhe poderão aproveitar , por fer o peccado hum gran- de impedimento, para fer de Deos ouvido. Deos não P iii ou- 230 Compendio Narrativo ouve aos peccadores , diz a Sagrada Efcritura : Tec- catores 'Deus non audit : (Joan. c.9. v. 31.) iílo he em quanto hum peccador fenâo arrepende, não o ou- ve Deos ; mas na hora , em que de coração lhe pede perdão, e fe juíHfica , logo he de Deos ouvido. E af- fim convém muito , antes que o peccador faça oração, examinar a fua confciencia , e fazer aftos de contrição. AíTim o entendeo David , quando rendeo as graças a Deos de lhe haver perdoado feus peccados, dizendo: Bemdito fejais , Senhor, que não apartaíles de mim a minha oração, nem a voíTa mifericordia. E com eiras palavras acaba o Pfalmo 65-. De maneira que quando pedimos a Deos perdão dos noflbs peccados , primei- ro lhe havemos dar as graças de nos admittir a feu grémio , e dos muitos benefícios , que delíe recebe- mos. Poreíh razão fe o Gentio idolatra foubeíle o que lhe refultava de fer Chriílao , viria de mui remotos climas a bufcar eíte bem, por eírar addiclo à Igreja, e capaz dos Sacramentos, por fe pôr em graça de Deos, e gozar dos thefouros da Igreja. E alTim entendei que fe a oração não for feita de todo o coração, não terá effeito algum de merecimen- tos para quem a faz, e fera o mefmo, que a oração de huns bichinhos , que ha no Brazil , que lhes criamão Louva a Deos , dos quaes dizem os naturaes , que fe gerão , e nafcem de huns raminhos feccos de huma ar- vore. Bem fei que he contra a ordem natural da me- lhor Filofofia; porém pofíb certificar, que vi hum def- fces bichinhos ainda meio páofinho , e a outra parte jà animada. Eíles animalejos são como hum griilo, pojèm mui magros , e eíiiticos ; trazem fempre as mãos poftas juntas , os joelhos dobrados , e os olhos levantados para o Ceo , e por eíta razão lhes charnão Louva a Deos > porém toda eíta oração he de huma ai- Do Peregrino da America. 231 alma de páo fecco. AíTim são os peccadores , que re- zao , e fazem oração fem re&a intenção. São também eftes taes como os gafanhotos, que andão com o habito Francifcano , cheios de cilícios, e na hora da morte vem a morrer como brutos , fem lhes valer , nem aproveitar o habito , nem os cilicios da penitencia , e aífim vem a acabar em hum charco, ou brejal de culpas, fem merecimento algum. Podião porém fer femelhantes à barboleta , que abrazada nas chammas da luz (ifto he no amor deDeos) morre co- mo a ave Fénix , para renafcer , cantando louvores a Deos pelo que tiveílem merecido nefte Mundo , e aífím irem as fuás almas a gozar da eterna gloria. Por iíío diz S. Baíilio que as almas , e corações, aonde Deos ha de entrar, não hão de fer de altos pen- famentos , mas de grandes efpiritos com boas obras, porque almas de ferro , corações de chumbo , e efpi- ritos de carne , como lhe chamou o Venerável Padre Fr. António das Chagas , não são para fervir a Deos. Vamos agora à boa razão. Como he poíTivel que Deos vos dê hum auxilio para vos livrardes deífa cul- pa, e das mais , fe vós nunca lho pedis com arrepen- dimento delias, e vontade de vos aproveitar deífe au- xilio? porque he fem duvida, que ainda cà nascoufas do Mundo eftamos vendo , e experimentando que fó quem faz por ellas as temi e pelo contrario, não lhe vem às mãos , fe as não procura. La perguntou a São Thomaz huma fua irmã , que faria para fe falvar? Refpondeo-lhe o Santo : Querer. Porque fabia que era neceíTario haver danoíTa parte vontade, e diligen- cia , para alcançarmos a graça Divina. Cuidai nifto de vagar , e vede fe tenho razão. Mas parece que voseftou ouvindo dizer que não podeis fazer ifto , que vos digo , porque vos não dá lugar o peccado. Agora venho eu bem a entender P iy que 231 Compendio Narrativo que ospeccadores, que fevem em femelhante eirado, são como os enfermos de madorna, que nenhum aba- lo lhes dá quem entra no feu apofento , nem quem fahe delle , porque fempre eítão dormindo, como fo- ra de feu juizo. E aílim são os que fe vem no íethar- go da culpa ; por mais que oução ao ConfeíTor , e ao Pregador , o avifo do amigo , e do parente , a nada dao ouvidos , porque eftão mettidos no fono do pec- eado; ^ Também são eílestaes comparados ao touro, que mettido no corro , ainda pôde efcapar ; porém tanto que o chegão ao mourão , jà não pode fugir. Affim são os concubinados ; em quanto tem as concubinas fora de eafa , ainda fe podem delias apartar ; porém tanto que as mettem de portas a dentro, eítão prezos ao mourão , e delles faz o diabo o que quer, até que os leva ao Inferno. Grande he a cegueira dos homens mundanos , que fe deixão levar da vaidofa vida temporal ; porque ef- tando vendo completarem- fe os annos , paíTarem os mezes, correrem as femanas, voarem os dias , conta- rem- fe as horas, em nada difto reparão, e cada vez fe mettem mais nos goítos, e deleites do Mundo, como fetiveíTem por certo que acabada ávida, fem fazerem penitencia, havião de ir gozar da Bemaventurança. Porém fabeis de que procede ifto pela maior par- te ? Do ma'o exemplo ; de verem affim obrar os fa- bios 9 que tem obrigação de nos advertir com a fua boa vida , e coílumes , e não devem fazer o contrario do que entendem ; fem fe lembrarem eftes doutos do que diz Santo Ifidoro, que quanto maior he o conhe- cimento do delido , tanto mais crefce a maldade do peccado. Muito pudera eu dizer-vos neíte parti cular* porém fó vos direi , que fó vós , e nenhum outro por vós, haveis de padecer o caíligo das yoíTas culpas , fe dei- Do Peregrino da Amfrica. 233 delias antes da morte não fizerdes penitencia , nem vos acautelardes dos laços do demónio. Vamos ao remédio , que me pediítes. Haveis de faber que para farar do amor , e deíTa enfermidade» he necelTario haver aufencia. Muitas doenças fe curão fó com a mudança do ar; porem a do amor 16 fe cura com a da terra. He o amor como a Lua , que em ha- vendo terra entre meio , logo fe eclypfa. Iíto he em quanto ao remédio temporal. Porém fallando espiritualmente. O mais eflicaz remédio he fazer huma confifsão geral muito bem feita , com propoíito firme de antes morrer , que tor- nar a cahir em tal peccado , ou em qualquer outro, E hum dos maiores ferviços , que hum peccador po- de fazer a Deos noílb Senhor , he o frequentar eíle Sacramento da Penitencia , porque em as repetidas confífsões virá melhorem conhecimento de fua mife- ria, e fraqueza; e então reconhece melhor a grandeza de Deos , dando louvores à fua Divina Magefrade. E por nTo diz Santo Agoílinho fuper Pfalm 94. que hum peccador penitente, e arrependido de fua má vida» ao mefmo Deos engrandece , e exalta. E o Profeta Ifaias cap. 30. diz que a grandeza , que Deos moítra , he quando aos peccadores perdoa. E aíllm venho a entender , que efla foi a razão, porque diííeChriílo Senhor noffo, que maior applau- fo , e maior feira fe fará na Corte do Ceo a hum pec- cador penitente arrependido , e que confeíía bem , e verdadeiramente feus peccados, do que fe fará a mui- tos juítos , que não neceíTitão deites remédios. Luc, cap. iy. verf. 7. Sabeis em que perigos eííais poífo ? Coníiderai- vos reo de hum atroz crime de lefa Mageftade , met- tido em huma torre , na qual eííá hum alçapão falfo, e nella vos mandão os executores da juítiça , que paf- feeiss 234 Compendio Narrativo feeis pela fala , em que eftá o alçapão , e que neíle bre- ve inítante achais hum favo de mel , e vos pondes a lembello, atè que cahís no alçapão, onde topareis com rodas de navalhas , e ganchos de ferro mui agudos, que logo vos tirarão a vida , que he o Inferno , onde ficareis para fempre. Ou também fupponde que vos vedes em hum lu- gar cercado de muitos negros , que vos vem matar, que são os demónios ; e da parte , para onde podeis ef- capar , eítá hum precipicio tão alto , e deípenhado, que fe porellequizerdesdefcer, acabareis ávida, que he o Inferno, fem armas (que são as boas obras , que devieis ter feito em ferviço de Deos) para vos defen- der , e que indo correndo (que he o curfo da vida) topaíles comhuma arvore cheia de doces pomos, que são os deleites deita v ida, eque delles eítais comendo entre tanto rifco. He o peccado por fua má qualidade tão venenofo mal , que ninguém o pode declarar , ainda que todas as creaturas fe fizeífem em linguas , por fe não poder medir , nem tomar o pezo de fua graveza , fenão de- pois que fe vê executado na alma. E baila que fe di- ga , que fe hum homem viíle o peccado , e da outra parte o Inferno , antes quereria metter-fe no Inferno fem culpa , do que gozar de deleites, bufcando o pec- cado. E he certo que quem não conhece o feu dano , não faz diligencia porfahir delle; equem não fabe da fua doença, não trata de lhebuícar a medicina. Eque diremos dos que o appetecem ? He fem duvida que nem fogem delle , nem folicitao o remédio. Ainda para confervação da mefmafaude corporal, devia o homem fugir defemelhante vicio, pelos hor- rendos , e atrozes cafos , e fuceeíTòs , que tem aconte- cido no Mundo por caufa deite peccado. E fe os que ip commettem , leíTem com attenção a anatomia do cor- Do Peregrino da Amfkica. 235 corpo humano, verião orifco, em que fe expõe em fe- melhantes exqeíTos naquelJes actos, e emtaes tempos. A experiência tem moítrado que nenhum animal irra- cional periga neftes actos tanto , como o homem ; e fe não, vede. Ainda osanimaes faltos de razão são mais regrados neíTe vicio, porque latem feu tempo de pro- pagação ; porém o homem , chegando a ficar cego , fempre eítá appetecendo efte peccado , fem reparar no prejuízo de fua faude ; e como pelo excefíb delle fica peior que os brutos, por iíTo lhe fuccedem os pe- rigos , e mortes repentinas , que tantas vezes fe tem viíto. A razão deites fuccefFos dá Morato no feu livro intitulado : Luz da Medicina , no Prologo ao Leitor, comparando o femen do homem ao azeite da candea, que, acabado efte, efpira a luz. Que mortes repentinas não tem acontecido neíTe mefmo acto ? Muitos depois deterem fahido delle, por beberem hum púcaro de agua fria , eahírão mor- tos ; a outros lhes deo hum eítupor , ou parleíia ; ou- tros vierão a entiíicar ; e outros fe encherão de galli- co, e ficarão disformes, padecendo mil dores, e inca- pazes de remédio atè à morte. A tudo iíto , e ao mais , que me não he poífivel explicar, eítá expoíto o homem , que fe deixa enlodar em femelhante vicio, fem fe querer tirar delle a tem* po, e quando menos cuidar, fe verá fepultado no In- ferno. Aeíte tempo, que eu fechava efte dífcurfo com a palavra Inferno, deo hum relâmpago, e juntamente hum trovão , que cuidei que a todos nos deítruia % porque tremeo a terra , abalou- fe a cafa, e delta cahio tudo o que pelas paredes eítava , excepto hum orató- rio , dentro do qual eítavão huma Imagem de Chriíta Senhor noíTo , outra da Virgem Maria noíTa Senhora , e outras de outros Santos. E pondo-nos logo de joe- lhos,. . 1 3 6 Compendio Narrativo lhos todos os 'que nacafa eílavamos, rompeo o ir ora- dor em hum Acto de contrição com tantas lagryrr.as, efoluçcs, que bem moítrava eífcar arrependido defeus peccados. Ê depois de o animar , e confolar , come- cei com todos a rezar as Ladainhas , e algumas ora- ções, e foi Deos fervido que logo ceííafTe a tempefta- de. E porque era jà tarde , me diffe o dono da cafa que me folie recoílar. Obedeci, e me deitei emhuma cama jà feita na mefma fala , e o dono da cafa em hum eítrado à minha viíra , atè que pelas luzes das freílas vi que jà era dia. Levantei-me então , e juntamente o dono da cafa , e ao abrir da porta, vimos hum monte de ramas mais alto , que huma lança , e conhecemos fer hum galho da cajazeira , que com a violência da tempeítade fe tinha defgalhado ; e então viemos no cabal conheci- mento do grande favor , que nos tinha Deos feito em nos livrar daquelle perigo, porque fe cahilTe em íima da caía, fem dúvida ficariamos mortos, e opprimidcs debaixo do feu pezo , pela violência , com que veio ccmpellido do corifco , que tinha defpedaçado a ar- vore atè o tronco. E depois deter viíto o dono da cafa aquelle fatal eílrago , mandou logo chamar aos feus efcravos , e promptamente chegarão alguns dez , ou doze. DiíTe- Ihes eilc então : Mandei- vos chamar , para vos dar a faber que me he neceffario feguir huma viagem em companhia do fenhor Peregrino , em que me poderei dilatar oito, ou nove dias, eneíTe tempo, que làeíti- ver , vos mando que todos vos conferveis com muita paz , e união , tanto na occupação do ferviço , como fora deile. E falJando com hum efcravo mais velho, de quem parece fazia maior conceito , lhe diííe : E a vós encarrego o cuidado de todos, e o zelo da minha fazenda. O que o preto allim lhe piometteo obfervar. Do Peregrino da America. 137 E depois de defpedir aos efcravos , chamou pela mulher , que tinha em fua companhia , à qual diffe : He efcufado , fenhora , dizer-vos o motivo , que me perfuade a apartar- me de vós , à viíta do que fucce- deo , affim pelas grandes advertências , e aviíos , que nos tem feito o fenhor Peregrino, como pelo notável perigo , de que Deos nos livrou. Aqui tendes trezen- tos mil reis , tratai de bufcar o melhor meio de voíía falvaçao, que eu com a ajuda de Deos farei o mefrno. Aceitou a mulher a oíFerta , e logo lhe diííe : Dias ha , fenhor ,. que eíTe era o meu intento , pelo que me ti- nhão dito os ConfeíTores ;efeo não tinha feito , era por vos não moleílar. E com eíla refolução nos parti- mos, levando o homem dous efcravos em fua compa- nhia , que lhe carregavão o feu fato , e matalotagem. E paliando pelo tronco da cajazeira , lhe diííe eíla le- ira: Tronco defnudo de ramas, Bien te podre repetir Lo que vá de ayer a oy, Aprendan robles de ti. Logo fomos continuando a noíTa viagem por hu- ma mui dilatada eílrada , e verdes campos , à viíta de mui aprazíveis arvoredos, porque os da America fem- pre nelles he Primavera. DiíTe-me o companheiro : Agora que tenho eíla opportunidade , vos quero dar parte do motivo f que me perfuade a acompanhar- vos. Muita mercê me fa- reis, lhedilTe eu, para ter mais que vos dever. Sabei, fenhor , me diíTe elle , que haverá oito dias que veio à minha cafa hum meu amigo a fallar-me para cafar com huma donzella , filha de hum feu compadre , ao qual dei por refpoíla , que tomaria meu confelho , e lhe daria a refolução em menos de quinze dias j quiçá que foíle % 3 8 Compendio Narrativo £ofTe fó a fim de me efcufar. Certificou-me efle ami- go que he adonzelia merecedora de toda aeítimação, por fer filha única de nobres pais , mui formofa , e lionerla , porém que não tem mais que quatro mil cruzados dedote c Agora vos peço que me aconfelheis íe faço bem em tomar efte eílado com tão pouco ca- bedal, Senhor , diíle eu , ainda que para fe dar confelho neíTe particular íe neceííita de mui largais experiên- cias , e informações , com tudo, como mè dizeis que he voíTo amigo eííe homem , e fegundo o dito do Fi- Joíbfo P)sthagoras , o amigo he outro eu , fupponho que vos não inculcará mulher indigna da voíTa^peíToa, Em quanto à razão de ter poucos cabedaes , muitas vezes feofferecem eítes com peíToas tão indignas, que, ainda que fejão muitos ,- não baílão para fe comprarem defconâanças. Não pode haver maior cabedal que a honra, Là fe conta que perguntando-fe a huma pobre donzella que dote tinha, refpondeo , que a fua honef- tidad-í. Além de que nem fempre os cabedaes aíTegu- râo o eílado dos cafados , peio muito, que temos vif- to fucçeder no mundo. E por iíTo perguntando»fe a Marcial , porque não queria cafar com huma mulher rica a refpondeo : Prífco , porque nó me cafo p DeziSj con rica muger?" Porque nó quiero yo fer La muger j y eííe es el cafo a Porém ifto fuppofto , vos digo, que tendo eíTa don- selia as partes , que vos aílegurou eíTe voíTo amigo, fou de parecer que a aceiteis por efpofa , villo o granv de perigo, e riíco de voífa falvação 1 , em que eíHveftes aíè agora peio voííb peccado. E aíHm 'podeis aceitar eíTe ■■*■ Do Peregrino da America. 239 efíe eílado , que Deos vos ofrerece , como tabca cm hum naufrágio , para que vendo- vos em terra , (iílo he , livre da culpa) a leveis ao Templo , e em fua com- panhia façais muitos ferviços a Deos, Porque haveis de entender (como jà vos diífe) que authorizou Deos com fua prefença o primeiro eirado, que houve de cafado no mundo , para nos mof- írar as grandes excellencias , e perfeições , que nelle íe encerrao > e as obrigações , que os cafados tem de yi verem conformes aos preceitos Divinos , unindo -fe ambos em huma fó vontade , fundando nella mui di- verias , e copiofas virtudes , moítrando-fe mui agra- decidos a hum Senhor , que tanto os honrou com fua prefença , e tanto os alimenta , e favorece com fuá pro- videncia, e mifericordia ; porque he ocafamento (co- roo todos fabemos) hum contrato de duas vontades ligadas com o amor, que Deos lhes communica, juíbi- ficadas com a graça, que lhes deç Chriíto Senhor nof- ío , e authorizadas com as ceremonias , que lhe ajun- tou a Santa Madre Igreja, que eífe he oeffeito de hum verdadeiro defpoforio , unir duas almas em hum cor-. $30: *Duo in carne una, Genef. z, 24. Porém fuppoílas as obrigações dos preceitos Di- vinos , que fe devem guardar em primeiro lugar , e muito à rifca , todos os cafado s tem obrigação de vi- ver perfeitamente no feu eirado , fem embargo de quaesquer encargos , ou-defgoítos. Em razão dos ref- peitos humanos, são neee fiarias muitas circumltancias para fe guardar eíte perfeito eílado , tanto para o fo- cego da alma, como para afegurança da honra* e def- canfo da vida. A primeira he a sgualdad j das qualida- des, fem a. qual ha grandes perigos na vida, e "defgof- tos irreparáveis , porque nunca fe virão deíigualdades fem inquietações ; e poriíío Plutarco encorr.xne-nda aos pais que nãocàfexn íeus filhos com pelicas 4e defigual ao* ■ 240 Compendio Narrativo nobreza ; porque aquelles , que casão com quem os excede muito na qualidade , não ficão maridos, fenão cativos. E daqui procedem entre os taes cafados tan- tas difcordias, que logo fe defquitão da paz. A fegunda condição , para que o amor feja mais confiante, e verdadeiro , he que fejão os cafados mui conformes nos feus defejos , e inclinações ; porque fendo elles eítes, ainda em razão dedefeitos naturaes fe podem amar perfeitamente , pois he bem fabida a regra da Filofofia , que afemelhança he caufa de amor, e elle de toda a paz , e conformidade , fem a qual não pode fer perfeito aquelle eítado; eeraella tãoencom- mendada entre os antigos , que nas feitas , que fazião aHymeneo, tido porDeos doscafamentos, tiravão òs féis dos animaes, que facrificavão , e os lançavão fora dos altares ; porque , fegundo o que diz Pierio Vale- riano , o fel he o aííento da ira , e da cólera , e não convinha que foíTe facrirlcio feito , onde foíTe cólera, e ira. E allim vos venho a dizer , que fe chegardes a effeituar eíTe eftado de Matrimonio , depois de guar- dar os preceitos Divinos, como fois obrigado, em fe- gundo lugar vos conformeis muito com voíTa efpofa; porque na paz , e concórdia confiíte eíte eílado para poder viver bem , e virtuofamente , tanto no ferviço de Deos, como para a confervação da vida. CAPITULO XVII. 2)0 fetimo Mandamento. E do que fticcedeo ao 'Pe- regrino com bum vendeiro, que eftava rouban- do ao povo ; e como o difuadio daquelle mão trato com vários exemplos. E Ne (las , e outras converfaçóes fomos parTando o dia, atè que (ferião jà finco horas da tarde) che- gámos Do Peregrino da America. 241 oámos à cafa de hum taverneiro , o qual eftava mui occupado em vender , e arrecadar o dinheiro do que vendia. Demos- lhe as boas tardes ; refpondeo-nos mui feccamente , fendo que vendia molhado. Retirá- mo-nos para debaixo de huma copada arvore , que junto da cafa eftava, edalli lhe mandámos pedir hum púcaro de agua : mandou-nos dizer que a mandaífe- mos bufcar à fonte , porque a não tinha em cafa. E ouvindo o companheiro razão tão defabrida , como falta de primor , me diífe : Na verdade vos digo que não ha coufa peior no homem , que a falta da corte- zia. PoriíTo fediz, lhe diífe eu, que o villão ruim não ha mifter chocalho ; porque he certo que a cortezia neceífaria he divida, affeclada ceremonia, e lifongea- da conveniência. Efte vendeiro bem poderá fer que tudo ignore por montanhez , fe jà não he pela occupação , em que eftá ; porque como vê que lhe não refulta conveniência al- guma da noífa aífiftencia , tudo defpreza ; mas antes defeja não ter teftemunhas de vifta a fua ambição , e para melhor dizer , furto ; porque me lembra ter lido no livro dos fonhos de D. Francifco de Quevedo , na fua Pramatica do tempo , que diz afFm : Mandamos que no fellamen las vendas vendas, fmo hurtos, por- que en ellas mas fe hurta , que fe vende. Em quanto ao defabrí do primor, menos cortezia, e falta de caridade, com que fetem havido comn fco efte vendeiro , elle não fabe , nem tem obrigação de faber o valor , e quilates da cortezia. He a cortezia huma virtude moral , e mui neceífaria aos homens, por fer hum agrado aos olhos , e hum feitiço aos co- rações. He hum efplendor a quem a obferva , porque lhe argue huma nobreza, e fidalguia. He hum toque, que defcobre a nobreza do fangue , vence ao ódio , e concilia ao amor. He o fundamento da amizade : efta CL fe 242. Compendio Narrativo fe perde ao tempo, que aquella falta; vence, quando fe deixa vencer , quando rendida triunfa ; oílenta-fe ao inferior rendido, ao fuperior obrigado; e fobre tu- do fahe mais, quando com difcrição fe vincula a hum luzido nafcimento. Eftas são as qualidades deita vir- tude moral da cortezia ; e vede o quanto he digna de fer obfervada , e praticada no Mundo entre os que a fabem eílimar. Na verdade vos digo , me diíTe o companheiro, que muito folguei de vos ouvir publicar as excellen- cias da cortezia ; e por iíTo parece anda eíta virtude tão vinculada à Fidalguia, e ao eílado Religiofo. Po- rém fallando dos effeitos da liberalidade, lhe diíTe eu, he eíta a jóia de mais eílimação , que pôde procurar qualquer animo género fo , que fe preza de nobre , e honrado, por ferem tão fublimados feus quilates, que ainda a muitos humildes tem feito exaltar ; e fe não, vede o que fuccedeo a hum famofo Portuguez. Era efte aífiílente em Nápoles , chamado Sebaítião Cortiços , homem de grande negocio , porém de naf- cimento humilde ; e eítando em Madrid no tempo de FilippelV. Rei de Caítella, neceffitava a Rainha mu- lher do mefmo Rei de fincoenta mil dobrões : man- dou-os pedir fobre as fuás jóias ao dito Portuguez: tornou-lhas elle com a quantia dobrada , e a Rainha lhe mandou huma lembrança de confignação. Succe- deo levalla elle comfigo hum dia de Reis , indo beijar a mão à Rainha ; e elJa ou por favor , ou por galan- teio , lhe pedio Reis ; tirou elle da ceduia , ou lem- brança , e a rompeo primeiro com reverente fubmif- são , e lha entregou , que importava da noíTa moeda de hoje fetecentos e fincoenta mil cruzados. E que poucos PortuguezesdeíTes, mediíTe o com- panheiro , haverá hoje no Mundo, Não digais iíTo, fenhor, lhe diíTe eu , que os ânimos generofos não fe con- Do Peregrino da America. 143 confiderão no muito, que dão, porém fim no primor, com que offerecem. Efte Cortiço de quem falíamos, deo elTe enxame , porque lhe ficou mais ; porém eu conheci hum mancebo filho do Brazil , o qual por fe lhe gavar hum ginete , em que viera montado , fez offerta delle, aquém lho tinha encarecido de bom; e fem embargo da^repugnancia , que lhe fez de o aceitar, o que lho tinha gavado , lho deixou o mancebo com todos os arreios , e ficando a pé , nem por iflb ficou menos airofo, pelo bom termo, com que lho deo. Masfallando acerca dos miferaveis. Sabei que o mifero não fó nega a feu próximo o que lhe pede, mas também a fi mefmo o de que neceífita , porque em lhe faltando o que tem, não ha quem delle fe compadeça. Digo iíto pelo que vi acontecer a hum homem , que navegava em hum feu barco das Villas do Sul para a Cidade da Bahia. Coítumava efte entrar primeiro pe- la barra dejaguarippe, quando levava na fua embarca- rão farinhas para vender na Cidade ; e por mais que lhe pediíTem os moradores pobres daquelle rio , que lhes vendeíTe algumas para feu fuftento, reprefentan- do-lhe fuás neceíTidades , nunca lha queria vender. Succedeo que vindo em certa occalião entrando pela •mefma barra , como efta he arrifcada , e de perigo, pelos bancos de área , que tem , deo o barco em lima de huma coroa , e como fe viíTe naquelle perigo , co- meçou a bradar ; e ainda que os que eftãvão em terra o ouvirão, lhe não quizerão acudir , por faberem que era a embarcação daquelle miferavel, e alli fe desfez, e perdeo toda a carga, que trazia. Não deixou de fer falta de caridade, me dhTe o companheiro. Afíim he, lhe diffe eu ; porém como vivião tão efcandalizados de feu máo termo, deixárão-o perder a fazenda, ain- da que fe falvárão as vidas. Porém não deixarei agora de referir hum cafo, <£ii que 244 Compendio Narrativo que vi fucceder a hum homem de bem fazer , e agra- decido : e foi , que fe lhe queimou huma cafa de pa- lha , e ficou na rua com fua mulher , e filhos ; porém os vizinhos em menos de vinte dias lhe rizerão outra maior , e de telha , dando- fe-lhe os mais dos traíles, que fe lhe tinhão queimado, e chegou a dizer de go- zo , e agradecido , que havia males , que vinhão por bens , pelo que tinha experimentado do favor de Deos, e dos Jiomens. Não devia effe homem de fer máo Chriílão, me diíTe o companheiro, pois tanto fe con- formava com a vontade de Deos. Haveis de faber , lhe diíTe eu , que o homem bem inclinado he predes- tinado, e todos o eílimão. Mas tornando ao propoíito do que nos fuccedeo com o vendeiro. Como fofíe jà tarde , e fe tivefíem ido os que eílavão na venda , nos refolvemos a lhe ir pedir agazalho , e chegando , com effeito lhe dif- femos , que fofíe fervido deixar-nos pafíar aquella noi- te em fua cafa ; o qual nos refpondeo , que a tinha mui- to occupada com os traíles da venda ; porem que fe nos quizefíemos accommodar na varanda , o podía- mos fazer. Aceitámos o partido por não ficarmos na rua. Chegadas as horas de nos agazalharmos , deitou- fe o companheiro a dormir , ou por vir cançado do caminho, ou pelo defvello, que tivera da noite ante- cedente , e fiquei eu acordado rezando em humas contas. Ouvi então perguntar o vendeiro a hum feu efcravo , quanto tinha feito aquelle dia em dinheiro? Refpondeo-lhe oefcravo, que quatro mil reis. Pouco fizeíles a refpeito dos mais dias, lhe difíe o vendeiro. E aífím mais lhe perguntou , quanta agua deitara no vinho, e nas mais bebidas? DhTe-lhe oefcravo, queno vinho deitara duas canadas de agua, e no vinagre trez, e que também caldeara a agua ardente do Reino com a da Éi Do Peregrino da America. 245 a cia terra. E logo lhe perguntou mais o vendeiro fe calcara com os dedos o fundo da medida de folha de Flandes , em que media o azeite ? ( porque fazendo cova pela parte de fora no meio da medida , com o pezo do liquor fe derrama , e parece ao que compra que eílá cheia.) E finalmente lhe perguntou fe lançara o vinho de alto na medida , para fe derramar, e pare- cer que eílava cheia ? Tudo fiz , fenhor , como voíTa mercê me tem enfinado , lhe diífe o efcravo. Pois af- fim has de fazer , lhe diíTe o vendeiro ; porque neítas caías quem dá o feu a feu dono , fica fem coufa algu- ma. Aqui fe callou então o vendeiro , e fe foi agaza- lhar ; e eu também me deixei levar do fono. Não era de todo ainda dia , quando acordou o companheiro para fazer a fua viagem ; e defpertando eu também, fe defpedio de mim com grandes demonf- trações de faudofa companhia , e me prometteo que em havendo occafião , me avifaria acerca doeítado, que pertendia tomar , para fe livrar da occafião da cul- pa , em que eítivera. Em amanhecendo de todo o dia, fahio o vendeiro para a varanda , e me deo os bons dias , ao que eu lhe correfpondi cortezmente. Perguntei-lhe que caufa ti- nha para viver naquelle fitio tão retirado de povoa- do ? Sabei , fenhor , me refpondeo o vendeiro , que haverá quatro annos , que me paífei da Cidade da Ba- hia para efta cafa , a qual me vendeo hum meu patrí- cio , que nella morou féis annos com a mefma occu- pação de comprar, e vender, e fe embarcou para Por- tugal com féis mil cruzados, ainda que ( fegundo a no- ticia , que tive ) mal logrados >, porque fe perdeo no mar em hum navio , que do porto da Bahia partio , o qual fe prefume que algum temporal o foverteo, pois atè agora fe não foube que chegaífe a porto algum. Eíle , antes que fe embarcaíTe , tinha fido meu hofpe- diii de J i^6 Compendio Narrativo de na Cidade, onde eu então refidia com huma tenda de çapateiro, por fer efte o meu officio, e vendo elle o pouco, que eu lucrava , me inculcou eíte modo de vida ; e largando eu a tenda , me refolvi a ufar deíle negocio; porque fempre ouvi dizer , que quem com- pra, e vende, não fabe o que defpende. E depois que aqui moro , me não tem ido mal ; porque havendo quatro annos , que aífiíto nefte trato , jà tenho gran- geado mais de quatro mil cruzados. Vede agora fe tenho razão, para defprezar o officio, e habitar neíte lugar , em que tão bem me tem ido , livre de alma- taceis, e rendeiros, que me condenem. _ Pois fabei , fenhor, lhe diíTe eu, que nunca vos terei por menos aproveitado, e mais perdido, que na occupação prefente. Como aífim , fenhor ? me per- guntou ovendeiro. Dirvos-hei, lhedifleeu, pelo que ha pouco^ acabaftes de dizer , que quem compra , e vende , não fabe o que defpende. Agora vos explica- rei que o que comprais he o Inferno , e o que def- pendeis he a voíTa alma. Fundo eíba minha razão no que vos ouvi tratar , e fallar eíla noite paíTada com o voífo efcravo , tanto em prejuízo de voíTa faivação, pelo engano , e malícia , com que vendeis àquelles, que vos vem comprar, porque eftais furtando aos vof- fos próximos , fendo iílo hum peccado contra a juíB- ça , e a razão , pois tomais as coufas alheias contra a vontade de feus donos, e contra a juftiça commutati- va , que he dar a cada hum o que he feu. E fabei que todos ospeccados mortaes fe podem chamar grandes , porque privão ao homem da vida eterna , e o levão ao Inferno ; porém o furto , pelo que tem decircumftancias, quedellerefultão, he mui- to para temello. Judas » pelo ufo, que tinha de furtar daquiílo , que fe dava para o neceífario dos Sagrados Apoítolos.-, veio a vender a feu Divino Meítre. Os la- 1 drocs Do Peregrino da America. 147 drôes comeqão por coufas poucas, e vem depois apc- rem-fe nas cifradas a roubar , e matar , ainda a ho- mens , que nunca virão, nem lhes fizerão mal algum, fó pelos roubarem. Pelo que veio a dizer S. João Chryfoítomo, (in Epift.2. ad Corint.) que os que furtão os bens alheios são peiores que as feras, e que os demónios , e como taes os devião rifcar do catalogo dos homens; porque as feras , quando accommettem aos outros animaes , em eftando fatisfeitas , os deixão ; porém os que furtão, de nenhum roubo íicão fatisfeitos , porque ficão com fome para fazerem outros , e quanto mais roubão , mais fede tem de furtar. Os demónios não fazem mal huns aos outros, mas fó aos homens, que não communicão com elles. Os ladrões a todos furtão , e fazem dano, aos parentes , amigos , e conhecidos ; e alíim devião fer aliftados no numero das feras , e demónios , pois são peiores que elles, e em vez de ajudarem aos pró- ximos em feus trabalhos, lhes causão outros maiores, tirando-lhes a fazenda , com que fe podião fuítentar, e ainda a mefma vida ; e fe não,, vede. Pirata houve tão deshumano, que chegou a atar hum homem a huma arvore, abrillo pelos peitos com hum alfange , tirar-lhe o coração , e dallo a comer aos da mefma nação do que tinha feito o malefício , fó par lhe não querer moftrar o caminho , por onde perten- dia feguir o feu depravado intento de roubar. Outro houve tão infolente , que fez arder huma Cidade com violento fogo. E não menos fe moftrou tyranno ou- tro pirata -, que poz fogo a huma Armada. Além de outros atrozes cafos , e infolencias , que elles fizerão no mar do Sul , como melhor fe poderá ver no livro intitulado dos Piratas da America. E por iíTo vem a fer caftigados por Deos, e ainda no Mundo pelas Juf- tiças , como actualmente eítamos vendo , e ouvindo con- tar. CLiv He J W^M 248 Compendio Narrativo Heefte vicio de furtar o mais aborrecido, que ha no Mundo ; atè os Gentios faltos da luz da Fé , e fó levados da razão , o abominavão , e abominao ainda hoje. Pythagoras, com fer Gentio, dizia que em nada fe paredão os homens com os deofes immortaes, co- mo em não furtarem , e tratarem verdade. O Gentio bárbaro de Angola caíHga rigorofamente , quando acha a hum negro comprehendido em algum furto. Os ín- dios doBrazil, ha certa nação delles, que atão aos la- drões em huma arvore , e trez dias os tem naquelle fupplicio, fem lhes darem o fuítento. Não exponho aqui os horrendos caftigos , que ti- nhão , e tem eítes taes ladrões em varias nações do Mundo 4 em pena de feus deli&os , por me não dila- tar ; e fó direi que Republica houve , que lhes man- dava cortar os braços , outra os narizes , e ainda no noífo Reino de Portugal , nos tempos paíTados , os marcavão na cara , para que foíTem de todos conheci- dos por ladrões , atè que a piedade dos noííòs Reis determinou que foíTem marcados nas coítas , porque fe tiveílem emenda, não foíTe a todos manifeíto ofeu delicio. Porém o de que mais me maravilho , he de que vi- vão eítes homens, que tem porufo furtar, como pei- xe na agua, fem remorfos da confciencia , nem fobor- ços do grande rifco de fua falvação , os quaes ainda que tenhão muita agua em lima de fi , e que eítejão mettidos no profundo pego do mar, nada lhes faz pezo. Pois , fenhor, me diíle o vendeiro , fe fucceder a hum homem, para feaugmentar em bens, tratar deite, ou daquelle negocio com algum encargo, não Ihebaf- tará que na hora da morte faça feu teítamento, e dei- xe encommendado a feus teítamenteiros, que lhe com- prem algumas Bulias de compofição, para fatisfazer o que Do Peregrino da America. 249 que tem mal levado? Dizei-me , fenhor , diífe eu ao vendeiro , ouviítes jà dizer aquelle rifão : Mouro , o que não podes haver , da-o pela tua alma? Sim ouvi, me diiTe elle. Pois fabei , lhe diíTe eu , que affim fe pode dizer deflas difpoiições de teítamentos. As Bul- ias de compofição são muito boas , para fe comporem as partes , quando hum não fabe o que tem furtado, nem tão pouco eíteve com animo deliberado de rou- bar o alheio. Porque diz S. Thomaz , Navarro , Valência , e Solino , que o alheio convém que fe reítitua logo, quando o que o tomou injuíramente tem bens , com que o pofTa fazer. Finalmente não fica efcufo o que injuítamente poflue , e tem furtado com ufuras , tra- tos, ediítratos, tendo fazenda , fenão quando reílitue, por fer o furto peccado mortal de fua natureza , op- poíto à virtude , e contra a juftiqa. Achão-fe nelle dous aggravos: hum , que fefaz aDeos, quebrantando a fua fanta Lei ; e outro ao próximo , tomando-lhe a fua fa- zenda. O aggravo, que fe faz a Deos em furtar , per- doa-fe por meio da confifsão, e penitencia : o que fe faz ao próximo, fó fe repara com a reítituição. Enão baila confeíTar a culpa , fenão fe reítituir , podendo , nem fe fatisfaz fó com reílituir , fem confeíTar o fur- to. Não fó eítá obrigado a reílituir o que faz o furto, mas também os que cooperarão no dano, como são os que mandão furtar , ou aconfelhão , e confentem no furto , tendo obrigação por feu oíficio de evitallo. Tam- bém eítá neíla obrigação o que guarda , e encobre a coufa furtada ; o que acompanha ao ladrão ; e o que participa daquillo, que fe furtou. E não vos pareça que por furtardes pequenas quan- tidades , não fazeis hum furto grande ; porque dizem os Authores , que efcrevêrão deita matéria , que para num 2yo Compendio Narrativo hum furto fer peccado mortal , não he neceíTario que fe tome quantidade notável de buma vez , mas baíta que fe tome muitas vezes , como coííumão fazer os criados a feus amos , e os vendeiros ao povo, E por iíTo permitteDeos que fevejão evidentes caíbgos, pa- ra confusão deites taes, e emenda de todos. E fe não , ouvi o cafo , que conta Cefario lib. 10. c. 31. de hum diítillador de aguas, que vendia agua da chuva por diílillada. Eítando eíle para morrer , man- dou chamar hum Efcrivão, e teftemunhas , e ordenou feu tefta mento nefta forma: Deixo todos os meus bens a minha mulher , e o corpo à terra, e aos bichos; po- rem a alma ao diabo , para que a atormente perpetua- mente. Ficarão pafmados oscircumftantes, e oadmo- eftárão não fizeííe tal teítamento ; mas eJle obítina- ào , diíTe o que Pilatos pronunciou : §jdod fcripfi, fcripfi. (Joan.19.x1.) Perguntárão-lhe , porque dava a fua alma ao demónio ? Refpondeo • Porque enganei muitas vezes aos meus próximos, vendendo-lhes agua da chuva por diílillada ; e aíTim não tenho efperança de remédio. E encommendando-fe a Satanaz, efpirou. Foi feu corpo fepultado em hum lugar immundo, on- de o diabo faz taes coufas, e tão horrendas , que nin- guém fe*atreve a chegar àquelle lugar. E para confirmação diílo, que vos digo, ouviolaf- timofo cafo , que aconteceo ha bem poucos annos na Cidade da Bahia, na praia, onde chamão o cães doSo- dré. Havia huma mulher , que vendia varias coufas comeítiveis, e de beber; e tinha por ufo miíhirar agua ardente da terra com a do Reino , e agua da fonte com o vinho. Huma noite eírando neíra occupação diabólica com huma fuaefcrava, deitando agua na agua ardente , chegando com acandea acceza , para ver pe- la parte do furo fuperior feeítava chea a barrica, fuc- cedeo cahir-lhe dentro hum pingo de azeite ; e como hia Do Peregrino da America. 151 hia com o lume da candeia , pegou fogo na agua ar- dente , e começou a arder; e vendo a mulher , e a ef- crava a lavareda , que fahia pelo buraco da pipa , tirá- rão-lhe o torno para a vafarem ; e quanto mais vão lhe ficava , mais ardia , atè que rebentou a barrica com o demaziado fogo ; e como eítavão perto a mulher, e a efcrava , ficarão queimadas de forte que a efcrava lo- go morreo, e a fenhora dalli a trez dias, com grandes dores , e gritos, dizendo que lhe parecia eftava jà em vida ardendo no Inferno. E verdadeiramente que he graviílimo peccado furtar , e roubar hum Chrillão ao feu próximo com femelhantes enganos, faltando àLei Divina, e humana 5 porque ainda na lei natural fe man- da que o que hum não quer para fi , o não faça a ou- tro : Çhiod tibi non vis, alter i ne feceris. Outro cafo vos hei de referir acerca do furto, e ambição , que fuccedeo haverá vinte e finco annos. Havia hum barqueiro , que tinha huma fumaça , em que navegava das Villas do Sul para a Cidade da Ba- hia , e carregava farinhas para vender ao povo ; e co- mo então havia falta delias, e fe lhes tinha poíto taixa que fefnão vendeflem por mais de feiscentos e qua- renta reis o cirio , entrava elle com a fua embarcação de noite, e neíTe tempo vendia as farinhas como que- ria por mui alto preço. Em huma viagem vendo o barqueiro que tomava a barra com dia , e que não po- deria fazer o feu negocio, e furto ao povo fem fer vif- to , fez-fe na volta do mar , atè que chegou a noite. Entrou hum forte temporal , que fez efcurecer a ter- ra ; e cuidando o barqueiro que entrava pela barra, foi dar em huns arrecifes junto da ponte de Santo António , onde fe perde o a fumaça , e ioda a carga , que trazia , que erão mais de quinhentos cirios de fa- rinha , além de outras miudezas ; e fó efcapou hum paíTageiro , que contou do animo a com qus vinha o bar- 2ji Compendio Narrativo barqueiro. E deita forte tem fuccedido a muitos, que fe não contentão com o ganho licito ; e poriíTo vem a perder tudo , e ainda a mefma aJma. Outro cafo vos contarei fuccedido ha menos de vinte annos. Navegava hum homem da Cidade da Ba- hia para a Villa do Camamú em huma fumaça fua, na qual coílumava levar varias fazendas , aíTim feccas, como molhadas , e com ellas fazia muitos negócios com aquelles moradores. Succedeo que eftando na barra da dita Villa com a fumaça furta para fazer via- gem para a Cidade , chegou hum índio da terra , o qual lhe vendeo huma bola de âmbar , que teria mais de meia arroba de pezo , por trinta mil reis , pelo ín- dio ignorar o que vendia , e a fua eftimação ; e aíum fe ficou o barqueiro com o âmbar , que depois vendeo por feu valor. E como fe viífe com baítante cabedal, embarcou-fe para Portugal com mais de vinte mil cruzados ; mas chegando à barra do Porto , perdeo-fe o navio, e todo o cabedal, que levava ; e fahindo em terra nu , fera nada foi para fua cafa , como defefpe- rado. Adoecendo dahi a poucos dias , o forão vifitar alguns amigos ; e querendo-o divertir da pena , ref- pondia : ^Eu não tenho fentimento do que perdi , fe- nao de que tendo com que pudera fatisfazer o que devia , náo reítituiíTe a tempo , como fe me mandou. E com eíla continua acabou a vida , fem fe querer confeíTar, nem tratar de fua falvação. E poriíTo fediz que defender o próprio, he acerto; e querer o alheio, nem he juíliça , nem razão; porque como eíle fe pof- fue com má fé, nem fe logra com defcanço, nem che- ga a terceiro poíTuidor, porque tem defcaminho. Senhor , me diíle o vendeiro , em grandes efcru- pulos me tendes mettido. O que agora vos peço , he que me deis algum remédio, para poder reílituir a tão viverias p^íToas o que lhe tenho mal levado , depois que Do Peregrino da America. *J3 que vivo nefte trato de comprar , e vender. Sabei, fenhor, lhediffeeu, que mui difiicultofa coufa me parece dar-vos remédio ao que me pedis, porque ainda os melhores Moraliftas lhe achão gran- de dificuldade, para darem folução , e inteira reítitui- çao a eíTe dano. E confeftb-vos verdadeiramente , que matéria heeíTa, que eu antes quizera ouvilla, eapren- della , que praticalla , enfinando-a , porque por mais que fe acerte em femelhantes reílituições, nunca po- derão ficar cabalmente fatisfeitas as partes prejudica- das. Coftumão muitos mandar aos que fe achão com femelhantes encargos , que os fatisfaqão com manda- rem dizer MiíTas , e repartir efmolas com os pobres, e outras femelhantes obras pias , porém não defpre- zando tão prudentes confelhos, Digo que fe houvera certa fciencia de que eíTas peíToas erão falecidas , e não tinhão deixado herdei- ros , em tal cafo aífentava tudo iífo muito bem ; po- rém na confideraçao de que eífes fujeitos exiítem , e vão continuando em mandarem comprar à vofía ven- da , fou de parecer que os vades aventajando na medi- da , e que não ufeis mais de bebidas , e licores falfifi- cados para vender ao povo. Ilto fuppoíto , o melhor confelho, que vos poíTo dar de caminho, he que logo vos vades confeíTar com hum ConfeíTor douto, prudente, e virtuofo, que vos foffra, e queira ouvir as grandes offenfas , que tendes feito a Deos , e a voffbs próximos , e tomai o confe- lho, queellevosder, compropoíito de vos aproveitar. Na verdade , fenhor , me diífe o vendeiro , que não fei com que palavras vos íignifique o quanto vos eftou obrigado. Agora conheço que eftou no Inferno, pelos grandes peccados , que neíTe particular tenho commettido ; porque não íó roubei a eíte povo com a venda , mas também pelo negocio de ufuras no di- nhei- «■ 2j4 Compendio Narrativo nheiro , que dei a alguns homens , que mo pedirão porempreítimo., com a condição de vinte, e de trinta por cento, e ficando-me penhores em meu poder. Pois, fenhor, lhe diíTe eu, quem bufca a fonte, para fe lavar, ou o Medico, para ie curar, lava todas as immundicias, e conta todos os achaques. Tomai o confelho , que vos tenho dado , e relatai com toda a clareza as voíTas culpas ao ConfeíTor , e ufai dos feus avifos , que eu vos prometto que Deos vos acudirá, como tem foccorrido a muitos ; porque também Zs- quso foi onzeneiro ; mas pedio perdão a Chriíro Se- nhor noíTo, foube arrepender- fe, efoi perdoado, por- que tomou o confelho, que omefmo Senhor lhe deo; porém ficai certo , que eítando vós neíTe officio , fem reflituir, podendo, vos he impoílivel a íalvação; por- que fe o Bom Ladrão foi perdoado , além da dita de achar huma occafião , que não fuccederá outra vez jà mais no^ Mundo , morreo pobre , e crucificado , com muita fé em Deos, e com grande humildade ; e como . não tinha com que reítituir , e refarei r os danos, que tinha feito a feus próximos, perdoou-lhe Deos. Pague-vos Deos, me diíTe o vendeiro, os fauda- veis confelhos, que me tendes dado. Eu vos promet- to com o favor Divino de me aproveitar delles, dei- xando eífce trato , em que eftou , e tornando ao meu officio , para me fuftentar , e paíTar a vida , ainda que não feja com tão grandes lucros , por me livrar dos encargos da confciencia , em que me veio , fegundo o que me tendes declarado; e oxalá houvera quem mais cedo me advertiííe , para eu conhecer o grande peri- go , em que eílava da minha falvação. Muito folgo, fenhor, IhediíTeeu, de vos ver tão conforme com os avifos, que vos tenho feito ; e afíim ha de querer Deos confervar-vos em feu fantoferviço, para que alcanceis o premio da Berna venturança. Alli Do Peregrino da America. 2jy Alli pa(Tei todo aquelle dia, e noite feguinte em companhia do vendeiro , fazendo-me elle mui bom agazalho , e logo que apparecêrão as primeiras luzes da aurora , delle me defpedi , o qual com demonftra- ções de cordeal arfe&o me difle , que fó lhe ficava a pe- na de mais tempo me não poder ter em fua compa- nhia. Refpondi, dizendo-lhe, que melhor era folicitar a de Deos , e que eíta eítiveííe fempre em nofíbs co- rações. CAPITULO XVIII. T)o oitavo Mandamento. Trata-fe muita doutrina 9 e fe rep rehendeov icio da m u rmuração . * 258 Compendio Narrativo o cafo ; e era iítohuma refinada calumnia , e murmu- ração, que andavao ordindo, e maquinando, para de- pois a porem em pleito , como puzerão diante de Pi- latos ; porque dizião : Como pôde eíle dar-nos a co- mer fua carne? Não he poffivel. E que lhes reíultou deíla murmuração , e calumnia ? Digão-o elles mef- mos, que bem o tem experimentado. Sabeis de quem murmuravão eftes homens ? Não murmuravão menos que dos milagres de Deos ; por- que o Author dos milagres he Deos , (como diz Da- vid Pfalm.71. 18. e 13^.4.) e os fujeitos dos milagres são as creaturas. E ainda fe não querem emendar ef- tes homens de ferem murmuradores. Lembrem-fe do que lhes fuccedeo , quando murmurarão contra Moy- fés, e doscaíligos, que lhesvierão, e das mais vezes, que murmurarão contra a Divina providencia ; por- que coníla da Sagrada Efcritura , que tirou Moyfés do Egypto feiscentas mil almas, não contando as mulhe- res , nem os homens de vinte annos para baixo ; e de todo eíle numero fó dous chegarão à terra de pro- mifsão , Joíué , e Caleb. E qual foi a caufa? A fua murmuração contra Deos. Não lhes quero citar o tex- to , porque elles mui bem o fabem : aflím ofoubeíTem elles entender, e melhor obfervar , porque fempre en- tenderão a Efcritura às aveíTas, por feus peccados. Diz S. Jeronymo, que fenão hou veífe quem ouviíTe aos murmuradores, não haveria murmuração. E aílim parece , porque bem defejára algum ter' com quem fallar, e murmurar ; porém como o não querem efcu- t r, calla-fe por força. Por iflb nos^uiz Chrifto bem noíTo dar eíta doutrina , quando eítavão os Judeos murmurando contra fua fanta innocencia , e dizendo- Ihe tantas ignominias. Perguntou-lhe Pilatos : Não vês quantas teftemunhas tens contra ti? Como te não defendes ? Foi myíleriofo o filencio , com que Chrif- to Do Peregrino da America. 259 to Senhor noiTo então fe houve ; porque como a cul- pa daquelles homens era huma murmuração facriléga, não quiz refponder , para que fe não dilTelTe no Mun- do que dava ouvidos aos murmuradores. E jà em ou- tra occaíião os tinha reprehendido o mefmo S* nhor, dizendo- lhes: Não fejais murmuradores em minha pre- fençp. (Joan.6.43.) Sabeis porque fe caftigão osjudeos pela maior parte ? Por murmuradores. Ajuntão fe huns com ou- tros , e começão a murmurar. E de quem vos parece que murmurão ? De Chriílo Senhor nolfo , e de feus Santos , e Miniftros. E que lhes fuccede deitas mur--' murações ? CaftigaJlos a Santa Inquificão , ferem de todos aborrecidos , e vituperados , e depois catingados no Inferno. Ifto não he murmurar eu delles , nem lançar-lhes em roítro eítas culpas com defprezo ; porem fim ad- vertillos , e avilallos , para ver fe fe pôde curar eíta terrivel enfermidade , que não pode haver outra ma- ior no Mundo ; porque também os Cirurgiões cor- 1 tão, e cauterizão, para livrar aos enfermos de muitos perigos , e enfermidades ; e fendo eíta da alma, com maior razão fe lhe deve acudir , e queira Deos que aproveite, conforme o zelo, com que o advirto; por- que feria eu peior que o mefmo demónio , fe repre- hendendo opeccado, e inculcando a virtude, memet- teífe na mefma culpa de murmurar , e aniquillar ao próximo ; (fe he que fe pode chamar próximo quem. deite modo obra) de mais que eu fó fallo dosqueobião inal , e não dos que merecem louvores ; porque eítes taes , pelo feu bom procedimento de Cathõlicos , e bons Chriítãos , não lhes ha de faltar Deos com a fua Divina graça , e mifericordia , dando- lhes nefta vida muitas eftimações entre os homens, e na outra o pre- mio da Gloria. R ii Sao i6o C ompendio Narrativo São também mui parecidos os murmuradores com os demónios, pelas calumnias, e mentiras caufadas da inveja , que fabricão em ódio dos homens , como ex- perimentarão os noílbs primeiros pais com a ferpente infernal Jogo no principio do Mundo ; e foi o cafo , que fahindo Eva ao vergel doParaifo, toda trajada de gloria , convidada do íitio , foi eítendendo o paíTeio por entre plantas , e flores , e mui viítofos pomos, vendo as cryftallinas aguas ; as arvores lhe fazião ver- de docel de efmeraldas ; as flores lhe alcatifavão o prado; os pomos a convidavão ; a fonte jà de admira- da parava, pela ver retratada emfeus cryítaes; os ani- maes abfortos de verem tanta belieza , lhe rendião adorações ; as aves com fonóra melodia a feítejavão, por cuidarem que era a Aurora , que por aquelle ori- zonte vinha fubindo , refultando-lhe tudo ifto de fer huma creatura tão perfeita, e bella , como feita pelas mãos deDeos, competindo nella o aíTombro com a admiração , a gala com a graça , condigna por certo de toda a veneração , pois era a maravilha única, que fe via naquelle alegre jardim; mas eíte profpero efta- do lhe durou pouco; porque hefabido que ornai fem- pre eílá de aíTento, e o bem traz azas comfigo. E vendo o demónio tantas adorações feitas^ hu- ma creatura , cheio de raiva , einveja , começou a murmurar com feus fequazes , e maquinar huma refi- nada traição , e calumnia contra Eva , pela ver com tantas excellencias , entregue a toda a lifonja; e logo fuppoz que lhe havia de dar ouvidos , porque tanto folgava de apparecer ; e transformando -fe em huma ferpente , porém com boa cara, (que he o que coítu- mao fazer alguns murmuradores , para melhor encu- bnrem a fua diabólica tentação) mettendo a Eva em converfação , lhe perguntou , porque não comia do fru- to da arvore da fciencia do bem , e do mal? Refpon- deo- Do Peregrino da America. 161 deo-lhe Eva: Porque Deos no-lo tem prohibido. Re- plicou-lhe a ferpente: Sabeis porque Deos vo-lo pro- hibio ? Porque comendo-o vós , e voíTo efpofo , ha- veis de ficar femelhantes a Deos. Creo Eva de ligei- ro, como mulher, o que a ferpente lhe tinha dito en- ganofamente , e foi logo com o alvitre a Adão a per- íuadillo , para que comeíTe do fruto vedado , comen- do-o ella primeiro. Ecomo Adão tanto amafle a Eva, fem reparar no preceito, que lhe havia porto Deos, comeo do pomo, e por eíTa caufa fe vio logo defpido da graça , de que Deos o tinha vefHdo, efoi lançado do Paraifo, fazen- do-nos a todos ficar fujeitos ao peccado original , e expoftos a padecer tantos trabalhos , e infortúnios, quantos são os que experimentamos neíla miferavel vida. Oh quantos homens , cegos de hum appetite , e in- duzidos de huma mulher, por lhe fazerem a vontade, defprezão a Lei Divina , e vindo por eira caufa a ex- perimentar tantos trabalhos, e muitas vezes perdendo a vida , e a mefma alma , que he o que mais fe deve fentir! E tomem também as mulheres exemplo deite laf- timofo cafo , que fuccedeo a noííbs primeiros pds; porque fe Eva eftivera em companhia de feu efpofo, nem o demónio teria occafião de a enganar, nem ella leria a caufa de fazer peccar a Adão ; e aflim as mu- lheres cafadas, que fe quizerem confervar em ferviçp de Deos, e em paz com feus maridos, fujão de feme- lhantes paífeios, econverfações de gente de máo pro- cedimento, e vejão que ainda hoje ha no Mundo fer- pentes com boas caras. Grande doutrina fe me oífe- recia neíle particular ; porém como vou moítrar-vos as deítrezas , e aíhicias do inimigo infernal , não me poífo deter ; e aífim para que conheçais quem he o R iii de- i6z Compendio Narrativo demónio, e o que fuccede a quem delle íe fia , ouvi o feguinte cafo. No tempo, que pedio pazes Caílella a Portugal ,' depois das guerras , que tinhão precedido por caufa da feliciíTima acclamação do noflb Rei D.João IV. ficarão alguns Toldados' nas fronteiras de Flandes eni defenfa do Rei de Caílella: entre elles fe achou hum muito humilde de geração , porém com efpirito guer- reiro , ou para melhor dizer , intereiTeiro , o qual in- vocando ao demónio, para que lhedéíTe bomfucceíTo nas armas , appareceo-lhe promptamente o demónio, por lhe conhecer o animo. AíTentárão no pacto , que havia de fer com condição , que não aceitaíTe poílo fomenos daquelle, que eíliveíTe exercitando na guer- ra ; e como tudo iíto erão conveniências do foldado, conveio no concerto ; e tratando do exercício mili- tar, fubio a tanto fua fortuna diabólica, que em breve tempo chegou a fer Meílre de Campo. Houve occa- fião de porem cerco a huma Praça amurada ; e fubin- do hum Sargento por huma efcada , lhe deitarão de fima huma panella de refina quente , que o fez defcer a tombos. Vendo o Meílre de Campo que o Sargento fe defcia com a dor da refina, pegou na alabarda, cha- mando- lhe fraco % e fubindo pela efcada , aos primei- ros degráos lhe difparárão os contrários hum arca- buz , e cahio em terra paíTado de bailas. Eílando na- quelle tranfe , lhe appareceo o demónio , e dando hu- ma grande rifada , que dos circumílantes foi ouvida, lhe diíTe o moribundo : Enganas-me ? Refpondeo o diabo : Tu es o que te enganaíle , porque tomalle o poílo inferior , do que fervias. E com razão , porque defde que delle fe fiou , logo ficou enganado. Aqui tendes as deílrezas, e equívocos, com que trata o de- mónio de enganar aos homens ; e aífim são também todos aquelles , que com ditos equivocados, e appa- ren- Do Peregrino da America. 263 rentes razões vivem no Mundo , enganando a feus pró- ximos com mentiras, e enredos. SódeDeos fedeve fiar tudo, porque nunca falta, por fer a fumma verdade. Pergunte-fe a S. Pedro fe- não fora o crer elle huma verdade de Chriíto Senhor noíTo, quando lhediíleque antes que ogallocantaíTe, trez vezes o negaria, o que lhe hia fuccedendo? Mas como S. Pedro foi fempre homem de muita verdade, por iílb lhe fuccedeo tão bem ; porque làdiíTe aChrif- to feu Divino Meftre que verdadeiramente era Filho de Deos; (Matth. i6.n.i6.) e porfallar verdade, me- receo fer Príncipe da Igreja, e eítar gozando da Bem- aventurança. Judas pelo contrario lhe fuccedeo ; porque como fempre foi mentirofo , aleivofo , e murmurador facri- lego , por murmurar de Chriíto noíTo Redemptor , e em outra oceafião da Magdalena, e dos mais Difcipu- los com os Judeos , veio a morrer enforcado , por fe ver fora do Apoftoiado , e defprezado dos mefmos Ju- deos ; e atè a alma parece lhe não quiz fahir pela bo* ca , nem paliar pela lingua , ou tocar nos dentes , por fer a boca do murmurador horrenda , a lingua efpan- tofa , e os dentes peçonhentos. Muito he para fe temer aboca de hum murmura- dor; porque ainda depois de morto , e de eítar no In- ferno , não deixa de offender. Conta o Author no li- vro Efpelho de Exemplos , que houve hum Clérigo grande murmurador , o qual fendo condenado ao In^ ferno por fua depravada lingua, depois de là eftar, vomitava hum cheiro tão intolerável, que atormenta- va ao Bifpo , pelo não ter caftigado em vida. E vejão là os Sacerdotes , e ainda os Religiofos , o como fe hão em fuás converfaqões, pois tendo obriga- ção de as dirigir todas a maior gloria de Deos, coftu- mão muitos dar gofto ao demónio , e ruim exemplo R iv aos , ■ 1Ó4 Compendio Narrativo aos_ feculares ; e por eíta caufa dizem alguns : Que muito he que nós murmuremos , quando também os Padres murmurao? Procede iílo muitas vezes da pou- ca cautela, que tem os Eccieíiaíticos nas converfaçoes em prefença dos feculares; porque fe verdadeiramen- te bem foubeíTem o eílado, que tem, andarião conti- nuamente dando milhares de graças a Deos , confide- rando-fe que são Anjos em carne mortal , pois com eítes comparou S.João Chryfoítomo os Sacerdotes; e fendo aíTim , não lhes negarião os feculares aquelle refpeito , que a tão alta dignidade fe deve. Infeliz he aquellacafa, ou Republica, onde tão laíhmofamente reina eíte vicio, que ninguém fepóde prometter fegurança em feu bom procedimento; por- que fe levanta a calumnia contra o innocente , a vin- gança contra o próximo , o deícredito contra o bem procedido , a deshonra contra a virtude , e a traição contra a finceridade ; a verdade fe occulta , o credito fe mancha ; a modeítia fe vitupera; a prudência fean- niquila; e finalmente não vale a virtude, nem pódeef- capar o mefmo jufto. Que minas não tem padecido as famílias? Que aborrecimentos as gerações? Que defgracas os inno- centes por caufa da murmuração? Que honras, vidas, e fazendas não tem deílruido as línguas dos murmu- radores por hum falfo teítemunho? Se fe houveíTem de referir, era neceílario mui largo tempo. E fe eítes queixofos pudeíTem fallar , como encherião o Mundo de juftas queixas ! Mas là eílá Deos, que tudo fatisfa- rá , caíHgando a eíles maldizentes , e premiando àquel- les, que com paciência fouberão tolerar , e foíFrer as injurias, fem vingança contra os que os offendêrão. São taes os murmuradores, que atè das obras de Deos murmurao ; queixão-fe dos tempos , da falta das novidades, da pouca faude, e de ferem pobres; e tal- Do Peregrino da America. i6$ talvez fe foíTem ricos , mais o offenderião ; e fe vem alguém comalgnm defeito natural, ou moral, jà delle fallão , e murmurão ; e fe diz o murmurado , que he como Deos o fez , refpondem os murmuradores : Pois fe Deos te fez , eu te quero desfazer , e anniquilar. Pôde haver maior atrevimento , que chegar hum ho- mem a murmurar daquillo , que Deos fez ? Pois eíle- jao certos, que não hão de entrar no Ceo. Não fei fe tendes reparado que dizem osMathe- maticos , que fe vem varias formas de corpos de ani- maes no Ceo; porque dizem que vem o Leão, o Boi, o Carneiro , e finalmente outros muitos animaes ter- reftes, evolatis, e ainda peixes domar; porém não fe tem viíto o cão; e a razão diíto a meu parecer he por- que ladra. Vejão agora là os murmuradores , fymbolo do cão, por ladrarem, e morderem, fenem ainda pin- tados apparecem no Ceo , como poderão realmente entrar nelle. S. João Chryfoílomo diz que não tem o demónio iníbumento mais a propoíito , para nos fazei: peccar , do que a noiia língua. ( Homil. 5. ) São também os murmuradores mui parecidos, e femelhantes à tifoura , por ter eíla o corte às aveíTas dos mais inítrumentos de gume , que vale o mefmo, que fallar mal , e às aveíTas do que devem fallar. Fe- chada a tifoura , de nenhuma forte corta ; porém em abrindo a boca , tanto corta o panno preto , como o branco ; o groíTo , como o fino ; a lã, como a feda ; a prata, como o ouro; o ponto eílá em fe ajuntarem as duas pontas , ou línguas murmuradoras. Por iíTo fe coftuma dizer , quando fe ouve murmurar de alguma peííoa : Bem cortarão de veítir a fulano. E fó não cor- ta a tifoura , fe eílá fora do eixo , por fe apartarem as pontas : dará hum pique, mas não cortará ; porém em fe ajuntando ambas , tudo cortão , e fazem em peda- ços. O' tifouras cortadeiras , quern vos pudera tirar os %66 Compendio Narrativo os eixos , ou queixos defles adjuntos , para que não cortaíTeis tanto pela fama , e créditos de voílbs próxi- mos ! Sei eu ( porq ue coníta da Sagrada Efcritura i . Reg. 2,4. 5. ) que em certa occafião cortou David hum re- talho da capa de Saul ,. para lhe molhar que poden- do-o matar , o deixava ir com vida , onde parece que não houve a mínima culpa j e com tudo David, como era homem juílio , por eíle golpe deo muitos no feu coração. (Ibid. v. 6.) Não são aíFim osmurmuradores; porque cortão capas , defpedação veílidos , retalhão mantos, femdiíTo fazerem efcrupulo, nem refarcirem o dano, e menos terem arrependimento, atè que che- ga o tremendo golpe da morte , que os faz ir pagar no Inferno. Peçp-vos pela Sagrada Morte , e Paixão de Chriíto Senhor noífo que cuideis niílo de vagar, para que vos emendeis. Que irreparáveis danos não faz a lingua , quando levanta hum falfo teítemunho, na honra, credito, ou fama do próximo ? E como nos parece coufa leve f não fazemos cafo diíTo , fendo que fem fe desdizer, e fatisfazer , não he poílivel haver perdão ; porque co- mo he em dano de terceiro , em quanto efte não eítá fatisfeito, não aflenta o perdão, ou abfolvição, ainda que fe confeífe com dor , e arrependimento ; porém o que nós vemos fucceder a cada paíTo, he murmurar, e levantar falfos teílemunhos , e nunca desdizer em publico, nem em particular ; porque dizem eftes que são homens honrados , e que não querem que os te- nhao em pouco ; fendo que por iílo fe diz que he ac- ção de plebeos , e gente vil, o ma nifeftar defeitos do próximo ; e daqui procede que os nobres , e pruden- tes não dão credito às faltas alheias , mas humilhão-fe , tendo para fi que fe Deos os defamparar porfeus pec- cados, cahirão em peiores faltas. Mas -— Do Peregrino da America. i6y Mas làirão para o Inferno eítes maldizentes , on- de para fempre fe maldirão , porém fem remédio; porque não falta quem diga que os peccadores , que vão ao Inferno , fegundo a caufa , porque là vão , são nelle atormentados ; e fendo aílím , vede que berros, que blasfémias , e que gritos darão naquelle abyfmo infernal os murmuradores, que neíte Mundo levantão falfos teílemunhos contra feus próximos. Só de o con- íiderar fe me arripião as carnes. Oh meu Deos , pela voíTa Divina mifericordia me livrai de tal chegar a ver, nem ouvir. Senhor, mediíTe o dono dacafa, como me pode- rei livrar de ouvir ao murmurador , fe for embarcado com elle , ou eíliver em lugar , donde me não polia afaítar de o ouvir ? Refpondo , lhe diíle eu : Se o não puderdes evitar , em quanto o ouvirdes , callai-vos,' que niíTo o eílais reprehendendo ; mas fe o ouvirdes, e vos puderdes livrar de afliítir, fugi, tanto pelo peri- go da alma , como do corpo , que fuccede de feaie- Ihantes companhias; porque coílumão eítes taes mur- muradores dizer , por fe defculparem , não o que dif- ferão na murmuração , porém fim o que ouvirão ref- ponder aos que o efcutárão. Por iíTo coíhirnava dizei hum certo velho, que eu conheci de mui bom proce- dimento, e virtude, quando fe começava a murmurai em alguma converfação : Meus fenhores , eu não que- ro murmurar , nem ouvir murmuração , porque jà fou morto, e homem morto não falia, nem ouve. E deita forte reprehendia aos murmuradores , e delles fe li- vrava j defpedindo-fe. Por certo , me diíTe o dono da cafa , que eu farei muito por obfervar o confelho, porque não deixa de ter fentido maior, E aflim vos digo , fenhor , lhe diíTe eu , que são nocivos os murmuradores , e mui femelhantes ao ba- filifco , do qual dizem os naturaes, que fe elle vê pri- mei- **\ Um 16% Compendio Narrativo meiro a alguém , com a viíta o mata ; porem morre, fe he viíto antes de elle ver. Não ha melhor femelhan- ça dos murmuradores ; fevem alguma peíToa, matão-a com a língua ; e fe são viítos , morrem ; porque além de fe fallar delles, não tem com quem fallar ; e de fe verem fós , e defprezados de todos , rebentão , como jà diíTemos de Judas. Eu conheci a hum deites, quecoítumavafahir de lua cafa a bufear a converfação às de feus vizinhos; fe os achava defeuidados fem o verem , aceitavão-lhe a vifita por força ; porém fe o vião antes de elle che^ gar, fugião de lhe fallar. Dizia eíte infolente murmu- rador , que os moradores do feu bairro erão ignoran- tes , porque não prezavão a fua converfação , fendo elle Pregador das verdades. Até que lhe diíTe hum : Senhor Fulano, eítá voíTa mercê enganado: fogem de o ouvir converfar, por fer a fua converfação huma re- finada murmuração das vidas alheias, e temem ir com voíTa mercê para o Inferno. São também os murmuradores mui parecidos com hum animal , que ha na índia , e chamão Bifon , do qual dizem os naturaes , que he do tamanho de hum boi , e tão bravo , e horrendo , que muitas peíToas fó de o verem , cahem efmorecidas em terra. Tem eíte a língua tão afpera , que defpedaça aos mais animaes fó com os lamber , porque lhe tira a pelle , e a carne. AíFim são os murmuradores ; aonde lanção hum golpe de lingua, tirão (como là dizem ) couro, e cabello. O murmurador com hum golpe de lingua faz trez feridas: offende aDeos, offende ao próximo, e offen- de-fe a Ç%. Offende a Deos , porque quebra o feu Di- vino preceito. Offende ao próximo , porque falta à caridade, em defeubrir a falta alheia , ainda que a te- nhas, não fendo obrigado por Direito, ou bem da Re- publica. OfFende-fe afl, porque não pode haver maior in- Do Peregrino da America. \6<) infâmia para hum homem , além do peccado, que te- rem-o por murmurador , mentirofo , e falfario , aílim porque todos fogem delle , como também por fe ver envergonhado diante dos que tem offendido. Dacuruja fe conta, que por caber com o Rei das aves , lhe foi levar hum alvitre , dizendo- lhe que a garça lhe queria tirar o poder, emageílade, eque por iflb andava pelas praias convocando as mais aves para lhe porem guerra. Mandou o Rei examinar, e devaf- far do cafo ; e achou que andava marifcando a garça, e que era mentira o que havia arguido a curuja. Quiá o Rei caíligalla pelo falfo teítemunho , que levantou à garça j efcondeo-fe a curuja , e por eíta razão não apparece de dia. Dos quatro elementos fó a agua murmura ; e pot iíTo padece maiores trabalhos, e abatimentos, corren- do pelos pés dos montes; a terra a engole, as arvores a chupão, os animaes a bebem , o Sol a fecca ; pren- dem-a nas áreas , fechão-a nos chafarizes , anda por alcatruzes , e por iílb poucas vezes apparece em pu- blico. Aílim fuccede aos homens malquiítos , e rour- muradores ; de todos fe efcondem , porque a todos oíFendem. Conta-fe que fendo levados dous culpados a hum Miniítro da Juíliça, para os mandar caítigar: hum por matar a hum homem , e o outro por levantar hum fal- fo teítemunho a huma mulher honeíta , fez o Miniítro examinar os cafos , e fabendo que fora a morte acci- dental , fentenciou que foíTe degradado o homicida j e conhecendo que o outro era coílumado a levantar aleives, o mandou enforcar. E perguntado o Miniílro por hum feu amigo como aílim procedera , refpon- deo : O primeiro póde-fe emendar, porque foi pai- xão ; o fegundo fempre havia de perfeverar , porque era vicio. He ; 27o Compendio Narrativo He tão aborrecido efíe vicio defallar mal do pró- ximo , que atè a mefma Lei do Reino , e todo o Di- reito commum prohibe que os Julgadores recebão ar- tigos diffamatorios entre as' partes litigantes, pelo da- íio , que dilíb pode refultar ao terceiro , e pelas con- Jequencias , que dahi fe feguem em prejuízo do pró- ximo. Muitos murmuradores tem a condição do monte Ethna , o qual oitenta neve , e diílimula fogo. Come- çao eítes com acl:os de commiferação, e deíparão em hum trovão , vomitando raios , e corifcos contra o credito, e" honra do próximo. Começão , dizendo: Fulano he hum bom homem , bem procedido , tem eítas , e aquellas partes ; porém fe não fora filho de fuão , ou neto de íicrano , que tem eíta , ou aquella nota. Ah homem perverfo , para que ccmeçaíte com tão boas palavras de louvores , fe havias defparar em eíle rigor fem piedade ! E ifbo talvez fem lhes per- guntarem , nem vir a propoíito , fó por aniquillarem a feu próximo; e também me parece que difto fe não confefsão, porque logo efquece, e fó felembrão para aquelJas occaíiões. Finalmente, grande conta feha demifler para fe ouvir aquém louva ; porém maior he neceíTaria para fe çfcutar a quem vitupera. Os ouvidos são as portas fe- gundas da verdade , e principaes da mentira. A ver- dade ordinariamente fe vê , e extravagantemente fe ouve , raras vezes chega feu elemento puro ; e menos quando vem de longe , fempre traz miíluras dos af- feclos, por onde palia; toma as cores, como lhe pare- ce, jàodioía, jà favorável. Por iíTo fe conta, que per- guntando humFilofofo, que diílancia havia da verda- de à mentira , refpondeo : A que vai dos olhos aos ouvidos. Quantos padecem grandes calumn ias por hum falfo teítemunho , por não fer examinada , e vifta a verdade ! He m*x Do Peregrino da America. 271 He neceíTario haver muita attenção neíteponto^ para defcubrir a má intenção no terceiro ; porque ha tal aítucia , e íutileza nos maldizentes , que fe eítão contrafazendo fó por darem a entender a falta dos próximos nos reflexos do luzido, com que oslouvão; e a tanto chega a maldade deites falladores , que atè os mortos lhe não efcapão ; e eíta fera fem dúvida a razão , por que os comparão com as fepulturas , por andarem defenterrando os mortos , para lhes publica- rem as faltas, que tiverão em vida. E affím vos digo, fenhores, que he daEfcritura, que o que pertende guardar a fua alma, fe applique a guardar a fualingua, (Proverb. 16.17.) E em outra par- te repete a mefma fentença , dizendo : Quem guarda a fua boca , guarda a fua alma ; e quem he inconiíde- rado no fallar, fentirá males. (Proverb. 13. 3.) E em comprovação deita verdade diz também a Efcritura, que o vafo , que não tem tampa , ou cubertura , fera immundo. (Num. 19. 15.) Ha também hum peccado chamado adulação , o qual tem grande connexão com a murmuração, e por fua natureza he viliííimo; porque além de reconhecer o adulador fuperioridade no adulado , ofFende hum dos mais nobres fentidos do corpo humano, que he o do ouvir , por ferem os ouvidos as portas , por onde nos entra a Fé, e os melhores documentos para o bem da alma. Deites aduladores conheço eu alguns tão déítros, e peritos, que não ha quem lhesefcape, tan- to que lhes dão ouvidos. Por iíTo perguntado o fabio Bias qual era a mais cruel das feras , refpondeo , que das bravas o tyranno , e das manfas o adulador. E Diógenes diífe , que das bravas o murmurador , e das domeílicas o adulador. Na verdade vos digo, fenhor, mediíTe o dono da cafa, que pelo que vos tenho ouvido, me confidero o mais ■I^HHHH 272, Compekdio Narrativo mais perdido homem , que ha no Mundo ; porque pa- recendo-me que a murmurarão era hum dos mais le- ves peccados , agora conheço que he mui grave cul- pa , e jà me peza de tantas vezes ter cahido nelle pec- cado, com tão pouco temor de Deos, e refguardo de minha alma. Poisfabei, fenhor, lhediíTeeu, queiíto he hum breve raícunho à viíta do que fe pôde dizer da gra- veza deita cuJpa tão bem parecida dos homens; e por iíTo não houve Efcritorefpiritual, nem Pregador Euan- gelico, que nella não tenha martellado , para verem fe podem extirpar eíte vicio; e com mui efpecial clareza Fr. João Baptifta Secardo nofeu livro Geral ruina con- tra o vicio da murmuração, por conhecerem eítes Au- thores a grande facilidade , com que os homens com^ mettem eíte peccado, e os graviílimos danos, que faz. Senhor , me diíTe o primeiro hofpede , eu eítou tão abforto , como admirado dos eftupendos cafos , que tendes referido; earTim fico de acordo tratar logo de me confeiTar, e aceitar toda a penitencia r que me for impoíta ; e jà defde agora me defdigo de tudo o que tenho dito contra as peílbas 9 das quaes murmu- rei em feu defcredito , e deshonra. Eu o que poíTo dizer , diíTe o fegundo hofpede, he que fupponho haver fido efpecial favor de Deos a voíTa vinda neíta occafião , para que nos declaraíTeis, e explicaíTeis hum erro , em que eítavamos mettidos, tão defcuidados de fua graveza, e malicia; e por eíta razão farei com o favor Divino por me refrear , e emendar daqui por diante. O melhor parecer , diíTe o dono da cafa , he con- feíTarmo-nos, não fó deita murmuração, mas também das mais, que temos feito, e de todos osnoííbs pecca- dos , e tratar de nos emendarmos delles , e fugir de íèmelhantes converfações. E com eíta refolução fe def- — Do Peregrino da America. 273 defpedírão os dous hofpedes , moítrando-fe agradeci- dos do que me tinhão ouvido dizer contra o vicio da murmuração , e defejofos de fe emendarem dalli por diante. E porque era jà noite, me fez o dono da cafa re- colher ; e depois de cearmos, me diíTe : Bem fei , fe- nhor, que vireis cançado da jornada ; porém porque, fegundo osdi&ames da Medicina, fempre ouvi dizer: Depois de cear , mil paííbs dar ; entendendo-fe que prejudica muito à faude o dormir logo depois da cea, íem primeiro fazer algum exercicio , como diz o ada- gio Portuguez : Se queres enfermar , cea , e vai-te deitar ', antes que nos agazalhemos , tomara que me déíTeis alguma regra para me poder livrar deite vicio da murmuração , porque vos confidero homem mui verfado nas Hiítorias dos livros íagrados , e profanos. Senhor, lhe diíTe eu, não fó me vejo obrigado a fatisfazer o que me mandais que vos diga , mas tam- bém a refponder-vos a eíTe louvor , que me dais , tão fora do meu génio , e defneceíTario para quem trata da fua falvação , por fer iflb hum certo meio de per- dição em todo aquelle , que lhe entrar no penfamen- to , que pôde obrar coufa alguma boa fem mui efpe- cial graça, e favor de Deos, como fonte de toda afa- bedoria, que muitas vezes dá a faber osfeus fegredos aos mais humildes , para que aproveitem no Mundo, o que grandes talentos não podem alcançar ; porque he certo que não baftão forças humanas , para poderem conhecer feus Divinos fegredos , como coníta de vá- rios livros, e lugares da Sagrada Efcritura: (Joan.155'.) Sine me nihil potejlis facere. Iílo fuppoíto , vamos à razão, em que me mandais vos dê algum confelho, para vos livrardes do vicio da murmuração. Haveis de faber que he confelho de todos os Mef- tres de efpkito , que dão para nos livrarmos deíle vi- S cio, ► « 274 Compendio Narrativo cio , ufar da virtude do íilencio , evitando as ruins converfaçóes de peílbas ociofas , e de máo exemplo; porque não ha coufa , que mais nos faça diílrahir , do que femelhantes converfaçóes , defneceíTarias para o bem efpiritual ; e por iífo tanto fe recornmenda nas Re- ligiões ofilencio, que não ha nenhuma, que onãoob- ferve naquelle tempo determinado , e aíTentado nas Regras das Communidades ; e não fe pôde com pala- vras encarecer o feu proveito , e o quanto he agradá- vel a Deos huma creatura , que fe mortifica na virtu- de do íilencio ; porque verdadeiramente quem aílirrt fe mortifica, tem muitas apparencias , e vifos na terra com os Efpiritos Angélicos , e Bemaventurados , que eílão no Ceo. Porque fegundo a opinião mais provável dos San- tos Doutores da Igreja , na Bemaventurança não fe ar- ticulão palavras, e tudo fe faz por conceitos ; e eíles tão acertados , como nafcidos da luz da fabedoria, que he o mefmo Deos. E por contrapofição , no In- ferno tudo são vozes, gritos, blasfémias, e gemidos, tãotriítes, como lamentáveis, pelo que coníta de mui- tas revelações , e affirma a Sagrada Efcritura. Por iífo do íilencio fe dizem tantos louvores , como publicão muitos Santos ; e Santa Terefa aconfelha que entre muitos he acerto fallar pouco. Diz S. Lourenço Juítiniano : Nada menos convém ao homem , que trata de fervir a Deos , e caminha para a perfeição , do que a lingua defenfreada , e folta das ataduras da moderação , porque ella lhe deftroe, e mata o recolhimento , e união do efpirito. E São Bernardo diz : Callando entre os homens , aprende- mos a fallar com Deos; enão fe agrada Deos de fallar familiarmente com quem falia muito com as creatu- ras. E diz o Senhor pelo Profeta Ofeas : Levarei a alma ao deferto , e lhe fallarei ao coração, ( Ofese c. z.) v. 14. Do Peregrino da America. 275 v. 14.) Vede fe pode haver mais folidas verdades pa- ra defengano dos falladores murmuradores. AíTentemos por máxima infallivel, que não ha fal- lar muito, fem peccar. (Prov. 10. 19.) E ainda na Re- gra, e Eílatutos da Ordejn de Sant-Iago, com fer en- . tre feculares , diz o Capitulo 7. Tenhão íilencio na Igreja , em quanto fe diz o Officio Divino , e fallem poucas vezes, e com neceífídade, que parece que não fora Regra, nem Religião Chriítã, fenão obfervafíem eíla virtude dofilencio. PoriíTo fe diz, que aboca fe- chada faz que tenha o coração paz. Perguntado Arif- toteles , como feria hum homem bem quiíto, refpon- deo : Fazendo boas obras , e fallando pouco. E diz Marco Tullio , que quantas vezes falíamos , tantas fe faz juizo do que fomos. E tanto he neceífario para a falvação o filencio, que por iíTo a juíliça , e as Leis mandão , que antes que fe caíligue algum culpado , feja levado à cafa do fegredo , que vale o mefmo , que ao filencio ; porque não era bem que fe mandalfe tirar a vida a hum ho- mem , fem haver tido filencio , para ter tempo de tra- tar da fua falvação. E affim também fera grande acer- to , que nos coítumemos a guardar filencio ', porque defde que nafcemos , logo fomos fentenciados à mor- te com aquella irrevogável fentença : Statutum efi l5minibus femel mori , ( Ad Hebr. 9. 17. ) e nós com maior rifco, porque aquelles fabem o dia, em que hão de ir ao fupplicio ; e nós não fabemos o anno, nem o mez , ou dia , e hora , em que havemos de morrer. Eítou mui certo , e conforme em tudo o que me tendes dito, me diffe o dono da cafa; porem fó fe me offerece huma duvida ; e vem a fer : Se o filencio he o mais efficaz meio para fe evitar efíe vicio, como he poffivel a hum fecular , que trata de vários negócios no mundo, obfervar eíTa doutrina? Refpondo , lhe S ii diííe 176 Compendio Narrativo difle eu : Haveis de faber que não coníiíte fó eíh vir- tude do filencio no exercício -da língua , como feacha nos mudos ; porque muitos Santos andarão no meio dos povos , e dentro de palácios , e alli íizerão obras heróicas de grande virtude , e ainda os mefmos Reli- giofos , que he mais para fe notar. São Francifco Xa- vier converfava , e jogava com os feculares ; São Fi- lippe Neri também converfava com elles , e o mefmo fazia Santo Ignacio ; e finalmente todos os mais San- tos , que fe derão a Deos nas Cidades , e povoações; porém fempre muito em filencio , para não tratarem , nem fallarem , fenão o que era para bem de fua faiva- ção, e dos mais, com quem tratavão, e openfamento em Deos, como norte, que nos leva ao porto da fal- vação. PoriíTo S.Baíilio diíTe que o filencio he aefcola, onde fe aprende a fallar acertadamente , fendo que não he necefiario mais exemplo, que o deChrifio Se- nhor noíTo , o qual vivendo trinta e trez annos no Mundo entre os homens , tratando em público com elles, là foi^para o deferto , para fe dar ao filencio , e à oração, não porque carecefíe delle, porém fim para nos dar exemplo. Porifib là difle S.Paulo, admoeítan- do aos falladores , ecuriofos de darem novas, que tra- tafíem de fua vida , trabalhando em filencio , {%. ad Theflal. 3. 11. ) como quem fuppoz que fenão foíle em filencio, não trabalharião, porque he certo que o fallar pouco coíhima andar com o obrar muito ; e re- parai que atè na Mufica , para fe fazer boa confonan- cia, he necefiario callar, e contar as paufas às vozes, porque de outra forte mais pareceria bulha , e grita, que confonancia. Por iíTo aconfelhára eu que para hum homem fe poder confervar em paz com todos, e agradar a Deos, fuja de fer fallador, e tenha muito cuidado de não fes ami- Do Peregrino da America. 277 amigo de dar novas , e alvitres , porque muitas vezes refulta diíto inimiítar-fe com muitos , e terem-o por novelleiro , e mentirofo. E he para notar que tendo todos tanto cuidado de fechar asíuascafas, e gavetas, para que lhes não furtem a prata , e ouro , são tão pou- cos os que tratão de fechar as fuás bocas, e guardar a chave, que he a lingua, por onde o demónio nos rou- ba as boas obras , e nos furta a mefma alma para o In- ferno. E acabarei eíte meu difcurfo com o que là dif- fe hum Douto Efcritor , que para grangearmos muito credito para com os homens , e merecimento para com Deos, devemos dizer bem de todos, e fó mal de nos » „ .1 Senhor , me diíTe o dono da cafa , eítou tão fatif- feito do que me tendes aconfelhado , que com pala- vras me não atrevo a explicar : pague- vos Deos eíta caridade, que eu farei, com ofeu Divino favor, mui- to por imitar voíTos documentos , e tomara que a to- dos aproveitaffem , a quem eu puder fazer prefente eíta voíTa doutrina ; porém como são jà horas de nos agazalharmos , não vos quero maismoleítar, fuppoílo que nunca me enfadara de vos ouvir. Alli tendes a- quelle quarto , onde podeis paíTar a noite. E retiran- do-fe o dono da cafa , me fui eu recolher. CAPITULO XIX. !Ds. Eíla gloriofa em- preza nos cuftou fomente doze foldados mortos no conílicto, e pouco mais de trinta feridos, devendo- fe todo eíle bom fuccefíb àquelle perfeito heroe Portu- guez pelas inexplicáveis prendas de feu valor , dei- xando a índia fatisfeita , Portugal agradecido , e a mundo admirado. Ecomo me vi com que poder paflar a Corte, pa- ra tratar dos meus requerimentos, pedi licença ao Vi- ce-Rei , o qual mui francamente ma concedeo , pelas inflas caufas de ter eu andado nas campanhas da Eu- ropa , e índia , e pela razão de fer ainda minha mãi viva , e tão carregada de annos. Com effeito me em- barquei em huma náo , que fe apreítava para Lisboa ; e como haja hum Decreto de EJRei , que as náos da índia entrem na Bahia , para fe refazerem do neceíla- rio, precifamente tomámos eíte porto. Saltei em terra , tomei cafas , e defembarquei o mais preciofo , que trazia : fui cortejado de muitos , deixei- me levar da lifonja , e entreguei me de todo ao luxo , onde me coníiderei em huma confusão de Babel, ou labarintho de Creta ; e podendo fer antípo- da do efcarmento , me fiz objecto da vaidade , porque me entreguei a todos os paífatempos , e deleites mun- da- Do Peregrino da America. 287 danos : jogava com largueza , e repartia prodigamen- te o que me tinha cuílado o rifco da mefma vida : ti- ve .muitos amigos , os quaes perdi logo , ao tempo, que o dinheiro me faltou ; e aífím aconfelhára eu que melhor he não ter taes amigos de conveniências j e fundo- me no que diz o EcclefiaíHco cap.6. v. 8. que o amigo do tempo, no dia da tribulação fe converte em inimigo ; porque o verdadeiro amigo fó he aquelle, que do mefmo bem , e mal participa , fegundo o que diz Cicero , o que tudo experimentei ; e pelo que me tem fuccedido , poflb dizer que os filhos de Lisboa nafcem na Corte , crião-fe na índia , e perdem- fe no Brazil. Vendo-me naquelledefamparo, fui ter com hum homem , que fe eílava apreílando para ir para as Mi- nas do ouro ; e depois de lhe manifeílar o aperto , em que me via , me diíTe que fe o quizeíTe acompanhar, me levaria no feu comboi. Aceitei a ofTerta , por não ter outro remédio ; e pondo-nos a caminho , depois de alguns dias de jornada adoeci dehumas cezões tão violentas, que me puzerão incapaz de feguir a derro- ta ; e chegando à fazenda de hum morador , que diíta daqui quafi trez léguas ; vendo-me naquelle eítado, commovido de piedade , mediíTe , que ficaíTe em fua cafa , para tratar da minha faude. Aceitei o favor , e foi Deos fervido que eu alcançaíTe melhoras ; e de- pois de me ver livre do achaque , me offereci ao mo- rador para lhe enfinar a hum feu filho ( que tinha da primeira mulher, por haver íido jà cafado, que pode- ria ter de idade féis para feteannos) em agradecimen- to, e remuneração do muito , que lhe devia, atè que houveíTe occafião de tornar a ptofeguir a minha via- gem , o que o morador prezou muito , e aílim me hia entretendo , e em algumas occaíióes paíTava o tempo em repetir ao dono da cafa os trágicos fucceflbs r que me m 2§8 Compendio Narrativo me haviao acontecido , e elle fe moílrava mui fatis- feito, e em parte compaííivo de mos ouvir contar, f Sendo jà paíTados dous mezes, me diíTe eíla ma- nhã o morador , que lhe era neceííario chegar à cafa de hum vizinho a tratar fobre certo negocio ; e def- pedindo-fe de mim, partio. Dalli abreveinílante fen- ti que fe abria huma janella ; eapplicando os olhos, vi fcintillar dous rutilantes luzeiros em hum ceo anima- do , e no breve rafgo de hum rubicundo carmefi ap- parecer cândido marfim , burnido , e lavrado por arte da natureza. Adornavão eíle globo duas encarnadas rofas, que lhe davão muita graça. Dividião eítas per- feições dous arcos com igual correfpondencia , defpa- rando agudas fettas em defenfa de hum reduclo tão bem feito , que por ií!b jà houve quem lhe chamou a linda torre de Faro. Duas ricas madrepérolas lhe fer- viao de pendentes, que como era encantadora, trazia do mar as prendas. Não fallo aqui dos cabellos , por- que os trazia entrançados ; quiçá porque vindo foltos farião mais traveííuras. Suílentava eíla belleza huma coluna de neve com laços de ouro tecida. Vinha em camiza , e anagoas , defprezando toda a gala , pela fer da formofura. Era finalmente eíle compendio , e íin- gular maravilha, a mefrría dona da cafa. Não me condeneis, fenhores, fe parecer exagge- rativo na digrefsão de tão repetidos epiíodios em lou- vor deíla belleza ; porque não he minha tenção narrar amores , nem inculcar aíFedos profanos , porém fim dizer- vos o infeliz fucceíTo , que veio a experimentar eíla creatura bella taolaílimoíamenté, como logo vos direi ; e por eíla razão me he forçofo temperar o inf- trumento de meu difcurfo , para vos contar o que me pergunta fies , e publicar a todos os que fe deixão le- var do vaidofo entretenimento do amor profano , os laílimofos cafos, em que vem a parar. E rom- Do Peregrino da America, 289 E rompendo a mulher neítas palavras, me diíTe: Dias ha, Senhor, que vivo tão íobornada 20 galhardo talhe de voíla gentileza , que por não applacar o fo- go , em que me vejo arder , bufquei eíle meio de me poder declarar. Bem fei que parecerei temerária no atrevimento, com que vos fallo ; porém a culpa tive- rão meus olhos , e a ocioíldade de vos ouvir repetir os trágicos fucceílbs davoífa vida ; ecomo me parece íer mais culpado meu marido em procurar trazer hum hofpede, ou afpide , para me tirar a vida, tenha ago- ra a pena de lhe fabricar eíla traição. Senhora , lhe diíTe eu , em mim não reconheço as partes , com que me tendes lifongeado : nafcerão fem duvida do affcclro cordial , com que vos quereis moítrar agradecida , por conhecerdes o grande defe- jo , que tenho de fervir a todos deíla cafa , pelo difve- lo, com que me folicitárão as melhoras de minha fau- de , e por ifíb tomara inventar novos agrados para os contentar. A fatisfação do meu goílo , Senhor , me diíTe a mulher , não fe paga , fem dar cumprimento a * meu defejo. Senhora , vede , lhe diíTe eu , que entre as maiores eftimações , que coílumão os homens pre- zar no mundo , he a fua honra : poderá volTò marido faber voíTo deíígnio, e tomar vingança com juíta cau- fa. Para tudo ha remédio , me tornou a dizer a mu- lher ; porque aífím como fe tem defcuberto antidotos para ávida, também fe fabricarão venenos para a mor- te. E fera acerto , lhe diíTe eu , pagar benefícios com ingratidões? Tenho entendido, replicou ella, que não forão os impulfos das armas do inimigo , que vos fí- zerão fugir da guerra , porém fim voíTa cobardia. E com efta refolução , retirando-fe da janella , to mou o andar para o interior da cafa. E reparando , notei no feu donairofo talhe , tudo aíTeio, tudo alinho, tudo garbo, e perfeição \ e levan- T tan- igo Compendio Narrativo tando-me do lugar , em que eftava , fui encaminhan- do os paíTos para huma camera , que na mefma varan- da ellava , e me fervia de recolhimento ; e prefagian- do algum infaufto CucceíTo, formei logo tenção de me retirar de tão evidente perigo. Eis que então ouvi tropel, como de muitos, que corrião apreífadamente ; e reparando , vi entrar o do- no da cafa com hum punhal na mão , dizendo a dous efcravos , que me não deixaíTem fahir da camera, em quanto dava execução a feu aggravo , pois tão clara- mente o tinha viílo. Mas como na camera havia hu- ma janella , por ella me fahi > e com ir com aprefla- dos paíTos, ouvi tão laítimofos gritos, como de quem entregava a vida às mãos de hum executor verdugo. E tendo- me diítanciado da cafa mais de hum quarto de légua , aviftei hum maranhofo ramal , dentro do qual me recolhi , de cujo lugar defcubria a eítrada ; e dalli a hum quarto de hora paíTou o dono da fazenda montado a cavallo, com quatro efcravos, todos arma- dos, aos quaes hia reprehendendo , porque me tinhão deixado fahir com vida. E vendo-me eu naquelle evi- dente perigo , fiz hum prornettimento aDeos , que, fe me livraííe daquelle aperto , iria bufcar huma Reli- gião, onde fazendo penitencia, acabaífe ávida em feu fanto fervi ço. E logo fiz eíte difcurfo. Oh caduca belleza ! Oh falfa vaidade ! Como te coníidero tão depreíTa arruinada l De que te fervio a vida eíhibada em hum engano com alentos de huma refpiração , fe havias de morrer de hum fufpiro ? Ah infeliz !- Quem te diíTera ha menos de huma hora , que toda eiTa locução fe havia dever em hum fiíencio trif- te ye que todo eíTe garbo , e bizarria tão depreíTa ha- via de defapparecer, como huma exhalação, que cor- re; huma fetta veloz ; huma ave, que voa y hom pere- grino , que paíTa ; huma náo , que navega \ huma em- polla Do Peregrino da America. 291 pollá de agua ; huma nuvem , que fe desfaz ; huma flor, que cahe ; e hum vento, que defapparece? líto me imo confidero hoje em ti , ò defgraçada. De que te fervio aquelJa bem viíta formofura , e por- tentofa belleza * quando apenas parecias hum aíTorn^ bro de perfeições , para feres agora coniiderada hum eílrago da vida, e hum horror da morte? Glorias, que hão de fer. de tão pouca dura , para que he poiTuillas? Felicidades tão momentâneas , pa- ra que he eítimallas ? Formofura, que tão deprefla fe affea , para que he idolatralla ? Vida , que tão breve- mente fe acaba , para que he prezalla ? Finalmente ,'■ para que he fazer tanto apreço , e eílimação de huma exhalação, que defapparece ; de huma fetta, que rom- pe o ar j de huma ave „ que voa ; de hum peregrino, que não tem jazigo ', de huma náo , que vai navegan- do ; de huma nuvem , que fe desfaz ; de huma empol- la de agua , que fe defmancha ; de huma flor , que murcha ;_ e de hum vento, que não apparece? Por iíTo com muita razão chamou Job à noíTa vida ílor : §uajl fios egreditur^ & conteritur ; (c.14. v. 2.) e em ou- tro lugar (cap.7. y.7.) lhe chamou vento: Ventus ejl vita me a. E aílim devemos cuidar fempre , que todo efte compoílo mortal ha de vir a parar , e reduzir-fe em pó , e cinza : §uia fulvis es , êã tnçulverem re- ver ter is. (Gen. 3.19.) E depois de ter feito eíle difcurfo , vendo que os que me bufcavão fe tinhao jà diítanciado , os fui feguindo , por ter ouvido dizer , que era bom trazer os inimigos à viíta , por não experimentar hum golpe defcuidado ; e vendo que tinhão tomado a derrota pa- ra a parte do Sul , vim bufcar eíla paragem , onde to- pei com o Senhor Peregrino , que foi o meu condu- clior à volTa prefença , e de vós efpero todo o ampa- ro , e foccorro. Tii Se- ipz Compendio Narrativo Senhor , lhe difFe o morador , podeis eftar foce- gado, porque vos mandarei pôr com toda a fegurança onde fordes fervido ; e para que deis cumprimento à voíFa promeíTa , que íizeíles a Deos de fer Religiofo, podeis difpor de duzentos mil reis, para vos preparar- des do neceíTario. Com que vos retribuirei , Senhor , lhe diíTe o mancebo , o muito , que vos devo ? Com, me encommendardes a Deos , lhe refpondeo o mora- dor. Nunca o deixarei de fazer, lhe diíTe o mancebo, por não incorrer na nota de ingrato, a quem vivo tão obrigado. E logo fallando comigo o morador , me difíe : Que vos parece , Senhor Peregrino , o laíHmofo cafo daquella infeliz creatura , eadifcrera narração dos trá- gicos fucceíTos , que tem acontecido ao Senhor Li- cenciado t E também tomara que me diíTeífeis agora o que fentis do peccado do adultério , pelos atrozes cafos , que vejo no mundo acontecer. primeiramente haveis de faber, Senhor, lhe di£- fe eu, que por iíTo com muita razão chamão ao amor, Cupido, por fer filho de Marte , deos da guerra , e de Vénus , deofa da formofura , e fymbolo do amor pro- fano ; e pelo que tem de guerreiros amantes , e valen- tes namorados todos aquelles, eaquellas, que fe alif- tão debaixo de fuás bandeiras a fervilío nos feus exér- citos , por iíTo vem muitos a morrer de fettas herva- das do peccado , e vão a parar fuás almas no Inferno. Em quanto ao elegante eftyio , e difcreta narra- rão, com que nos tem manifeítado o Senhor Licencia- do os periodos de fua vida , bem claro fe verifica o mui- to, que as fcientes letras o tem polido, e o exercicio militar adeftrado , para fallar com acerto em todas as matérias. E no que refpeita ao altivo de feus panfa- mentos, por tanto appetecer, e nada recear , e correr eíTes remontados climas do mundo 3 tudo lhe procede dos Do Peregrino da America, 293 dos generofos brios de feu nobre nafcimento , por fec mui própria condição da nobreza bufcar honoroías emprezas , para melhor fe poder qualificar nas noti- cias , as quaes fe alcanção , quando difcorrendo a re~ dondeza da terra fe completao , enchendo a largueza de feus grandes corações ; porque he certo que nada faz aos homens mais capazes , e peritos na difcrição, do que o terem corrido o Mundo , levando comfigo o cofre das fciencias , (ifto he, as artes liberaes, que fe aprendera , e as faculdades , que fe eítudão ) para terem que dar , e repartir com aquelles , de quem ré*- cebem benefícios , e onde pofsão recolher as mais pre- ciofas prendas das difcretas noticias , que difperfa- mente acharem nos grandes talentos ,. com que trata- rem, Porque muitos feí eu, que mendigão nettas em? prezas, cahindo em muitos tropeços, por fe acharem tão faltos de faber , como cheios de ignorâncias , por fe não terem aproveitado no tempo , em que os obri- gavão feus pais , e eonvidavão feus Meítres para os enfinarem. E por iflb agora vos digo , fenhor Licen- ciado , que podeis apofbr muitas ventagens com os mancebos nobres, que paíTeão nas praças , recreando* fe nos jardins de Flora , galanteando as damas $ pelo muito , que tendes vifto , e experimentado na voíTíi peregrinação difcreta j louvando-vos também a elei- ção de vos quererdes retirar ao fagrado de huma Re- ligião, pelos grandes infortúnios , e perigos, em que vos tendes vifto , que eíTes são pela maior parte os lu- cros , com que o Mundo coítuma pagar a quem o fer- ve, e fe deixa levar de fuás engano fa-s promeíTas. Porém fallando agora do peccado do adultério,; haveis de faber , fenhor , diffe eu ao morador, que ha homens tão refeatidos na opinião de fu.a honra , que baila verem em fuás mulheres o menor recato na efti- T iii ma- I i 294 Compendio Narrativo mação defeus recolhimentos, para logo darem à exe- cução feu imaginado aggravo. Por iíTo com muita at- tenção , e cuidado fe deve fugir deíTa culpa , por fer huma das mais enormes, e execrandas , que pode ha- ver, poisnella fecomprehendem muitos males, ecir- cumítancias, e omefmo preceito Divino no-lo eítá in- firmando ; porque diz o Mandamento : Não defejarás a mulher do teu próximo \ no que bafta haver defejo, para que feia peccado. Eque fará executado? E aífim com palavras fe não pode explicar , nem exprimir a offenfa, que faz hum adultero a Deos , e a feu proxi- mo, por fer mais que ferimento, e outros danos par- ticulares , que fe podem fazer ao próximo ; de forte, que fe a hum homem lhe puzeffem fogo àfua cafa, ou lavoura , e o encheflem de golpes , lhe não farião maior offenfa, do que chegando a fua mulher. E poriíTo devem todos fugir deite peccado ; por- que fe bera confideraíTe hum homem, e huma mulher o dano , que refulta deita culpa , por fer irreparável, nunca o havião de commetter , pelos eítragos > mor- tes, defamparo de filhos , e reftituição ao offendido; e como a eíte nunca fe pode fatisfazer , nem pedir perdão , he mui diíncultofo de fer perdoado. A experiência , e os livros nos tem moítrado que houve muitos homens , os quaes antes quizerão per- der as próprias vidas , do que ver offender a fuás mu- lheres. Vede que fem razão fera offender huma mu- lher a feu marido ! Por iffo diz Santo Ambrofio: Ain- da que tu , ò adultero , enganaíte ao marido , não ha? de enganar a Deos ; e ainda que efcapes da vingança do offendido , ou das penas da lei , he certo que não efcaparás do Juiz do Mundo univerfo. (Lib. 1. de A- brahão cap. i.) E pelo que tenho viíto fucceder por câufa deite peccado , bem comprovada fe vê a autho- ridade deite Santo. Ouvi ^ Do Peregrino da America. 295: Ouvi o feguintecafo, que fuceedeo em huma das Villas do Sul , da Capitania dos Ilheos. Havia hum mancebo mui prefumido de valente , (e por iíTo mui defvanecido de louco ) o qual andava amancebado com huma mulher cafada , atè que a veio a tirar do poder de feu marido. Dando-fe efte por offendido , como o pedia a razão do feu aggravo , tratou de os querer accufar à JufHça ; e fabendo o adultero deíre intento, foi bufcar aoqueixofo, ediíTe-lhe que fe por alguma via intentafle moleftallo , lhe havia de tirar a vida. Deixou- fe o miferavel offendido do que tinha intentado. PaíTados alguns dias , diífe efta má mulher àquelle infolente adultero , que andava pejada, e por eífa caufa defejava comer numas amoras, que Ihasfof- fe bufcar. Bailou eíte dizer , para que logo o mance- bo em companhia de hum feu irmão fe embarcaífe em huma canoa, efoíTe a huma Ilha, onde havia eítas fru- tas ; e faltando em terra , deo logo com huma arvore cheia delias ; e como são arvores fylveílres , e muito al- tas, a derribou i mas ficando ella preza em outra mais gro0a , refolveo-fe o mancebo a íubir pela que eítava em pé , para deita paíTar à que eítava derribada , e co- lher as frutas ; e chegando perto da arvore cortada, lhe pegou em hum galho, que fazia junto com outro huma forquilha ; e puchando pelo mefmo galho , def- ceo a arvore cortada fobre a que eítava em pé , pela qual fubia o mancebo , e de improviíò lhe prendeo o pefcoçp entre huma, e outra arvore; e para que mor- reífe folemnemente com algoz, e teílemunha de vifla era tão atroz fupplicio , chamou pelo irmão , o qual brevemente lhe acudio ; e vendo-o naquelle horrivel eftado , fem íaber determinar-fe , fe refolveo a fubir pela arvore cortada , levando hum machado na mão, e quanto mais fubia , mais o apertava , opprimindo-o com o pezo do páo ; atè que chegando junto do pa- T iv de- %ç6 Compendio Narrativo decente , fe determinou a cortar hum dos galhos t que o prendião ; e foi tal o golpe f que errando o páo; lhe acertou no pefcoço , e alli o acabou de matar ; e alíim veio a morrer mi fera vel mente eííe fofeerbo adul- tero , fendo elle mefmo o motor , e executor de feií caítigo , por haver oíFendido a Deos, e a feu próximo. Eíte cafo bem o poffo aíHrmar t$ porque vi o cadáver^ o mais horrendo , e efpautofo efpedraculo 9 que tenha viíto. Eftupendo caft*y fenhor , me diííe o morador: na verdade muito devemos temer os juftos juízos de Deos , e fugir de femelhantes peccados.- Pois ouvi outro cafo , lhe diífe eu , que também? fuceedea não ha muitos annos, em huma Ilha (a que eharnão do Defembargador) do recôncavo da Cidade da Bahia. Morava neffca Ilha hum homem caiado , o qual indo huma vez pefear 9 e voltando para eafa jà quaíi meia noite , bateo à porta ; e porque vio que fe lhe não abria promp ta mente , foi bufcar a do quintal , e a eíle tempo vio fahir por ella hum homem corren- do ; e partindo o dono da cafa atrás delle , o adultero fe precipitou por hum defpenhadeiro r que ficava no fim da Ilha da parte do Sul ; ealèm de fer a queda mui alta, deo com a cabeça em humas pedras, e logo alli ficou morto, íem que ooíFendefle outro algum inítru- mento , mais que o* caítigo do feu peccado. Por iíft> fe diz r (me diue o morador) Supplicium efi geena, peccati. ( Grc. in Pifon. ) E para mais confirmação do que vos digo , con- tinuei eu , ouvi o cafo feguinte. Havia huma mulher cafada , que tinha o marido fora de cafa ; e na confian- ça de que não viria tão depreíTa, recolheo nella a hum homem t com quem tinha amizade illicita. Aeíie tem- po lhe bateo o marido à porta ; e parecendo- lhe à mu- lher que o marido vinha a tomar vingartça da offenfa, que ella lhe tinha íeitoyfem mais cautela , nem reparo fe Do Peregrino da America, i.97 fe lançou de huma janella ; e porque as cafas erão de fobrada, e altas ,-cahio de forte , que logo alli ficou morta; ' E vendo o marido aquelle arrojado impulfoi examinou^* cafo, e veio no conhecimento de que fo? ra em caftigo do peccado da mulher. Melhor não po- díeis provar a authoridade de Santo Ambroíio t me diíTe o morador , nem; contar cafos mais apropofito dos adúlteros, que fe caftigão por fi próprios. E porque não fiquem os homens- cafados, IhediíTe eu , fem algum exemplo dos adultérios , que fazem a fuás mulheres, ouvi ofeguinte cafov que não ha mui* tos annos fuecedeo na Cidade da Bahia. Havia hum Letrado, o qual fem embargo de fer cafado, fe aman- cebou com huma meretriz y e tanto fe embelezou nc* feu depravado amor , que mais aíFiftencia fazia à àmk ga , do que à Aia própria mulher ; e para mais fe dar a eíte abominável vicio, tinha poflo a manceba em hu- ma fazenda fua no recôncavo da mefma Cidade. E depois de terem panado alguns quatorze annos , fem querer largar eíta mulher, eílando elle na Cidade, lhe veio hum avifo com muita certeza de como fe tinha ido a fua concubina para cafa de outro homem ; e foi tão vehemeníe o ciúme , e pezar , que concebeo efte Letrado, que acabou a vida em menos de doze horas , fem haver remédio 5 que lhe pudeíle valer ^ nem confelho, que lhe aproveita íTe. Eu conheci muito bem eife Letrado > me diffe a morador, porque me advogou em huma caufa, de que alcancei vencimento pela fua grande intelligencia , e deârtza, E o peior he, fenhor, IhediíTe eu , que ten- do tão grande faber para aconfelhar aos mais , não fe foube vencer , nem aproveitar para íi , que eíFa he a^ maior defgraça dos feientes ) quando não guardão os preceitos de Beos. E nafee iào muitas vezes , forque líies parece % mui* J 298 Compêndio Narrativo muitos homens eafados que não he tão grave á culpa do adultério , que fazem a fuás mulheres , como he a das mulheres para com os maridos. Pois faibão que ainda que as JuíHças humanas fe hajão com alguma diílimulação , na Lei Divina corre o mefmo parallelo f e não fei fe diga que com maiores circumífcancks?; porque quanto mais fe conhece a graveza da culpai tanto mais he caítigada por Dpos. Ver o como neíía terra coftumão os homens ca* fados facilitar eíta culpa, e ainda com as fuás próprias efcra/as de portas a dentro , dando tão má vida a fuás mulheres, tão grande efcandalo à fua familia, e tanta oufadia a fuás efcravas, he para exclamar, e condenar com rigorofos caítígos aquém tal chega a obrar, por- que mais parecem eíles homens viver na lei deMafo- ma , que na de Ch riflo j e por iíTo vem muitos a aca- bar pobres , e miferaveis , e alguns mortos pelas meC- mas concubinas com veneno , como a cada paíío eíta*- mos veado , e depois vão ao Inferno a penar para fempre. E fe algum (o que Deos não permitta) fe achar em tal peccado , vá bufcar logo Gonfeífor , e faiba con- feíTar-fe, e faça o que elle lhe aconfelhar, que eu lhe prometto que fe aílim o fizer, lhe nâb ha Deos de fal- tar com o perdão , .fe o bufcar a tempo , por fer eíte peccado tão atroz , que ha de miíter muito de Deos hum homem para fe livrar delle , por ter occafiao de por- tas a dentro , que fó lançando-fe fora , fe pôde livrar de offender a Deos. E fe eu houyera de vos repetir os atrozes cafos, que tem fuccedido, eeítão fuccedendo porcaufa def- te peccado , de muito tempo neceílitaria para os po- der dizer j e baíta que não houve nação , por barbara que foíTe, que não abominaíTe eíta culpa , e não foíTe caíligada por todas as Republicas do Mundo. Os «i Do Peregrino da Amertca. 299 OsEgypcios eflabelecêrão lei contra eíte pecca- do , em que mandarão que fe o adultério fe commet- telTe fem dolo, nem força, o homem levafle mil açou- tes, e à mulher lhe cortaííem os narizes. Tenedio, Rei , mandou pôr hum Edi&o , no qual ordenava , que juntos os adúlteros , os partiííem cont hum machado. Os povos da antiga Saxoníaufárão de dous modos de pena , ambos horrendos : hum era obrigar a adul- tera a enforcar-fe por fuás mãos , e debaixo lhe pu- nhão fogo, e fobre as cinzas da miferavel enforcavão também o adultero : o outro era levar a adultera a açoutar pelas ruas, Aldeãs, e Lugares ■ circumvizinhos ; e os verdugos erão todas as mulheres , que fe quizef- fem moftrar honradas , e zelõfas , as quaes fahindo nu- mas dehuma parte, e outras de outra, a hião açoutan- do com varas , e retalhando-lhe os veffidos atè à cin- tura ; e aííim a irtaltratavão , e deixa vão por morta. Na lei deMoyfés fe mandava que morreíTe a adul- tera apredejada. (Levit. 20. 10.) As Ordenações do noíTo Reino permittem, e mandão por bem da Repu- blica que os oíFendidos pofsão accufar aos adúlteros a que morrão morte natural, (Ord. 1. ?. tít. 15-.) Final- mente , quaíí todas as nações , ainda as que carecem de politica f tem eíte deliâo por culpa grave, que tão abominável he. E aííim aconfelhára en a todas as mulheres , que fe quizerem confervar em virtude para com Deos , e em paz com feus maridos , não fó fujão de cahir em tão horrenda culpa , mas nem ainda dem a menor oc- caíião de defcon fiança a feus maridos ; porque muitas vezes diííimulão com prudência , o que vem depois a executar apaixonados com razão. E tomem exemplo daque Ha difcreta matrona Ere- na, que chegou a dizer : Antes mil vidas perder, que ofEen- ^k n J 3©o Compendio Narrativo offender a Deos , e a meu marido. E fe não , vede o que aconteeeo a Hypo , matrona mui celebrada por lua grande formo-fura , pois antes quiz perder a vida , que violar a virtude da caílidade, que tanto amava, E por iíTo fujão de todo o trato de converfaçoes de homens, e de lhes appareçer , ainda que fejão pa- rentes; porque là diz o proloquio Caftelhano : Lamu^ çha converjaclon , es caufa de menos preeio % e ha muitos homens 5 que fe nãocontentão com levar os peccados em alforges aos pés dos Confeffores , mas pom carregailos em ceílos para o Inferno, Fujão , quanto puderem s de ter trato , ou familiari- dade com pefloas Eceleíia&icas ; porque fuppoíto fejão comparadas com os Anjos a tem fuccedido muitas ve^ zes pelo caminho da virtude entrarem na eítrada da maldade; e baíta ter- lhes muito ref peito de longe; porque também da terra fetem devoção com os Anjos, e Santos do Ceo. Contentem- fe com ouvillos , e veL- los nos Altares , nos Púlpitos , e nos Gonfe.ffionarios , que são os lugares, em que os Sacerdotes reprefentão a Chriílo. Vejão que o demónio he como o ladrão : èlte furta nas eftradas , aquelle na oceafião. Guardem- fe , quanto for poííivel , de ter amizade com mulheres deshoneítas 3 porque làdiz o rifão: *£>/- g,e-me com quem andas , ãirte- hei que manhas tens. Não digão mal de Teus maridos em prefença de outrem , por não incorrerem na nota de que os não amão como devem , e são obrigadas. E fe feus mari- dos lhes derem máo exemplo nefte particular , nem por iíTo lhes venha tal tenção de os ofender com ou- tra femelhante injuria ; porque alem da orlenfa , que fazem a Deos, põem as fuás vidas em perigo de ferem .eafligadas pela Juftiça , ou mortas por feus maridos; porque deitas defattençoes, e modos de vingança tem fuccedido graves males, e lamentáveis defgraças, De Do Peregrino da America. 301 De nenhum modo aceitem dadivas , fem califa muito urgente , de homem algum. Não queirão em luas cafas apparato mais , do que as fuás poíTes alcan- çarem ; porque pela cubica cahirão no laço do demó- nio , o qual lhes moítrará , que fendo-lhes neceíFario dinheiro para eíte fim , íobre o penhor da fua honra não faltará quem lho empreite. Também devem fer. muito honeítas no veítir , porque as galas deshoneílas eítáo indicando corpo lafcivo. E por iíío fe diz: Não ha cou/a , que menos cheire , do que o corpo muito vejiido. Eallím as mulheres cafadas devem fer fortes, dif» cretas, e prudentes , dentro em fuás cafas zelofas, fo- ra delias recatadas , e em todas as occafiões exempla- res , e mais prezadas de foffridas , que de agaítadas ; porque pela maior parte todas as defordens , que fuc- cedem entre cafados , são por falta de foffrimento , e impertinentes ciúmes, porque de palavras vão a por- fias, de porfias a gritos, de gritos a ameaças, de amea- ças a pancadas , e de pancadas a mortes. Não fei fe tendes reparado na caufa , por que o mar fe faz foberbo em huma rocha. Poisfabei que pro- cede da rija refiítencia , que lhe faz a pedra da rocha. Alfim são os mal cafados : encontrão- fe eítas duas na- turezas com qualquer vento de raiva , começa o mar do marido a pelejar contra a rocha da mulher -, e por- que fe não rende, ou desfaz, tudo são eítrondos, gri- tos , e bramidos , e affim vivem em huma contínua guerra , e não ha quem alli poífa viver , nem habitar pelos eítrondos , que fazem ; porém fe acha eíte mar do marido embarcação de mulher navegável , ainda que feja em huma grande tempeítade, fegue todos os rumos , e ventos , fem bulha , nem rumor ; porque fe deixa levar a embarcação para onde o mar a leva, atè abonançar o temporal, e fazem viagem fegura ao por- to- J 302 Compendio Narrativo to da falvação. E para prova do que vos tenho dito, Vos contarei dous cafos, além de infinitos, que pude- ra repetir: hum laftimofo, e outro jocofo. He o cafo laftimofo o-feguinte. Eu conheci a hum homem eítrangeiro , de nação Genovez , cafado com huma Portugueza , a quai era em extremo cio- fa , e tão mal foíFrida , que não oufava o marido fahir fora de cafa , que logo lhe não demandaíTe zelos ; e delles procedia haver razoes tão pezadas , que por mais que o marido a queria capacitar, cada vez gritava mais, Succedeo que huma noite , vindo o marido de fora, começou a mulher com afua coíhimada teima. "DiíTe- Ihe o marido huma , e muitas vezes , que fe callaíle ; e como a mulher fe não quizeíTe accommodar , levou o marido de hum alfanje , e a golpes , e eítocadas a matou. Verdadeiramente, mediíTe o lavrador, quepeior o não faria hum bruto , pela injufta , e cruel morte, que executou ; porque o marido não deve , nem po- de matar a fua mulher por femelhantes coufas. Como cego da cólera fe precipitou , refpondi eu ; e por iílò ficou perdido, deixando a fua cafa, filhos, e cabedal; e depois fe contou , que fe enforcara por fuás mãos defefperado. Succedeo ofegundocafo na forma feguinte. Ha- via huma mulher , que por qualquer briga , ou defa- vença , que fuccedia ter com o marido, dizia, que fe hia afogar em huma^agôa perto de caía > e aífim co- mo fahia com aquelle impulfo de raiva , fahião tam- bém os filhos atrás delia, pegando-lhe, epedindo-lhe, que não àéffe à execução o que intentava fazer. Suc- cedeo huma vez ter huma briga com o marido ; e par- tindo para a lagoa, dizendo, que fehia arfogar , tirou o marido pela efpada , e diíTe aos filhos , que fe algum foíTe acudir a fua mãi , o havia de. matar. Chegando a mu- — -^ Do Peregrino da AmeriCa. 303 mulher junto da lagoa , olhou paia trás ; e vendo que ninguém hia em feu feguimento , diffe: Não me vem acudir ? DiíTerão-lhe os filhos , que feu pai lho havia prohibido. Refpondeo ella : Pois jà que me não que- rem acudir, também eu me não quero afogar. E logo fe tornou para cafa , e dalli por diante viveo mui con- forme com o marido. Por certo , me diíTe o morador , que tomou eíla mulher mui bom acordo. Porém fallando acerca dos ciúmes , que tem as mulheres cafadas de feus mari- dos, parece-me que ferião licitas, fendo em amor ho- neílo ; porque fempre ouvi dizer , que não pode ha- ver amor fem zelos. E acredita efte meu penfamento hum Romance, que ouvi cantar, fendo moço, do qual ainda me lembrão a primeira , e ultima copla 3 e fe- gundo minha lembrança, dizia a primeira 1 Zelos, amor, confiança Han dado guerra a mi pecho> Si en un pecho caben juntos Confiança, amor, y, zelos» E acabava, dizendo a ultima: Eitos fon zelos íin duda ; Y quien no paíTó por ellos> Ni diga que tuvo amor , Ni diga que tuvo zelos. Aífim he , Senhor , lhe diíTe eu , e mui difcreta- mente compoz o Poeta efíe Romance ; porém reparai no ultimo , e penúltimo verfo da primeira copla , e vereis que bem fe lhe pôde refponder , que em hum* peito difcreto cabem confiança, amor , e zelos. J 3°4 Compendio Narrativo Demais que eu não reprovo totalmente os zelos no amor honeíto , porque bem fei que não ha amar fem zelos. E ainda nas Letras Sagradas fe nos dá a en- tender que aquelle Anjo em corpo mortal (São Jofé digo) teve zelos fantos, ecaítos de Maria SantiíTima, concebida fem peccado , e fempre Virgem Mãi de Deos ; porém houve- fe o Santo com tal prudência , e virtude, que em quanto lhe não foi revelado pelo Anjo por mandado de Deos o grande Myfterio da Encarna- ção do Verbo Divino , antes fe tinha determinado em deixar fua SantiíHmaEfpofa, que publicar anota, que delia prefumia. (Matth. i. 19.) Dos livros humanos também conítão vários fuc- ceffos , que no Mundo houve entre caiados , por def- confianças zelofas, por cuja caufa acontecerão muitas defgraças , e talvez por falta de verdadeiro exame , e certeza. Do genro do Rei de Leão em Caílella fe con- ta , que andando na guerra contra os Mouros , por lhe chegar à noticia que fua mulher a Princeza ufava mal de fua honra, a matou innocentemente, como depois fe comprovou. E não he menos para admirar aquelle laftimofo cafo, que fuccedeo a Alboino, Rei dosLongobardos, por fe cafar inconfideradamente com huma fua efcra- va, o qual depois de ater levantado a tão alto eílado* a tornou a anniquillar de forte , que veio o Rei aaca- bar-lhe nas mãos de huma traição , por zelofa , e mal foffrida. Finalmente coíhimão os demaziados ciúmes não fó cortar pelo credito , mas ainda pela união da paz, e aíTombros da mefma morte. E fe não , vede o que fuccedeo a Cornélia , mulher do grande Pompeio , por hum zelofo conceito , que fez do marido , fazen- do-o cahir em huma traição , onde acabou a vida. Fulvia , mulher de Marco António , pelo divertir dos amo- Do Peregrino da America. 305: amores de Cleópatra , quiz antes impaciente cortar pelo bem público da paz, que foffrer a guerra de feus ciúmes. Não fuccedeo aílim entre os noílbs Reis de Por- tugal j por lerem as noflas Rainhas mui pias , difcre- tas , e virtuofas , fabendo-fe vencer com moderação * no que muitas não pudérão diflimular com paixão. E a eíla imitação houve muitas matronas Fidal- gas de Portugal , que obrarão feitos heróicos , e dignos de eterna memoria, para exemplo dascafadas. Huma foi certa Fidalga na Corte de Lisboa , a qual fabendo que feu marido fe divertia com huma mulher , a foi bufcar, e venceo o feu aggravo com hum grande aíFa- go, que lhe fez; motivo, por que tanto a meretriz, co- mo o difcreto marido fe apartarão da má occaíião , e tratou o Fidalgo dalli em diante de viver com fua ef- pofa , como lho merecia o feu grande amor , e pru- dência. Finalmente ., occupem-fe as mulheres em bons exercícios , e não eftejão ocíofas. Sejão mui devotas da Virgem Senhora noífa, porfer efte o melhor meio, que pôde procurar huma creatura , para confervar a caftidade, e livrar- fe de perigos, porque fempre ouvi dizer que depois que o Mundo he Mundo , jà mais o devoto da Virgem foi lançado no profundo. Não deixarei também de fazer algumas advertên- cias aos homens cafados , e aos que eítão para tomar eílado , para que o facão com acerto, e principalmen- te em ferviço deDeos. Primeiramente fejao mui pru- dentes em procurar mulheres de fua igualha, (ifto he na geração* e idade) por não virem a experime.atar os defcontos de enganados , e queixa dos muitos annos para o lim da propagação. Fujão de levar a prefença de fuás mulheres homens moços, e de fufpeita, e menos fidelidade 3 porque là V diz 30Ó Compêndio Narrativo diz o adagio : A íu cafa lleva el hombre , con que Ho- ra. A fiKunulher trate com muito amor , e refpeito, por Jhe não dar occafião de juíta queixa. Não feja amante impertinente, querendo experimentalla , por- que a mulher he como a efpada, que também tem íua hora. Não permitta que appareça a todos , fazendo delia (como là dizem) panno de moftra. Também fera acerto que os maridos neguem a fuás mulheres algumas licenças de certas vifitas , com prudência , e deítreza. Aílim o fez na Cidade da Ba- hia hum difcreto cafado ; porque pedindo-lhe a mu- lher licença para ir ver hu-mas feitas à cafa de huma fua conhecida , lhe diíTe o marido: De muito boa von- tade a concederia eu ; mas ouvi dizer ha bem poucos dias, que eftava eíTa cafa com grande mina paracahir, e não quero que hoje com o muito concurfo da gente fucceda alguma defgraça. E deita forte ficou a mulher fatisfeita, eelle defculpado. líTo fera muito bom, fe- nhor , me diíTe o morador , para fe ufar com as que coítumão pedir licença ; porém muitas fei eu , que a tomão fem lha darem.' EíTa culpa, fenhor, lherefpon- di eu, não procede das mulheres, fenão dos maridos, que as põem neífe coírame. Na verdade vos digo , tornou o morador , que pre- zei ter- vos ouvido tão difcretos confeihcs acerca def- te eílado ; e fenão fora tão velho, (pois jà tenho mais de feffenta annos ) fó procurara eíte eílado , por ob- fervar voílos documentos. Eítá a meza poíta , vamos cear. E logo nos deo huma cea com grande largueza 5 e depois nos diíTe , que também tinhamos camas feitas, onde podiamos defcançar. Recolhemo-nos eu , e o mancebo em hum apofento , onde achámos duas ca- mas com todo o aíTeio, e alli paíTámos a noite. GA« Do Peregrino da America. 307 CAPITULO XX. %)o decimo Mandamento. Mojlra o Teregrino com muitos exemplos o dano , que nos faz, a ira , econ- Jequente a tnveja\ e faz metter em paz a, dons homens vizinhos , que anda- vão em difcordias. ACordei no quarto da alva, e levantando-me, ou- vi hum rio formando queixas com hum mui alto fufurro , cuberto de arvores , que por fombrias lhe caufavão grande horror , donde vim a entender , que era fem dúvida por fe ver contraftar com as duras pe- dras , as quaes depois de o baterem , qual prata fina, em defperdicios de neve ofazião tantas lagrymas der- ramar: fe jà não era também por fever tão opprimido no cárcere de fuás margens , prezo em grilhões de cryítal ; e aílim de corrido , e queixofo , por não ter outro alivio, bufcava o centro do mar. A eíte tempo defpertou o dono da cafa , e com elle o mancebo ; e dando- me hum , e outro os alegres dias , lhe correfpondi mui cortezmente. E depois de ter rendido as graças ao morador do bom agazalho, que me tinha feito, delle, e do mancebo me defpetii, de que fe moítxárão mui faudofos , e fentidos , por verem que tão deprefla me determinava delles apar- tar. ' E pondo-me a caminho , fui com grande alivio, porque as nuvens tinhão feito interpofiçao ao Sol , e por eíTa caufa não experimentei o feu calor. E ferião jà finco horas da tarde , quando cheguei a huma fa- zenda, a qual mepareceo hum alegre jardim de Itália, pelos verdes arvoredos , viílofos pomos, e fragrantes ílores , de que fe compunha , e nella eHava huma mui V ii for- 308 Compendio Narrativo formofa cafa de vivenda ; e dentro em huma varanda vi andar paíleando hum homem. Saudei-o \ refpon- deo-me pezadamente ; porém mandou-me entrar , e logo me deo aíTento. Aeítetempo chegou hum efcravo, aquém o do- no da cafa diíTe : Vai, tem- me prompto hum cavallo, porque amanhã pelas quatro horas pertendo fazer via- gem à Villa da Cachoeira a tomar confelho com hum Letrado , para que me diga o que hei de obrar contra efte máo homem , pois me vejo delle tão precipi- tado. Ainda que eu pareça confiado , fenhor, lhe diíFe eu, me haveis de dar licença, para vos perguntar que motivo vos períuade a fazer hunia viagem tão diílante, fó por tomardes hum coníelho , fendo que fuccede muitas vezes governarem- fe alguns Letrados mais pe- los intereWès, que efperao das partes, do que pelo di- reito, que achão nas leis da juftiça. Senhor , me refpondeo o morador , nunca vos poderei ter por confiado na pergunta » que me fazeis, pois vos vejo fallar com tanto acerto neífe particular; porem como me acho de prefente tão irado , e apai- xonado , faltão-me palavras , para vos refponder ao que me perguntais; e fó vos direi que em quanto não executar a fatisfação de meu aggravo , não hei de ter focego. Pois fabei , fenhor, lhe tornei eu , que muitas vezes omalcommunicado alivia aquém o padece. De mais que a ira he tão prejudicial à natureza humana , que faz ao homem femelhante a hum bruto , pelos ef- feitos , que obra \ e de tal forte priva do juizo, ainda ao mais prudente , que lhe não deixa lugar para dif- tinguir o mal do bem, obrigando-o a fazer defatinos, que dão muito que notar. E fe não , vede. Do Rei Xerxes fe conta, que fabendo a difficul- da- Do Peregrino da Amfkica. 309 dade , que havia em tirar pedra do monte Atho, para huma obra , que pertendia fazer , fe irou de tal forte, que lhe efcreveo huma carta , ameaçando-o , que fe nãofoíTe fácil em deixar tirar apedra, o mandaria lan- çar no mar. E do mefmo refere Heródoto ( lib. 7. ) que fe enfureceo tanto contra o mar, por lhe derribar huma ponte , que lhe mandou dizer que fe foíTe tão attrevido de lha tornar a derribar outra vez, o manda- ria metter em hum cárcere , e carregar de grilhões. E mandou que lhe deíTem muitos golpes , e lhe diíTef- fem muitas injurias. E por iíTo fe coítuma dizer que o homem irado ef- tá fora de fi , pelos eífeitos , que obra. S. Baíilio o com- para a hum rio arrebatado. Alexandre Magno , depois Se ter logrado tão grandes applaufos , veio a desluf- trãr a opinião entre os homens , quando levado da ira matou em huma hora a muitos de feus maiores ami- gos. Por iíTo diíTe S. João Chryfoílomo que a fober- ba , e a ira erão as maiores das doudices. Pelo que vos acabo de ouvir , me diíTe o morador, me parece que tendes muita lição dos livros; e fendo aííim , poderá fer que me deis algum confelho acerca do que metem fuccedido. Alguma coufa tenho lido, refpondi eu-, além do eíludo , que fiz no Direito Ci- vil j porque fendo moço, também eltudei a Inítituta, tive a Ordenação , e alguns livros do Direito, princi- palmente os Regnicolas ; e fenão alcancei o gráo de Doutor , não me derão nome de ignorante. Podeis dizer o que vos moleíta, poderá fer que vosefcufe de feguir eíta jornada. N4o prezo pouco, me diíTe o morador, aofferta, que me fazeis , porque então reconhecerei que foi Deos fervido trazer-vos a eíta cafa , quando me deis remédio ao que tanto me penaliza. Tenho hum vizinho , (melhor dilTera inimigo) V iii que J ■s- 310 Compendio Narrativo que diíta defta fazenda meia légua , e tem tomado porempreza o moleítar-rne ; motivo , porque eítou re- íbluto , ou eu , ou elle , defpejarrnos deite íltio ; e quando por juíliça o não poíTa fazer , lhe hei de tirar a vida , porque mais me accommoda matallo, do que eítar padecendo todas as horas moleítias. Não digais iíTo , fenhor, lhe diíTe eu, porque pa- rece , e he certo , que mais vizinho eílá de morrer o que defeja matar a feu próximo. E fe bem confide- raíFeis o dano, que diíTo refulta, não o havieis de cui- dar , e muito menos proferir ; e fe não , vede a quantos perigos fe expõem os vingativos : perdem a fazenda , os amigos, os parentes, os filhos, a reputação, e mui- tas vezes a vida nas mãos de hum algoz. Por iíTo diíTe David , como tão zelofo da virtude da maníidão , que aos vingativos lhestrafpafsão os corações fuás mefmas efpadas. ( Pfalm. 3 6. 1 ? .) Notai , diz Santo AgoíHnho , .não amaldiçoou David aos vingativos , dizendo que lhes entraíTe a efpada pelo corpo , fenão pelo coração ; porque quem quer metter a efpada pelo corpo do pró- ximo , mette-a pela fua alma. E o mefmo Santo em outro lugar , fallando dos vingativos , diz: Senhor, tós o haveis mandado, e aífim he, que o animo defor- denado feja verdugo de íi mefmo. E que maior dano pôde haver para huma creatura racional , que perten- der tirar a vida a feu próximo ? Vede agora fe tive razão , para vos dizer que tal não diíFeíTeis, nem intenteis obrar. E fuppoílo que eítejais apaixonado , nem por iílb haveis de procurar armas contra vós mefmo , tanto em oíFenfa de Deos, e do próximo \ porque em nada fe defaííemeiha o ho- mem do bruto irracional , fenão quando fe refrea , e guarda os preceitos Divinos. Tenho entendido , fenhor, me diíTe o morador, que melhor me não podeis aconfelhar neíte particu- lar y Do Peregrino da America. 311 Jar ; porem tornando à razão de minha queixa , fabei que procurando eu hum fitio para me accommodar com minha família, teve eíte homem noticia da minha neceíHdade , e com mui deliberada vontade me fez offerta deite , vendendo- me por fineza que fuppoíto pagaíTe renda delle , antes o queria ter de voluto , do que confentir que para elle lhe vieíTe algum máo vi- zinho. Com effeito vim de morada para eíte íltio , e nelíe tenho feito todas asbemfeitorias, que vedes. Ecomo precifamente me feja neceíTario trazer algumas cabe- ias de gado vacum para o miniíterio da minha lavou-? ra , e eíte , ainda que eu o traga apaftorado , não pode andar fempre tão domado , que não fucceda pafíar à fazenda deite homem , e por ilTo fazer-lhe algum da- no , do qual me tem avifado algumas vezes : fuccedeo hoje por defcuido do paílor entrar-lhe o gado na fa- zenda, de que refultou mandar matar huma rez; e de- pois de meter feito eíte acinte, me mandou dizer que a mandaíTe bufcar , e fenão que me pagaria o feu va- lor. A eíte recado lhe refpondi , que eií me pagaria pelo melhor meio, que pudeííe. Agora vos peço que me digais o que devo obrar neíte particular , para me vingar deite homem., ,e fe tenho direito para o lançar fora deite íltio , em que eítá, fem embargo de que feja foreiro mais antigo; porque he tal o ódio , que lhe tenho , que o tomara ver deitruido , pois me parece , que por fer mais rico, e tanto o favorecer afortuna, faz menos preço da mi* nha peíToa. Primeiramente , fenhor , lhe diíTe eu , fuppoitas as razões , que me tendes dito das offenfas , que vos pa- rece ter feito eiTe voílb vizinho, nem por ilTo vos ha- veis logo de precipitar, e encher de ira , moítrando- vos tão apaixonado centra elle , que vos faça quebrar V iv 1 o pre- ^\t Compendio Narrativo o preceito Divino, defejando que lhe fucceda mal, quanto mais fazer-lho ; porque nos obriga a Lei Di- vina que amemos a Deos fobre todas as coufas , e ao próximo como anos mefmos. E Chriíto Senhor noíTo aconfelha que não tornemos mal por mal, fenão bem; e todo aquelle , que fe preza de Chriítão i e fe quer falvar , deve feguir a doutrina de Chriíto. E diz São João : Como poderá dizer que ama a Chriíto , quem não ama, nem cumpre o feu preceito , em que manda amar ao inimigo ? Como ha de amar a Deos (diz o mefmo Santo) quem aborrece a feu próximo, aquém deve amar como irmão? E fe diz que amfa Deos , e aborrece ao próximo, he merrtirofo. Diz Santo Agof- tinho que a caridade tem dous pés , e duas azas , que são oamor de Deos, e do próximo: a quem falta hum pé não anda , e a ave fem huma aza não vóa ; affim também o que não ama a feu próximo, não anda pelo caminho direito da falvaçao , nem pôde voar ao Ceo. E o Senhor nos diz por São João : O que teme meus Mandamentos , e os guarda , effe he o que me ama. (Joann. 14.11.) E Santo Agoítinho: Tanto amamos a Deos, quanto guardamos os feus Mandamentos. S. Dorotheo (como fe refere na Bibliot. 4. Pa- trum4:om. 3. dot. 6. in fine) diz que quanto mais nos unimos com o próximo por amor , e caridade , mais nos unimos com Deos. E noEuangelho (Matth.?^.) nos manda Chriíto que amemos atè àquelles, que nos não amão. E S. Paulo (ad Rom. 12. 21. ) diz que ven- çamos ao mal com o bem. E de não obrarmos allim, procedem as iras, os ódios, e as vinganças contra nof- íos próximos. E aflim vos digo que todo aquelle, que não guardar eíte preceito de amar a Deos fobre todas as coufas, e ao próximo como a fi mefmo, poííb afRr- mar , que caminha perdido para o Inferno , lugar , e morada dos prefeitos. Vede Do Peregrino da America. 313 Vede ag©ra a que defatino maior pode chegar huma creatura , que por fatisfazer huma paixão , fe prive de tanto bem , e corte por tantas obrigações., quaes são amar a Deos , e cumprir com o preceito do amor do próximo. Só feacha eíle vicio em gente vil, e baixa •> porque o animo nobre não falta na obfervan- cia da Lei , pelo que deve à fua fidalguia. Para o que fe deve faber que (conformando-nos com os doutos Juris-Confultos , e com os mais , que tratão deita ma- téria) ha trez géneros de nobreza : a primeira fe cha- ma Theologal \ a fegunda Natural : e a terceira Civil A Theologal he aquella , que por meio da caridade une a huma peflba com Deos. Deita diz S. Bernardo , que quem a tem grande , he grande ; quem pequena, pequeno ; e quem nenhuma , nada ; eonformando-fe com o que de £1 diffe S. Paulo : ( 1. ad Corinth. 13. 2.) Qharltatem atitem non hahuero , mhil ftim. A Na- tural he a que por virtudes próprias, e dotes da natu- reza fe alcança , nas quaes nos igualamos às plantas, hervas , e pedras. A Civil he a que por cargos , luga- res , dignidades , e officios nos vem. Porém eu digo , que a verdadeira nobreza coníifte na mitificação , e virtude , pela qual fe merece para com Deos, fazenda boas obras. Donde venho a concluir , que fe não tendes outra razão de queixa contra voíTo vizinho mais que eíTa, que me tendes reprefentado , entendei que iíTo he huma teima odiofa, procedida de huma imaginação apparente , por onde fe vos occaíiona efle rancor con- tra voíTo próximo, com que o demónio coíluma mui- tas vezes fazer-nos cahir em hum peccado de ódio , e inveja , que chamao cobiça dos bens alheios , e nos faz conceber tal aborrecimento a noflb próximo , que lhe eftamos defejando todo o mal; enão fazendo cafo diUo, nos precipitamos no Inferno*. Sem- 3f4 Compendio Narrativo Sendo que por muitas razoes n&s corre obriga- ção de amar ao próximo. Primeira, pela femelhança, que tem de Deos: fegunda, pela que temos entre nós ; terceira , porque Deos o manda : quarta , porque vi- vemos no mefmo grémio da Igreja , com a mefma doutrina , e Sacramentos , &c. Bem fe vê logo quão culpável he a falta daquelle, que por todas eftas obri- gações rompe , deixando-fe cahir neíla falta de cari- dade contra feu próximo, e quebrando o preceito Di- vino , que nos manda amar a Deos fobre todas as cou- fas, e ao próximo como a nós mefmos. Iíto prefuppoíto , também me não perfuado que haverá Letrado, que vos aconfelhe com razão , e juf- tiça a que ponhais demanda a eíTe voííb vizinho i, ex- cepto algum de animo tão malévolo, que mais preze o feu intereíTe , que a fua própria alma $ porque he certo que eftando ene homem empoíTe pacifica, eim- memorial do feu fitio, ainda que feja de arrendamen- to , tem grande força , por fer a poíTe primeira a me- lhor, e mais jufta, que a fegunda , porque a poílerior prefume o Direito que he injufta , clandeítina , vio- lenta, e perturbativa; e por iíTo aquelle, que foi pri- meiro, deve fer mantido, juxta Gap. Licet eum, ubi Dodores, deprobat. Marant.deOrd.Judic.4.p. diíl.7. num. 19. Menoch. deadipifcend.remed.6. n.12. & de retinend. 3. «.715-. & feqq. Poílh. obferv.71. n.2. Além da razão, que tem eíTe homem, pelos mui- tos avifos , que jà vos fez do dano , que recebeo do voíTo gado, fegundo o que me tendes dito. E fe não, ponde-vos no feu lugar , e vede como poderíeis tole- rar , fe achaíTeis deílruida a voffa lavoura , e plantas pelo gado de voíTos vizinhos. E aílim por todas as ra- zões me parece mui juíto que vos deixeis deíTe inten- to de pleitos , e demandas , pelo muito detrimento, que causão a quem as procura \ e fou de parecer que com- ^ Do Peregrino da America. 31J compreis o voíTo focego, e quietação, reconciliando* vos com eíTe voíTo vizinho , porque também alcança- reis a graça de Deos. Na verdade vos digo , fenhor , me diíTe o mora- dor , que muitas graças devo dar a Deos, por vos tra- zer hoje a eira cafa ; porque me tendes aconfelhado tão difcreta, como piamente; e de tal forte eftouper- fuadido das voíías boas palavras , que jà tomara que houveíTe occafião de poder buícar a eíte homem , pa- ra me reconciliar comelle , e ler feu amigo, pedindo- Ihe perdão do grande ódio , que lhe tive. Porém co- mo fejão horas jà de fazermos huma breve collação, fazei- me o favor de aceitar eíta boa vontade. E com effeito nos puzemos à meza. E depois de termos aca- bado de cear , veio hum recado ao dono da cafa que tinha chegado alii hum efcravo de feu vizinho, e lhe queria fallar , a quem o morador promptamente man- dou que entraíTe. E chegando à noíTa prefença , diíTe o efcravo ao dono da caía : Meu fenhor lhe manda a voíTa mercê efte quarto de huma rez , que hoje cahio no vallado da fua fazenda , não fe efcufando de fatisfazer o valor delia , quando tiver occafião de fe aviítar com voíTa mercê , porque lhe quer merecer o agrado , para que em outra occafião faça a mefma partilha com elle. Dizei ao fenhor meu vizinho, refpondeo o mora- dor ao efcravo , que lhe agradeço o mimo , e lhe fico muito obrigado , que à manhã atè às oito horas efpere por mim, e pelo fenhor Peregrino , que ià havemos de ir gratificar-lhe eíle primor. E defpedido o efcravo , diíTe eu ao morador: Ago- ra vos digo , fenhor , que quem tem hum tão bom vi- zinho , bem fe pode chamar ditofo ; e podeis conhe- cer que em tudo vos quer Deos livrar de trabalhos , e encargos da alma 3 porque appetecendo vós occafião^ de J Compendio Narrativo m de ! bufcar a efte homem, para com elle vos reconcili- ardes , vo-la deparou por eíte meio. Affim o reco- nheço, fenhor, me diíTe elle , o que tudo devo ao fa- vor Divino , e à voíTa grande prudência ; porque fe vos nao chegafleis a eíta cafa , não me acharia eu tão bem difpofto para receber eíle recado , e prefente. Sao horas de nos recolhermos , podeis ir agazalhar- vos. E encaminhando-me para huma camará , nella achei hu ma cama, onde paflei a noite. Acordei a tempo , que jà fe via a precurfora au- rora toda veítida de branco , diílillando orvalho , que em pérolas fe convertia là nas conchas do mar, e nos campos em granizo. E levantando- fe também então o dono da cafa, mefaudou, e diíTe: He tempo, fenhor, de irmos dar cumprimento a noíTas palavras. E pon- do-nos a caminho , como era diílancia de meia légua, brevemente chegámos à cafa do morador vizinho , o qual tanto que nos aviltou ( porque jà efperava por nos) fahio fora de cafa a hum terreiro, e rompeo nef- tas palavras ::{_% Nunca me pareceo , fenhores , que* mais fe detive- ra o Sol em fazer o feu gyro là neíTes antípodas , do que neíta noite paliada , pelo muito , que tardou em amanhecer o dia , fe jà não foi pelo grande defejo, que tmha de ver a voíTas mercês depois que me aíTe- gurou o meu eferavo que me querião fazer a honra de me viíltar hoje neíta humilde cafa. Pois fabei , meu amigo , e fenhor vizinho , lhe ref- pondeo o primeiro morador , que com mui duplica- da vontade , e defvelo pafíei eíta noite fó por vos vir kufear , e trazer à voíTa preferi ça a peíToa do fenhor Peregrino , para lhe ouvirdes a fua difereta , e exen> piar converfação. Meu fenhor, diíTe eu ao fegundo morador , o que mais prezo he ver- vos com íaude , e que o fenhor vof- fo Do Peregrino da America. 317 fo vizinho fe conferve em paz comvofco , e louvores em mim são efcufados ; porque aíTim como jà não fa- ço caio dos defprezos , bem he que não faça eítima- ção das honras ; porque haveis de entender que neíta vida o que fe quizer larvar , fe ha de confiderar em hum naufrágio , nadando em fima da taboa da humil- dade , para efcapar a vida ; e neíie perigo , ainda que lhe digao muitas ignominias, eaftrontas, nem poriílb fe ha de moleítar , nem tomar fatisfações , por fe não arrifcar a perder a taboa , e ir parar no centro do ódio ; e muito menos fe deve pôr a efcutar , e ouvir louvo- res , porque o não lancem as ondas da prefumpção em algum penhafco foberbo, e f e faça em pedaços da vangloria. Fallais com muito acerto , me diííe o fegundo mo- rador, pelo que no Mundo eílamos vendo , e experi- mentando a cada paíTo fucceder, pela demaziada pre- fumpção ; porem o que refpeita à faude , he o menos que poíTuo , porque vivo bem moleílado. E logo nos foi encaminhando para a varanda da cafa , onde nos deo aflento, e mandou vir o almoço, que veio promp- tamente , e com todo o aíTeio em abundância. E de- pois de acabarmos de almoçar , demos graças a Deos, que fó a Deos fe devem dar pelos muitos benefícios, que actualmente eílamos recebendo de fua Divina providencia; porque aíTim o enfma, e encommenda o Apoítolo, tratando do comer , e beber, por fer coufa tão neceííaria a vida humana, que ha de fer em nome do Senhor, (Ad Rom. 14.) Elogo dille oprimeiro morador ao dono da cafa: Senhor vizinho , antes que me efqueça, peço-vos per- dão da indignação, e pouca paciência, com que hon- tem foffri ovoílb recado, que memandaítes. Senhor, lhe diííe o dono da cafa , em quanto ao remorfo da confciencia , louvo- vos muito a voíTa acção , e Deos vos *\ J 3 1 8 Compendio Narrativo vos perdoe , que eu da minha parte ha muitos annosi que me não accuíb de que queira mal a pefíba alguma, porque fou Chriítão , e amo a Deos , e ao próximo. Deíla forte, lhe diíle eu , não ha mais que defejar : fe amais a Deos , e ao próximo , tendes completado os preceitos Divinos. E os mais peccados , fenhor? me diíle elle. Supponde , lhe diíTe eu, que o homem , que verdadeiramente ama a Deos , não pôde offender ao próximo, porque confequentemente o ama. A razão he clara; porque aílim como não ha fruto fem raiz , também não pode haver amor do próximo, fem que proceda do amor de Deos. Iílo fe entende failando efpiritualmente, e deixando o amor profano, que fe tem aos complices , e cooperadores em qual- quer offenfa de Deos ; porque também he caridade Impura, efalfiíicada aquella > que fazemos ao próximo por conveniências próprias, violando a obediência, que racionavelmente manda o preceito Divino , e fó a vontade de Deos he regra certa de toda a virtude. Eíle preceito de fer amado, efcreveo Deos com ofeu mefmo dedo no principio de toda a fua fanta Lei: ^Diliges 'Dominum 'Deum tnum ex totó corde tuò. (Deut.tf. 5-.) Muito goílei , me diíTe o dono da cafa , de vos ouvir fallar do amor , que devemos ter ao próximo, fundado no amor de Deos \ mas offerece-fe-me huma duvida , que tomara que ma refolveífeis. DiíTeítes que eíle preceito de fer amado Deos o efcreveo com feu mefmo dedo; ecomo eu não tenho lido, nem ouvido dizer , que Deos efcreveíTe livro algum , entra o meu reparo : Onde , e em que tempo fez Deos eíla efcri- tura ? Não ha dúvida , fenhor , lhe refpondi eu , que não deixa de fer bem fundado o voífo reparo , por fer em huma matéria Theologica efpeculativa , que não per- ten- II Do Peregrino da Amírica. 319 tence à minha profifsão ; mas como me vejo obrigado a refponder-vos , por reconhecer em vós hum pio , e devoto amor de Deos, me periuado a vos não faltara dar a razão de voíTa pergunta , explicando-me pelos termos feguintes , fundado na Efcritura Sagrada. Foi o cafo , que depois de ter fahido o povo de Ifrael do Egypto do cativeiro de Faraó , e ter paliado varias calamidades , vindo Moyfés por leu Governa- dor , livrando- os de muitos trabalhos , e perigos por efpecial favor de Deos, chegarão ao pé do monte Si- nai no anno de 245*3. depois da creação do Mundo, ao terceiro dia do mez de Maio ao amanhecer , que era aos 501 . que fazem ió. mezes, e 21. dias depois da fahida do Egypto , aos 430. annos da promeíTa , que Deos tinha feito a Abrahão. Começarão a fentir mui- tos, e vários eílrondos, refplendores, e raios, e toca- rem- fe trombetas , e com grande luz, claridade , e fo- „ go , e baixou Deos entre elles em nuvens com todo eífce terrível eílrepito fobre o alto do monte Sinai , e chamando a Moyfés ao cume , e detendo ao povo no pé do monte , e falJando dentro no fogo , ordenou, e mandou eíles dez Mandamentos efcritos nas duas ta- boas da Lei. (Exod.19. & 20. Deut.f.) , O primeiro, que amaííem , e reverenciaíTem a hum fó Deos verdadeiro , apartando fora de fi os ídolos. O fegundo , que não juraíTem o feu Santo Nome em vão. O terceiro, que fantificaíTem as feitas. O quarto, que honraílem a feus pais. O quinto , que não mataf- fem. Oíexto,quenãofornicaíTem. Ofetimo, que não furtaíFem, O oitavo , que não levantaíTem falfo teífce- muhho. O nono, que não defejaííem a mulher do pró- ximo. O decimo, que não cubiçaiTem os bens alheios. Aqui tendes explicado o que me perguntafíes , e vos prometti dizer acerca do tempo , em que Deos efcreveo a Lei com o feu próprio dedo. Muito fol- go* jio Compendio Narrativo go , fenhor , me difíe o dono da cafa , de faber com tão clara explicação o que atè agora ignorava , e fico entendendo que fallais com muito acerto , pois tudo tendes apontado , e authorizado com a Sagrada Efcri- tura. Na verdade vos digo, fenhor, me diíTe o primei- ro morador, que não ha tempo mais bem empregado, do que aquelle , que fe gafta em fallar das obras de Deos , e de feus grandes benefícios , que nos tem fei- to , e eflá fazendo , pelo bem , que difíb nos refulta para noíTas almas. Porém como fejão horas de ir aífif- tir à minha cafa, efamilia, me haveis de dar licença , fenhores, para que não falte aeíia obrigação. Ecomo vos deixo , fenhor Peregrino, em cafa do fenhor meu vizinho , vou defcançado , porque delle fio vos fará todo o bom agazalho , que mereceis. E com grandes demonílrações de firme amizade com o dono da cafa, fe defpediode nós, e fe foi para fua cafa. CAPITULO XXI. Manifefla hum morador ao Peregrino o achaquecon» tinuo, que padece, e lhe pede algum remédio para elle , e o Peregrino lhe dá duas receitas : huma, corporal, e outra ejpiritual\ e lhe trass muitos exemplos dos que nejte Mundo padecerão enfermidades. DEpois de fe ter ido o primeiro morador , me diíTe o fegundo : Não prezo pouco , fenhor Pe- regrino , a voíTa chegada a eíla cafa , pelo que vos te- nho ouvido praticar , porque me pareceis homem mui enfinado do tempo , e com mui largas experiên- cias , e por iíTo vos quero fazer prefentes as importu- nas moleítias , que padeço. Agora mais que em ne- nhu- Do Peregrino da America. 321 nhuma outra occaíião , fenhor , lhe diíTe eu, defejára que em mim houvera hum grande talento de fabedo- ria, para vosfatisfazer o muito, que vosdefejo fervir. Podeis dizer o que vos moleíta , que com o favor Di- vino direi o que entender. Sabei , fenhor , continuou o morador , que a caufa de minhas moleftias vem afer, que haverá oitoannos, que padeço huns flatos hipocondricos ( nome poílo pelos Médicos modernos ; porque nos tempos palia- dos fempre lhes ouvi chamar ventoíidades melancóli- cas. ) Efte achaque me tem pofto em tal eftado , que com palavras vos não poítb fignificar o que finto ; e o que mais me pelaniza , he ver o pouco , que me tem aproveitado os muitos remédios , que fe me tem ap- plicado, com tanto difpendio da minha fazenda, paf- fando eu com todo o regalo do fuftento ; e por eíta cáufa rompo em queixas, impaciente contra mim pró- prio , e não fei fe offendo a Deos com o pouco foffri- mento , que tenho ; e o que fobre tudo finto , he que me não dá lugar eíta enfermidade , para poder fazer penitencia de meus peceados , pelas grandes anciãs, com que me accommette ao coração , e mais mem- bros do corpo. Agora quizera medéíTeis algum remé- dio, para me livrar de tão repetidas queixas, e molef- tias , tanto para a faude corporal , como para efpiri- tual, que he o que mais fe deve defejar. Suppoíto, fenhor, lhediíTeeu, quenãofejapro- iifsão minha aconfelhar em femelhantes cafos , com tudo , fiado no que là diííe hum Efcritor moderno, que nenhum , por douto que feja , deve defprezar os confelhos dos velhos ; e por ter lido que antes que houvefíe eíTes Galenos , Hypocrates , e Avicenas , jà fe curavão os homens , mais pela experiência , que por iciencias , e artes da Medicina ; e ainda hoje, o eítamos vendo obfervar em muitas partes } e lugares do Mun- X do, i 321 Compendio Narrativo do, e principalmente neíte Eftado do Brazil, nas par- tes , onde fe não achão Médicos , nem Cirurgiões , nem Boticas ; e também porque me parece que Deos , co- mo Author da natureza , nos quiz moítrar que não poz a virtude dos remédios nas palavras dos homens, mas fim nas pedras , metaes , plantas, aguas , &c. por iíTo me atreverei agora a dizer- vos o que finto acer- ca deíTe voíTo achaque ; advertindo- vos porém , que não he minha intenção dilfuadir que fe confultem em as enfermidades os profeíTores da Medicina , por co- nhecer que he huma das grandes fciencias , que ha, pelo que tenho lido, eviílo obrar, quando o Medico, ou Cirurgião hefciente, eobra com aquelle zelo , que deve à proíifsão de fua fciencia, e arte. Paliando pois agora acerca da voíTa queixa , tem moítrado a larga experiência que muitos emfemelhan- tes enfermidades , por tanto fe quererem curar , e re- quintar na faude , vierão a perder as vidas ; e que ou- tros , ufando fó do bom regimento , viverão largos an- nos , por obfervarem a parfimonia , mais comendo pa- ra viver , do que vivendo para comer , como te coftu- sna dizer. A eíle propofíto vos contarei o que vi fucceder acerto convidado, eítando em hum banquete ; e foi o cafo , que depois de ter comido do primeiro prato , dif- fe por galanteio ao que fervia à meza : O que mais me ha de caber de quinhão , quero que mo paguem a dinheiro. Perguntou-lhe o fervente : E porque eaufa? Refpondeo-lhe o convidado : Porque não quero que os mais manjares me deitem a perder o que tenho co-^ mido, e por iíTo venha a adoecer. Por certo , fenhor , me diíTe o morador , que nun- ca a eíTe homem lhe fuccederia o que vi acontecer a outro , vindo de huma boda , o qual chegando à fua cafa muito doente , e indo a vifitallo alguns amigos , lhe Do Peregrino da America. 325 lhe perguntarão, de que fe queixava ? Refpondeo-lhes o enfermo: De ter comido muito. Agora vereis, Se- nhor , lhe diffe eu , fe tenho razão no que vos digo ; porque não falta quem affirme , que mais gente tem morto a gula , que as campanhas militares. E daqui provém que a muitos a fua propiia fazenda , e rique- zas lhes são caufa de acabarem mais depreíTa o curfo da vida, pelos muitos, e fuperfluos regalos, com que vivem , querendo eítes taes imitar ao rico avarento , o qual fe dava os parabéns a íi mefmo dos regalos, com que paíTava ávida; e quando menos o cuidava, fe achou de hum golpe no Inferno. (Luc. 12.19. e 10,) E por eíTa razão fem duvida , além das mais , fe coítuma nos Refeitórios de todos os Religiofos man- dar que fe lea à meza algum livro efpiritual , ou vidas de Santos; porque hebem que aíTim como fe trata do provimento temporal , participe também a alma de íuílento efpiritual ; e para que fe abftenhão os Rel£ giofos de cahir no peccado da gula , e ufem de tem- perança , por conhecerem o grande eílrago , que faz nos corpos, e nas almas o peccado da gula. O que pelo contrario vejoobfervar noeítado dos feculares •, porque lhes tem o demónio introduzido , (para mais augmentarem eíte peccado) que mandem cantar , e tocar vários inílrumentos , affim muíicos , como bellicos , para que lifongeado o goíto , mais fe entregue aos manjares , quando devião coníiderar ef- tes glotoes (que tanto eítimão , e fe fartão de manja- res exquifitos) naquella horrenda trombeta , de que falia S. Jeronymo , que fe ha de ouvir no ultimo dia do mundo: Levantai-vos , mortos, vinde ajuízo. Oh Juizo , quem bem em ti cuidara ! Oh dia final , quem bem em ti coníiderára ! para que não houveíTe tanto goíto nos demaziados manjares, enão ca rufiem os ho- mens nelte peccado da gula , que tantos males tem X ii fei- 324 Compendio Narrativo feito, e eítá fazendo, como a experiência no-lo moí- tra, e das hiílorias dos livros coníta. E affim vosaconfelho , Senhor, que vos não do- mine o vicio da gula, enchendo avoíTa meza de mui- tos pratos ; e principalmente fugi de ceas largas , e comeres ílatulentos, porque as muitas iguarias coáu- mao fazer ruim cozimento no eílomago , e por iíTo tem acontecido morrerem muitos de repente , por fe lhes fuífocarem os efpiritos vitaes por falta da nutri- ção , e não poderem digerir o muito , que comem. E como entenderemos , Senhor, me diíTe o mo- rador , aquelle confelho de Avicena , que diz : Janta poço, y cena más? Refpondo, IhediíTe eu: EíTe Au- thor da Medicina fallou no fentido diminutivo, e por ilíb aconfelhou, dizendo quejantaíTem pouco, eceaf- fem mais , id efi , mais pouco. Além de que também devemos coníiderar, que nem todas as naturezas fehão de regular por hum fó regimento; porque homens ha, que fe bem jantão, melhor ceão , e nem por iflb lhes fuccede mal: e aílím ficai entendendo, que nem tudo ferve para todos , nem todos fervem para tudo. Também vos avifo , que fujais do demaziado fo- 210 meridional , porque faz engroíTar os humores , de que procedem muitas enfermidades. Guardai-vos da grande vigia da noite, porque não ha coufa mais pre- judicial àfaude, que o demaziado difvelo, e Deos fez a noite para defcanço das creaturas; e fe não, vede o que diz Hypocrates : Som nus , atque vigília , utrum- qtie fine modo excitat ma lum. Porém iík> prefuppoíto, vos avifo que comais o menos doce , que puderdes ; porque tem moílrado a larga experiência , que tudo o que nos adoça a boca, nos faz amargar o eílomago ; mas fe o não puderdes efcufar, tomai aquelle confelho CaUelhano , que diz: Si Do Peregrino da America. 32 j Si te quieres bolver nino, Come dulce, y bebe vino, No lo digas ai Dodor. Comei fruta por fruta , como fe coítuma dizer," e não a fartar j porque parece que aílim como nella veio a noílos primeiros pais o peccado, e a nós a cul- pa original , também nos vem varias enfermidades do corpo. Evitai beber demaziada agua ; porque fuppoílo, que feja hum dos melhores licores f que ha para o ali- mento da vida , pelo que tem de fria , e húmida , he mui nociva , e inimiga da natureza , fegundo aquella fentença de Galeno , quando difíe : Frigus inimicum eft natura. E que medireis, fenhor, mediíTe o morador, da qualidade do vinho , e proveitos , que delle refultão aos corpos ? Não fe podem negar , fenhor, lhe diíTe eu , as grandes utilidades do vinho tomado com boa ordem , porque fuítenta , e repara as forças perdidas mais depreíTa , que o comer , como diz aquelle aforif- mo de Hypocrates : Factitus eft refia fotu , quàm cibo. Faz bom cozimento para a nutrição ; provoca a fuor , e a ourina ; he fummo remédio para os velhos, conforme o que diz Galeno : ^uodanimi mores capit. Além do que concilia o fono , aviva os ef piri tos , fa- vorece o langue , alegra o coração , caufa coftumes plácidos , excita o calor natural , não fó aos velhos, mas aos melancólicos , tempera os humores , defterra as triítezas , he o único remédio dospufillanimes, por- que os torna mais fortes, e atè às mulheres faz fecun- das. Eíles são em geral os proveitos do ufo do vinho, com tanto que feja moderado ^pomo jà diíTe , e a feu tempo , porque fe for demaziado , e intempeítivo, caufará muitos danos. EíTes tomara eu também , £> X iii nhor$ : 316 Compendio Narrativo tmor , me diíTe o morador , que mos manifeífoíTeis. Haveis de faber, fenhor , lhe diíTe eu, que aífim como fe achão todas eíràs excellencias no vinho, co- mo tenho dito , também não ha coufa mais perniciofa, que o demaziado vinho tomado deíbrdenadamente fem necellidade , porque he o principio , e origem de todas as enfermidades do corpo , e da alma racional. Em quanto ao corpo, priva-o tanto dos fentidos, que o torna peior que hum bruto , pelos effeitos , que lhe faz obrar. E para prova diíto vos pudera trazer mui- tos cafos, que tem fuccedido no Mundo , (fe não fo~ rão tão fabidos ) nãofó a homens humildes, eplebeos, mas ainda a muitos grandes , e Príncipes , aos quaes, tirando-os defeu acordo, os fez obrar mil baixezas, e commetter infinitas enormidades, como cónfta de vá- rios livros. Em quanto ao que refpeita à alma , fica hum a creatura, que Deos fez à fua imagem , e femelhança, defamparada do ufo da razão ; e por iíTo obrando bru- talmente, porteroffufcado o entendimento, vemaca- hir em enormes , e feios peccados ; e bafta que tenha fuccedido por eíta caufa matarem-fe muitos por fuás próprias mãos ; e outros defprezando os perigos , fe precipitão nelles com a perda de fuás almas , que he o que mais fe deve temer. Finalmente, venho a concluir que beber vinho fem neceffídade , he vicio , e não proveito. Muito fatisfeito eítou, fenhor, mediíTe o mora- dor , do que me tendes dito acerca deíTe licor , e fico advertido para me faber haver neíTe particular. Podeis continuar o que hieis dizendo , que niífo me dais gran- de goílo , e contentamento. Direi , fenhor , lhe difíe eu : Para eíTe voíTo acha- que são falutifero remédio os cordiaes , por ferem os alentos do coração ; e fe nelle fentirdes algumas an- ciãs, Do Peregrino da America, 317 cias, e afrontamentos, ponde-lhe emííma hum peda- ço de feda vermelha , ou cochonilha efcarlata , em que fe tenha borrifado agua de flor , ou da Rainha de Ungria ; e também ferve o balfamo apopletico , por fer o coração mui nervofo, e rodeado de membranas, e por iíTo neceílita que o ajudem com calor. Confervai as fontes, fe as abrirdes , porque fevos não derem faude , fervir-vos-hão>âe efpeques à vida. Não defprezeis as ajudas , que muitas vezes ajudão a viver. Fugi do fereno da noite , como de verdugo da faude para osachacofos, Bufcai o frefco da manhã pe- lo Verão , como cordial para a vida. Fazei exercicio moderado, porque, fegundo huma regra da Filofofía, o movimento caufa calor : Motus ejl caufa calor is % e deite modo fe gaítão as fuperíluidades , e ruins hu- mores do corpo , e fe diítribue o calor natural pelos membros, para lhes dar fer , e força ; porque diz Ga- leno lib. 6. de locis aíF. 'Broprit ojficii exercitatio robur partis corforis adauget : quer dizer que o exercicio nas partes do corpo lhe acere fcenta a força. Bem fe moítra eíta verdade nos míticos exercitados no trabalho , e por contrapoíição nos ricos mimofos, que por falta de exercicio vem a cahir em varias en- fermidades. Por iíTo diíTe hum douto Apologiíta que fervindo, nos fervíamos. Aífim que o exercicio a feu tempo he proveitofo à faude: digo a feu tempo, por- que fendo exceffivo , he prejudicial aos corpos , e os faz cahir em muitos achaques. E por iíTo mandava Deos na Lei Efcrita que nos féis annos cultivaíTem os homens a terra , e no fetimo a deixaffem defeançar, para que tiveíTe também o feu Sabbado. (Exod.i3. 10. & 11.) Terra he o homem , ao qual permitte Deos, que tenha defeanço, para o louvar, e bemdizer. pelos benefícios , que lhe faz. E agora na Lei da Graça nos manda Deos tam- X iv bem J 328 Compendio Narrativo bem que não trabalhemos nos Domingos , e dias San- tos , para que vamos ouvir MilTa , e os mais Officios Divinos, elouvallo. E nas Leis Civis mandão os Reis, que fe dem ferias nos Tribunaes , para que os Minis- tros , e OíHciaes de juítiça deixem naquelle tempo de laborar , e fe occupem em bons exercicios. Finalmente, em todas as coufas , aífim no traba- lho manual, como no intelleclual , fe deve procurar o meio , por nelle confiítir a virtude. E aílim concluo, que os corpos fublunares não devem fer tão excefli- vos no trabalho , nem tão deixados ao ócio , que por laum venhão a perder a perfeita faude , e pelo outro a íalvação. Não vos recolhais tão tarde , que vos falte o tempo de tratar da voíTa alma ; e quando vos levantardes , fu- gi de que outro, que não feja Deos, leve as primicias de voltas acqoes. Mais vos pudera dizer , mas como vou depreíla , não me poííb dilatar , o que achareis ef- erito em muitos livros , e por doutos entendimentos aconfelhado. Mas fallando agora acerca da impaciência , com que viveis , haveis de faber , fenhor ,. que niíTo offen- deis muito a Deos , por fer a paciência entre as mais virtudes a oitava maravilha , como aílim a moralizou Santo Agoítinho fallando das oito Bemaventuranças ; e fazei muito por exercitalla, que poriífo tereis mui- tos alivios neíía vida, e o premio da Bemaventurança na outra. Corrobora- fe mais eíta virtude com aquella admi- rável lição, que nos deo Job, como tão experimenta- do nella , quando diíTe : (cap. 14. v.i.) Homo na tus de mu Itere, brevivtvenstempore^ repleturmultismi- fer tis : O homem nafcido de mulher, vivendo tempo limitado, eítá cheio de muitas miferias ; para nos dar a entender o como eítá a nofía natureza fujeita a tan- tas Do Peregrino da America. 329 tas miferias, e trabalhos, para termos paciência. Peio que ficai advertido que faltando eíta , falta o mereci- mento para com Deos , e damos forças ao demónio, para mais nos tentar, e levar ao precipício. De mais , que ao mefmo tempo , que Deos vos eítá dando o que lhe pedis , vos eítais moítrando ingrato, e impaciente para com a fua Divina providencia. Co- mo aífim r fenhor ? me díííe o morador. Direi , lhe diíTe eu: Rezais o Padre nofib? Sim rezo, me refpon- deo elle. E quando o rezais , lhe perguntei , não di- zeis venha a nós o teu Reino? Sim digo, me refpon- deo elle. E que cuidais , lhe diíTe eu , que pedis a Deos? Que nos dê a fua gloria , me difíe elle. Pois fabeis; tornei eu , qual he a gloria de Deos ? He a fua Cruz , porque ate o mefmo Chriíto noííb Salvador aífim lhe chamou; e para nos dar exemplo a levou às coíbas atè nella fer crucificado , e quiz nella confummar toda a fua Paixão Sacratiííima , para nos remir , como tinha promettido , e para nos falvar. Mo fuppoílo, claro fica que para Deos nos dar o feu Reino , he necefiario que o mereçamos , levando a noífa cruz, iíto he, fazendo penitencias , jejuando $ difciplinando-nos , trazendo cilícios r exercitando to- das as boas obras, mortificando-nos r eabíi:rahindo-nos de todos os goítos , e deleites do Mundo. E quando Deos vê que o não fazemos , ou que não he o que baf- ta, para nos dar a falvação , por fua Divina mifericor- dia coítuma dar- nos trabalhos , pobrezas , e doenças, para defconto das culpas , e para termos merecimen- tos ; e finalmente outros muitos detrimentos r e mo- leíHas , que chamamos cruz. E ficai entendendo que fem parTarmos por eíta ponte, e fubirmos por eíla ef- cada, não he poííivel chegarmos ao Reino do Ceo. E para maior refignação da voíTa enfermidade, ouvi as fen tenças dos Santos Padres, que vos ferviraa d^ ' J 330 Compendio Narrativo de receita , e lenitivo , para que poííais foffrer as pe- nas , que padeceis. Diz S. João Chryfoítomo que o melhor he fazer da neceílidade virtude , e padecer com merecimento o que fe havia de padecer fem elle. S. Gregório diz nos Moraes que todas as coufas, que padecemos, sãojuítas ; eaífím que he muito má coufa o murmurar de juíta pena , e paixão. O mefmo diz, que o que tem vicios prolongados , deve fer atribula- do com prolixa , e longa enfermidade. O Padre Meítre Ávila no feu Epiílolario diz, que quem cuida que ha de ir gozar de Deos , fem primei- ro paffar pelas amarguras deite Mundo , eítá engana- do. E exclamando diz: Oh doudice para chorar , que querião os homens izentar-fe de padecer ! Querem peccar , e falvar-fe; querem offender a Deos , e não fer caíligados por elle , e toda a fua felicidade he não fer bons , e gozar de huma liberdade fem caítigo. Pois entenda cada qual , que não merece entrar no Ceo, quem não tiver por muito barato tudo o que por elle lhe pedirem. Por iffo diz S. Nilo : Choremos ao pec- cador , que lhe vai bem , porque eítá perto o íeu caf- S. Bafilio nas fuás regras diz, que não ponha hum enfermo toda a fua confiança no Medico, e nas medi- cinas, attribuindo a iflb a caufa defarar, ou não; mas que ponha toda a fua confiança em Deos , o qual às vezes quer dar-lhe faude neíTas medicinas , e outras vezes não. Afíim também quando lhe faltar o Medi- co, ou as medicinas , não defconfie por iffo da faude, porque quando Deos quer, fem iíTofara. Eaífim quan- do o Medico errou a cura , por não conhecer a enfer- midade , ou quando o enfermeiro fe defcuidou , efle erro, ou defcuido , ha de fe tomar por acerto de Deos, porque para com Deos não acontece coufa alguma a cafo. San- Do Peregrino da America. 331 Santo AgoíHnho de Catequizaria, rud. diz : Não te lembre o que puderas fazer de bem , fe tiveras fau- de , que iíTo he incerto ; e o certo he que aquelle or- dena^ e traça melhor fuás coufas, queeílá difpoílo, e preparado para fazer fó o que Deos quer que faça , e não aquelle , que tem muita vontade , e appetite de fazer o que elle tinha traçado , e cuidado. E affim fe bufcas a vontade de Deos puramente , que mais fe te dá eftar enfermo , que são , pois fua vontade he todo o teu bem ; e mais agradas a Deos conformando-te com fua vontade eítando doente , que em quanto pu- deras fazendo eítando são. O Incógnito diz , que no Euangelho fe aponta i que oParalytico tinha vinte eoito annos em fua enfer- midade , e que lhe chamou fua ; porque havendo tan- tos annos , que alli efíava , tinha muita paciência , e com ella temperava fuás dores, e trabalhos, de forte, que era a enfermidade fua, pois delia tirava muitos me- recimentos para fua alma ; porque aquillo com razão podemos chamar noíío , de que nos aproveitamos , e donde colhemos fruto. E aíTim o que eíliver doente , e não tiver paciência , nem foffrimento , antes eíliver como defefperado , a enfermidade deite he mais do diabo, que fua, pois o diabo tira o proveito delia, fa- hindo com vi&oria na tentação da impaciência. S. Paulo ( 1. ad Cor. 13. 7. ) diz , que a caridade foffre todas as coufas, etudo, não excluindo nada. E como eíta tentação combate contra a caridade, fem a qual ninguém fe pode falvar , e a verdadeira caridade he fer paciente, e foffrer tudo, devemos fazello aífim de boa vontade , por nos conformarmos com o Santo Apoítolo ; e toda a enfermidade corporal , e as mais penas, que a acompanhão, fe hão de fofTrer fem mur- muração , nem repugnância da vontade ; porque diz S. Bernardo : Se queres fer fanto , não podes fer são £ e pe- *\ J 33^ Compendio Narrativo e pelo contrario , fe queres fersão, não podes fer Tan- to. E S. Gregório nos adverte , dizendo , que os ma- les , que neSa vida nos perfeguem , são os meios de bufcarmos a Deos. Dizia o Venerável Padre Fr, António das Cha- gas : ( como coníta do livro da fua vida pag. 165. ) Se houvera melhor couía neíte Mundo , que o padecer, Deos o dera a feu Filho mais amado ; mas como não havia coufa melhor > deo-lhe as Cruzes por morga- do. Hum Doutor moderno diz , que não fe pede ao Chriítão, que feja infeníivel nos males, fenão reíigna- do nelles : finta o corpo , e dentro âeile viva reíigna- da a alma : queixe- fe o que padece , alegre- fe a que merece : tenha o fen ti mento , porém não o confenti- mento : confidere que merece mui bem o que pade- ce , e que ou neíla vida , ou na outra ha de pagar o que peccou neíla : crea que afiim como as penas da alma são mais feníiveis que as penas do corpo , são infini- tamente mais terriveis as penas da outra vida , que as deita. Todos os Doutores, que tratarão deita matéria; íignalão trez gráos de paciência, e dizem que he bom não parar atè alcançar o ultimo. O primeiro he quan- do hum foffre com triíteza : o fegundo quando jà fof- fre fem triíteza 3 o terceiro quando foffre com alegria, porque a virtude não fe alcança de repente, mas pou- co a pouco. E aííim reíiítindo-fe ao principio , e exer- citando-fe , fe alcança o fegundo gráo , em que jà fe não fente pena de triíteza. Outros efpelhos mais manuaes são os Santos , que fendo de carne, e oíTòs , como nós , e muitas donzel- las mui delicadas , fofFrêrao com admirável paciência fuás dores, e afílicções muito maiores, que as noflas, por amor de Chriílo. São Do Peregrino da America. 333 S. Francifco de AíTis teve tantas enfermidades de varias maneiras, que não ficou no fen corpo mem- bro algum, que nãofentiífe grande dor, eintenfa pai- xão , e por todas dava muitas graças a Deos ,. pedin- do-lhe que cem vezes dobradas lhas déííe , fe iílb lhe aprazia ; porque cumprir-fe fua fanta vontade nelle, era a fua perfeita confolação. De São Francifco Xavier fe eonta , que quando lhe fuccedia algum trabalho , ou afílicção , dizia a Deos : Mais , mais , Senhor. E quando tinha algum prazer, ou lhe fuccedia algum bem , dizia: Baíta , Se- nhor , baíta. Porque fabia o Santo o quanto rifco he gozar dos bens do mundo , e o muito , que fe apro- veita no padecer para gozar a Gloria celeíli-al. S. Bartholo de S. Gemiano foi outro Job na pa*- ciencia , a quem Chrifto em figura de pobre leprofo lhe pegou a lepra , da qual fe cubrio dos pés ate à ca- beça com muitas dores, e podridão, e lhe cahírão os narizes, e a carne pedaço, e pedaço, e cegou de am- bos os olhos ; e affim efíeve vinte 'annos, dando fem- pre graças a Deos com rara paciência. E por iíTo diííe S. João Chryfoítomo, que os trabalhos não são ira de Deos, fenão admoeítações, e mifericordia. Santa Syncletica tinha as entranhas podres, e os oíTos carcomidos , e em lugar de cufpinho , cufpia , e efcarrava pedacinhos de bofes desfeitos, e derretidos com os fogos , que a abrazavão , e ninguém a podi& foffrer por feu mão cheiro , e ella tudo foffria com alegria , e defejava padecer mais por amor de Deos. Santa Liduvina padeceo trinta e oito annos gra- viíTimas enfermidades com grandes dores , fem poder comer , nem dormir , nem levantar-fe , nem ainda vi- rar-fe, e era pobre, fó, e defamparada; e das mefmas entranhas lhe cahião tantos , e tão terríveis bichos,, quQ não fe podião ver fem efpanto ,. e tudo lhe pare- em 1 I J ^334 Compendio Narrativo cia regalos do Ceo : e a paciência a fez Santa. De Santa Terefa de Jesus fe efcreve , que dizia a Deos : Senhor , hum de dous favores me haveis de fazer , ou dar- me que padecer , ou deixar-me morrer. Notável refolução por certo ! Quem jà mais fez tal petição a Deos, fenão huma Santa Doutora, que fou- be entender o quanto aproveita o padecer neíte mun- do, para alcançar o premio do Ceo? A Santa Getrudes appareceo Chriíto hum dia , trazendo na mão , direita a faude , e na efquerda a en- fermidade , e lhe diíTe , que efcolheiTe o que quizeífe. E ella refpondeo ; O que eu, Senhor, defejo de todo o meu coração, he que não olheis minha vontade, fe- não que fefaça em mim o que for maior gloria, e con- tentamento voíTo, E por iíTo diz S, João Chryfoílo- mo , que manda Deos trabalhos aos juítos , para que a todo o correr fujão da terra para o Ceo, e não facão emprego de feu amor nas temporalidades , e refrigé- rios deita vida. Diz Thomaz de Kempis no feu livro da Imita- ção, de Chrifto , liv. i. c. li. Bom nos he que padeça- mos algumas vezes adverfidades, e contradições , por que muitas vezes fazem recolher o homem dentro de feu coração , para que conhecendo que vive em deíterro , não ponha a fua efperança em coufa algu- ma do mundo. Finalmente diz Séneca, que chamava Demócrito à vida fem tribulação mar morto , no qual ha muitas veZes maior perigo , que quando fe alterão as ondas. E quando Deos feja fervido que cheguemos ao fim da vida , eftando contritos , confelTados , e reíig- nados na fua fanta vontade, por muitas razões fe pode hum Chriílão animar para a morte : primeira, por fer .vontade de Deos : fegunda , porque com a morte fe acabão os trabalhos , que traz comfigo eíla miferavel vi- Do Peregrino da America. 33^ ■ : m m til vida : terceira , pela efperança de que ainda que eíteja por alguns tempos no Purgatório, o levará Deos a go- zar da Bemaventurança ; porque diz o Profeta Rei que a morte dos Santos he preciofa diante de Deos, e o mefmo fe ha de dizer dos peccadores verdadeira- mente contritos , e que morrem na Fé , e união da Igreja Catholica , como diz S.João no Apocalypfe : (cap.14. v.13.) Bemaventurados são os mortos , que morrem em o Senhor. E por iíTo diz Salomão : Me- lhor he o dia da morte , que o dó nafcimento. Na verdade vos digo , me difíe o morador , que pelo que me tendes relatado com tão admiráveis ex- emplos de tão grandes Santos , e authoridades da Sa- grada Efcrirura, eítou mui fatisfeíto, e terei por ven- turofo acerto padecer muito mais , para alcançar per- dão das grandes culpas , que tenho commettido con- tra Deos. E também vos poderei dizer que atè agora rezava o Padre noíTo decór, fem reparar neíTa palavras Venha a nós o teu Reino. Eque fera nas mais, quan- do fó em huma tendes dito tanto ? Dirvos-hei , lhe diffe eu : As palavras de Deos são mui myíteriofas , porque todas eílão cheias de fuper- abundante doutrina ; o ponto eítá em premeditallas, meditallas , e obfervallas ; porém he tal a natureza humana , que por falta de confideração eítamcs appe- tecendo muitas vezes aquillo mefmo , que nos offen- de, e recufando o bem efpiritual ; porque fendo a vi- da , a refpeito da eternidade , hum inítante , não ha creatura racional , que não defeje viver neíle Mundo muito tempo com faude, deleites y goítos , regalos, e contentamentos 9 devendo confiderar que he coufa incompativel ter contentamentos , regalos , goítos, e deleites nefte Mundo , e querer falvar-fe , fem fazer penitencia das culpas commettidas contra Deos, Ifto he querer voar fem azas , nadar fem braços f e andar fem Compendio Narrativo fem pés. Pois , fenhor > me diíle o morador , que ha de fazer hum Chriílão para fe falvar? Primeiramente , lhe diíTe eu , fazer huma Coníif- são muito bem feita , difcorrendo por todos os dez Mandamentos, e dizendo, e perguntando aíi próprio: Quanto tenho vivido ? Como vivi ? Quanto poíib vi- ver? Gomo he bem que viva? E a cada pergunta def- ías deter-fe algum breve tempo em coníiderar no que tem feito , e obrado no progreííb de toda a fua vida ; porque he máxima certa , que tudo o que nos dá pe- im na hora da morte , he o que neíta vida nos deo goíto. E logo diga : He poífivel que tanto temo a morte temporal , e tenha tão pouco temor da eterna! E trate então de fe difpor para morrer, antes de mor- rer. E como ha de fer iflb? medirTe o morador. Dir- vos-hei , lhe diíTe eu. Morrendo para os goíto s , de- leites , honras , e haveres temporaes , porque são os goítos , e deleites delia vida a cauía de padecermos na outra. AíTim que deve fer todo o noííò cuidado, e difvelo em procurarmos âquellas obras de virtude, que nos Mo de fervir de proveito efpiritual na Bem- aventurança, foíírendo as moleíHas com paciência em defconto das offenfas , que temos feito contra Deos, e procurando muito agradallo , e fervillo com as nof- ias boas obras > porque là diz aquella fentença : Deos, que promette o perdão A' fincera penitencia, Não promette remifsão A' penfada negligencia. Em quanto à razão de me dizeres , que vos não dá lugar a voíTa enfermidade , para poderes fazer pe- nitencia , fabei que diz S. Bernardo , que ha dous ge- ne- Do Peregrino da America. 337 neros de penitencia ; huma corporal , e outra efpirt- tual. A corporal caítiga , e afrlige o corpo, como sâo difciplinas, jejuns, cilicios, dura cama, veftido afpe* ío, e outras coufas femelhantes. A efpiritual, e inte- rior, mais excellente, e levantada, confifte em reger, e governar os movimentos denoflò appetite, andando hum cada dia peleijando contra feus vícios., e más in- clinações, e negando-fe fempre àfua própria vontade, e feu mefmo juizo, vencendo fua ira, reprimindo fua cólera, e impaciência, refreando fua gula, e todos feus fentidos , e movimentos. Efta podem fazer fortes , e fracos; sãos, e doentes; moços , e velhos ; porque do- minar O efpirito , defprezar a honra , « exercitar ou- tras femelhantes mortificações , vale mais do que fazer grandes penitencias de tomar difciplinas, jejuns, &c. E aíTim vos digo , para que . poria aprefentar-fe diante de Deos na hora da morte, como facrificio puro, e digno de fua Divi- na prefença ; porque diz o Efpirito Santo : Muitos homens são chamados mifericordiofos; mas varão fiel , quem o achará ? (Prov.20.6.) O que commentandõ Hocala V diz que fe entende afíim : Homens , que fa- cão bem a vivos , poderá pór ventura havellos ; po- rém homem , que guarde lealdade aos defuntos , he coufa rara no mundo. Podiao eítes ricos ter em fuás vidas grande me- recimento para com Deos» diítribuindo em obras pias os feus bens ; porque la diíTe hum Author , que o ou- ro , e os cabedaes são como hum máo humor, que fe o não gaílão , nos gaíla as vidas. E infiel he a Deos quem do que Ihéfobra não reparte com quem lhe fal- ta o neceíTario V pois lho deo para iííò , e muitos por miferos oeííão guardando atè à hora da morte, e por elles fe diz : Ninguém larga fem dor o que pofTue com amor : e quando o largão , he porque o não po- dem levar. E vede o que là diííe hum contemplativo, que quem neíte mundo lhe fòbra o cabedal , fuecede* lhe na outra vida vir afeitar lhe. E porque cuidais que fuecede iíto nos homens? Pela dtfordenada ambição. Oh defgraça dos mortaes ! Oh cegueira da ambi- ção, como te vejo- irremediável! Tnibalha toda a vi- da hum deílesmiferaveis, feito hum bruto , ou cavai- lo de alman jarra de hum engenho , tangido por hurtv moleque, que he o diabo da ambição, ferido a golpes com os azurragues do intertíFe , andando em humà bolandeira , ou roda vida de mais adquirir riquezas* tanto de noite , como de dia, fem mais proveito; ou lucro , que huns olhos de canas Tecas , que lhe dão a comer, e a beber huma pouca garapa fuja y ídndo to- Y iii dos 1 uê 34 i Compendio Narrativo dos os lucros deite trabalho para o fenhor do enge- nho , e lavradores de canas , que são os herdeiros , que lhe vem a poíTuir as riquezas, que neíta vida com tan- to difvelo ganhou ; e quando morre hum deites mife- raveis , o enterrao de forte , que delle não ha mais lembrança , porque jà para nada ferve ; e fe lhe per- guntão a hum deites ambiciofos , porque aífim obra daquella forte , coítuma refponder com hum adagio, que lhe tem eníinado o demónio , que mais vale dei- xar a máos, que pedir a bons, ( como fe o pedir pelo amor de Deos fora peccado. ) Não quero dizer niíto., que deixem os homens de trabalhar , para comerem, porque Deos nos manda que trabalhemos ; porém o que reprovo he ferem tão ambiciofos , que venhão a perder a alma por enriquecer. A eíte propofito vos direi o que vi fucceder a hum rico deites , eítando enfermo para morrer. Fez eíte o feu teítamento , mais a perfuasóes de alguns feus amigos, e da mulher, com quem era cafado, que de fua própria vontade ; e depois de deixar cem mil reis para algumas obras pias, fez huma verba, na qual deixou que tudo o mais , que lhe coubeííe à fua no- meação , por não ter filhos, nem herdeiros forçados, o deixava a fua mulher , para que fizeíTe pela fua al- ma , o que elle faria pela fua. E deita forte fechou o feu teítamento. Paliados quatro mezes , depois de falecido eíte homem, cafou a mulher com outro, o qual logo tra- tou de toda a fazenda como fua , pois lha entregarão voluntariamente , a qual importava mais de trinta mil cruzados em todo o monte. Teve confiança hum compadre deita mulher para lhe perguntar , que fuf- fragios tinha mandado fazer pela alma do marido ? Refpondeo-lhe ella : Os que o defunto meu marido havia de fazer pela minha alma , fe eu falecera pri- mei- ~ --. Do Peregrino da America. 343 meiro, que elle ; porque como foi em extremo mife- ravel, de mim fe não havia de lembrar: e como aílim o coníidero , não lhe tenho mandado fazer fuífragios alguns , nem tenho tenção de os mandar fazer. Porém nãoviveo muitos annos eíta mulher, nem feu fegundo marido , porque ambos acabarão as vidas brevemente. Aqui tendes o que são femelhantes dei- xas , e dilpoílqões de tefcamentos , por fe fiarem os homens dos homens , ou ainda de fuás próprias mu- lheres. E por ifíb diz Deos por boca de hum Profeta: Maldito feja o homem , que de outro homem fe fia. E aífim vos digo , Senhor , que fuppoílas as ra- zões jà ponderadas, da mais fazenda, com que vos a- chardes no fira da voíía vida , grande acerto fera que a repartais com quem vo-la deo, e eítá provendo, e a todo o género humano , que he Chriílo bem nofib, o qual além de eítar em toda a parte, em quanto Deos, fe acha , e eítá no Santiífimo Sacramento em todas as Igrejas , onde ha Sacrários , porque aílím no-lo enfina a Fé , e elle mefmo no-lo prometteo , dizendo : Et ecce egovohtfium Jum omntbus dtebus u/que adcon- Jummat tonem facult. (Matth. 18. 20. ) E vede agora com quanta razão he muito mais bem empregado o deixar hum Chriítão os feus bens a hum Pai tão amorofo , que fe dignou ficar comnofco até o fim do mundo , para nos acudir , e remediar tem- poral, e efpiritualmente , do que deixallos a homens, que fó tratão de fuás conveniências , fem fe lembra- rem das almas dos teíladores , como actualmente o eítamos vendo, e experimentando. E depois diíto também fera acerto que repartais a voíTa fazenda com as Irmandades , e Confrarias dos Santos ; porque como forão » são, e hão de fer voíTos advogados , bem he que também vos moítreis agrade- cido de quem tendes recebido tantos benefícios , e Y iv efpe- \ ê Compendio Narrativo efperais receber as fuás intercefsões para com Deos. E o mais que ficar de voflbs bens, deixai que fe repartao em duas partes iguaes : huma com as almas do Purgatório, por ferem innumeraveis os benefícios, que refultao a quem ufa de caridade com ellas ; e a outra parte com os pobres , não excluindo a nenhum neceífitado. E não permittais que fejão voíTos teíta- menteirosenqueredores, nem fifcaes das gerações dos pobres , tirando-lhes inquirições da limpeza do Cangue , e também de vlta , & moribus , como fe os mifera- veis pobres fe quizeífem ordenar de Ordens Sacras, e as necefiitadas mulheres intentaífem fer freiras. Tomai exemplo de S. Luiz Rei de França, que •quando repartia as efmolas com os pobres , não fazia excepção de peflba , atè aos infiéis foccorria ; e por eíTa caufa fe convertião muitos à noíTa Santa Fé , por verem a grande caridade , com que hum Rei Chrif- tão procedia para com elles. Diz Chriílo Senhor nof- fo no Euangelho : Dá a todos os que te pedirem. (Luc, 6. 30.) E neíta doutrina nos eílá enfinândo, que não devemos excluir apeífoa alguma, para deixarmos de a foccorrer. E daqui parece procedeo aquelle ri- fão antigo , que diz : Faze bem , não cates a quem; porque todo o próximo tem direito natural para pe- dir, e fer remediado. Na primitiva Igreja vivião osChriílãos todos do commumj o que mais tinha , remediava ao pobre ne- ceííitado, e por iífo então houve tantos Santos. Hoje vivem os Chriílãos cada qual para fi ; e por iílo não achão a Deos propicio , para os livrar dos infinitos peccados, em que eítão cahindo, fem fe poderem le- vantar. E o peior he , que fe algum deites ricos me ouvira, fe havia de rir; porém là virá tempo, em que chorarão , fem fe poderem jà mais aproveitar , nem alegrar, E afilai Do Peregrino da America. 345 E aííim vos digo que pelo meio da efmola po- deis fatisfazer porvoíTas culpas, fupprindo comella a falta da penitencia , pois diz Chriíto Senhor noíTo : Mijertcordíam voh , & non fecrificium. ( Matth. 9. 13. e li. 7.) E também vos encommendo que fejais mui caritativo para com todos os Religiofos , e prin- cipalmente para com os mendicantes ; porque pelo bem , que lhes fizerdes , participareis de todas as re- zas» eíuffragios, que coítumão fazer pelos bemfeito- res , e tereis aos feus Santos por voíTos intercefíbres para com Deos em todos os voíTos trabalhos efpiri- tuaes , e temporaes. Porém fallando agora das pobres donzellas ex- cluídas deíTes teíladores, edefemelhantes difppfiçoes deflas verbas de teílamentos : notáveis confequencias refultão deííes exames de gerações, que coítumão fa- zer eíTes teílamenteiros , e adminiítradores , tanto em prejuízo , e defcredito das pobres donzellas ; porque fobre as não foccorrerem com a efmola , as deixão in- famadas , por tomarem effas informações muitas ve- zes com peíToas mal aífeclas aos parentes deíTas po- bres donzellas , eftando talvez ellas obrando com tão bom procedimento, que tudo merecem pela fua hon- ra, e virtudes. Romperão em queixas fem duvida com muita razão contra quem foi o motor de feus defcreditos-, e dirão .: He poffivel que pondo-fe Chriíto Senhor noíTo na Cruz , para foccorrer a bons , e máos , que lhe pedirem o feu amparo , e favor , fejao tão avaros os homens , que daquillo mefmo , que Deos lhes deo para repartirem comnofco , nos queirão deixar desfa- vorecidas, edefamparadas, por hum defeito, que não eíleve , nem eílá nas noítas mãos emendallo , pois Deos aííim nos fez , e fabe o porque o pemittio ! E que fobre nos deixarem famintas , nuas , e com as mãos va- Bi n 1. 34a Compendio Narrativo vaíias, ainda nos tirem omefmo credito, fem repara- rem no damno , que diíTo nos refulta ! Que culpa ti- vemos denafcermos pobres, e de baixa geração, para não fermos foccorridas com caridade , eítando nós obrando com tanta fatisfação na inteireza de boa hon- ra, ehoneftidade, que fó poriíTo devíamos fer ampa- radas com piedade , pois Deos aílim o manda , e en- commenda aos homens em feus Divinos preceitos ? O que agora eítamos experimentando tanto pelo con- trario pelos homens em nós executado com tanta im- piedade , como fe fôramos de outra diverfa lei , ou nação. Oh laftima para fer fentida ! Oh tyrannia do género humano \ Porem a iflb lhes diíTera eu a eíTas pobres desfa- vorecidas donzellas, que fenão defconfolaíTem , eque tenhão muita fé em Jesus Chrifto bem noíTo , porque no maior de feus defamparos então ferão mais favo- recidas ; porque eu conheci muitas deíTas excluídas, que por perfeverarem em feus bons procedimentos, forão de Deos foccorridas, e amparadas. E aílim fiquem todos entendendo , que não ha tão grande nobreza, e fidalguia na prefença de Deos, como são todos aquelles , que fabem guardar feus Di- vinos preceitos, fazendo boas obras emfeu fanto fer- viço; porque pouco importa nafcer hum nobre, e de limpa geração, feeíte oífende a Deos, e não guarda a fua Santa Lei. Comprova-fe eíta verdade pelo que ef- tamos vendo , e cremos de fé, pois fendo muitos hu- mildes de geração , e defprezados de alguns , eítão hoje na Igreja de Deos canonizados por Santos. O ponto eílá fó em deixar de peccar , e em fazer boas obras de virtude na Lei de Chriíto Senhor noíTo , que Deos nunca falta , nem ha de faltar com a fua Divina piedade , e mifericordia em nos ajudar neíla vida , e na outra, dando-nos a falvação. E aflim m Do Peregrino da America, 347 E afílm vos digo agora, ò pobres , e defconfola- das donzellas, que todo o vofTo bem, e efperança de- veis pôr em Deos ; e não queirais íer como alguns po- bres, que toda aíua confiança apõem nos ricos, quan- do tanto os ricos, como os pobres, fó em Deos have- mos de efperar , e buícar o feu amparo , porque elle mefmodiz: Bufcai-me, fereis favorecidos. (Proverb. 9. 21.) E em outro lugar por David: Bemaveníurado o que efpera no Senhor. (Pf. 3. 9.) E aílim venho a concluir, que toda a noíTa efperança, e confiança de- vemos pôr em Deos , porque fó elle nos pode dar , e remediar , tanto os bens temporaes , para podermos paíTar efta vida mortal, como os da gloria, fe lha me- recermos com boas obras. E para confirmação do mais , que vos tenho di- to , diíTe eu ao morador , acerca do como haveis de repartir os voííbs bens , tomai exemplo daquelle Di- vino exemplar Chriílo Senhor noííb , quando fez o feu teítamento. Entregou o feu Divino Efpirito ao Padre Eterno , o feu amado Difcipulo o deixou recommen- dado a fua Santiflima Mãi , e os thefouros de feus Sa- grados merecimentos os deo , offereceo , e repartio com todo o género humano , fem refervar , nem ex- ceptuar qualidade de peíTòa alguma , os quaes eítão manancialmente no Santiílimo Sacramento atè o fim do mundo , para todos os que delles fe quizerem va- ler, e aproveitar. E para em tudo nos dar cabal prova, e exemplo do como devemos viver, e acabar, antes de fubir aos Ceos, defceo ao Inferno, chamado Seio de Abrahão, a tirar as almas dos Santos Padres , que là eílavão es- perando pelos thefouros de feus Divinos merecimen- tos, para poderem ir gozar da Bemaventurança ; por- que nos quiz moítrar eíle mifericordiofo Deos , que também nos devemos lembrar das almas do Purgató- rio , 348 Compendio Narrativo £Í£) , na reprefentação daquellas , que eílavão no Seio de Ábrahão, com as noífas deixas, e fuffragios, pelos innumeràveis benefícios , que diíTo refultão a quem o faz, como jà vos diíTe. E para que viíTemos que também fe lembrava dos Santos , por iíTo deixou recommendadoS. João a fua Santiílima Mãi, figura , ereprefentaçáo das Irman- dades ,*e Confrarias, de quem devemos ter lembrança na vida, e na hora da morte. Finalmente deixou todos os mais thefouros de feus Divinos merecimentos repartidos com os pobres, que forão , são , e hão de fer todos aquelies , que en- tão fe aproveitarão, fe eítão agora aproveitando , e fe hão de aproveitar de tanto bem para o tempo futuro atè o fim do mundo; e tanto fez por nos enriquecer, e remediar , que atè a mefma vida deo por nos deixar çom a herança de bens da gloria. E aílim ficai enten- dendo que todo o Chriítãa deve imitar a Chriíto , pois iílo he fer Chriítãoy como diz S. Leão Papa. E eíta he , Senhor , a fumma do muito , que vos pudera di- zer acerca do que me tendes perguntado. Verdadeiramente vos digo , Senhor , me difle o morador, que eílou mui pago, e fatisfeito do que me tendes dito ; e agora conheço que foi Deos fervido trazer-vos a eíla cafa , para me pores no caminho do melhor acerto de minha falvação. Queira Deos dar- me tempo , para que poíTa obrar tudo o que me ten- des advertido , e áeonfelhado. Aílim o ha de ordenar a fua Divina Providencia , lhe diíTe eu ; porque como o fim , que pertendeis, he bom, não ha de faltar com a fua Divina mifericordia. Alli paíTei todo o dia ate que anoiteceo , e me deo agazalho o dono da cafa com grande demonflração de amor. * Defpertei, quando jà os verdes coqueiros eítavão batendo com as palmas , porque o freíco terral lhes def- Do Peregrino da America. 349 deílerrava o temor das fombras negras da noite ; e a aurora rutilante* efpalhando-fe pelos orizontes, com- municava aos viventes todo o contento f e alegria. E fahindo eu à varanda , me encoítei a hum peitoril , e dalli vi no terreiro os vigilantes gallos , os bufantes perus , os foberbos patos , as diligentes gallinhas, mui- tos frangãos , e pintãos > o que tudo me fervio de re- creio à viík, e entretenimento ao goíto t e lançando os olhos para o dilatado do paífco , vi correr os con- tentes cordeiros , faltar os ligeiros cabritos , balar os fequioíos bezerros , e finalmente todo o mais gado paítar no prado 1 e também folguei de ver a boa or- dem , com que eítavão plantadas muitas arvores fru^ ti feras. , humas carregadas de frutos * e outras cheias âe flores. A eite tempo fahio o dono da cafa, e dando-me os alegres dias, lhe correfpondi eu mui cortezmente, agradecendo-lhe juntamente o bom agazalho , que me tinha feito. E logo lhe diíTe : Com muita razão , Se- nhor y fe diz : Se queres ter alegria , planta , e cria, Porque me tem agradado muito o ver neíla voíía fa- zenda abundância de creação , tanto das. aves. manfas , como dos animaes domeíHeos , e a boa ordem , com que eílão plantadas tantas arvores , com tão grande primor da arte da agricultura. E por ifíb venho agora no cabal conhecimento, por que tanto alludio aquel- la douta penna de Guevara ( no feu livro Menofpre- eio de la Corte , y alabanças de la Aldeã ) às grandes conveniências , que refultão aos que vivem y e moráo- fora das Villàs, e Cidades. Por certo , Senhor , me diíTe o morador, que quan- do não fora por outra razão , fenão por hum homem: fe livrar de fe andar a veítir, e a defpir todos os dias, quando vai às ruas, e fe recolhe para fua cafa, fó por Mb fe devia fugir das Cortes , além dos demaziados ■\\ Compendio Narrativo gaílos, que fazem nas Villas, e Cidades. Fallais com muito acerto, Senhor, lhe diíTe eu, poíque o mefmo Guevara chamou grilhão dourado às demaziadas galas, e atavios', com que os homens tanto fe empenhão para andarem enfeitados , e bizarros nas praças. E fallando acerca dos gaítos , diz o mefmo Author , que na Corte muitas vezes fe gaita mais na lenha , que na olha. Por certo , me diíTe o morador, que eu jà experimentei eífe dito de Guevara ; porque ei- taudo na Corte de Lisboa , e appetecendo jantar nu- mas dobradas, dobrei o dinheiro no gafto da lenha. Ecomo fe hião jà fazendo horas defeguir a mi- nha jornada , me mandou o dono da cafa dar de almo- çar vaca aliada , leite quente , ovos frefcos , e doce frio ; e depois que almocei, e dei graças a Deos, lhe diíTe : Bem conheço , Senhor , que quanto mais per- tendo diítanciar-me de voíTa prefença , mais me apar- to de tanto bem ; porém como neceíTariamente me he forçofo feguir eíla jornada, poriílb vos peço agora li- cença para o poder fazer. Parece que defentido, efaudofo, para melhor fe explicar, com as lagrymas nos olhos me diffe o mora- dor: Se eftivera, Senhor, avoíTa jornada em folicitar os cabedaes deita vida , dos bens , que poíTuo, de boa vontade repartira com vofco, fó por vos ter em minha companhia. Aflim o creio , Senhor , lhe diíTe eu , de voííò género fo , e defintereííado animo \ porém ha- veis de faber, que o fim , que pertendo alcançar, não são os haveres do mundo , porém fim os eternos , e eites nos conceda Deos a todos com muitos augmen- tos de fua graça. E com demonílrações de mui reci- proco amor , me defpedi do dono da cafa. - - - ■ CA- Do Peregrino da America. 351 CA PITU LO XXIII. 11 Tío encontro , que o Teregrino teve com hum Wtèb dre Çafellão; e da converfação^ que tiver ã& acerca do ejlado Sacerdotal. JA' neíle tempo tinha apparecido o Sol, e com paf- fos agigantados fe via fubir aos montes , e também defcer aos valles ; e regiítando effes orbes, e domi- nando eíTa maquina, moílrou que era Monarca das lu* zes, e Prefidente dos Aítros. E pondo-me a caminho, fui feguindo a minha jornada aquella manhã atè quaf* às onze horas , quando aviltei hurna verde mata , na qual entrei; e depois deter andado meia légua, achei hum ribeiro , que por entre verdes efpadanas eítava convidando aos caminhantes , para que gozafFem de fuás claras ye correntes aguas. Aili jantei ; e como era o lugar ermo , e folitario , eítive fempre defveJado. Eis-que ouvi hum tropel, que me pareceo fer de huniicavallo desbocado , que arrebatado em furor fe defpenhava por entre aquella efpeíTura ; e reparando , vi ir correndo huma anta, diírante do lugar , em que me achava, quafi hum tiro de pedra , e logo em feu feguimento hum tigre tão furibundo , que me caufou notável temor ; e defap- parecendo huma , e outra fera , a pouca diítaneia ouvi ruido como de huma luta s e alaridos da affligida anta; E pondo-me a caminho com paíTos apreíTados , fui fe- guindo a minha jornada por me não atrever apartar dous brutos. E fazendo então eíle difcurfo , diíTe comigo : Quem haverá no Mundo, que efueja livre de fer accommetti- do de hum perigo, e aíTaltado de hum contrario, ain- da que traga huma coura de anta, e viva em hum de- fer- jyi Compendio Narrativo ferto ? Só eíbt conílderação baítava , para que qual- quer creatura racional viveífe com grande receio , e cautela , procurando paliar com toda a diligencia , e cuidado para aquella Pátria , onde não ha rifco de vi- da , nem temor da morte , que he a Bemaventurança no Ceo , e não fer como muitos tão affeiçoados à ter- ra , que defprezando o focego Divino , e paz eterna , vão parar no centro do Inferno , onde de feras infer- naes são accommettidos , e defpedaçados a cada inf- tante , fem nunca acabarem de padecer , e para fem- pre ferão atormentados. Por certo , fenho* , me diíTe o Ancião , que não foi tão pequeno favor do Ceo o livrares deííe encon- tro; porque he fem dúvida, que aííim como eílès bru- tos tornarão aquella vereda , poderião também enca- minhalia por eila parte, onde vós eítaveis , e largar o tigre a preza, e fazella em a voíTa peííba. ComoDeos he de tanta piedade, lhediíTe eu, livrou-me a fua Di- vina mifericordia de tão grande perigo. Affim o de- vemos coníiderar piamente , me diíTe o Ancião : po- deis continuar a vòíTa narração. Eu aprofigo, fenhor, lhe refpondi eu , pois que com tão difcreta attenção me quereis ouvir. Serião jà quatro horas da tarde , quando aviílei hum dilatado campo , e no meio delle em hum alto huma Igreja , e junto delia huma cafa de vivenda ; e continuando os paíTos , vi dentro da varanda da cafa hum Sacerdote de joelhos , com hum livro nas mãos. Saudei-o , mandou-me entrar , e deo-me aíTento. E tanto que acabou de rezar, me diíTe : Não me tenhais por hypocríta , fenhor, por me achares rezando de joelhos , porque de outro modo (tendo faude , e ci- tando orando, que vale omefmo, que fallar comDeos) me parece que he faltar ao culto , e reverencia , que fe deve a tão íuperior Mageílade , principalmente no ef- Do Peregrino da America, jfj èítado de Sacerdote , pela reprefentaçao , que temos comos Anjos. Tão longe eítou , fenhor , lhe diíTe eu , de vos ef- tranhar ena acção, que antes vo-la louvo muito, pois nos eítais infinuando o como havemos de orar , e re- verenciar a Deos, alem do grande exemplo, que tam- bém eítais dando a alguns Sacerdotes , que com pou- ca devoção , e menos reverencia rezão o Ofíício Di- vino , tanto pela preíTa , com que o leni , como pela grande diítracção , com que o recitão ; porque coítu- mão muitos entre Pfalmo , e Pfalmo (em lugar das Antífonas, e Lições) metter varias palavras efcufadas com os feculares. E fe ainda entre os homens fe tem por acção indecorofa , e menos cortez interpolar a converfação , vede agora com quanta maior razão íc deve tratar com mais refpeito com Deos na oração. E o que mais fe deve eítranhar , he ver a pouca devoção, e menos reverencia , com que alguns Sacer- dotes coítumão celebrar o Santo Sacrifício da MiíTa , devendo fazello com toda a reverencia , e devoção: quiçá que por iffo tenhão grangeado muitas Religiões grandes créditos entre os feculares , pela devoção , e i modeítia , com que celebrao eíte Santo Sacrifício ,e ; os mais Onícios Divinor ; não porque fej ao mais dou- tos , e devotos , que os mais , porém fim pela gran- 1 de edificação , com que obfervão os Eitatutos da íua Regra. A eíte propofito vos direi o que vi fuceeder ef- tando ouvindo MiíTa : e foi o cafo , que indo a fazes; o Sacerdote as benç«os em firna do Calis , pela gran-: de preíTa s com que eítava celebrando , deo com os dedos na Palia , que o eítava 'Cubrindo , e a fez faltar fora , e cahir do Altar , e por milagre não derribou o Calis. r Também não deixão de fes- notados alguns Sacer- Z do- Compendio Narrativo dotes quando dizem MiíTa , pelo grande encolhimen- to, com que levantão a Hoília depois de confagrada, fem que a deixem ver , e adorar do povo , que eílá ouvindo MiíTa, como fe forão eíles Sacerdotes tolhi- dos dos braços. E por iííò parece manda o Sagrado Concilio Tridentino , que fe não ordenem homens, que forem aleijados, E fuccede poreíla caufa ficarem muitas peflbas tão def contentes , como defconfoladas, porque lhes parece que não tem ouvido MiíTa , e vão bufcar outra , para verem , e adorarem a Deos. Diz João Campello no feu thefouro de Ceremo- nias §. 34. que os Sacerdotes devem levantar a Deos, no que parece eílá advertindo aos celebrantes , que moílrem a Hoília depois de confagrada ao povo, que eílá ouvindo^MiíTa. Além de que dizem os Sagrados Expofitores , que o levantar- fe na MiíTa a Hoília , e o Calis , íignifica a Chriílo crucificado na Cruz , para que feja viílo, e adorado dos Chriílãos. Outros Sacerdotes são tão apreíTados , e velozes no levantar a Deos , que mal o deixão ver , e adorar. Eíta devia fer a razão, porque fe conta, que indo paf- fando o Venerável Padre Meílre Ávila por hum Al- onde eílava dizendo MiíTa hum Sacerdote , pelo ver eílar celebrando com menos reverencia, lhedifle: Trate le blen % f07 % que es Hijo de un buen 'Tadre. Não quero dizer niílo que fejão os celebrantes va- garofos , e defcuidados em terem o Senhor tanto tem- po levantado, que lhesfucceda o que fe conta de hum Sacerdote , o qual eftando dizendo MiíTa em huma Igreia dos Reverendos Padres da Companhia , paíTou neíTa occafião por perto delle hum Religiofo da mef- ma Companhia , e vendo o muito , que fe detinha o celebrante com a Sagrada Hoília levantada , diíTe ao Acolyto: Mande repicar o fino, porque eílá o Senhor cxpoílo. Pois ^% Do Peregrino da America. 3 5 j Pois fabei , fenhor , me diíFe o Capelláo , que 'também havemos de dar mui grande conta aDeos def- fes defcuidos, e irreverências: e poreíla razão venho a entender , que fe alguns Sacerdotes bem foubeííem o eítado , que tem , ferião mais agradecidos a Deos f pelos admittir na fua Igreja porfeus Miniílros, e não fe arrojarião tanto em procurar tão alto , e fuperior eítado , para depois o não eíHmarem , nem ufarem delle como devem, e são obrigados. E principalmente todos aquelles , que depois que são Sacerdotes , procurão íer Curas das almas ; porque tenho ouvido no decurfo de fete annos , que eítou neíta Capella , tão atrozes , e horrendos cafos nas Confífsões , que bem vos poíTo affirmar , que fe não tivera eíludado trez annos Theologia Moral no Collegio dos Padres da Companhia na Cidade de Évo- ra , e não trouxera alguns livros da meíma fciencia, não fei como poderia dar íblução a taes cafos. Ê aílim vos digo , fenhor , que fe os IlluítriíH- mos Prelados bem foubeííem o quanto fe neceífitava de Sacerdotes capazes, e idóneos para Curas, e Vigá- rios deites Certões , e partes de fora , talvez que fe- rião mais bem examinados eítes , e não ferião tão ri- gorofos os exames para aquelles, que procurão as Igre- jas das Villas , e Cidades , onde fe achão grandes ta- lentos, e Meítres nas Religiões, com os quaes fe po- dem confultar as duvidas , e os penitentes achar re- curfo para conftffarem feus peccados. A'cerca deííe particular , fenhor Reverendo Pa- dre, lhe difie eu » me períuado que huma das razões, que tem os Illufcriílimos Prelados, para ufarem de tão rigorofos exames com eíTes pertendentes das Igrejas das Villas , e Cidades , he não tanto pela neceíTidade da fciencia , quanto para diífuadirem aos menos ido- .neos , e efcolherem os mais beneméritos, porque Z ii mui- ■ II Compendio Narrativo muitos fe oppoem ao concurfo deíías Igrejas, levados" mais do intereífe, que do zelo da cafa de Deos. Aífím me parece , me diíle o Capellão , porque eítá hoje o mundo (e principalmente eíle Eílado do Brazil ) em taes termos , que mais parecem alguns Sa- cerdotes mercadores negociantes , que Miniílros de Deos, e Curas de almas ; e fe não , vede o que eftáfuc- cedendo nos tempos prefentes. Oppõe-fe hum Cléri- go a qualquer Igreja ; e a primeira coufa, que procu- ra , he faber o quanto rende cada anno , e o que tem de benezes : fe são ricos os freguezes , e fe dão boas offertas ; fendo que fó devião procurar fe havia bons paramentos na Igreja, e feerão devotos, e zelofos os freguezes de obrar bem no culto Divino ; e quando muito faber fe era o fitio fadio, e fe havia bom paífa- dio do fuftento corporal. Como iíTo lhes não dá rendimento , nem dinhei- ro, IhediíTe eu, he o porque não perguntão, efó tra- tão de faber do que os ha de fazer ricos. Porém ad- virtão que (pelo que tenho lido) não fervem eíTes ca- bedaes nas mãos de alguns Sacerdotes mais que defua perdição; porque como não tem as obrigações dos ho- mens cafados , nem os encargos de outros eftados, fó lhes fervem de os empregarem em vicios ; e fe não, vede o que diz S. Cyrillo, que os cabedaes dão paílo à luxuria, à cobiça, e a outros muitos vicios, osquaes não fomentarião os que não fofíem ricos , porque lhes faltaria a lenha para accender, econfervar tanto fogo» e viítes nefía Igreja. ' Sabei , fenhor , lhe diíTe eu , que depois de ter fei- to oração, fubindo pela Igreja, entrei na Capella -mor, e vi abaixo dos pés da Imagem deChrifco Senhor nof» fo o Soneto feguinte. 1 SO- Do Peregrino da America. 371 . - SO NETO, OV ACTO \ ♦ Aquel- Do Peregrino 0A America. 375 Aquella eílante , ou efcada , o primeiro degráo reprefenta todos aquelies, que vivem neíte mundo, e são nelle viandantes , os quaes depois de confeíTados tem propoíito de não peccar mortalmente ; porém , não reparando em commetter culpas veniaes , e buf- cando commodidades da vida , vem a cahir em gran- des peccados , e por iíTo eftio tão perto do Inferno, ecahirão nelle, fenão tiverem grande cuidado em ú r valendo-fe da infinita mifericordia de Deos* No fegundo degráo , ou eílante eftão os que an- dão com o cuidado de ouvir as infpirações de Deos , e não feguerh £ vaidade do mundo , fugindo de todas as occafiões de peccado grave , e acodem a todas as coufas de devoção ; porém deixando-fe levar de algu* I mas paixões , e aílim não tem fervor para grandes obras de virtudes, e vem a cahir em muitas froxidóes de efpirito. Em o terceiro degráo , ou lugar efíão aquelies^ que tem vivido mui perfeitamente , caítigando a fua carne , fugindo do mundo , e fazendo grandes peni*- tèncias , os quaes exercicios os ajudão à virtude; po- rém fazendo tudo iílo com temor das penas do Infer- no , e Purgatório , devendo fér por puro amor de Deos , com re&a intenção de o fervir , pelos innumeraveis benefícios , que de fua Divina mão tem recebido. Em o quarto lugar eftão os que não fó fazem pe- nitencias , e outrosexercicios corporaes , fenão tam- bém fe occupão em oração mental; porém ainda lhes falta o negarem- fe a íi mefmos , porque em lhes paf- ■tendo aquelleado de devoção , com qualquer adver* íidade defmaião; e como tem pouca paciência, e hu- mildade , e tem dentro de fi efcondido o amor pró- prio , fera o conhecerem , fe vão atrás de feu gòílo> cu paixão, fem acharem razão, com que fe defendão, fe precipitão algumas vezes na culpa. Aa iv Em Mp 37 '6: Compendio Narrativo Em o quinto degráo eítão aquelíes , que em to- das fuás obras , ou exercícios renunciao fuás próprias vontades , por fazerem a de Deos , e obedecem não fô a feus íuperiores , fenão também a qualquer outro homem , que vem que os aconfelha com jreéta inten- ção do amor de Deos : abração as infpirações Divi- nas : procurão pureza de coração com muitas obras, e vontades de agradar a Deos; porém às vezes fucce- de-lhes esfriarem, e defmaiarem em feus bons propo- íitos, por não terem paciência. Em o fexto lugar eítão todos, aquelíes, que fe refignão na vontade de Deos perfeitamente , e deixan*- do a fuá própria vontade , perfeverão com conítanciã em feus bons propoíitos , bufcando com re&a inten- ção a gloria , e honra de Deos , e aííim achão a graça do Efpirito Santo, que os favorece atè o fim. "'"'"'-• Em o fetimo degráo eítão todos aquelíes , que com grande proveito fabem prezar os bens da graça, aceitando tanto o bem , como o mal , quando vem , por entenderem que nada fe move íem ler vontade de Deos , difpoítos para fegiúrèm a fua fanta vontade,, afíim em coufas exteriores , como interiores , imitan- do, quanto podem, a SantiífimaVida deChriíto noíTo Redemptor , com a qual não fó fazem grandes coufas, rrias também foffrem muito , e por iífo os enriquece Deós com muitos favores. Em o oitavo lugar eítão aquelíes , que todas as fuás acções são dirigidas a Deos , e fe refignão pura* mente na fua fanta vontade. Eítes fuccede-lhes ferem vifitados de Deos noíTo Senhor com mais favores , e revelações ; porem occultamente , fem fe defvanece- rem de vaidofas prefumpções , e niíto excluem todo o amor próprio, porque conhecem que neítesdons, e favores não eílá a perfeição, porém fim depois de reco- nhecerem a fua vileza 3 vem no alto conhecimento da gran- Do Peregrino da America. 377 grande piedade , e mifericordia de Deos , que os fa- vorece \ e affim. vivem em huma alegria efpiritual, foffrendo os trabalhos , como da mão de Deos , com as efperanças dos bens da Gloria. Emonono, e ultimo degráo eítão aquelles, que com fervorofos exercicios de virtude , e ardentes de- fejos de verdadeiro temor , e amor de Deos tem jà confumido o amor da carne, e fangue, ficando como hum efpirito puro , e livres de toda a íua vontade, porque jà não vivera , fenão em Deos , porque também Deos neHes vive : e eítes são os mais amados filhos de Deos \ emes quaes derrama feus Divinos favores, > e; os leva a feu foberanp conhecimento , para q^emais o amem. Porém eítes quando mais favorecidos , e ar jnados de Deos fe vem , então mais humildes fe fa- zem na prefença dos homens , porque fabem que mais vale a humildade , e a obediência , do que a mefma oração, eabítinencia. - f '. . . ■ ■".'■. ' Olha agora , ò Peregrino , Qual deites he o teu lugar § Se cuidas que o nono he , No primeiro te acharás. Satisfeito fiquei deter ouvido a explicação, que tão individualmente me fez o Sacriítão do quadro; porém não deixei de reparar no conceito do verfo, ou mote , que parece que melhor fe não podia expli- car o Poeta comigo ; e logo fiz eíte difeurfo : Iíto são prodigios, ou infpi rações, que me quer Deos moítrar, para que eu me faiba aproveitar, e emendar da minha errada vida, si . ■• ... . - \ .. . CA- laóaCT . ^ ( ;íj &HIÍ& .. ':|i í ! 1 3 7$ Compendio Narrativo CAPITULO XXVI, ^Da relação , que da o Teregrino da conver facão ', que teve o Pãjlrano com os que eftavão no al- pendre da Igreja acerca do que lhe fucce- dco na Cidade da Bahia. He matéria de muita mor alidade. • ■■ ■ . T\ Efpedindo-me do Sacriftão , me tornei para- o JqM alpendre, onde achei alguns homens aífeatâdos , que efperavão pela MiíTa , por fer dia Santo ; é entre elles vi hum Capitão, o qual noque reprefentavame pareceo ter mais de fincoenta annos deidade. Sau- dei a todos, e aíTentei- me. - A eíte tempo vinha chegando hum-homera f vef- tido à Portugueza; e aí!im como entrou no alpendre, nos levantámos todos, e o Capitão fe antieipou a lhe ir dar agua benta , que. eile mui cortezmente acei- tou^ e depois de ter feito oração , veiopara o alpen- dre , e f e aíTêntou entre os que ahi nos achávamos. Rompeo então neílas palavras o Capitão. Com grande fundamento diíTe Ariíloteles , Se- nhor João Paílrano , que a diílancia em quem ama a- parta o exercicio , mas não o amor: faz divorcio com a-viíta , mas não com a vontade : impede a familiari- dade, mas não o querer; porque também là diíTe hum difcreto Thebano , que o amor da amizade he huma fomeinfenfivel da falta do tempo, em que fe não vê a coufa amada ; e por iíTo com muita propriedade fe compara o amor com o fogo , que he o primeiro dos quatro elementos , aílim como o amor he a primeira das quatro paixões , fegundo o que diz Salomão nos Provérbios; Como o grande fogo fe não pode efcon- dex no feio , da mefou forte o amor vehemente não pó- n^ Do Peregrino da America» 379 pode fer efcondido. Finalmente todos os officios , e todas as fciencias deíla vida fe podem aprender , ex- cepto o officio, ou arte de amar , a qual nem aquelle aíiombro da fabedoria Salomão a foube definir , neni pintar Apelles , nem eníinar Ovídio, nem contar He- lenor, nem cantar Qrfeo, nem ainda dizer Cleópatra* porque he fexn duvida que fó o coração o fabe fentir, e a pura di feri ção declarar. Trouxe todos eíles exem- plos , fenhor João Paílrano , para vos íignificar o quan- to fentia a voíTa aufencia , que vos poílb affirmar que jà me fazieis mui grandes faudades , pelo longo tem- po, que vos não vejo. Não fem muita razão fe diz , fenhor Capitão 9 difTe o Paílrano , que o primor , e as dadivas são gri- lhões , e cadeas , que cativão , e prendem. Iílo poííò eu agora dizer pelo grande favor, e honra , que me fazeis , ficando por iíTo tão obrigado à voíTa certeza- nia , que ainda eonfeíTando a obrigação , não fatisfa- ço o muito , que vos devo ; mas fe he certo que todo o coração generofo preza muito mais a boa vontade 9 que fe lhe oíFerece , do que as prendas de maior va- lor , fabei que efla em mim he tão grande , que fica- rão valendo pouco todos os haveres do mundo , pelo que vos defejo tributar, e com mui duplicada vonta- de, pois reconheço em voííb generofo animo o quan- to vos conformais com os diclames da razão , e pre- ceitos da Lei Divina. Como vivo no cabal conhecimento de que nada tendes de lifongeiro , mas antes fim muito de verda- deiro , aceito o ccrdeal affe&ò-, com que me tratais *> diíTe o Capitão ao Paftrano ; porém o que^ pertenda faber de vós , he que me digais o como paííaítes de faudeye de negocio na Cidade da Bahia. Bem de faude , graças^a Deos , refpondeo o Paí^ trano. E no que refpeita ao negocio, concedei- me- licen- 380 Compendio Narrativo licença , fenhor Capitão , para fallar ao noílb Reve- rendo 4 Padre Capellão , que vem chegando , e depois fatisfarei ao que me mandais. A efte tempo chegou o Padre Capellão, e oPaf- trano fe antecipou a recebello com alguns paíTbs fora do alpendre , onde fe tratarão com mui grande pri- mor , e fatisfação ; e depois de entrar para dentro do alpendre o Capellão , a todos faudou com muita afa- bilidade ; e logo fallando o Capitão ao Padre Capel- lão , lhe diíle : Não podia chegar voíTa mercê em me- lhor tempo , por eítar o fenhor Paítrarto para nos dar noticias do que lhe fuccedeo na Cidade da Bahia ,'e fupponho que folgará 'voíTa mercê também de o ou- vir. Sim por certo, diííe o Capellão, e jà me aíTento ; porque como ainda he cedo , tenho tempo atè às oit- ze horas para poder dizer MiíTa. Suppoíto , fenhores , diííe o Paftrano , que para fatisfazer o agradável goíto , que reconheço em vof- fas vontades de me ouvir , me coníidero mui falto de fciencia , para poder feguir com acerto a narração de minha hiítoria , com tudo , fiado na difcreta prudên- cia de voíTas honradas peííbas , me atreverei a profe- guir o que me ordenais que conte. E para iíTÒ me valerei do conftlho de Ariítote- les , quando diíTe que a prática não deve fer tão bre- ve, que mal fe polia explicar oaíTumpto, nem tão di- latada, que moleíle aos ouvintes; porque a primeira, pelo coarctado , ficará efcura ; e a fegunda , pelo dif- fufo , incapaz de fe lembrar. Também receio que no fio deita hiíloria diga al- guma verdade , que por mal veílida vá tão nua , e crua , que não feja bem recebida ; e mais ainda em tempos, que todos folgao tanto de andar enfeitados , que atè os calvos fe cobrem de cabellos poítiços ; fendo que li eu, que emalgum tempo feprezavão muito para os luga- ~ Do Peregrino da America, 381 lugares dos Senadores, e cargos da Republica. Alèín de que diflb devião elles tirar muitos documentos pa- ra os acertos da vida , pela reprefentação , em que os põem os annos na femelhança de huma caveira , em que todos nos havemos de tornar depois de mortos. Porque parece que permitte Deos, que em tudo nos eíteja enílnando o tempo com vários avifos, e ad- vertências. A huns faltando-lhes aviíla, eporiílb va- lendo-fe de óculos , para que vejão a pouca duração da vida na reprefentação de hum vidro, alem da pen- são de trazerem os olhos nas mãos , que os podem perder , ou quebrar. A outros cahindo-lhes os âert* tes, fymbolo das forças corporaes, para que fe emen- dem, e não fe fiem dasforças do corpo, evenção feus appetites , e deixem o efpirito dominar a carne. Jà retalhando-lhes a outros a cara com rugas , e frangi- mentos , porque fe não defvaneção com a gentileza, e formofura j e a muitos fazendo-fe-lhes brancos os cabellos , como neve , porque conheçáo que jà eítão no inverno da velhice, e que fevão chegando às por- tas da morte , para que fe tirem das janellas da vida , em que fe eftão divertindo com tantas vaidades , de* vendo fó tratar do bem do efpirito. Quafi me vai doendo jà o cabelío , diíTe o Capi- tão. Supponho , fenhor Capitão , lhe diíTe o Paílranoy que não ferão os da cabeça ; porque como vos vejo com eabelleira poftiça, e femette de permeio o teci* do da coifa, não receio que vos chegue à carne. Aín* ^da aíHm, diíTe o Capitão , homens ha tão levados dà prefumpção, que nem no fio da capa querem que lhes. toquem. Bem me receava eu , fenhores, diíTe o Paítrano?» e por eífa razão hia tomando os meus laivos condu- cios. Tão fora eítais , fenhor Paítrano , diíTe o Capi- tão ? do fentido , com que vos-falio , que para melhor "ít 381 Compendio Narrativo me explicar, vos hei de trazer aquelle proloquio por exemplo , que diz : Que muitos lanção huma verde, para colherem huma madura ; e como na arvore de voílb entendimento feachão tão bellos pomos da dif- erirão , fó por colher a doçura delles ufei do prefen- te gracejo. Podeis continuar a voíTa hiftoria , fenhor Paílra- no , diíTe o Capellão , que todos eíiamos com grande vontade de vos ouvir ; e fuppofto que o fenhor Capi- tão mettefle aquelle parentheíi, foi mais por galan- teio, que de picado. Sim por certo , diíTe o Capitão, que do fenhor Paílrano- nunca me poderei offender 9 porque alem de fer mui honrativo èm fuás palavras para com todos , tenho delle recebido mui particula- res afíeclos de primor. A tão fonora melodia , diíTe o Paítrano , refpon- dão por mim os Anjos aporem havemos de aíTentar em hum partido , meus fenhores : e vem a fer , que fe al- gum fe vir magoado nefta minha narração r conheça que não he o meu intento moleíhllo ; porque todo o meu deíignio he converíar moralizando , e não mur- murar fatyrizando. Affim o promettemos obfervar f diíTerão todos. Pois direi , diífe o Paítrano. Parti deite fitio j e chegando à Cidade da Bahia , faltei em terra; e depois de ter paífado varias ruas, e ver muitas cafas abertas , não achei quem me oíFere- ceífe agazalho , e alli me confiderei qual outro Pere- grino fó em Jerufalem ; e tomando por huma rua me- nos frequentada de gente, vi dentro de huma cafa ef- tar hum homem aflentado em huma cadeira , lendo por hum livro : faudei-o , correfpondeo-me cortez- mente : pedi-lhe me fizeíTe favor mandar vir hum pú- caro de agua , diíTe-me que entraíTe , e deo-me aíTen- to ; e vendo huma mulher aífentada em hum eítrado, cozendo em huma almofada , a faudei , a qual com mui — «r Do Peregrino da America. |f| mui.bello termo, e honeíto recato me correfppndeo ;. e chamando logo por huma efcrava , por nome Dili^ gencia , lhe mandou que me trouxeííe agua. E depois que faciei a fede ,. e lhes dei os agradecimentos , me perguntou o dono da cafa , onde era eu morador , e a que negocio tinha vindo à. Cidade. Sabei, fenhor, lhe refpondi eu, que fou aíHílente ao Certão : tive huma carta de hum meu parente dó Reino de Portugal eíla frota , na qual me faz avifc* que são falecidos meus pais, e me deixarão de legiti- mas^ quatro mil cruzados j e porque para boa arreca- dação delles me pede lheremetta huma procuração, e que vá eíTa paífada por índia, e Mina , venho agora tomar parecer com hum Letrado como poderei efcu- far eíle inconveniente de mandar à índia , e à Mina tanto peia diítancia dos lugares , como por não ter pelToas de conhecimento naquellas partes. Tudo fe poderá fazer , e negociar atè à manhã àsr nove horas do dia , me diíTe o dono da caía. Pague- vos Deos , lhe diíTe eu, a boa nova, que me dais, e o favor , que me fazeis. E pegando o dono da cafa em papel , e penna , me perguntou o como me chamava, e os nomes das peífoas , que havião de fer meus pro- curadores. E depois de lho eu dizer , fez elle huma breve efcrita , e chamou por hum efcravo , por nome Promptidão, e com o efcrito o mandou a cafa de hum Tabelião , para que lhe fizeíTe aquella procuração , e que eítiveíTe feita no dia feguinte atè às oito horas. E vendo-me eu tão obrigado a favor tão gratuito,' lhe diíTe: Perdoai-me, fenhor, fe parecer atrevido em tomar eíla confiança , que para melhor me poder re- conhecer por criado deAa cafa, tomara que me diíTef- feis o como vos chamais , e eíla fenhora. Sabei , fe- nhor , me diíTe o dono da cafa , que eu me chamo a Defengano, e minha irmã Dona Verdade. 384 Compendio Narrativo Graças a Deos, IhediíTeeu, que jà cheguei a ver- me na cafa do Defengano, e na fala da Verdade. Ce- lebrarão elles muito o meu dizer. E como era jà noi- te , mandou o Defengano que vieíTe a cea , a qual fe tinha feitoxom diligencia, e promptidão, por ordem da Verdade. E depois me derão agazalho com mui boa cama , onde pafTei a noite. A repetidos ecos de eftrondofos tambores, e fo- noros clarins defpertei , porque vinha amanhecendo o dia 9 e por ifíb com tão alegres falvas de contenta- mento fe lhe rompia alvorada. Levantei-me ; e achan- do jà de pé o Defengano, mui cortezmente o faudeij e não tardou muito Dona Verdade , que fem rebuços, nem ceremonias a ambos nos deo os alegres dias. E em quanto fe preparou o almoço , que promptamente chegou , fe veílio o Defengano ; e depois de almoçar- mos , pedindo eu licença a Dona Verdade , fahimos para a rua. Caminhámos logo para huma Igreja , onde ouvi- mos MiíTa ; e depois fahindo delia , a poucos paííbs encontrámos com dous horrendos , e efpantofos vul- tos negros , veítidos de preto , que me caufárão pa- vor, porque vinhão com gorras mettidas nas cabeças, e caudas a raflo ; e reparei que ambos vinhão defcal- cos , fem dúvida , porque delles fe não difleíTe, que erão> demónios com botas. Perguntei ao Defengano , que vultos erão aquelles, que mais me pareci ão fantafmas , que corpos vivos? Refpondeo-me , que erão dous efcravos de hum ho- mem rico , que tinha falecido , os quaes lhe andavão folicitando o enterro. Bem fe poderá também cui- dar , íenhor , lhe diffe eu , que affim como naquellas formas lhe andão os efcravos no Mundo tratando do corpo, eílejão os demónios no Inferno atanazando-lhe a alma. Não qusro qus valha eíle meu dizer , como Do Peregrino da America. 385- fentença definitiva , porém póde-fe entender como razão difcurfiva. E quanto melhor fora que todo a- quelie fuperfluo gaito fe mandaíTe dizer em MiíTas, ou dallo aos pobres pelo amor de Deos pela alma do defunto ; porque verdadeiramente femelhantes trajes mais causão horror , e efpanto , do que piedade , ou edificação a quem os vê. Fallais com muito acerto , fenhor , me diíTe o Dq{~ engano; porem haveis de faber que procede i-ffo pela maior parte de que aíiim como vivem os ricos no mundo com loucas prefumpçoes, atè na hora da mor- te querem moílrar as fuás vaidades. Ifto não he dizer eme fe deixe de dar fepultura aos mortos , fegundo o que manda a Igreja , e-fe ufa nas terras , onde forao mo- radores , porque aíiim o aconfelha o Efpirito Santo : Secundumjudktum contege corpus Mins > (Eccl. 38. 16.) Quer dizer, que enterremos os mortos ao ufo dos íieis, em cada terra coítume, para que não haja no en- terramento coufa , que fe note , ou efeandalize. Porém dera eu de parecer , (fe mo pedilTem) que nos oceu- pernos mais em multiplicar furTragios, que em exceder nas demaziadas pompas dos enterramentos, por fenão vir a perder tudo por vaidade , e que deixemos eíTes iblenes enterramentos para os Príncipes , que fe lhes devem fazer por razão de eítado. Dalli a poucos paíTos vimos entrar hum homem porhuma ca fa dentro , e fahir logo benzendo-fe , e fazendo grandes efpantos. Perguntei ao. Defengano, que homem era aquelle? Refpondeo-me, que era hum Doutor em Medicina , a quem chamavão Medico ; e que fem dúvida fora vifitar ao enfermo , a quem ailif- tia; e como oachaííe morto, hia fazendo aquellas vi- fagens f para que cuide o povo que não pode morrer o enfermo fem licença do Medico. Pois, fenhor, lhe diíTe eu, que feiencia he efla, que não conheceo eíTe Bb Me- ™ -. 3§6 Compendio Narrativo Medico agraveza da enfermidade pelos pulfos, emais fymptomas do achaque, para lhe applicar o remédio, ou defenganar ao doente que morria? Porque dos ho- mens he o errar , me diííe o Defengano ; que fe elle conheceíTe a doença , e lhe applicaíTe os remédios convenientes , talvez que não morreíTe o enfermo; porque diz o Caítelhano : La enfermedad conocida , fanada eítá. Além de que também as enfermidades to- mão vários termos , jà por fe complicarem os humo- res , jà pelas influencias dos Planetas , que dominao nos corpos fublunares. E muitas vezes fuccede appli- car o Medico hum remédio mui prefentaneo a hum enfermo , fegundo a arte , e regra da Medicina , para a faude, o qual vem a fer hum refinado veneno para a morte ou pela debilidade dos corpos , ou também pe- lo muito enchimento , e carga dos humores. DeíTa forte , fenhor , lhe diíTe eu , aílentemos por máxima certa, e infallivel que fóDeos he o verdadei- ro Medico. Ninguém o pode duvidar , me refpondeo o Defengano ; porque os Médicos o mais, que podem fazer, he applicar os remédios ; porém Deos he o que dá a faude. Por iíTo là dizia aquelie celebre Medico Caítelhano , quando o chamavao para ir curar algum enfermo : Si nó es llamamiento de Dios , yo 4e tengo de dar falud. E depois de termos andado breve efpaço , vi na mefma rua huma Ermida , ou Capella mui pintada, e armada, com muitos vidros , e vafos , e com huma a- lampada acceza diante de hum nicho, e com aíTentos por huma, e outra parte, onde eftavão alguns homens aíTentados. Perguntei ao Defengano , que Capella era aquella ? Eífcá cafa , que vedes , fenhor , me diíTe o Defengano , he huma botica , que ferve de guardar medicamentos para os vender aos enfermos ; e todos aquelles vafos, que alli eítão > e o mais, que nella fe vê, Do Peregrino da America. 387 vê , lhe perguntei eu , fervem para a faude dos doen- ® tes? Ametade da ametade he o que poderá fervir, me diíTe o Defengano ; porque os mais , além de ferem de outro clima, por velhos jà eílão corruptos. Pois feiíToaíIim he, fenhor, lhediffeeu, melho- res remédios , e medicamentos temos nós no Brazil , por novos , e por iííb mais vigorofos , e benévolos, por ferem do mefmo clima , onde por razão natural melhor devem obrar nos corpos , que delles neceífi- tão. Não tenho , fenhor, a menor duvida neffe parti- cular , me diíTe o Defengano ; porque tenho ouvido dizer que na America ha tantas virtudes nas plantas, óleos, aguas, e pedras, como fe podem achar nas mais partes do mundo, o ponto eílá em haver quem as co- nheça para o miniíterio da faude. A eíte tempo chegámos à cafa do Tabelião , a quem o Defengano no dia antecedente tinha manda- do fazer a procuração ; e entrando dentro do efcrito- rio , o achámos com muitos homens , que todos eíta- vão tratando de fuás caufas. Tirei eu por dinheiro, e o lancei em fima do bofete , em que eílava o Tabe- lião efcrevendo , o qual affim como ouvio tinir as moedas , largou a efcrita, em que eítava occupado, e pegou em hum livro , que lhe chamou de notas ( fem a qual não ficou o Tabelião pelo arrebatado modo, com que deixou as mais partes, poracudir ao dinhei- ro, ) e mediíTe que meaffignaffe naquelle livro, o que eu promptamente fiz : e logo me entregou o traslado da procuração. E affim como nos vimos fervidos , delle jios defpedimos , e dos mais , que no efcritorio eítavão ; e o Tabelião nos troxe atè à porta com grande cortejo, e primor. Com muita razão fediz, fenhor, diíTeeti ao Def- engano , que mui grande Cavalheiro he o Senhor D. Dinheiro ; e fupponho deve fer por andar veílido de Bb ii ar- 388 Compf.ndio Narrativo ° armas brancas. Não duvido que aflím feja , me diíTe o Defengano, para com aquelles , que lhe vivem tribu- tários a feu domínio. E logo dalli defpedio o Defen- gano ao efcravo Promptidão, para que foíle reconhe- cer a procuração a cafa de outro Efcrivão, e allinar o reconhecimento pelo Juiz das Juftiíicaçoes. E continuando nós ospaíTos, fomos atè à praça, onde nos aíTentámos junto da Cafa da Moeda ; e dalli me moftrou o Defengano o Palácio dos Governado- res , a Gafa da Relação , e a cadea , em que eílão os prezos. Vi 2ndar pafíeando huns homens pela praça, veílidos à eortezã ; e perguntei ao Defengano , que homens erão aquelles , que alli andavão palTeando? São Mercadores, merefpondeo o Defengano, quean- dão vendo o como poderão tirar os cabedaes huns aos outros com feus tractos, e diílractos, e porque alguns querem carregar mais , do que fuás forças podem, -vem a quebrar nos cabedaes. E como fe fabe , per- guntei eu ao Defengano , quando quebrão , ou eílão para quebrar? Pela maior parte, merefpondeo o Def- engano, he quando compraoícaro , e vendem barato, ou também quando largão as fuás cafas , e vão bufcar as Religiões , para nellas afiiílirem , fem ferem Reli- giofos , nem fazerem penitencia de feus peccados. A eíle tempo vi paliar huns homens com humas varas nas mãos , andando mui apreíTadamente. Per- guntei ao Defengano, que homens erão aquelles? Ref- pondeo-me , que erão Meirinhos , os quaes deviao ir fazer alguma diligencia por parte dajuítiça, e poriílb hião com tanta preífa. Sem dúvida eíles devem fer os homens , diííe eu ao Deíengano, de quem li em hum livro intitulado: Tempo de agora , compoílo ha mais de oitenta annos, no qual diz o Author , que vira na Cidade de Lisboa , eílando em certa rua , vt ílir a hum ojublo antes dacamiza. Não feria íemcaufa> meref- poa- Do Peregrino da America. 389 pondeo o Defengano ; porque a juítiça caíliga , para emendar dos errosr. Dalli a breve inítante vi andar a correr huns ho- mens com papeis nas mãos, e outros debaixo dosbra*- ços. Perguntei ao Defengano que homens erão aquel- les , que tão apre/fadamente corrião , cheios de pa- peis ? Refpondeo-me que erão folicitadores , e re- querentes , os quaes andavão enganando , e enganan- do-fe. Como aíiim , fenhor ? lhe perguntei eu. En- ganando as partes, que os occupão emfeus negócios, me refpondeo o Defengano , porque raras vezes lhes fallão verdade : enganando-fe , porque fe mettem no Inferno , pelo que muitos obrão naquella occupaçao contra juítiça, e razão, fazendo diíTo pouco cafo. Vi também huns homens, e atrás delles hunsef- cravos com facos às coitas , e tinteiros , e pennas nas mãos. Perguntei ao Defengano que homens erão a- quelles , e para onde hião ? Refpondeo-me que erão Efcrivães , e Tabeliões , e que hião para a audiência. E quaes daquelles officios, lhe perguntei eu, são me- lhores, e mais rendofos? Refpondeo-me que não ha- via oííicio bom para homem ruim , nem officio ruim para homem bom : que todos os officios da vão de co- mer a quem os fervia , e de veílir a quem os trabalha- va ; e fó enriquecião a quem furtava ; e que por iíTo fe dizia por ironia : Pobre do filho que feu pai não foi ao Inferno. Ifto he , pelo que neíte mundo furtou para o deixar rico. Ainda não tinha o Defengano acabado de dizer a ultima palavra, quando vi entrar namefma cafa da au- diência huns homens , e atras delles huns moleques com papeis. Perguntei ao Defengano que homens erão aquelles , que também encaminhavão os paífos para a audiência ? DiíTe-me o Defengano que erão Doutores em leis , os quaes aconfelhavão as partes, Bb iii pa- 390 Compendio Narrativo para porem pleitos , e demandas ; e que também fa- zião petições , artigos nos feitos , razões a final, e tu- do o mais nas caufas , por ferem homens graduados, e profeífores na faculdade de Juriítas. Mui entendidos devem fer eífes homens , pois aconfelhão aos mais , diíTe eu ao Defengano. Alguns ha também ignorantes , me refpondeo o Defengano; porque là conta Belchior de Santa Cruz Duenas na íua Floreíta Hefpanhola , que eílando certo Letrado huma noite no feu efcritorio lendo o livro Secretos de la naturaleza , achou que efcrevêra o Author , que to- do o homem de barba larga era tolo : pegou em huma vela acceza , e vendo-fe a hum efpeího , tanto che- gou aíi avela, que lhe pegou o fogo nas barbas; e de- pois de as apagar com muita preíTa, tomou o livro, e lhe efcreveo à margem eílas palavras: Trobatum ejl. Sobre fer ignorante , não deixou de fer pouco acau- telado eífe Letrado , diíTe eu ao Defengano ; porque vendo o fogo tão perto das barbas , não prevenio o perigo. Porém tomara quemediíTeíTeis qual das ícien- cias he mais nobre , fe a dos Legiítas , fe a dos Médicos ? Refponderei, me diíTe o Defengano, com o que li no livro de Fr. Amador Arraes, Dialog. 8. foi. 120. Efcreve eíte Author , que perguntando-fe huma vez em hum eíhido de Grécia , quem havia de preceder, fe os Legiítas , fe os Médicos , foi concluido que de- vião ir diante os Advogados , porque quando fe faz alguma juítiça , o ladrão vai diante , e o algoz atras. Muito mal os deíinio eífe Author por certo , diíTe eu ao Defengano. Eu fupponho , refpondeo o Defenga- no , que devia efcrever apaixonado ; porque fe não pôde negar , que qualquer delias fciencias he muito para prezada, e digna de eítimação. Eisque neíte tempo vi huns homens com humas haítias nas mãos , e em fima humas Cruzes de ferro com Do Peregrino da America. 391 com capacetes nas cabeças. Perguntei ao Defengano , que fignificavão aquelles homens tão armados ? Ref- pondeo- me , que erão Sargentos da Infantaria. E de que fervem eíles homens na milícia ? lhe perguntei eu. Refpondeo-me o Defengano : De comerem as praças dos foldados na paz , e na occafião da guerra, acautelarem- fe do perigo. E quando reítituem aos foldados o que lhes comem ? lhe perguntei eu. Quan^ do fuccede accrefcentarem-os nos poítos , me refpon- deo o Defengano, com lhes darem largas licenças, para não entrarem de guarda. Por iíTo , lhe difle eu, vejo tantos foldados neíTes certões , faltando a fuás obrigações dos prefidios das Praças. Vinha a eíte tempo paíTeando pela praça hum Clérigo de Ordens Menores, todo arregaçado, porém com huma grande corcova nas coitas , e defcuberto, com o barrete na mão , ao rigor do Sol. Perguntei eu ao Defengano, que caufa teria o Prelado, para dar Ordens àquelle eíludante , com hum defeito tão dif- forme ; fendo que tinha ouvido dizer que difpunha o Sagrado Concilio Tridentino que fe não ordenaíTem homens , que tiveíTem defeitos naturaes. Senhor, me refpondeo o Defengano, nada tem decarcunda aquel- le Clérigo; efuppoílo que o pareça pelo enchimento, que lhe vedes, he por razão de ajuntar parte da loba, e capa, para moílrar a velHa , calções, e meias de fe- da. E que caufa tem, perguntei eu outra vez ao Def- engano para vir defcuberto ao rigor do Sol ? Sabei, fenhor , me refpondeo o Defengano , que o motivo de vir affim defcuberto , he para que lhe vejão a co- roa^ faibão que jà tem Ordens. Pelo contrario o fa- zem os calvos, lhe diíTeeu, fegundo o que diz o Que- vedo , que antes querem que os tenhão por defcorte- zes , do que tirar os charcos , porque lhes não vejão as calvas. Bb iv Che- r* 1 39 i Compendio Narrativo Chegou aeíle tempo o efcravo Promptidão com a procuração reconhecida , e jà de todo corrente. E logo nos levantámos ; e indo paliando peia cadeia nos chamou hum prezo, e alli comlagrymas, e rogos, me pedio huma efmola. Perguntei-lhe quantos tem- pos havia, que eílava prezo, e porque caufa viera alli ? Sabei , fenhor , me refpondeo o prezo , que haverá dous annos , que eílou neíla enchovia ; é a caufa, por que eílou aqui , foi , porque fendo eu official de maicinei- ro , deixei o meu officio , por ir à Coita da Mina. Pa- ra apreílo da viagem , e fazer huma carregação , pedi duzentos mil reis a rifco ; e depois de ter feito hum bom negocio em efcravos , me roubarão huns piratas. Não obítante a minha perda, chegando a eíla Cidade, me executou o meu credor ; e como não tive com que lhe pagar, requereo ao Miniílro me mandaíTe pa- ra eíla prizão , onde eílou padecendo intoleráveis mi- ferias , alem do grande aperto. Porque me confidero huma cavilha de torno de ferralheiro , fem deílas grades me poder tirar. Eílou morando na mefma cafa do algoz , e junto de malfei- tores de mortes , e latrocinios , expoílo ao rigor do Carcereiro , que he peior que hum comitre de galé. A fome me confome, a fede me cega, os piolhos me mordem , a farna me abraza , o calor me aíTa , o frio me regella, o fedor me acompanha , o aperto me op- prime , a calma me abafa , a miferia me tyranniza ' y e íinalmente, meus fenhores , he iílo cà outro clima de mui diverfa região , e de mui infeílados ares. Com eílar dentro deíla mefma Cidade , me confidero em hum mar tempeíluofo embarcado , em huma tormen- ta desfeita. Comparo eíle lugar com o Inferno dos corpos vivos , que nelle vem a parar , pelos grandes tormentos 4 e apertos , que iielle padecemos. Por iíTo fe diz , dille o Defengano ao prezo , que o ho- ** Do Peregrino da America. 393 o homem , que em hum dia quer fer rico , no outro o enforcao. Que efperaveis que vos fuccedeííe à viíta de largares o certo pejo duvidofo , pois jà ouviríeis dizer : Quem tem officio , tem benefício. A quantos tem fuccedido por largarem o focego de fuás cafas, e a companhia de fuás mulheres, e filhos, pelos inte- reíTes dos cabedaes , virem a perder o credito , a hon- ra , a mefma vida, e talvez a própria alma (que he o que mais fe deve temer) pela demaziada ambição ? E fe não , vede. Todos eíTes cabedaes grangeados com tão grande defvelo , tanto que morre" hum deíTes am- biciofos , cà ficão nas mãos de outros intereíFeiros, fervindo-lheseííeouro, e prata, decorrentes para lhes prenderem as almas, e precipitallos no abyfmo do In- ferno. Fallais com mui larga experiência , fenhor , lhe refpondeo o prezo, e eu o tenho também experimen- tado em mim ; porque com efta minha prizão perdi cafa , e mulher , e de meus filhos me tenho apartado. Em quanto ufei do meu officio , tive com que paífar a vida , mas como me não quiz contentar com minha forte, vim a foíFrer por força a minha defgraça. Hora fenhor , diíTe eu ao queixofo prezo , peço- vosque vos conformeis muito com a vontade deDeosj porque jà ouviríeis dizer que nenhum fe vio prezo, que fe não vifíe folto ; e então ficareis com mais lar- gas experiências , para melhor vos faberes haver nos volTos negócios, e não obrareis nada fem maduro con- felho ; e efte vos peço que não feja de quem vós qui- zerdes , fenão de quem vos quizer. E fabei que mui- tas vezes permitte Deos que padeçamos femelhantes trabalhos , e molefíias para nofib bem ; porque là fe nos enfina nas Bemaventuranças que bemaventurados são os que hão fome , e fede de juftiça , porque elles ferão fartos. E fuppoíto que eíta fome, e fede de juf- ti- % 394 Compendio Narrativo tiça fe entenda efpirítualmente no que devemos obrar no ferviço de Deos, também fe pode tomar no fenti- do prefente , fe nos refignarmos com a fna fanta von- tade. E logo lhe dei huma efmola , de que ficou mui agradecido o prezo, e delle nos defpedimos. Depois de nos havermos apartado da cadeia, fo- mos andando por huma rua , onde vimos huma cafa de fobrado, que tinha humas facadas para fora, enel- las andar paííeando hum homem mui apreíTadamen- te, fazendo muitas vifagens, e batendo com a mão na teíla. Perguntei eu ao Defengano que homem era a* quelle , que tão apaixonado fe moítrava ; porque na verdade mais parecia hum louco furiofo , do que ho- mem , que eílava em feu juizo. Sabei , fenhor, me refpondeo o Defengano , que he humPoeta, que alli mora; e fem duvida deve eítar para fazer alguns verfos , ou glofar algum mote 3 e porque lhe não corre bem a mufa , por iíTo anda tão inquieto. Mui rendofo deve fer eíTe officio , lhe diífe eu , pois tanto lhe cuíía exercitallo. Sabei, fenhor, me diífe o Defengano , que não deixa de fer huma arte de grande trabalho , e quebradeiro de cabeça ; e com tudo iííb fuccede pela maior parte vir a não render nada a quem nella fe occupa ; mas antes acon- tece grangear muitos inimigos , fe dá o Poeta em fer maldizente , e fatyrizante nos verfos , que faz , além de fe expor às notas do vulgo ; porque os ignorantes os motejão , os criticos os reprovão , os políticos os vituperão ; e fó os difcretos os louvão , por faberem que là diíTerão os Sábios antigos que os Poetas falla- vão ao Divino , por fer huma arte , que neceíílta de muito entendimento , e grandes partes , para fe obrar bem. E de que partes neceíílta hum homem, perguntei eu a o Defengano, para fer bom Poeta? Primeiramen- te ^1 Do Peregrino da America. 39^ te , me refpondeò , he neceíTario fer mui lido em to- da a lição das letras Divinas , e humanas : conhecer todos os Signos, e Planetas celeítes: faber as fabulas dos antigos, e fuás origens. Epara fer univerfal, de- ve entender todas as fciencias, artes, e officios; e de- pois diílb eíhr mui prefente nas regras , e preceitos da arte Poética, para faber de quantos pés fe compõe o verío , que pértende fazer , e de quantas fyllabas, e ver fe acabao em agudos , ou quebrados , fugindo dos longos , e curtos. Deve também accommodar, e enxenr ao intento as fabulas , equívocos , e pancadas, no íentido, de que trata. E finalmente , he hum pro- ceílo infinito dizer o de que carece hum Poeta , para fazer bem verfos. DeíTa forte, fenhor, IhediíTe eu, me parece que ha miíter hum homem deíTes huma cabeça maior que o corpo , para accommodar , e recolher tanta fabrica Poética. Não vos pareça , fenhor , me diíTe o Defen- gano , que neceíTita de pouca capacidade de entendi- mento, e juízo; e com ifto fer affim , muita gente os tem por loucos. E de que procederá iíTo , fenhor? perguntei eu ao Defetigano. De verem , me refpon- deò elle , que fe occupão os Poetas com tanto traba- lho, e defvelo, em coufa, que tão pouco lhes rende, e aproveita ; e como fó tratao de fazer verfos , não procurao do que neceíTitao , para fe poderem reme- diar. b daqui procede pela maior parte ferem pobres. por aefprezarem as riquezas, que os mais homens (e talvez de menos entendimento ) tanto prezão. Ja a efte tempo eílavamos defronte da cafa do Poeta, a quem faudamos , e elle nos correfpondeo eom mui grande primor, e cortezia. E logo diíTe o Poeta ao Defengano : Sabei , fenhor, que aqureftou de pela manha ate aeítashoras, fem poder glofarhum mote , que íe me pedio glofaíTe : tenho efcrito duas fo» 1 . . 1 3ç>á Compendio Narrativo folhas de papel , e ambas rifquei , fem poder acabar a gloíTa. Poder- fe-ha , fenhor , repetir o mote ? lhe pergun- tou o Defengano. Sim por certo , lhe diííe o Poeta. MOTE. Que he o melhor Poeta. Eu o glofára aílim , lhe diíTe o Defengano. GLOSA. A penna , que mais difcreta Ao Divino defcrever, Deíte fe pôde dizer, Que he o melhor Poeta. Agora venho eu a entender, fenhor Defengano, lhe diíTe o Poeta , que melhores são os voíTos repen- tes de caminho , do que os meus vagares de penfado. E defpedindo-nos do Poeta, entrámos em huma rua menos frequentada de gente , quando vimos vir paífeando hum galhardo mancebo , cuítofamente vef- tido de grã vermelha , guarnecido de luzentes galões de prata , com huma branca cabelleira toda polvilha- da , chapeo pardo na cabeça , no qual trazia hum rico cairel de ouro com brancas plumas , e no pefcoço liuma garavata rendada com hum baítão na mão. A- companhavão-no muitas mulatas , e criolas bem vef- tidas, e atras deita comitiva o feguião dous pagens, e huma cadeira de andas cuftofamente ornada de luzen- tes vidraças cryftallinas , e reparando , notei que tra- zia por calções huma faia veítida ,- porém à moda Eranceza : e logo perguntei ao Defengano , que indi- viduo *% Do Peregrino da America. 397 viduo quimérico , ou fantafmatico era aquelle , que eu não fabia diííinguir? E feera alguma machafemia, a quem cha mão Hermafroditas. Bem conheço, fenhor, me refpondeo o Defenga- no , que he o voíTo reparo fundado em muita razão ; porem fabei que o que tendes viíto, he huma mulher caiada , a qual por lhe fazer a vontade o marido, fen- do Portugueza , a traz vertida à Franceza , com todo aquelle apparato, ou para melhor dizer, defalinho. Quem tal cuidara , diíTe eu ao Defengano , que chegaíTemos a ver nas Matronas Portuguezas íeme- lhantes modas no veítir! Aquellas , que de todas as, mais nações do mundo forao veneradas , e invejadas, tanto pelas fuás inexplicáveis virtudes , como pela modeítia, com que feornavão, quando fahião fora de fuás cafas. E baila que chegou a dizer huma grande perfonagemEílrangeira, eftando em Lisboa, que mais receava converfar com huma Matrona Portugueza, do que tratar com os Cavalheiros Lufitanos ; porque eítes erão em extremo mui Cortezãos , e Palacianos; e aquellas mui feveras, recatadas, e no veítir mui ho- neílas. Fallais com muito acerto , fenhor Paflrano, me diffe o Defengano ; porém mais para fe eítranhar , e notar , he ver o como fe tratão neíte tempo alguns Portuguezes ; que mais parecem reprefentantes figu- ras de Comedias , pela variedade das modas , de que usao , do que esforçados Soldados, ou Cortezãos Lu- íitanos j fendo que foi huma Nação , que fez temer Roma , aílbmbrar Caílella , palmar França , admirar Inglaterra, fugir Hollanda, caíligar o Othomano, íu- jeitaralndia, cativar aEthiopia, dominar a America: finalmente aquelle pafmo do esforço, queconquiftou, dominou, rendeo, evenceo todas as quatro partes da mundo com poder > faber, deftreza, e valentia , como ©pn~ ! : ■'! 398 Compendio Narrativo o publicão eíTes Annaes da fama por todo o Orbe? E poriflb parece, que deinvejofas asDalilasdas mais nações, fe conjurarão contra os esforçados Sam- soes Portuguezes para os deílruirem , atè que lhes fi- zerão cortar os cabellos , tirando-lhes as forças ; met- tendo-lhes coifas nas cabeças, que são as cabelleiras, untadas de óleos amanfativos , e polvilhadas com pós de cegueira, para que não vejão o como os enganão, e amansão , tirando-lhes as fortes efpadas , e metten- do-lhes rocas nas cintas , iíto he , os cotos , e efpadins, de que usão agora os cegos, e melindrofos Portuguezes* He iíto tão certo , que vos digo, que ha homens, que por não defmancharem os crefpos topetes das ca- belleiras, antes fe deixarão abrazar do Sol, e molhar da chuva , do que porem os chapeos nas cabeças. E outros vi eu, que por lhes não cahirem os pós das ca- belleiras, não abaixarão as cabeças, ainda que lhes fa- cão grandes cortezias. E fendo que fabem todos que manda algreja , que todos os annos fe nosponhão pós de cinza nas cabeças , para que tenhamos lembrança da morte , e para que vejamos que em pó nos have- mos de tornar ; agora eítou vendo , que os lanção os homens para fe efquecerem da morte. E o peior he, que ainda muitos velhos, devendo com mais razão ter prefente eíta lembrança , pelo contrario oeílão fazen- do , por fe efquecerem do que devião fempre cuidar. Oh cegueira dos viventes ! Ohdefgraça dos mortaes! Quem te poderá emendar , e defenganar , antes de che- gares a teu precipício, e perdição! E vede agora como poderão eítes taes fer ligei- ros foldados , e déílros guerreiros , vivendo com tan- tos melindres, erefguardos. Porém naíce eítadefgra- ça , fem dúvida , por andarem os Portuguezes cegos, e prezos pelos cabellos , pelas mãos das mais nações. A efte refpeito vos contarei o que vi, fendo bem rapaz, tra- -*3 Do Peregiino da America. 399 trazerem as mulheres por enfeites , e toucados nas ca- beças: evinhaafer, que feufavanaquelles tempos hu- ma moda, que chamavão patas, feitas também de ca- bellos, porém prezos em arames. Foi crefcendo tan- to ademaziada moda, e com tão fuperíluo cuflo, que havia patas , que cuítavão vinte , trinta , quarenta , e fincoenta mil reis : e tão disformes , que para poder entrar huma mulher com eíle enfeite nas Igrejas, era iieceíTario que eíHveflem as portas defim pedidas de gente. ^Vierão depois a chamar a eíte ufo defenganos. Correrão os annos , atè que fe defenganárão de fortei (com ferem mulheres) que lançarão as patas fora de fi, e nem por iíTo ficarão feas. Aífím também he juílo que fucceda agora aos ho- mens com a prefente moda, ou abufo das cabelleiras, de que falíamos. No principio chamavão aoscabellos poíliçps cabelleiras j agora chamão-lhes perucas , de- vendo chamar-lhes fpeluncas, que em Latim , quer di- zer covas de ladroes , porque com ellas roubão os Ef- trangeiros o dinheiro daquelles, que lhas com prao pa- ra fe enfeitarem. Melhor diíTera, para fefujarem; por- que antes delias modas eílrangeiras veflião-fe os Por- tuguezes, para andarem limpos, ehoje veítem-fe, pa- ra fe fujarem. E iílo com tanto cufto , e difpendio, que bem fe pudera efcufar, como dantes fe eícufava; e nem por iíTo deixavão de fer mui prezados , e eíli- mados , e talvez que mais livres de tantas ofienfas con- tra Deos. Atè por conveniência fe devia efcufareíta defne- ceifaria moda j porque , fe viíTem com attenção os Por- tuguezes a quantidade de ouro, e prata, que fahe to- dos os annos do Reino de Portugal , e fuás Conquif- tas , para os Reinos , e terras eftranhas a troco delias drogas, havião de repelia r-fe, elançar deli fora as ca- belleiras. E então verião, e conhecerião, que os não *% . ; FÉ J 400 Compendio Narrativo defamparou tanto na provida natureza , que os não cu- briíTe decabellos fiifficientes para fe repararem das in- jurias do tempo, e lhes fervirem de compoílura para o roílro. Porém muitos por falta deite conhecimento, ou por ingratos a eíle benefício , eílão cortando os feus próprios cabellos , e talvez muito melhores dos que comprão por dinheiro , para fe ornarem , ou fujarem decabellos alheios, fendo talvez eítes de hereges, gallicados, e cheios de outros males contagiofos ; fe jà não são deanimaes irracionaes. Aqui fe meoffere- cia muito que vos dizer; porém paíTo de falto, por me não embaraçar em cabellos. Finalmente, fe iílobem confideraíTem os esforça- dos Portuguezes, tornarião a pegar nas fuás fortes e£- padas, com que rlzerão tantas proezas por todo o mun- do; e largarião.os ridículos cotos , e efpadins , de que fazem agora tanta eítimação. Dirme-hão alguns deites profeíTores de femelhan- tes ufos, e amantes decabelleiras, que as modas anti- gas jà não parecem bem por velhas. Mas a iíto lhes ref- pondo, que osveílidos não fazem aos homens; porém fim os homens aos vertidos ; porque jà ouviríeis dizei que a purpura não faz o Orador. Demais, que bem antigos são os hábitos nos Reli- giofos ; e nem por ilTo deixão de fer mui prezados, e bem viftos de todos. E nos feculares , velhas , e bem velhas são as becas dos Miniítros Defembargadores, e nem por ferem velhas deixão de fer mui eílimadas nas Cortes dos Príncipes , e de todo o povo mui ref- peitadas. Porém o que mais he para fentir, e chorar neíta tãoefclarecida Nação, he ver, que fendo mui promp- tos em todos os feus finco fentidos, fe vão fazendo ce- gos, furdos, e mudos. Gomo aílim, fenhor ? lhe per- gun- ■ Do Peregrino da America. 401 guntei eu, Porque haveis de faber , me refpondeo o Defengano, que o Judeo he cego , o Hereje íurdo, o Gentio mudo ; e pela grande amizade , e correlação, que vão tendo os Portuguezes com eítas infeítas na- ções , vão também prevaricando por algumas depen- dências. E por effa razão tomara eu agora dar hum brado , n que fe ouviíTe em todo o mundo , e defenganaííe a eíta tão heróica Nação , para que viíTem , ouviílem , e fallaíTem pór zelo de Deos , e amor da pátria , como fempre o fizerão, procedendo firmes, e confiantes nâ Fé Catholica; e por iíTo forão tão mimofos, e favore- cidos deChriíto bem noíTo, como a experiência no-lo tem moílrado com tantos prodígios, e milagres. E não cuidem as mais nações que fallo apaixonado ; porém fim fallo como Portuguez defenganado , e irmão da verdade. E neíta pratica fomos tratando atè que chegámos a cafa ; e porque era jà meio dia , achamos a meza pofta, e jantámos. E depois de darmos graças a Deos, me pedio licença o Defengano para fe recolher a paf- far a féfta , e me diíTe que também eu podia defcan- çar. Efcufei-me, dizendo-lheque o não tinha por ufa, porque me fazia mal o fono meridiano. Sahio a efte tempo a Dona Verdade; e depois de me faudar mui cortezmente , me diífe : Jà que , fe- nhor Paítrano, vós, e nós tivemos a dita de vires aef- ta cafa, quero também que leveis alguns documentos meus, que em algum tempo vos poderão fer de pro- veito, fe os obfervardes com recla intenção. Por prendas de maior eíHmação , Senhora Dona Verdade, lhe diíTe eu , prezarei fempre osvofTos con- felhos ; porque fei que nunca poderei errar , fendo advertido, e enfmado por voífos difcretos didlames. Ce Ãvi- B ^% 401 Compendio Narrativo Avifos exemplares da *Dona Verdade. PRimeiramente , me diíTe a Dona Verdade , vos encommendo muito quefeja o antídoto para voíTa alma o fanto amor de Deos ; e a remora para o não offenderes , o feu fanto temor. No mais , que obrar- des , fazei por amar com temperança ; fervi com cui- dado ; foíFrei com paciência ; fallai-.com medida ; vi- íitai fem moleítia ; promettei o que puderdes dar \ não digais tudo o que fouberdes ; dillimulai as offen- fas ; não vos tomeis com os que mais podem ; não fe- jais fácil em crer tudo o que ouvirdes ; não julgueis de ligeiro , fem primeiro cuidar ; não concedais tudo o que fe vos pedir; não fejais prompto emprometter; não vosrefolvais fem maduro confelho; não fejais fá- cil em tratar a todos com rifco de feres defeftimado \ tratai verdade com todos ; fugi da lifonga ; procurai emendar em vós , o que vos parece mal nos outros ; o que não quizerdes que fe faiba , não o digais a ou- trem ; fede reportado no fallar fem neceffidade ; ten- de por certo que o filencio altegura ao prudente , e acredita ao nefcio ; fe tiverdes occaíião de mandar , fede antes pio , que ligorofo ; porque melhor he per- doar com brandura , que caftigar com feveridade ; fu- gi de officios públicos , porque he certo que quem lida com papeis , não pôde parlar fem penas , e raras vezes fe acha na corrente dos negócios paz noefpiri- to; e vede que ter hum olho no Ceo, e outro na ter- ra caufa fealdade; não vos queirais mortificar por ou- trem , mettendo-vos no Inferno ; fugi de toda a con- fusão , porque a melodia melhor fe ouve no íilencio ; fazei por aproveitar o tempo em boas, efantas occu- paçóes , porque gaílallo mal , he furtallo a Deos ; a humildade de coração livra , e defende de innumera- veis perigos ; nunca defprezeis a outro , por humilde que Do Peregrino da America. 405 que feja , fendo fabio, e virtuoío ; a todo o Sacerdote refpeitai muito , porque são na terra Miniítros de Deos ; finalmente fe não defprezardes o mundo , e â- mardes a Deos, e ao próximo , nunca podereis ter paz no efpirito ; porque todo o noíTo cuidado deve fer amar a Deos , como fonte , mar , Ceo , e centro das noíTas almas. Não fei com que palavras, fenhora Dona Verda- de , lhe diííe eu , vos poíTa manifeftar o quanto me reconheço obrigado dos grandes benefícios , que de vós , e do fenhor Defengano, voífo irmão, tenho re- cebido, pois me parece que nunca cabalmente os po- derei pagar. Queira Deos dar-me faude, e vida, para em parte me poder moílrar agradecido de tão bom agazalho, efaudaveis confelhos, que me tendes dado. Sabei, fenhor Paftrano , me diífe a Dona Verda- de, que nos não perfuade a fazer- vos eíles agazalhos o intereíTe da remuneração de voíTa liberalidade; por- que fuppofto que não fejamos ricos de bens tempo- raes, não fomos tão mendigos, que nãopolTamos paf- far ávida fem experimentar eíTas infupportaveis mife- rias , porque a Divina providencia nos foccorre com que podemos viver ; e fegundo o que là diz o rifão: Ricoheaquelíe, que com o que tem fe contenta. Iíto que tendes experimentado de nós neíla cafa , coítu- mamos fazer z todos os que nos parecem , que vivera defenganados das vaidades do Mundo, eajuítados aos didtames da razão , e preceitos Divinos. E levantando-fe da féfta o Defengano , logo me deo todo o neceíTario para efcrever para o Reino , o que brevemente fiz, e dentro da carta metti a procu- ração, e a entreguei ao Defengano, para maremetter para Portugal. Alli pairei toda a tarde em converfação com o Defengano , e a Dona Verdade : e fiquei admirado, Ce ii e ab- 404 Compendio Narrativo e abforto do que me contarão dos atrozes vicios , e horrendos peccados , que commettião naquella Cida- de os feus moradores, tanto fem pejo, nem temor de Deos , affirmando-me , que por iíTo receavão algum grande caftigo à Cidade , e a feus habitadores. Atè que anoiteceo , e me fizerão o mefmo agazalho , que jà me tinhão feito na noite antecedente. Defpertei a tempo , que os relógios da Cidade fem que jogaíTem ao vinte , conformemente fincarão. E reparando , notei que fendo iíto no jogo erro , foi nos metaes acertado ; porque como virão a Aurora , e logo hum luzeiro claro , fuppozerão fer o Sol , de quem fe vião abrazados ; e por iíTo em filencio fe fica- rão no fagrado , mettidos em altas torres , porem pre- zos a bom recado. E logo fahio o Defengano , e fua irmã Dona Verdade, e me derão os alegres dias, que eu aceitei com hum cordeal affeclo. E pedindo- lhes licença para feguir a minha viagem , (porque tinha ouvido dizer que os hofpedes aos trez dias enfadão) comeffeito delles medefpedi , com demonírxaçòes de mui grande agradecimento , pelo bom agazalho , que me tinhão feito. E chegando ao cães da Cidade, achei huma em- barcação , que feguia derrota para o porto de Santo Amaro , na qual me embarquei ; e faltando em terra, me puz a caminho ; e fem me doer pé , nem perna, com mui bom fucceíTo cheguei à minha cafa haverá dous dias. Eíta he, fenhores, a relação, que vos pof- fo dar do que me fuccedeo na Cidade da Bahia. Na verdade, fenhorPaítrano, lhe diffe o Capitão, que melhor nos não podieisfatisfazer, pela agradável narração , que acabaítes de repetir. Porem o que me admira, he que em tão breve mappa tenhais viíro tan- to Mundo, e em tão pouco tempo tenhais defcuberto tantos fucceíTos.. Pois fabei , fenhor Capitão, lhe ref- pon- Do Peregrino da America. 40J pondeo o Pafírano , que para ver o mundo , e o que nelle paffa , não he neceíTario corrello , porem fim baila reparar no que nelle fuccede ; e em quanto ao que vi , e ouvi na Cidade da Bahia , vos não diíle a terça parte do que vos podia dizer. Paliais com mui- ta certeza , fenhor Paílrano, difíe o Capellão , que ef- tá hoje efte Eítado do Brazíl, e principalmente a Ci- dade da Bahia , peior do que eíteve a Cidade de Li- ma, quando por femelhantes culpas foi caítigada. Jà que falia ftes neífa matéria , fenhor Reverendo Padre , diíTe o Capitão , tomara que me contaffeis efíe fuccelTo ; porque fuppoífco que varias vezes tenha ou- vido tocar nelle,, nunca tive a dita de o ouvir repetir individualmente , nem achei peífoa, que me foubeíTe explicar o como aconteceo eíTe caítigo , fendo tão notável. Eu o tenho efcrito, diíTe o Capellão. Muito favor me fareis, fenhor Reverendo Padre, diíTe o Ca- pitão, fe mo fizerdes prefente. E logo chamou o Ca- pellão pelo Sacriftão , e íhe mandou que trouxeíTe hum livro, que eítava dentro de huma gaveta do cai- xão da Sacriília. E affim como chegou , conheci fer omefmo, no qual me tinha lido oSacriílão a explica- ção do quadro da vida humana ; e nelle leo o Padre Capellão na forma feguinte. Ce iii CA- SB Compendio Narrativo" CAPITULO XXVII. Copla de hum a carta efcrita da Cidade de Lima ao Trefidente das Charcas , na qual fe lhe conta o infeliz fucceffo , e ruina, que caufou o tremor da terra em toda aquellã Cidade aos ^o. de Outubro de 1687. defde as quatro horas e meia da manha atè às/ete e meia do mejmo dia, MAis tempo havia de hum mez que huma Ima- gem de noíTa Senhora , que eítava em cafa do Doutor Jofé Calvo ( Ouvidor que foi deita Real Au- diência, de gloriofa memoria ) eítava fuando , e cho- rando copioliflimas lagrymas continuadamente , com admiração de muitas peíToas de conta , e dos Padres da Companhia de Jesus , que o hião ver ; e correndo fama , foi também o Senhor Vice-Rei com fua mu- lher , e familia a ver eíte prodigiofo milagre. E poíto que fe hia divulgando , não fe fazia caio de nada , nem diligencia alguma , para applacar as demonítra- çoes , que fazia a Virgem Santilíima , como tão pie- dofa, e verdadeira Mãi noíTa. Levou o Senhor Arcebifpo para fua cafa a Santa Imagem ; e fendo no mefmo tempo , fe foi convalef- cer ao Calháo de Lima, diítancia de duas léguas deita Cidade , onde concorria muita gente ao defpacho da Real Audiência , e também os da armada , que fahio ao Domingo à tarde, aos dezenove deite prefente mez de Outubro. E logo no feguinte dia às^uatro horas emeia da manhã começou a tremer a terra piedcfifíimamente, para dar tempo aos dormentes que fe levantaíTem , e fugiflem ; porque hião continuando os tremores de maior a maiores , de tal forte que dentro em meio . J ~ quar- Do Peregrino da America. 40? quarto de hora chegou a tal extremo , que parecia jà o terrível juízo , e que fe acabava o mundo ; porque o ar dava bramidos, como touro; -os edifícios, portas, e janellas cahiao com tanto eítrondo , como fe em hum mefmo tempo tocaíTem cem caixas de guerra juntas , ou fe deitem golpes em as portas , como nas trevas da femana Santa ; a terra ao mefmo tempo tre- mia de forte que não havia peíToa , que pudeíTe eítar. em pé ; mas proítrando-fe por terra , fem achar refur gio de piedade, temendo todos que fe abriíTe a terra, e nos tragaíTe a todos vivos, pois não fe^efperava ou- tra coufa com a repetição grande dos contínuos tre- mores. Começarão logo a cahir os telhados , e paredes das cafas , caufando com iíto maior confusão a todos, O pó fe levantava às nuvens , cegando- nos eíta turba- ção , e deixando- nos muito confufos pela mui pouca luz, que a Lua em os princípios defeu minguante nos communicava em tão infaulta madrugada ', demais que alguns dias antes não fó a Lua havia efcurecido, mas também o Sol , e as Eítrellas \ e neíta grande ef- curidade fe não via, nem ouvia mais que relâmpagos, e trovões, moítrando-fe oCeo triíle da notável ruina> que ameaçava aos homens a ira de Deos. E aílim por todas as ruas andavão homens , mulheres , e meninos nús, eemcamiza, do modo, que fugião defuas cafas, chorando amargamente , e pedindo a Deos miíericorr dia. Na verdade fe pôde comparar eíla Cidade com a de Ninive em aquelles trez dias de penitencia com a pregação do Profeta Jonas , lembrando-nos alguns de nós do Padre Fr. Luiz Galindo , fervo de Deos, o qual oito dias antes deite terrível efpedtaculo havia -convidado aos ouvintes , à campainha tangida , que importava multo ao povo que foíTem ouvir £eu fer- Cc iv mão 4c8 Compendio Narrativo mão à Igreja Maior , Metropoli deíta Cidade de Li- ma, e que não ficafle peíToa alguma, que lhenãofofle afliítir no dia aíilnalado para o fermáo. Ficou fentidiíTimo oditoReligiofo da pouca gen- te , que lhe ailiítio , porque não chegavão a doze pef- foas. E pedio a eítes poucos , que o ouvirão , fervif- fem de Pregadores a toda a Cidade , e da parte de Deos os admoeftaíTem que fe guardaíTem da fua ira , e eítiveífem alerta atè os dezoito de Outubro ; porque haveria hum grande terremoto , e mui efpantofo , o qual nunca fe havia viíto em eítes Reinos, e por ulti- mo feaíTolaria toda eíta Cidade. Que applacaíTemos a ira de Deos , porque nofías culpas occafionavão eítes rigores bem merecidos pelo protervo de noíTos cora- ções negligentes a tão repetidas vozes de tantos Mi- rtiítros Sacerdotes, e revelações de tantos fervosfeus, que nos tem pregado com tantos finaes antecedentes, e deíigualdades de tempos. E com efta memoria cla- mavão todos ao Padre Galindo , que pois era Santo, intercedeíTe por todos. Ao cabo de mais de meia hora ceifou o tremor, e pudemos ( ainda que com baítante rifco ) entrar em noflas cafas antes que amanheceíTe a tirar noíFas rou- pas de veítir. A's féis horas da manhã acudirão todos à praça maior , onde eítavão os Pregadores exhortan- do à penitencia ,' e dahi forão muitos aos Conventos a confeíTarem-fe, e commungarem. Eeítando neítas di- ligencias , fegundou outro maior tremor que o paf- fado , o qual derribou todas as Igrejas , Conventos de Frades , e Moíteiros de Freiras , com o reíto de todas as cafas deita Cidade, de tal forte, que as paredes, que todavia havião ficado em pé , eítavão taes, que fe man- darão derribar , porque não caufaílem mais mortes das que caufárão as que cahírão , que são innumera- veis j e os mortos são de todos os eítados, porque ha- vião ^1 Do Peregrino da America. 409 vião acudido a S. Domingos , e Santo Agoírinho , e nas mefmas Igrejas os matou a todos o tremor , e na rua aos que hiao paffando. Em S. Domingos cahírão dous grandiofos troços da torre , que huma arrazou . algumas Capellas, e outra todo o Coro, que apanhou debaixo infinita gente. E na dita Igreja eícapárao fo- mente os que fe acolherão para a Capella denoíTa Se- nhora do Rofario, a qual ficou sã , e falva. A torre de Santo Agoítinho , com o reíto do te- lhado do corpo da Igreja, cahio, e matou muita gen- te , que eítava dentro delia , na qual morrerão tam- bém muitos Religiofos de MiíFa , Leigos , e ferven- tes, que atè oprefente fenão averigua quantos forão, pela grande confusão , em que todos eítamos com a repetição de tantos tremores , que , fegundo os con- templativos, pafsão jà de duzentos tremores em tem- po de oito dias. Em o Convento de S. Domingos pafíbu o mefmo por dentro que no de Santo Agoítinho , que tem en- terrado debaixo de fuás minas maquinas de gente, de que também fe não fabe o computo de quantos fejão mortos ; e tudo he chorar, e gemer debaixo del- ias , fem a ninguém fe poder valer > e nós efperando outro maior terremoto. Cahio também o Convento de Santa Clara, aílím a Igreja , como todo o campanário , e Coro ; e co- lhendo a muitas Freiras rezando , as fepultou , e a muitas criadas , e feculares , de que também fe não fa- be o numero , porque cahírão todas as ceilas de den- tro , e as paredes da rua , que vai j^or detrás do Car- mo. Sahírão por fima delias as que efcapárão , procu- rando a feus parentes , para que as recolhelTem , vif- tão, e fuítentem, pois fahírão as mais delias nuas * da forte que eítavão em fuás camas , como fahírão as fi- lhas de Dona Grimaneza , chorando pelas ruas , pro^ eu- 4*o Compendio Narrativo curando a feu pai , e mãi , que efravão todos perdi-' dos com fua família em huma horta ; porque todas as fuás cafas , aífím da Cidade , como fora delia , fe ti- nhão arruinado com os grandes tremores ', e ficarão as Freiras tão pobres , que nem onde fe recolhefíem tinhão , mais que a horta, onde eítavão amontuados, pedindo a Deos mifericordia. E algumas Noviças , e criadas, apartando-fe delias, fahírão pelos telhados, e andão continuamente pelas portas, e arrebaldes, para fuítentarem as pobres Freiras j e romperão huma pa- rede da cerca, para lhes entrar ofuítento, e efmolas; porque não havia lugar pelas portas, nem pátios, que cahírão. Em alguns lugares deites fe ouvem vozes, pedindo foccorro , que as tire debaixo daquellas ruí- nas, mas não he poíTivel; porque sã8 muitas as ceílas cahidas humas fobre outras , e grande o riíco , que ameação as outras , que eftão como dependuradas pa- ra cahirem todos os inírantes ; e afiim hão padecido muita fome as que fe achão vivas debaixo das ruinas, fem fe poderem remediar. Também cahio o frontefpicio da Igreja Cathe- dral com fete abobedas da Capella ; e as que não cahí- rão , ficarão tão damnificadas , que feráforçofo derribai- las, para fe tornar a cubrir toda a Igreja de novo. So- mente o Sacrário ficou livre , fem fer tocado de nada deitas ruinas. Também cahio todo o Convento da Conceição; e as Freiras fe fahírão todas com licença do Senhor Arcebifpo , e fe pairarão a outro Convento , que de novo fe fazia. Cahírão todos os demais Conventos de Freiras , do Prado , das Carmelitas de S. Jofé, de San- ta Catharina , e o da Encarnação ; e fomente ficou o das Carmelitas Defcalças. Cahírão as abobedas da Igreja de S. Francifco de meia laranja , e toda a Capella de noífa Senhora de Do Peregrino da America. 411 de Aranzara , e fomente a cerca não recebeo damno al- gum. Cahio também todo o Convento das Mercês, e o de S. João de Deos, com todas as Recolletas, co- mo também a Igreja do Padre CaíHlbo , com o meio arco da ponte. Cahio também São; Lazaro, e Santa Anna, com todos os feus hofpitaes , e os mais hofpir taes ,0 de S. Bartholomeu , o de Santo André, e Ca- ridade. E finalmente , baila que em huma Cidade tão populofa , como eíla de Lima , com tão copiofo nu- mero de Templos , não ficaíTe nenhum em pé , mais que o das Carmelitas Defcalças , e o dos Padres da Companhia de Jesus, fe bem que todo o clauílro fe lhe arruinou; de modo que deites Templos huns cahírão, outros he neceíTario acaballos de arrazar, para fe ree- dificarem. Também fe arruinou todo o Palácio Arcebifpal, e cahírão os corredores pela parte de dentro. E do mefmo modo fe arruinou o Palácio Real. Cahírão as falas das Audiências , e toda a fala do Crime , e Tri- bunal de Contas , onde dizem os Pregadores , que fe havião feito tantas injuítiças contra os povos , cujos gemidos , e lagrymas chegarão ao Tribunal Divino a provocar lua Divina Juítiça. Cahírão os cárceres , e a enchovia defta Cidade, e fugirão todos osprezos, que aqui havião trazido dos navios coíTarios , que neíla Coíla tem feito tantos eftragos , e latrocínios, botan- do gente em terra , e cativando muitos povos , e lu- gares , onde forão apanhados eftes. E querendo fugir da Cidade , a Virgem noíTa Senhora lhes appareceo, dando-lhes claridade, para que fe puzeíTem em parte, onde cahindo as paredes lhes nãofizeíTem mal; e lhes mandou fe fízeíTem Chriftãos , como elles o publica- rão; e pela manhã, confeflando-fe, e recebendo os Sa- cramentos da Igreja , abjurarão a herefía. AíTolou-fe finalmente toda a Cidade % fem ficar, ■ 9k cou- Compendio Narrativo coufa de_ proveito , e todos os portaes da praça em contorno : quebrarão fe os pilares , cahindo gaítóes, ramadas atè a profundo : e as tendas dos mercadores fe afundarão , e tudo eítá debaixo deílas maquinas , e fe vão defenterrando algumas roupas. Em todos os Morteiros de Frades , e Freiras morreo muita gente, e também em todas as demais cafas , principalmente debaixo dos portaes dos Efcrivaes \ porque com o re- pentino tremor das féis horas e meia , e haver- fe es- curecido a praça com infinito pó , os matavão as pe- dras , e telhas. Os corpos , que atè o prefente fe tem tirado deílas ruínas, pafsão de duzentos, e fe hão fe- pultado nos cemitérios fem forma de enterro. Deíles hão íido muitas peíToas de conta , como Dom João Ramires com toda fua grande família , que morrerão todos juntos debaixo do pátio de fua cafa ; porque querendo- fe fahir fora delia, fugindo a tantos tremo- res , eílava jà a porta tapada com humas taipas , que tinhão cahido de fima , e lhes detiverão a íahida ; e neíTe mefmo tempo cahio o pátio , e os fepultou a todos. Muitos fugião das cafas > temendo fuás ruínas , mas na rua opagavão; porque as cafas, que cahião, a mui- tos fepultavão. Parecia eíta confusão hum dia de juí- zo, com a grande laítima dos viventes , que vião pa- decer, e ouvião gemer a tantos debaixo daquellas mi- nas , fem nenhum lhes poder fer bom, nem valer. O Calháo de Lima , que diíla duas léguas deita Cidade , depois de aíTolada ella , fe alagou ; porque com o tremor das féis horas e meia para as íete da manha fahio o mar com tanta violência fora de feu curfo natural , que levou todos os índios , e feus ran- chos , affogando-fe todos ; e entrou pelo Calháo pela porta do Petepaty , e pela porta do rio , e pela princi- pal j e depois de alagar todos os Templos , e cafas, e af- Do Peregrino da America, 413 afogar muita gente, milagrofa mente efcapárão algu- mas peíToas , que fe fubírão pelas muralhas. O fenhor Arcebifpo efcapou a Deos mifericordia com huma perna quebrada ; e vendo-fe affogados to- dos os Clérigos , e Frades , fomente efcapárão o Se- cretario , e o Mordomo do dito fenhor , ainda que bem moleílados. Morrerão affogadas as mulas, da car- roça, e cavallaria do dito fenhor, e a pé vierão todos os que efcapárão , atè huma légua diítante do Calfiao, aonde trouxerão ao fenhor Arcebifpo , e a feus cria- dos a Ti uma horta de D. João Jofé da Cunha , e ahi fe eílão curando v tendo jà feito Governador de feu Arcebifpado ao feu Provifor. Os fenhores Ouvidores efcapárão também a Deos mifericordia; e o fenhor Cura com huma perna quebrada. O official dejuíti- ça fe vio enterrado ; e fahindo livre , todo cheio de terra , deo graças a Deos pelo haver livrado. Aos fe- gundos tremores ficou como efpavorido ; e por ver a Cidade arrafada por terra , fe retirou para fora delia com grande preíTa a pé, feguindo-o hum criado atè huma horta de Dom Francifco , que eítá fora da Ci- dade. ^ O fenhor Vice-Rei , e fua familia fahírao em ca- miza à Praça , onde armou huma barraca junto a hu- ma Igreja de nofía Senhora do Rofario , que de novo fe fez , por haver efcapado a fanta Imagem no Con- vento de S. Domingos. Também íe andão fazendo outras muitas com grande prefFa , como he a da Ca- thedral , e a do Padre CafHlho ; porque como a Praça heefpaçofa, fe acolhia aella toda agente, que podia, fugindo das cafas , e das ruas , porque vião não efca- pavão eafas , nem Templos , onde ficaíTe pedra fobre pedra com os terremotos. Mandou Sua Excellencia informar-fe da gente, que havia efcapado na Praça , para fe formarem' os* Tri- Compendio Narrativo Tribunaes, e fazer Juítiça, que fem dúvida alguma fe fará , e porá tudo em bom governo. Nomeou dous Alcaides; e a primeira coufa, quefizerão, forão dous fornos , porque todos tinhão cahido , e paíTava de dous dias, que não havia pão , nem coufa, que fecomeíTe, fenão algum milho , e eíTe mui pouco. Hião derri- bando osveítigios da Cidade, febem que os terremo- tos vão continuando , e matando a muita gente de no- vo \ e neíte eílado tudo são laítimas , e lamentações, porque não deixa de tremer a terra, fuppoíto que al- guns Pregadores , fervos de Deos, aíTegurãoeítarDeos noííb Senhor applacado de fua ira por intercefsão da Virgem SantiíTima , e pelas grandes penitencias , que de prefente fe fazem. Deixo os grandes, e feios peccados, que referem os Pregadores hão confeífado muitos. E atè os mef- mos demónios tem confeífado por exorei fmos de en- demoninhados , que Deos noífo Senhor lhes havia da- do licença a quatro legiões de demónios, para que af- folaíTem eíta Cidade , e Reino com tremores , fogo, agua , e peite ; mas que por intercefsão da Virgem Santiílima coaráou a licença, deixando-lhes fomente os tremores afeu cargo, que continuão com mais mo- deração. E que a Virgem Santiílima andava pelas ruas deita Cidade detendo as paredes , para que não ma- taífem toda a gente. Com eítas alegres novas fefez humaProcifsão de fangue, fexta feira vinte e quatro do corrente, efahio do Convento dos Defcalços. Hia nella o fenhor Vi- ce- Rei defcalço de pé , e perna , com huma corda ao pefcoço, e huma campainha na mão, pedindo a Deos mifericordia. E aílim mais hião os de Palácio domef- mo modo. A Senhora Vice-Rainha com huma corda na garganta. Outras muitas peífoas hião com oííos, e freios nas bocas , e efpantofas prizões , e penitencias de Do Peregrino da America. 41J de fangue. Também hião todos os Clérigos , e Fra- des, com grandes penitencias, cubertos de cinza pela cabeça, e cara, com hábitos dehervas, e cilícios, fo- mente com as caras defcubertas ; e todos os mais, af- íim homens , como mulheres , e meninos , Cavalhei- ros^ gente plebea. Não faltou mais que a Real Au- diência. E havendo rodeado toda a Cidade , tornou a Procifsão aos Defcalços. Nodiafeguinte, fabbado, fizerão nova Procifsão os Clérigos de S. Pedro , com notável edificação , e exemplo para os feculares, com horríveis penitencias de fangue, freios nas bocas, e os mais delles rapados, e encinzados. E fe continuavão grandes Sermões , fe- gundo, terceiro, e quarto dia de tremor. Vierão novas de que fe tinha aíTolado Cacabelica , e Pino , onde fahio o mar de feu curfo ; e os navios, que eítavão ancorados no porto, os poz na praça, co- mo também levou cafas, e Templos neítas Províncias , eom morte de mais de duas mil peíToas. O mefmo fuccedeo na Requipa , Comele , Chinea, e Chiles , onde havia muita gente , aííim Eccleíiaíti- cos, como feculares, e todos acabarão a vida na Igre- ja, que levou ornar. Aofegundo tremor da manhã fe affogárão cento e doze peíToas conhecidas , e multi- dão de índios, dos quaes fomente efcapárão dous, que andavão pefcando no mar. Os mortos fe fepultá- rão onde tinha fido Igreja. Em Chinca levou o mar todos os trigos , que eíta- vão no porto , para fe embarcarem para eíta Cidade como também levou muitas coufas , e muitas femen- teiras , e novidade ; porque entrou peia terra dentro duas léguas, e pela coita abaixo mais de trezentas, de que fe efperão grandes fomes , e peite , como hão vindo novas dos valles, que morre muita gente. Che- garão dous navios de Chiles , e dão por novas que an- 41 6 Compendio Narrativo anda grande peite , e que tem abrazado a muitas Ci- dades , e Lugares , com morte de mais de hum mi- lhão de índios. Tivemos noticia de que a armada, que hia para Panamá a bufcar o Senhor Vice- Rei novo, fe havia perdido por caufa dos tremores , e tempeítades. E fe íie certa eíta nova, perdido eítá eíte Reino, pois não tinhamos outra defenfa neíle mar. Depois tivemos outra noticia de que para aparte do mar fetinhão ou- vido muitas peças de artelharia, donde fepódepreíu- mir que vai boa toda a armada. A perda de Lima chega a cem milhões, fegundp a conta do Padre Marito, e Efcovar, e anão havemos de ver reítaurada em noíTas vidas. Os férvos fe tapa- rão, e os caminhos, e não ficou Igreja empe. Vão-fe acabando as rendas dos Morgados , e das Freiras , Vi- gários, e Capellanias. Queira Deos noíTo Senhor dar- nos fua graça, para o fervirmos. Amen. E affim como acabou o Padre de ler a carta do íucceíTo da Cidade de Lima , diíTe o Capitão : Eítu- pendo cafo por certo, e digno de fe trazer fempre na lembrança , para fe evitarem tantos peccados , que actualmente fe eítão commettendo no mundo, e prin- cipalmente neíle Eítado do Brazil! E he para notar , diffe o Capellão , que fica elTa Cidade de Lima na mefma altura de treze grãos da linha Equinocial para o Sul , em que também eítá a Cidade da Bahia. E por eíta circumítancia , ainda com maior razão fe deve temer algum caítigo por caufa dos grandes peccados, que nella fazem feus habitado- res tanto fem temor de Deos. Fallais com muito acerto, Senhor Reverendo Pa- dre , diíTe o Paílrano \ porém eu cuido que huma das razoes , por que Deos fufpende a mão de fua Divina Tuílica ,' e não tem jà caítigado eíta terra , he pelo gran- mm Do Peregrino da America. 417 grande zelo, e fervorofa devoção, com que feus mo- radores tanto venerão ao Santíssimo Sacramento , e com tanto difpendio de fuás fazendas aífíílem ao cul- to Divino, e fervem aos Santos. He certo , e indubitável , fenhores , diíTe o Capeí- lão, que fe paga Dèos muito de que os homens o ve- nerem, e a feus Santos, comoconfta pelos grandes, e evidentes milagres, que tem fuccedido no mundo; e pertendellos repetir eu agora, feria omefmo que em- prender efgotar o mar. E pedindo licença o Padre Capellão aos que eíla- yao no alpendre , fe foi para a Sacriítia a reveítir, e fahio a dizer MiíTa. Chegando ao oflertorio , fez hu- ma pratica digna de mui grande edificação, pela dou- trina , com que a todos exhortou. E depois de ter a- cabado a Miífa , tornou a vir ao alpendre , onde diíTe aos feus freguezes que pertendia feguir viagem na- quella prefente frota para Portugal , e que o encom- mendallem aDeos; porque elle omefmo Ihespromet- tia fazer nas fuás orações , e facrifieio da Miífa , pe o muito, que a todos hia obrigado. Ainda não tinha pofto fim o Capellão aeftaspala- vras , quando de todos os que eftavão prefentes forão tão repetidas as faudofas lagrymas , que o coração mais empedernido fe renderia a fentimentos ; atè que por todos os circumftantes refpondeo o Capitão , dizendo : Com mui larga, experiência fediz, Senhor Reve- rendo Padre , que o bem para fe fentir , primeiro fe ha de perder ; e. corno voiTa mercê tenha fido de tan- ta utilidade efpiritual para nós , por iíTo com tão íen«* tidas lagrymas eítamos jà experimentando a falta futu~ ra da íua preíença; e muito mais fe duplicaria em nós eíla dor, fe viíTemos que eíla íua viagem era conítran- gida, ou violenta; mas como nos perfuadimos fer vo- luntária , ficamos em parte fatisfeitos , ainda que não Dd XI- wm 418 Compendio Narrativo livres de padecermos huma tão penofa aufencia de quem tanto defejámos ter prefente. Agora reconheço eu , Senhor Capitão , e mais Se- nhores, refpondeo oCapellao, com quanta razão dif- fe Plauto que os benefícios feitos a ânimos honrados, è generofos, vão jà pagos da remuneração , com que fe galardoão ; e aílim o experimento agora* pelo cor- deal affe&o , com que VoíTas mercês tanto fe tem mof- trado fentidos porcaufa deita minha viagem, que per- tendo fazer; e bem lhes poíTo certificar que fe me não obrigara a razão de ir aíTiílir a minha mãi , e ampa- rar a duas irmans donzellas , que deixei em Portugal, de boa vontade defprezaria os maiores haveres , e conveniências , que fe me offereceíTem no mundo, fó por gozar da aíHílencia de tão honradas companhias. E com effeito de todos fe defpedio o Padre Capellão. CAPITULO XXVIII. teclar a- fe o Ancião com o ^Peregrino , e lhe diz qu& elle he o tempo bem empregado : faz- lhe muitos avi/os efpirituaes para bem de fuafalva- ção : e dd-fe fim à primeira parte de/te Compendio. TAõ obrigado , como fatisfeito , Senhor Peregri- no , me confidero ao agradável eftylo da voíTa narração , e converfação moral , e afcetica , que tive- mos eftes dias , me diíTe o Ancião ; e prefcindindo de toda a lifonja , vos pollb certificar que são os volTos documentos mui dignos de fe obfervarem , por fe- rem fundados na Lei Divina , que são os dez Manda- mentos , os quaes toda a creatura racional , tanto que chega a ter ufo da razão , eftá obrigada a guardallos, àfíim parabém defua falvação, como para maior hon- ra , e gloria de Deos. P 01 " Do Peregrino da Ameri.Ca. 419 Por eíta razão , e porque tanto me tendes dado a conhecer os méritos de voíTo bom procedimento, vos quero agora declarar quem fou ; advertindo- vos porém que iito não coítumo fazer fenão aos pruden- tes, bem inclinados , e amigos de Deos , aos quaes o vulgo com muito acerto chama enfinados do tempo; e não aos que vejo que são infenfatos, e negligentes em aceitar os bons confelhos efpirituaes, que fe lhes dão; e porifíò vem eílestaes acahir em muitoserrosi e ficar tão faltos de razão, como cheios depeccados, fem temor de Deos. EaíTim conhecei agora que eu fou o Tempo bem empregado. De mim tem fallado vários Auth ores Sa- grados , e humanos , e que exiíto no Mundo defde o primeiro feculo, em que Deos me fez, e toda eíta ma*- quina do Univerfo y e fabei que também hei de ter fim , e que fera a minha duração tão fomente atè fe acabar o Mundo , quando Chriílo vier a julgar a to- dos os homens dos bens , e males , que íizerão em fua vida , dando a cada hum o premio, e ocaltigo, fegun- do feus merecimentos > e então fe cumprirá o que dif- fe o Anjo , tendo hum pé no mar , e outro na terra, e jurando pelo Creador vivente para feculos dos fe- culos , que não haveria mais tempo : §jwia tempus non erit amplius; (Apoc. 10.6.) porque dalli por diante não haverá mais que eternidade , a qual durará em quanto Deos for Deos, que fera para fempre fem fim. E efla eternidade he neceíTario cuidarem nella os homens , pois por falta defta confideração eítão jà muitos precipitados no Iaferno , penando para fem- pre; e porcontrapolição, todos aquelles, que na eter- nidade cuidarão, e cuidao , eílão , e eftarão gozando da .Bernaventurança para fempre fem fim. Deita coníideração fe valeo David , quando difie : Et annos atemos in mente hahtii. (Pfalm.76.6.) Ê Dd ii afiim ^% 4*o Compendio Narrativo áffim dizia o Santo Rei , que tanto que meditou na eternidade, lhe ficou tão impreffa na alma, que muito mais que antes fe deo ao fervido de Daos, e caminho do efpirito. Corrobora- fe melhor eira verdade , pela que diz o Efpirito Santo por Salomão , que, todo o homem caminha para a caía de fua eternidade : lbib homo in domum atemitatis fua. (Eccl. 12. 5-.) Efta confideraçao da eternidade foi a que fez a muitos varões fabios , e prudentes encher as Reli-< giões , povoar os defertos , deixar as riquezas , e def- prezar o Mundo. AíTim fuccedeo a Thomaz Moro , Chanceller Mói de Inglaterra , reinando Henrique VIII. Foi efte Mi- niftro condenado à morte , por não querer feguir a herefia ; e indo-lhe fallar ao cárcere fua mulher para o preverter , lhe perguntou aquelle fabio varão : Quan- tos annos poderei viver? Refpondeo ella que vinte , e ainda mais. Concluio elle aífim : Vindes- me logo perfuadir que troque vinte annos de vida por huma eternidade depenas. Se diíTeíTeis vinte mil annos, di» ríeis muito ; mas a refpeito da eternidade era nada. E aífim facrificou a vida pela defenfa da Religião Ca- tholica. E agora vos digo , e poíTo certificar que efte , e outros muitos varões, que na eternidade cuidarão, e cuidão , tem , e terão o premio daquella Bemaventu- rança , com que Deos paga aos que nefta vida com boas obras de virtude cuidão na eternidade. A experiência ocularmente nos eftá moftrando que toda a creatura racional, depois que morre, com huma das duas eternidades fe vai encontrar ; ou com a da gloria , cuja grandeza he inexplicável pelo incom- parável bem, de que gozão os que a ella vão, ou com a do Inferno , à qual S. Gregório Papa chamou morte fem morte 5 porque morrendo- fe fempre nella pelas P e- ■ 1 Do Peregrino da America. 421 penas , nunca fe acaba de morrer , por ferem eternas na duração. E allim vos avifo que da eternidade nun- ca vos defcuideis , fe pertendeis com acerto encami- nhar voíTos paflbs no ferviço de Deos. He também muito neceíTario que vos não efque- çais de que haveis de morrer ; porque não ha coufa mais importante, para livrar aos homens deoffender a Deos , do que a repetida lembrança da morte. £ diz Santo Agoítinho que eíta lembrança ha de fer de to- dos os dias, para que eítejão os homens aparelhados, para quando Deos os chamar a dar contas de fuás vi- das. Homil. 13. interrog. 5*. Porque he certo que Satanaz, acérrimo inimigo do género humano , conhecendo que o melhor meio para fazer peccar os homens , he o efqueci mento da morte, tratou logo de tirar a lembrança delia a Adão * eEvanoParaifo, quando lhes diíTe : Ne quaquam mor- te moriemini\ ( Gen. 3.4.) e deíle modo os fez ca- hir na culpa. Corrobora- fe melhor eíta verdade pelo que diz o> Efpirito Santo: Lembra-te de teus novillimos, e nun- ca peccarás : Memorar e novijjima tua , & in ater num fionpeccabis. (Eccl. 7. 40. ) E à viíta de tão grande au- thoridade, vede agora de quanta importância he a to- da a creatura racional o trazer fempre mui prefente eíta lembrança , para evitar as occaíiões de peccar. Também vos quero fazer hum avifo mui impor-» tante, e neceíTario para a voífa falvação; e vem a fer, que fujais muito de que vos enganem ostrez inimigos da alma , que são mundo , diabo , e carne, porque todos sãofalfos, mentirofos, e por extremo pobres, e neceíTitados ; e fe não , vede , e reparai com attenção. Mundo , no idioma Latino , quer dizer coufa limpa; e bem fabeis que o que eíta limpo, nada tem de feu; e todos eftes haveres , cjue vedes no mundo , são de Dd iii Deos, 42i Compendio Narratívo Deos, que os fez, epermittio que osproduziíTe ater- ia para ferviçp , e miniíterio das creaturas , ufando delias licitamente, e para adorno das Igrejas, e culto Divino , e fendo aífim , como he verdade , fó Deos pode dar aos homens o de que neceífitao para pode- rem viver , e fuítentar-fe neíla vida. O demónio he huma creatura tão mofina, vil, e miferavel, que ainda ornais pobre mendigo neceífita- do, que ha, e pode haver, he mais rico que o demó- nio ; porque além de viver o mendigo nas efperanças de gozar da eterna gloria , pois eítá em via de mere- cer, vive fora do Inferno; porém o demónio tem per- dido toda a efperança de ver a Deos ; mora no mais infimo lugar da terra , que he o centro do Inferno , e tem perdido tudo , porque perdeo a graça Divina. E aílim entendei que quem fe chega a huma creatura tão abatida, nunca pode ficar authorizado. E com fer iíto verdade, teve confiança efte mifero para promet- ter a Chriílo no deferto ( porém foi pelo não conhe- cer) todos os haveres do mundo. A carne he tão pobre , e neceífitada , que nada poflue ; e fuppoflo que tenha enganado a muitos cora goftos, prazeres, honras, e deleites, o Santo Job, que bem o conheceo, lhe chamou complexo de miferias: Repletur multis miferiis. (cap. 14. v. 1.) Não tem em íi mais que a alma, que o fuftenta; em lhe faltan- do eíta , toda fe profira , e fe converte em podridão, pó, e cinza. Finalmente nada he : Nihil ejt , como a definio o mefmo Job. E aííim acabai de entender que o mundo, diabo, e carne, nada poífuem, nada tem , e nada podem dar; porque além de fer ifto verdade de fé , a experiência o tem bem molhado ; e fuppofto que tenhão engana- do, e enganem ainda hoje a muita gente boa, he por- que eftes taes vivem neíle efpaço do mundo, que he hum hofpital de loucos. Fi- ^% Do Peregrino da Amerka. 4*^ Finalmente fó Deos he afumma Verdade à e nun-^ ca faltou no que prometteo , nem ha de faltar. Só Deos he rico , e todo poderofo ,,por fer Senhor do Ceo, da terra, do mar, e de todos os mais bens, e ha- veres deite Mundo , porque os fez , e permittio que fe produziíTem para a coníervação das creaturas , os quaes bens pôde dar, e repartir com quem fua Divina providencia quizer ; e he tão bom pagador , que por hum dá hum cento. Ifto prefuppofto, afíentemos por máxima certa £ e infallivel, que para merecerem os homens o Divino agrado , também he necefíàrio fazerem de fua parte boas obras; e por ilfo vos advirto, que em quanto ha tempo i e exiítís no Mundo, vos oecupeis em exercí- cios de boas. obras no fervi ço de Deos , principiando por huma confifsão bem feita , que he por onde fe co- meça a fervi r, e agradar a Deos depois de perdida a graça do Baptifmo. Efta coníifsão fe deve fazer com grande dor de haver offendido a Deos , e propofito firme de o não tornar a oífender ; porque haveis de faber que tam- bém Judas confeíTou a fua culpa , e fe arrepende© de ter vendido aChriíto, quando diffe: Teccavitradêns fanguinemjujUiw ; ( Matth. ij. 4. ) ^orèrn foi huma confifsão dos dentes para fora , e huma dor de cabeça fem febre, ou calor, e por iffó fe não fangrou. Devia fazer huma confifsão , como a que fez S. Pedro , o qual depois que também peccou , negando a íeu Di* vino Meítre , fez huma confifsão com grande dor de haver peccado , e propofito firme de não tornar mais íi peccar , e ferindo feu coração com repetidos gol- pes ; e porefía caufa lhe fahírão aslagrymas pelos olhos , que são as fangrias da alma : Flevtt amare. (Matth. 26. 7^. ) Também vos avilo que vos não deixeis ficar mui^ Dd iv to 4*4 Compendio Narrativo to tempo dormindo na cuípa , confeíTai-a logo , por- que o demónio fe ha com os homens , como o lobo com as ovelhas : tanto que o lobo apanha a ovelha , logo lhe aperta a garganta, para que não bale, e feja ouvida do Paítor , porque teme lha tire das garras; aílim também o demónio : tanto que faz peccar o mi- feravel peccador , tapa-lhe a boca , para queihe não acuda o Divino Paítor Jesus Ghrífto , e mande a feus Miniílros ( que são os zelofos ConfeíTores ) a tirar-lho de fuás infernaes garras. E aílim importa muiío que quando o peccador cahir na culpa , fe vá logo confeíTar ; e em quanto não tiver copia de ConfeíTor, faça hum a£to de contrição, com grande dor , e arrependimento de ter oífendido a Deos , por fer quem he , tão amorofo , e digno de fer amado , propondo firmemente não tornar a oíFen- dello, porque o não prenda o demónio , e fique com elle parecido pelo peccado. Porque he fem dúvida que o homem em quanto éftá em graça de Deos , he huma imagem , e feme- Ihança domefmoDeos: Ad imaginem , & Jmilitudi- nem noflram\ (Genef. i. z6.) e depois que cahio no peccado , fica efcravo , e prezo do demónio , e com; elle parecido pelo peccado : Quifacitpeccatum , fer- vuseflfeccati. (Joan.8.34.) E David diz, que fica fe- melhante aos brutos: Çomf aratus ejí jumentis infí- pientibusyfêjimilisfaeiusejlillis. (Pfalm.48.13 ) E para recuperar hum peccador a primeira imagem de Deos , e quebrar as fortes prizões , com que o tem ata- do o demónio , e desfazer a imagem , e femelhança , que com elle tem pela culpa, heneceflario quebralla, e desfazella com grande dor, e arrependimento, e la- valla com muitas lagrymas de contrição, fazendo pe- nitencias , fegundo fuás forças ; e por iíTo não baila lo confeíTar a culpa, e dizer que temfentimento. fem o exe- Do Píregiíno da America, gyy- o executar por obras de fatisfação ; porque David pa- ra fer perdoado de Deos , e tornar à lua Divina graça » fez grandes penitencias, e chorou continuamente, di- zendo de todo o feu coração : Mifereremet c Deus $ &c. E depois de feita eíla Confifsão , do modo , que vos tenho dito, lerá também grande acerto occupares- vos na converfação dos vivos mortos, que são os bons livros efpirituaes, paradelles tomares a lição, e docu- mentos mais importantes para os acertos da vida , £ falvação da alma ; porque he fem duvida que pela li- <^ão dos bons livros vem os homens ao conhecimento de toda a verdade , para melhor fe aproveitarem no ferviço de Deos. E por iíTo diz S. João Chryfoftomo que he rniii importante a lição dos livros Sagrados , pois por meio delies recebe a alma a fantificação, e graça doEfpiri- to Santo, ( Homil. 31. ) E São Pedro Damião affirma ferem eílas as mais fortes armas contra o inimigo in~ fernal. (Lib.6. Epiít.3.) Finalmente são muitos os louvores , que dão o,s Santos aos livros efpirituaes. Santo Agoílinho lhqs chamou cartas , que vem aos homens do Paraifo. São Baíiíio lhes chama dons , que manda Deos do Çeo r p iuítento das almas. São João Chryfoítomo diz que ao lellos fe abrem os Geos aos homens. E Cafíiodoro lhes chamou utilidade do Çhriftianifmo, thefouro da Igreja , e luz das almas. De Santo Ignacio de Loyola fabemos que o ler elle o Fios Sanclorum , haftou para dar principio aos grandes progreílbs de fuás ^virtudes , e íantidade. £ outros muitos, e innumeraveis varões, pela lição do» bons livros vierão a fer tão grandes Santos, como te- reis lido, e ouvido contar. E também vos advirto que o ponto confifte na ap- plicação, com que fe lem ; porque he muito para re- Dd v pre- 4*0 Compendio Narrativo prehender em alguns ( como notou São Gregório) lerem fó para parecerem fabios , e eruditos, fem ten- ção de feaproveitarem ; (Lib.io. Moral. cap. 8.) don- de venho a concluir que ler. por fomente ler , e não por fe aproveitar, virá a Ter oecaíião de darem os ho- mens maior conta a Deos das fuás negligencias , e pouca applicação. Finalmente são os livros entre todas as alfaias, a que com mais razão fe ama , de quem fabe conhecer o preço das que merecem fer eíiimadas. Também fera grande acerto occu parem- fe os ho- mens na aíTiítencia de ouvir os Sermões de doutrina, em que fe explica a palavra de Deos, a qual tem tan- ta efficacia de alumiar, e aquentar as almas, que mui- tos ouvindo-a reformarão fuás vidas , e abrazados do amor Divino , havendo fido grandes peccadores , fica- rão juftos , e acabarão fantamente. E pelo contrario tem acontecido a muitos, que pela não quererem ou» vir , e abufarem das infpirações Divinas , experimen- tarão varias defgraças % e finalmente vierão a perder a mefma alma. E poriíTò vos avifo que vos não aconteça feguir os di&ames de alguns prefumidos de fabios , que íó vão bufcar aquelles Pregadores de grande fama pelos fubldós conceitos, e floridos no eítylo ; porque eftes taes ouvintes como não são homens de efpirito , não goílão do efpiritual , e fó tratão do temporal , como fe a fanta doutrina não fora coufa tão neceíTaria para a falvação dos homens , e a não di&ára , e enfinára o mefmo Jesus Chriílo. Pois fabei que por conhecer o mefmo Deos o quanto he de proveito para as almas a fanta doutrina, a enfinou aos homens , quando efteve no mundo , e a mandou pregar pelos feus Santos Apoftolos por todo o Univerfo , e efcrçver pelos Sagrados Euangeliítas, pa- "*l Do Peregrino da America. 427 para que os feus Operários , que são os Pregadores Euangelicos , a enfinaílem aos homens. E aííim en- tendei que a fama voa ; porém a fanta doutrina he firme, e folida; os conceitos poderão fer errados, po- rém a doutrina he certa , e verdadeira ; as flores mur- chão , mas a doutrina he fruto , que íuítenta a almg. Reparai no que diz S. Paulo : Sermo meus , & pra- dicatio mea y non in perfuafibilibus humana fapien- tia verbis ,fed in ojlenfione fpiritus , & virtutis. (1. Corinth. x. 4. ) Os meus Sermões (diz o Santo Apof- tolo) não fefundão em palavras vans de humana fabe- doria , mas fim em efpirito, e virtude. Nas quaes pa- lavras condena a eloquência humana, e inculca a efli- cacta neceíTaria, para reprehender os vicios, e mover o coração ao fanto temor, e amor de Deos. E para fazerem os homens maior eíH mação da pa- lavra de Deos , faibão que Deos he o que falia nos feus Miniíhros ; pois diíTe o mefmo Senhor que quem os ouve, o ouve a elle > e quem os defpreza , o defpreza aelle: ^ui vos audit y me audit , f§ qui vosfpemit t me fpernit. (Luc. 10. 16.) E por iílb là bradava Deos ao feu povo que oqui- zeíTe ouvir ; e qusixava-fe de que o feu povo nem o queria ouvir , nem o queria entender. Povo meu, lhe dizia Deos, fe tu me ouvires, não me has deofFender com peccados , nem has de adorar a outro Deos mais que a mim : IJrael, fiaudieris me , non erit in te 'Deus recens, neque adorabis ç Deum alienum. (Pfalm.Bo.cj.) E porque aquelles homens não qutzerao ouvir a pala- vra de Deos, ficarão fora dafua Divina graça. E aífím concluo porconfequenciainfallivel que todo aquelle, que foge de ouvir a palavra de Deos » he prefeito ; e fe não, ouvi a Chriíto por S.João : e vem a fer que também ha muitas frutas fecas, frias, azedas, eamargofas, como he a cidra, e a laranja, o li- mão , o marraello , &c. porém com a doçura do aííu- car fe fazem agradáveis de forte , que fe gofta muito delias. Mas he para advertir que antes de receberem ef- m Do Peregrino £>a America. 429 eíta doçura , são curtidas , e cozidas. Aílím também fe devem primeiro curtir, e cozer os homens com a pe- nitencia , para depois receberem nas almas o clarifica- do, ou calda do aíTucar da oração, que lhes tem pre- parado o doce Jesus. E por iílb fe chama no idioma Latino o homem bem eníinado , ou o que pertende aprender , dócil , que íuppoíto não fignifique doce , com tudo tem grande connexão com a doçura , por eítar capaz de aprender , e receber as virtudes mo- raes, e efpirituaes , que são as verdadeiras doçuras da alma. Eaífim vos avifo, que antes da oração façais hum a&o de contrição com grande dor, e arrependimento de ter oíFendido aDeos, batendo nos peitos, e pondo depois juntas as mãos ; porque haveis de faber que quantas vezes o peccador fere o peito com dor , tan- tas vezes bate nas portas doCeo, para que lhas abrão, para fer ouvido , e defperta a fua alma , para pedir perdão a Deos; e todas as vezes , que ajunta as mãos orando, prende com laços de amor a feu amorofiifimo Jesus , para que o não caíHgue , e lhe pede que o fa- voreça com fua graça. Para o que he neceíTario também deixar os vícios ," e abraçar a virtude, fazendo penitencia, e fugindo da ociofidade, por fer efta a caufa de todas as culpas. E por iílb lhe chamou S. Baíiíio meílra dos vicios , e S. Lourenço JuíHniano mâi das concupifcencias , e madrafta das virtudes. (Hom.8.Exam.) Eaccrefcen- ta o Santo , que a ociofídade he a que lançou os alicer- ces ao Inferno \ porque fe he verdade que o peccado fundou o Inferno, a ociofídade enfinou ao peccado. E por ultima conclusão de tudo quanto vos tenho dito, e advertido, vos peço muito que ameis, obfer- veis, e guardeis muito inteiramente a Lei deChriíto, por fer fó ella a verdadeira , que devem guardar to- dos . 43° Compendio Narrativo dos os homens, que fe quizerem falvar ; porque fup- poíto que Jogo no principio do Mundo houve a Lei da Natureza, que guardarão Adão, efeus defcenden- tes, e depois deo Deos a Mcyíés a Lei Efcnta, forão ambas, a refpeito da Lei da Graça, como huns Regi- mentos , por onde os homens fe governaflem , para fe não perderem , atè que vieíTe ao Mundo Jesus Chriíto, verdadeiro Meílias promettido por Deos aos Patriar- cas, profetizado pelos Profetas, e por huns, e outros tão efperado ; o qual depois que chegou, eappareceo no Mundo como verdadeira luz para exterminar das almas as trevas da culpa > huma , e outra Lei encheo, e reformou , e fez a pura , e verdadeira Lei da Graça $ por fer eíle Senhor o ultimo fim, e complemento da Lei, como lhe chamou S.Paulo: Finis legis, Chrif- tus\ (Rom.10.4. ) porque toda a Lei antiga fe referia, e encaminhava ao Filho de Deos, como afeu objecto, efperando finalmente a fua fanta vinda para a perfei- çoar , encher , e mudar na Lei da Graça , como eíle mefmo Senhor difie : Non veni Jolvere legem , fed adimplere. ( Matth. ç. 17.) Eaíiim acabai de entender que todas as mais leis, e feitas , que tem introduzido o demónio no Mundo por feus fequazes, são falfas, adulteras, e erróneas, e fó a Santa Lei da Graça he verdadeira , como tudo fe pode ver das Sagradas Letras, efe tem comprovado pe- los grandes prodigios , que fe virão na confum mação deita Santiífima Lei da Graça, quando feu Legislador Chriílo verdadeiro Filho do Eterno Padre a confum- mou , e rubricou com o feu preciofiílimo Sangue na- quelle geroglifico de toda a fua Sacratiííima Paixão, Cruzbemdita, na qual quiz morrer crucificado para re- mir o género humano, Arvore da vida finalmente em çontrapofição daquella, em que Adão fe contrahio na culpa original , inficionando com ella a todos os feus defcendentes. O q ue A- Da Peregrino da America. 431 O que tudo fez, e obrou eíte amorofíílímo Deos feito homem , para moítrar aos homens o Teu grande amor , com que fe dignou remir ao género humano, que eítava cativo pelopeccado commettido por Adão contra Deos ; e para que os homens em todos feus trabalhos , e afflicções tiveíTem por eíte meio alivio, e defcanço , confolação em fuás penas , ancora firme nas tormentas deita vida , e prendas certas da Bem- aventurança. E para que melhor entendais eíta verdade , ouvi o que fuccedeo na Morte de Chriíto , eítando elle pendente na arvore da Vera-Cruz , depois de ter ex- perimentado tantos tormentos na fua SacratiíEma Paixão. Tremeo a terra , quebrárão-fe as pedras , a- brirão-feasfepulturas, moverão- fe os montes, cubrio- fe de luto o mundo, ecclypfou-fe o Sol, e a Lua, dan- do íinaes , e demonítrações de fentimento da Morte do feu Greador. Eir.es prodígios, e outros muitos, fe virão não fó em Judea , onde padeceo o Salvador , mas também em toda a terra. São Dionyfio Areopagita , famofo Aítrologo, e Mathematico, fendo ainda Gentio, fem ter luz da Fé de Chriíto, eítando em Hieropoli Cida- de do Egypto, e vendo huma coufa tão nova , e pro- digiofa , como foi efcurecer-fe o Sol , e ecclypfar-fe mílagroíamente com a interpofição da Lua contra to- da a ordem natural , admirado deite íucceíTo excla- mou : Ou Deos , Author da natureza , padece , ou a maquina do mundo fe desfaz. Porque hão de faber todos os que iíto nãoíabem que o ecclypfe do Sol não pôde acontecer fenão em conjunção do Sol , e da Lua , por fe por eíta entre a noíTa vifta, eoSoljeo que fuccedeo na Morte de Chriíto , foi em occafião , que eítava a Lua cheia de todo , e diítava do Sol cento e fincoenta grãos , em ■^ ou- 43 Compendio Narrativo outro emisferio inferior à Cidade de Jerufalem, como referem vários Authores. Os Sábios de Athenas vendo eíte admirável pro- dígio , íizerão então hum Altar para o Deos não co- nhecido ; e pregando depois São Paulo naquella Ci- dade , diíTe que o Deos não conhecido por elles , era Chriíto Deos, e Homem verdadeiro ; e com eíta pre- gação converteo a muitas gentes. Também ferafgou o véo do Templo dealtoabai- xo, e cahio apedra fuperior da porta domefmo Tem- plo. E os Anjos , que nelle eftavão, diíTerao eítas pa- lavras, que muitos ouvirão : Vamo-nos deita cafa, e deita morada. Dando a entender àquelles cegos , e defgraçados moradores, que como jà havia outro Tem- plo , que era a Igreja Catholica , naquelle, que tinha fido a fynagoga, não devião refidir mais. Além deites evidentes prodigios , e outros mui- tos , que fe virão por todo o mundo naquelle dia da Morte do Redemptor , o Centurião , Capitão da gen- te de guerra confeffou a Chriíto por verdadeiro Fi- lho de Deos ; Longuinho depois que ferio o lado de Chriito, vendo-fe reítituido à viíta, por ter fido antes cego, fe converteo , e confeíTou a Chriíto por verda- deiro Deos. Finalmente foi Chriíto morto , efepultado, e ao terceiro dia refufcitou com eítranho refplandor , e Mageítade de gloria , e foi viíto por muitas vezes de fua SantiíTima Mãi ; e depois appareceo a feus Difci- pulos, e às mulheres Santas. E tudo iíto, que vos te- nho dito , o affirmárão vários Authores ; e os Santos Euangeliítas o coníirmão como teítemunhas de viíta/ (Matth. 28. Marc. 16. Luc. 24. Joan. 20.) E porque vos não fique a menor duvida deita ver- dade de como Chriíto foi , e he o verdadeiro Salva- dor» e Redemptor do mundo , ouvi o que delle diíTe- rão Do Peregrino da America. 433 rào os Patriarcas , e Profetas muitos feculos antes de fua vinda ao Mundo. Primeiramente coníta da Sagrada EfcritUra aquel- la grande prometo , que Deos fez a Abraháo , e a Ifaac, e a Jacob, na qual ihesprometteo, que feria del- les defcendente o verdadeiro Meífias ehrrfto Jesus: Benedicentur in femine tuo omnes gentes terra; (Gen. c.22. v. 18. c.26. v.4. ec.28. v. 14.) Ifaías dá teílemunho deita verdade em trez luga- res da fua Profecia. No capitulo m 5. v.9. Ecce Deus nofterifte, expeèlavimus eum, Sêfalvabtt nos : Eis- aqui eíte he o noíTo Deos, que eíperamos, e elle nos ha defalyar. No capitulo 3 5 . v. 4 . Deus ipfeveniet* Kl i/alvabít vos: O mefmo Deos em peíToa ha de vir falvar-vos* E no Capitulo 45-. v. 15. não fó chama a Chriíto Salvador , mas juntamente duas vezes Deos verdadeiro : Vere tuefi Deusabjconditus , Deus Jf- raelfalvator. O Santo Job diz : Redemptor meus vivit; & incarne meavidebo Deum me um: (c.19. verf. 25*. eió.) O meu Redemptor vive; e neíte meu* corpo hei de ver a meu Deos. Ofeas , ou Deos. em feu nome : Et falvabo eos in 'Domino Deo fuo : Eu os faivarei no Senhor Deos feu. (cap. 1. v. 7. ) Zacarias : Et falvabit eos Dominus Deuseorum: E falvallos-ha oSenhorDeos feu. (c. 9. v. 16.) Habacuch no capi- tulo 3 . verf. 2. onde fallando de Cnriíto , diz que ha de confumar a obra da Redempçao , padecendo no meio dos annos a morte , para reítituir a vida : Domine opus tuum , m médio annorum vivificai illud. E nomefmo capitulo verf. 18. diz : Exultabo in Deo Jefu meo : Darei faltos de prazer no Senhor Jesus Deos meu Sal- vador. David noPfalmo2 4 . v.f. Tu eft Deus Salvai tor meus : Vós , Senhor , fois Deos meu Salvador Mi- queas no capitulo 7. v. 7. ExpeclaboDeum Salvato- remmeum: Efperarei a Deos meu Salvador, Além de- ou- 434 Compendio Narrativo outros muitos lugares da Sagrada Efcritura, nosquaes fe vê certificada efta verdade , e vo-los náo repito, por vos não moleftar. Finalmente de todo oTeftamento Velho, e No- vo, e ditos dos Santos Padres, a quem venero como colunas da Igreja Catholica , confta que Chriílo he o verdadeiro Redemptor , e Salvador do género huma- no ; e por iíTo fó a fua fanta Lei devem guardar , e obfervar mui inteiramente todos aquelles, que fequi- zerem falvar ; porque além de fer mui verdadeira, são fuaves os feus fantos preceitos , como o mefmo Senhor diz : Jugum meum fuave e/t. ( Matth.i i .30.) Deite grande bem , e luz fenao aproveitarão mui- tos dosmiferavèis, e pertinazes Hebreos, poreítarem cegos , e cheios de culpas , e peccados , quando veio eíte Senhor ao Mundo a remilios, eenfinar-lhes a fua Santa Lei ,e doutrina, fegundo o que affirma oEuan- geliíta S.João: Et lux intenebris Lucet* Sêtembra eam non comfrehenderunt. (c. 1. v. 5-.) Fecharão tão obítinadamente os olhos aquelles homens a efta luz, que nem virão, nem conhecerão os horrendos males, que lhes havião de fucceder por caufa das fuás incre- dulidades, não obílante o ferem tantas vezes adverti- dos pelo mefmo Chriílo Salvador do Mundo , como refere S.Lucas: Si cognovitfes , & tu . . . núnc autcm abfcondita funt ab oculis tuis. (cap.19 v.+i.) Ifto mefmo fuccede ainda hoje a muitos , que tem o nome de Chriítãos; e por eftarem cheios de pecca- dos não podem ver efta verdadeira luz. Sãoeftes mui parecidos com huns Gentios , que nafcem na Coita de Guiné , chamados AíTas , os quaes nada vem , nem enxergão de dia com a luz do Sol , mas fim depois que anoitece. Aflim também os peccadores nada vem , nem enxergão, ainda quando mais claramente fe lhes moítra com toda a evidencia efta verdadeira luz da fan- r*m Do Peregrino da America. 43J fanta doutrina de Chriíto ; e fó depois que lhes anoi- tece , com as trevas da morte , e tão carregados de peccados, conhecem, e vem o erro , em que anda vão neíta vida , tão defalumbrados da verdadeira luz ; e là fe vão aíTar , e queimar para fempre no Inferno , fem efpe rança de verem a verdadeira luz , que he Chriíto Redemptor, e Salvador do mundo. Também vosadvirtoque fenão tomardes os meus confelhos , e avifos , perdereis trez coufas , tempo , faude, efalvação. Tempo, porque me não achareis mais ; faude , porque enfermareis no peccado ; falva- çao , porque vos deixareis ir ao Inferno. E vede que também Deos me ha de perguntar fe vos fiz eítes avi- fos , como jà ha muitos feculos advertio Jeremias re- prehendendo aos homens de feus vicios , por defper- diçarem o tempo, que Deos lhes dava , para o empre- garem no feu fanto fervi ço, e bem de fua falvacão, quando lhes diíTe: Et vocavit adverfum metempus (Thren.i. 15.) f . * E por ultima conclusão de tudo quanto vos tenha' dito, vos peço pela Sagrada Paixão, e Morte de Jesus Chriíto que cuideis muito devagar niíto, que vosavi- fo em quanto de vós me defpeço , por me fer precifo ir aíliílir a outro lugar , prómettendo-vos que fe Deos vos dilatar a vida , tornarei a bufcar-vos , para continuarmos a fegunda parte deite Compendio, quan- do tenhamos a dita de fer approvado o que nelle te- mos efcrito. E fem mais efperar refpoíta de minha prefença defappareceo o tempo. E agora acabo eu de enten- der , continuou o Peregrino , que falta o tempo a quem o bufca , o qual como menfageiro de Deos , e miniftro da fortuna , decretou faltar-me , quando eu mais o defejava. E por eíta razão ferrarei agora as velas do meu difcurfo , e narração , fufpendendo a pen- %s 436 Compendio Narrativo penna deita efcrita , e lançarei ancora no mar da ef- perança , atè que torne a chegar o tempo bem em- pregado , para continuarmos a fegunda parte deite Compendio , que vos promettemos , fe Deos for fer- vido. Sujeitando- me em tudo quanto tenho efcri to nef- te livro com rendida vontade à correcção da Santa Madre Igreja de Roma. E hei por não dito tudo a- quillo , que não for conforme aos Divinos preceitos, e à nolTa Santa Fé Catholica. Só a "Deos fe deve a gloria. msmmmÊ ? . . ■__:» E9 wwp ?H3Uc c